quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Lutero: é preciso conhecê-lo, para poder amá-lo.


I.
        A Feira do Livro de Porto Alegre facilita  o encontro não-marcado com obras, que estão  à disposição dos leitores, mas que eles nunca as lerão, dado que a oferta supera enormemente a procura.
         Sente-se perdido numa livraria atual.
Depara-se com dezenas e dezenas de prateleiras, inclusive com expositores circulares, como os de super-mercados, hesitando – qual criança numa confeitaria – sobre as guloseimas a escolher.
        A maioria dos leitores escolhe a esmo, seguindo, muitas vezes,  o gosto de um funcionário da livraria que destacou este ou aquele título, que lhe pareceu mais vendável.
Outros escolhem determinada publicação, conduzidos pela mão distraída da fantasia e do arbítrio.
 Outros, enfim,  nem se dão ao luxo de escolher: apostam numa novidade, induzidos pelo título, pela faixa vermelha que os recomenda, ou...se lhes míngua imaginação,  vão atrás do aroma do último cigarro que tragaram.
        É injusto, porém, censurar tais leitores.
        O problema, a rigor, é de outra natureza: o desaparecimento de parâmetros.
As colunas críticas dos jornais sumiram. Se nem sempre eram objetivas (porque, nesse assunto de leituras, não existe fita métrica), tinham o mérito de relembrar determinados autores.
Não temos mais críticos e resenhadores?
Temos somente palpiteiros, que favorecem amigos, ou escreventes, interessados em “alavancarem” a fama de seus colegas, quando não são subsidiados por Editoras e Distribuidoras.

II.
        Diante de tal situação, que fará o leitor comum?
Sejamos realistas: quando não se tem cachorro, se caça com gato.
Por gato, pela felinidade de gato, entendemos a inteligência do leitor. Fatigado de andar às tontas, ele resolve sair à procura de temas e autores que verdadeiramente lhe interessam.
O leitor assume, nesse caso, a responsabilidade de ser avalista de si mesmo.
Para que isso suceda, terá naturalmente de desalojar a preguiça, de esnobar colunas literárias, e arriscar-se a ler autores que o grande público desconhece, preferindo um “menos vendido” a um “mais-vendido”.
Corre-se um risco: o de se privilegiar o exótico, o bizarro, o escrachado.
Para um livro como O Apanhador no Campo de Centeio, sobram dezenas de outros romances que só se destacam por inovações gratuitas, e por experimentalismos improdutivos.
As observações acima, prolixas sem dúvida, destinam-se a realçar um mimo que a Feira do Livro de 2011 me  propiciou.
Ao vagar de barraca em barroca, deparei com uma publicação da Editora Concórdia:

- Isto é o Meu Corpo. A Luta de Lutero em Defesa da Presença Real de Cristo no Sacramento do Altar.
        Autor: Hermann Sasse. Tradutor: Mario L. Rehfeldt.
        O livro foi publicado, pela primeira em 1959, nos Estados Unidos. Teve sua primeira edição em português em 1970. A segunda edição, revista e atualizada, é de 2003, patrocinada pela Lutheran Heritage Foundation.
        Antes de comentar o livro,  informao o leitor de que nasci numa família tradicional católica.
 Na época de minha meninice, em Santa Maria, os católicos mostravam-se desconfiados em relaçãoaos não-católicos, por exemplo, os luteranos (os poucos que havia no bairro em que nasci).
Quanto aos judeus: eram considerados quase espécimes raros do “zoológico racional”. Deviam ser respeitados como profissionais, em especial seus médicos, dentistas, engenheiros, e como comerciantes, porém, na sua condição de pessoas concretas, com carteira de identidade, era melhor vê-los à distância.
Islâmicos? não conheci nenhum até chegar à idade adulta.
No ambiente ítalo-brasileiro de minha família, Maomé (que, mais tarde, em meus estudos sobre Arte Islâmica, seria para mim ponto de referência) era um nome que soava agradável, mas sem nenhum significado especial.
Nenhum?
Por incrível que pareça, ouvi o nome Maomé, pela primeira vez numa expressão da gíria que me deixou intrigado:

- Esse negócio não vai dar certo! É como o caso de Maomé com o toucinho...

Eu adorava toucinho, é claro na feijoada! Não entendi a graçola dissaborida, nem a antipatia (se era verdadeira) de Maomé pelo toucinho.
Só mais tarde vim a saber que esse dito  fazia alusão a um tabu,  comum a islâmicos e judeus: a exclusão da carne suína na alimentação.
Por falar em ditos – ou dichotes - guardei outro:

- Os pedreiros fizeram o muro como Deus fez a mandioca...
Detestei essa expressão.
Primeiramente porque sempre achei que o nome de Deus deve ser respeitado..
Em segundo lugar, porque aprecio mandioca - ou aipim (como lhe chamam os cultos) - e sempre fui um comedor de mandioca, daquela que quando cozida se derrete, ou seja, desse aipim (quero também ser culto!) que, ao estar no ponto, adquire uma maciez dourada, capaz de seduzir um antropófago.

III.
Reitero: fui educado numa antipatia explícita aos protestantes, de todas as denominações.
Tal educação não me afetou tanto como o leitor poderia pensar.
Eu era um menino mais interessado nas romãs dos çuteranos, nossos vizinhos Falkenberg, que tinham um curtume no bairro. Não me imnteressavam divergências doutrinárias.
Um de meus primeiros arroubos românticos ocorreu quando um dia vi, diante de mim, em carne e osso, uma deslumbrante filha do casal Falkenberg.
Era uma loura, coisa relativamente rara naqueles tempos, em que, para se chegar à cor das espigas, não existiam  tinturas, ao menos aos preços acessíveis de hoje.  
Foi essa teuto-brasileira e, além dela, a incompreensível generosidade de seus pais, que deram início ao meu Ecumenismo!
Sem que meus pais fossem avisados, fui, certa tarde de verão, com alguns companheiros de traquinagens perguntar aos luteranos se podíamos apanhar algumas romãs que lhes pertenciam. As romãs eram tão opulentas que curvavam os ramos das romãzeiras, em frente da casa deles.
Os luteranos responderam que sim, que podíamos apanhar as romãs que quiséssemos.
Foi assim que saboreei, pela primeira vez, essa fruta maravilhosa, da qual, em 1970, por ocasião de uma viagem a Israel, colhi um exemplar excepcional na cidadezinha de Caná da Galiléia, em Israel, onde se deu o Primeiro Milagre de Jesus, o da tranformação da água em vinho.  
A romã israelense era tão sensacional, que acabei não a comendo. Durante algum tempo guardei-a comigo, apreciando-lhe a forma de minúsculo abacaxi... sem o inconveniente de suas rugosidades. Ela acabou convertendo-se para mim num objeto estético, a que, talvez, eu haja associado subliminalmente a memória de Jesus.
 IV.
Ecumenismo?
 O vocábulo, como a minha saudosa romã, é cada vez mais usado,  embora a atitude ecumênica dos católicos não seja tão freqüente como se imagina.  
Nenhum Concílio, nem o Vaticano II, pôde realizar tão necessária transformação de mentalidade. A nenhum Papa, a nenhum conjunto de Cardeais e Bispos, foi concedido o privilégio de transformar a água em vinho.
Cada um de nós terá de fazê-lo, por sua conta, no sigilo de sua consciência.
        O ecumenismo é uma descoberta de quem lê a Bíblia e, sobretudo, de quem encontra tempo para orar.

Jesus dizia:

É preciso orar sempre!
(Mt 26,41).
        Orar significa encerrar-se no próprio quarto, ou entrar numa igreja silenciosa, e dirigir-se ao Pai que vê tudo que se passa em segredo.
Não me excluo do número dos cristãos que têm as tais fúteis prioridades. Admito que é dificílimo orar numa sociedade audivisual, que nos satura os olhos, os ouvidos, e o coração, e não permite que nossa mente se fixe num tema particular.
O mundo de hoje é quase o voyeurismo em estado puro!
Falemos, enfim, sobre Lutero.
No passado, esse nome me causava arrepios!
Lutero era, para mim, o herege por excelência, o demolidor da Igreja Católica, o indivíduo que enfrentara o Papa.
O Papa, para um menino de 1940, constituía uma espécie de Faraó da Igreja.
Não esqueçam os leitores que, naquela época, os Papas se faziam fotografar com uma vistosa Tiara na cabeça.
 A Tiara, coroa simbólica, de tríplice ornamentação, evocava-me um soberano egípcio.
Só mais tarde vim a aperceber-me de que os Papas eram seres humanos, alguns decididamente humildes e santos.
Lembro-me do dia em que um sacerdote me referiu que o Papa Pio XII tinha um confessor jesuíta, e que esse confessor - o futuro Cardeal Bea - era um dos maiores biblistas da Renovação Católica.
 Fiquei comovido ao descobrir que um Papa se ajoelhava diante de um humilde sacerdote, e lhe confessava os pecados.
Comecei a conhecer Lutero na Europa, no tempo em que estudava na Universidade de Fribourg, na Suíça (1958-1963).
Certo dia, um colega alemão perguntou-me se eu não desejava visitar com ele o Castelo de Coburg, na Alemanha. Fora ali que Lutero traduzira a Bíblia para o alemão - tradução que segundo meu amigo, fundara o idioma alemão.
Aceitei o convite do generoso colega, fui com ele até ao Castelo de Coburg, onde é conservado o modesto escritório de Lutero, que na ocasião vivia como hóspede de um Príncipe.
Em nenhum momento da visita, o amigo alemão se referira ao famoso tinteiro, que Lutero teria jogado contra o Diabo, na ocasião em que o Maldito o importunara. Como eu ouvira falar do incidente, isto é, como me tinham contado tal estória, cometi a descortesia de perguntar-lhe se ainda se viam, nas paredes do escritório, vestígios da tinta arremessada por Lutero contra o Diabo...
Vim a descobrir, com o tempo, que todas as mentiras têm pernas curtas, e a mentira contra Lutero, nem pernas tinha.
Durante minha estadia na Europa, que se estendeu até eu completar meu Doutoramento na Universidade de Fribourg, na Suíça, pude descobrir um pouco mais o grande cristão que fora Lutero.
Grande e trágico cristão!
       Ou melhor: grande e dramático cristão!
        Com o tempo, passei a interessar-me por seus escritos.
Fiquei impressionado com vários textos de sua autoria.
Li, por exemplo, com profundo respeito, seus dois Catecismos, o Maior e o Menor.
Depois, um comentário de Lutero sobre o Magnificat da Virgem Maria.
Nunca ninguém me tinha dito que Lutero também venerava a Mãe de Deus.
        O texto de Lutero sobre o Magnificat acabou deitando por terra as últimas barreiras que existiam dentro de mim contra nossos irmãos separados.
Nesse entretempo, a Igreja Católica fizera uma confissão pública de arrependimento por seus excessos polêmicos em relação aos Protestantes.
 Vários Papas reconheceram a grandeza do cristão autêntico chamado Lutero.
Vim a descobrir que ambas as Igrejas, a Católica e a Luterana concordam no essencial, isto é,  na crença na Trindade Santíssima, na Encarnação do Verbo, na instituição dos Sacramentos, na necessidade de Redenção pelo Sangue de Jesus, na gloriosa Ressurreição de Jesus, na Ressurreição dos Mortos.
Não será isso o suficiente para transcendermos nossos confrontos históricos, varrendo para debaixo do tapete, ou melhor, varrendo definitivamente para onde deve ser varrido, o lixo de discussões intermináveis, de picuinhas que nos imobilizam no meio do caminho, onde - conforme o poema de Drummmond - continua a existir uma pedra?

V.
Um belo dia, achei-me amando secretamente esse Irmão Separado, querendo-lhe bem, e até sendo capaz de recorrer à sua intercessão - como recorro à intercessão de meus patronos, os Apóstolos antes de todos,  depois Agostinho de Hipona, Francisco de Assis, Anselmo de Canterbury, Bernardo de Claraval, Tomás de Aquino – (incompreendido pelo Reformador).
       
Não é, porém, sobre tais assuntos que desejo discorrer!
Desejo expressar minha gratidão a Lutero por ter estimulado minha fé na Presença de Cristo na Eucaristia.
 No coração de nossa contemporaneidade, neste  orgulho obeso em que estamos quase todos imersos, o livro de Hermann Sasse me trouxe um testemunho radioso de fé.
        Não me deterei, em detalhes, sobre seu conteúdo.
Recomendo aos amigos católicos que leiam o livro de Hermann Sasse, ,especialmente as páginas que o autor consagra à Grande Controvérsia que opôs - entre 1527 e 1528 - Lutero a  Zwínglio, Melanchton e Ecolampádio.
A transcrição do Colóquio de Marburg (1529), convocado por Filipe de Hesse, com  o objetivo de reconciliar Lutero com Zwinglio , e seus partidários,  é impressionante.
        Como não comover-se perante a atitude,serena e firme, de Lutero em relação ao Mistério da Eucaristia?
        Lutero não se deixou abalar por aquilo que ele qualificava, com um toque de mordaz humor, as dimensões matemáticas do Mistério de Cristo no Pão e no Vinho Consagrados.
        O grande Mestre de Wittenberg deixou-nos lições esplêndidas sobre a veneração que devemos às palavras de Jesus.
Em momento algum o Reformador pactuou no tocante à sua fé cristã.
Transcrevo quatro excertos desse Colóquio:
       
- Não negamos o comer espiritual; pelo contrário. nós ensinamos e cremos que é necessário. Mas disto não se conclui que o comer corporal seja inútil ou desnecessário. Pois não é tarefa nossa julgar se é útil ou não. Temos o mandamento: “Tomai, comei, isto é o meu corpo. Cristo entrega-se a nós de muitas maneiras: primeiro na pregação da Palavra; em segundo lugar, no Batismo; em terceiro lugar, na consolação fraterna; em quarto lugar, no Sacramento, todas as vezes que comemos o corpo de Cristo, porque Ele mesmo nos ordena fazê-lo
( p. 180).

        Adiante:

        - Se dizeis que Deus não nos propõe qualquer coisa incompreensível, não o admito. Tomemos, por exemplo, a virgindade de Maria, a remissão dos pecados e questões semelhantes. Desse mesmo modo: “Isto é o meu corpo” também é incompreensível.
        (p. 182).

        Finalmente:

        - Se considerais a carne como inútil, quanto a mim, podeis fazê-lo, mas nós confiamos na Palavra de Deus. A palavra diz, em primeiro lugar, que Cristo tem um corpo – o que creio. Além disso, que este mesmo corpo subiu ao céu e está sentado à direita do Pai – o que também creio. A Palavra diz igualmente que este mesmo corpo está na Ceia do Senhor e nos é entregue para o comermos – isto também creio. Pois meu Senhor Jesus Cristo pode fazê-lo facilmente quando o deseja, e em suas palavras testifica que o fará. Nessas palavras confiarei imperturbavelmente até que Ele próprio, mediante outra palavra, diga algo diferente. (...)
        (Ibid. p. 190).
       
        - Não conheço outro Deus além Daquele que se fez carne, nem quero ter outro. E não há outro Deus que nos possa salvar, além do Deus Encarnado. Portanto, não permitiremos que sua humanidade seja subestimada ou omitida.
        (Ibid. p. 191).
        É preciso ler tudo o que se encontra entre as páginas 145-221.
VI.
Tenho certeza de que, concluída a leitura do livro de Hermann Sasse sobre Lutero, um católico
sentirá por ele uma espécie de comovida fraternidade. Terá vontade de ultrapassar todos os empecilhos para ir ao encontro de nossos irmãos separados.
Um tal católico, informado, criterioso, terá vontade de respeita-los e amá-los.
        Pergunto: existirá algo de melhor no mundo do que a Caridade, o verdadeiro Amor que Cristo nos ensinou, tanto com seu exemplo, como com seu Evangelho?
         

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