sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A Ministra do Trabalho da Itália, Elsa Fornero, Chorou!

I.
        Elsa Fornero, Ministra do Trabalho da Itália no atual Governo do Prof. Mario Monti, o tecnocrata que substituiu Silvio Berlusconi – empresário do ramo imobiliário e dono de três canais de televisão, considerado o homem mais rico da Itália – as pessoas do lado de lá do Atlântico sabem, que ela - a Dra.Fornero - é uma competente Professora da Universidade de Turim e expert, respeitada internacionalmente, em Política Previdenciária.
        Pois a Dra. Elsa Fornero, na entrevista coletiva que deu aos jornalistas, logo após o anúncio das medidas saneadoras da economia italiana, não pôde reprimir suas emoções, de modo que lágrimas lhe deslizaram pelo rosto.
Um rosto – registremos - de mulher madura, porque ela tem 62 anos!
        O vídeo da cena foi divulgado através do mundo inteiro.
        É conveniente, para informação do leitor, comentar algumas reações da imprensa italiana.
A primeira delas: a tendência de alguns jornalistas de, imediatamente após a entrevista, apresentar aos leitores uma questão do seguinte teor:
 -A Ministra Fornero fez bem ou mal ao chorar em público?
 É grosseria: como se um gesto desses merecesse a desimportânciam de um palpite de partida de futebol!
René Char, poeta francês escreveu, num de seus aforismos poéticos:
- Em meu país, não se questiona um homem comovido.
(...)
Em meu país, se agradece.
(O Nu Perdido e Outros Poemas. Trad. de Augusto Contador Borges. São Paulo, Edirtora Iluminuras, 1995. p.77.
Ousamos acrescentar: em nosso país, também não se questiona uma mulher comovida!
Consideramos semelhante provocação, publicada num diário de grande tiragem na Itália, uma demonstração – ao menos indireta - de degradação social, e até um ato de oblíquo desrespeito os Direitos Humanos de qualquer cidadão.
Acaso não é um direito humano o de poder chorar sob o impacto de um de um fato doloroso?
 Por que, então, tolerar que pessoas petulantes se apresentem para contestar, ou ironizar, a autenticidade de um gesto tão pessoal?
 Quando se chega a tais excessos de baixeza, é porque o nível da temperatura psíquica social já está febril. Compreende-se que os “indignados”, de Madrid ou Moscou, descubram, com algum esforço, embora sob as botas da polícia, esbirros que o nosso mundo pode ter outra face, mais digna de exibir do que a que está exibindo aos nossos olhos.
        Alguém disse:
- Se a Ministra Fornero fosse um homem, talvez a reação da mídia fosse outra! Apreciariam o gesto por sua “dimensão política ou moral”, ou sob os véus de outros estranhos valores, com o fim de preservar a hegemonia da cultura machista.
Dado, porém, que se trata de uma mulher, de uma profissional de alto gabarito, tais varões “pimpões e sorridentes” – como os definiu uma corajosa italiana, de Acqua Toffana  na bolsa – pensam que é obrigação da Doutora Fornero mostrar-se durona...
         
II.
       
Há dois mil anos atrás, Alguém disse:
        - Não  julgueis. Com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos!
        Como pôde, então, o Sr. Maroni, ex-ministro de Berlusconi, declarar que a cena lhe pareceu digna de Hollywood? Cenas cinematográficas (de erotismo explícito), com características de orgias à Sardanapalo, foram as de Arcore, em Milão, e em outros ambientes faustosos, que os assessores do ex-Premier freqüentavam.
        Felicitemos, pois, o cineasta Roberto Benigni, autor de “A Vida é Bela”, por ter saído em defesa da Sra.Ministra:
        - As lágrimas da Doutora Fornero me tocaram o coração!
Para honra da Itália, a maioria das reações do público foram de solidariedade à Ministra.
Até um jornal como o Financial Times, de Londres, sentiu-se na obrigação de comentar:

- Com ministros dessa qualidade,a Itália se erguerá!

Ainda bem!
A essas alturas, nós, latino-americanos, começamos  a desconfiar que o vírus da sandice tomou conta do mundo,  também da memorável Europa, que tantos tesouros nos legou, e tantas riquezas culturais ainda tem a nos oferecer.
É uma lástima que a Eurozona  tenha tido a idéia infeliz de mimetizar o universo econômico e financeiro dos Estados Unidos. Os europeus chegaram a imaginar que o Euro já estava com bíceps de boxeador de ringue nova-iorquino.
Nós, brasileiros, apesar de termos à frente do governo, uma gestora lúcida,  e “não-romântica”,  devemos ter prudência, e evitar caminhar na direção da irresponsabilidade de nossos ex-mestres.
Quando a vida de milhões de pessoas está em jogo, não é hora de ironizar.
 Não bastarão aos europeus, para levá-los a maior seriedade, a constatação cruel de uma estatística: a existência de cinco milhões de desempregados na Espanha, e de dois milhões na itália?
O choro da Ministra Fornero é uma prova de que a insensibilidade ética, numa palavra, aquelas perversidades que antigamente atribuíamos ao Capitalismo Selvagem (terminologia obsoleta!), embora a realidade escondida sob tal terminologia nos acosse de todos os lados, pode não estar com as fichas nas mãos.
Se é verdade que o Socialismo Histórico deu –literalmente – com os burros n’água, pois muitos de seus líderes portaram-se irracionalmente,. existe, para nós, a possibilidade de apostarmos em outras soluções, as utópicas por enquanto, infinitamente mais humanas do que o que nos foi oferecido até hoje por líderes, que ainda não  foram capazes de aprovar a Taxa Tobin, modesto antídoto à peçonha dos Capitais Voláteis, de adoradores internacionais do velho Deus Mamon, Deus do Dinheiro. 
A despeito disso, não precisamos projetar na tela da humanidade a visão de um Apocalipse.
A realidade, nua e crua, é que já estamos parcialmente dentro dele!
 Nosso Apocalipse , porém, é climatizado, e dentro de seus espaços elegantes, como os de qualquer Shopping de grande cidade, garçonetes (às vezes sobre patins) nos servem champanhe, e copas com sorvetes de variados sabores.  

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