quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Mensagem de Fim de Ano


        Ninguém gosta do que acaba.
 Pode-se gostar do que se encontra em extinção quando  se trata da pungência de uma dor, ou do ressentimento de uma relação amorosa que desabou.
         Por ocasião de velórios, pessoas suspiram:
         - Descansou!
         Descansou do quê?
Da vida?
Só descansamos depois de termos trabalhado, de termos feito um esforço mental ou físico. No caso de um falecimento, o indivíduo descansa de ter sofrido.
Às vezes, pergunto-me se os circunstantes estão se referindo ao defunto, ou  a eles próprios – que (finalmente) estão descansando! Descansando de terem sofrido com o morto!
O sofrimento dos vivos continua, visto que a memória não deixa de acompanhar-nos, semelhante a um cãozinho fiel, e por vezes ela mesma é acompanhada – infelizmente – por um complexo de culpa infundado: o sentimento de não sabermos jamais se fizemos tudo o que podia ser feito para aliviar o sofrimento de entes queridos, que se despedem de nós.
Para sempre?.
         Talvez algum leitor tenha começado a ler esta mensagem com certa irritação ou desalento.
-Diabos: por que enviar uma mensagem aos amigos para intensificar a dor de um ano que finda,  de um ano que se adiciona aos anos que já vivemos, portanto, ao tempo cruel que, no dizer de Charles Baudelaire, “devora a vida”?
Minha mensagem é a de um escritor cristão.
         Não desejo que ninguém leia esta mensagem a partir de uma visão negativista.
Devido a isso, sublinharei um pouco mais o pessimismo do mundo atual, o qual teima em ser feliz na contramão do Evangelho.
Leiamos o seguinte trecho de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que Marc Ferro, colocou no Prefácio de um livro póstumo do conhecido historiador francês, Lucien Febvre: Gênese de uma Civilização: a Europa.(Tradução de Ilka Stern Cohen. Bauru, EDUSC, 2004):

         Europeus que não são mais ingleses, nem franceses, nem espanhóis (...) que têm todos o mesmo gosto, as mesmas paixões (...). Que lhes importa a que senhor obedecem, de qual Estado eles seguem as leis? Contanto que eles encontrem dinheiro para roubar e mulheres para corromper, por toda a parte, estão em sua terra”.
        (Ob. citada. p. 15).
         Abramos os jornais e as revistas, ou – já que nos é oferecido, de mão beijada, esse milagre tecnológico que é a Internet, acessemos um site qualquer de jornal internacional.
As manchetes o confirmam.
         Que pessimismo?
         O de um  mundo descristianizado.
         Dias atrás, uma amiga disse-me de repente:
         - Sabe que agora virou moda desbatizar-se?
         Perante minha tristeza – mais do que meu espanto, ela acrescentou:
         - Sim, desbatizar-se é desejar não ser o que se foi...
         Respondi-lhe:
         - Esse é o maior milagre da desbatização: alguém poder apostatar livremente!
         Citei-lhe, então, o grande teólogo católico do século XX,  Romano Guardini, que disse, certa vez: um indivíduo humano que não sentiu, alguma vez  na vida, a tríplice ferroada do Suicídio, da possível Loucura, e da Apostasia, não experimentou a vida.
         Viver é perigoso – repeti João Guimarães Rosa, com a gravidade típica dos mineiros.
Mineiro sempre engana. Engana quem quer ser enganado, É hora de deixarmos às moscas os ditos em relação aos mineiros. Todo mineiro tem uma vocação metafísica, mesmo que finja não saber que a tem.
         Claro está, essa é opinião de um gaúcho, mas o gaúcho, o que é, senão uma espécie de anverso  da moeda mineira? A efígie muda, mas o ouro ou a prata que suportam as efígies, são os mesmos.
Também o gaúcho é um metafísico que não só se ignora, faz questão de negar sua condição de metafísico. O mineiro, mais esperto que o gaúcho, não diz nada.
         Guimarães Rosa tinha razão.
Na hora atual, as palavras do grande gênio despem-se do fraque da literatura, e mostram sua nudez existencial.
         Afirmo-lhes que Guimarães Rosa era um crente à sua maneira. Um crente, diria honoris causa. E também: amoris causa.
Um crente que comia pelas beiradas.
         Foi o único leitor que teve a coragem, e a cortesia de me dizer algo sobre um poema, de meu primeiro livro de poesia A Surpresa de Ser . O único, em cujo coração o meu poeminha caiu como uma pedra, e ficou fazendo círculos.
Estávamos no Palácio do Itamaraty que, naquele tempo, ficava no Rio de Janeiro, onde o fui encontrar.
Rosa pediu aos funcionários que me servissem um cafezinho, e pôs-se a ler alguns dos poemas do livro, parando finalmente no seguinte poema, no qual fixou sua atenção durante alguns minutos.
Não minto: durante alguns minutos!
Eu, ali, sorvendo meu cafezinho milimetricamente, para não me sentir constrangido.
Transcrevo o poeminha:

         A Difusão

                   De Deus não quero
                   a infinitude,
                   que me destrói
                   (me preservando).

                   De Deus não quero
                   a onipotência,
                   que é muito grande
                   para este Mundo.

                  
De Deus só quero
                   o seu excesso
                   que desabrocha
                   em criatura.
                  
         Quando o escritor levantou os olhos do livro, e me fitou sorrindo, como se fosse um cúmplice em minha poesia, respirei aliviado.

Guimarães Rosa disse-me:
        
- Não é Plotino seu inspirador?

Eu havia lido trechos das Enéadas de Plotino, mas não podia jurar que o havia entendido. Queria dizer a Rosa que eu não era um leitor sério de Plotino, que não o tinha ainda entendido.
Fiquei sem jeito diante de sua imponência literária.
Como iria referir-lhe algo sobre um poema que eu mesmo, naquela época, não entendia?
         Senhores leitores: o poeta não tem obrigação de entender seus poemas. O poeta tem obrigação de compor- seus poemas.
O poeta tem a obrigação incontornável de sofrer a ação – como se dizia nas aulas de gramática do meu tempo, quando Eduardo Carlos Pereira falava sobre as formas passivas dos verbos. Eu sofrera a ação de uma “inspiração”, ou de qualquer outro ludismo neuronal, desses que levam o sujeito a ver coisas pela primeira vez, e também pela única e última vez.
         Mais tarde, lendo a Divina Comédia de Dante, encontrei nela uns versos que me fizeram corar,  corar de vergonha.
Teria eu roubado alguma coisa a Dante Alighieri?
 Esbarrei nuns versos do Canto XXIX do Paraíso, a terceira parte da Divina Comédia:

         -in sua eternità, di tempo fuore,
         fuor d’ogni altro comprender, come i piacque,
         s’aperse in nuovi amor l’Eterno Amore.

         Cristiano Martins traduziu para o português os versos citados:

         Na sua eternidade, preexistente
         Ao tempo e ao espaço, o eterno Amor radiante
         Novos amores engendrou à frente.

         Não gosto da sua tradução!
Atrevo-me a apresentar-lhes minha versão pessoal, capenga sem dúvida, mais um mais fiel ao Poeta:

         Na sua eternidade, fora do tempo,
fora de toda e qualquer compreensão,
abriu-se em novos amores o Eterno Amor.

         Creio que a fonte primeira de meu poema não era a poesia de Dante, mas a de meus estudos de Filosofia e Teologia Tomista, onde aprendera o que Dante também apreendera: aquilo que o Pseudo-Dionísio ensinava: “que a Criação era uma participação finita da Essência Infinita de Deus”. Mais tarde, vim a encontrar, no grande teólogo alemão do século XIX, Mathias Joseph Scheeben, a seguinte frase:
         - Dionísio (isto é, o Pseudo-Dionísio Areopagita: século V d.C.) a seguinte maravilhosa frase: “O amor divbin o não quis ficar sem fruto”. Scheeben remete-nos, nessa citação, ao livro do Pseudo-Dionísio:  Sobre os Nomes Divinos, capítulo IV.
(Cf. Maurice de Gandillac: Traduction, Préface et Notes: Oeuvres Complètes du Pseudo-Denys l’Aréopagite. Paris, Aubier Éditons Montaigne, 1943. p.94 ss.).
         Que eu tenha pensado no desabrochar de uma flor...bem, tudo é facultado aos poetas, inclusive as metáforas imprevistas.
 Reconheço que falar em “excesso” de Deus  pode sugerir Panteísmo.]
Mas isso é coisa cerebral, e eu fui sempre, antes de tudo, um poeta.
Deixei-me sempre levar pela “louca varrida”, que se chama Imaginação, e também se chama Inspiração. Nela acredito apesar do  que se tem dito contra ela.
         Guimarães tratou-me fraternalmente. Acabou oferecendo-me  um de seus livros.
         Nunca mais o vi.
Isso foi em 1967.
Ele morreu em 1967.
        
Que tem a ver com isso  o Fim de Ano?
Não se esqueçam, queridos amigos, que este professor que lhes narra tais fatos, é, em primeiro lugar, um meninozinho que se deixou encantar pela Poesia, e que continua encantado com ela.
E até:  encantado nela!
                  

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