sábado, 3 de dezembro de 2011

Homenagem à Minha Mulher, Cleuza, no Seu Aniversário aos 60 Anos (04-12-2011).

I.
É difícil falar de uma pessoa, tanto bem como mal.
As pessoas não são objetos, que podem ser medidos, pesados, circunscritos, analisados.
Os objetos, propriamente ditos, não têm uma dimensão, que poderíamos designar como “intimidade”, isto é, não possuem “substrato psíquico”. Entregam-se, por assim dizer, em sua nudez horizontal, a quem deles se aproxima.
Referimo-nos a tudo que é objeto, inclusive o cérebro humano, por se tratar de uma realidade não-espiritual.
A definição comum de matéria dos dicionários é a seguinte:
- Qualquer substância sólida, líquida ou gasosa que ocupa lugar no espaço.
Para os leitores mais exigentes, lembro um trecho de uma das Palestras Gifford, dadas em Aberdeen, na Escócia, em 1985, por um cientista de fama internacional, Freeman Dyson:

- Einstein esperava encontrar um universo dotado do que ele chamava de “realidade objetiva”, um universo de picos montanhosos que ele poderia compreender por meio de um conjunto infinito de equações. A natureza, como enfim se descobriu, não vive nos cumes elevados, mas nos vales lá embaixo.
 (Infinito em Todas as Direções.Trad. de Fernando S. Valente. São Paulo, Editora Best Seller, 1988. p. 16).

O mesmo cientista explica:

- Grosso modo, matéria é a maneira como as partículas se portam quando um grande número delas se aglomera.
Mais adiante, o respeitado cientista surpreende-nos:

- Numa certa maneira de dizer, nós estamos colocados entre a imprevisibilidade da matéria e a imprevisibilidade de Deus.

Podemos admitir a afirmação do cientista, contanto que afirmemos que aquilo que ele chama de “natureza ativa da matéria” continua sendo matéria, e nada possui de espiritual.
A rigor, podem ser devassados até ao coração da nanologia.

Não admira que o mesmo cientista nos diga:

- (...) falando como um físico, eu digo que o materialismo científico e o transcendentalismo religioso não são nem incompatíveis nem mutuamente excludentes. Descobrimos que a matéria é uma coisa estranha. Estranha o bastante para não limitar a liberdade de Deus para fazer o que bem quiser.
 (Ob. cit. p. 16-17).

Não vou, evidentemente, fazer muitos comentários ao cientista, uma vez que o folclore já descobriu, talvez antes de surgir o primeiro cientista no mundo, que cada macaco devese contentar com seu galho.
Por mais que um objeto material seja complexo, sua complexidade não foge ao domínio do empirismo. Se não chegamos à “explicação” máxima da complexidade da matéria, se não chegamos ao Nada, é porque nós mesmos viemos do Nada, e esse Nada (que subsiste parcialmente em nós, que de certo modo, nos aromatizando)) não nos permite capturá-lo.
O Nada é, por definição, inexistência de Ser.
É uma noção que a mente humana talvez nem seja capaz de cogita-la, em termos estritos. É uma noção como a da sombra, que só é entendida depois que se conheceu a luz.
Os contemporâneos têm tentado - com uma obstinação que seria melhor usada na luta contra as desigualdades sociais e na descoberta de medicamentos realmente eficazes contra o câncer – contestar a existência do Espírito, não só do Espírito de Deus, mas também de qualquer espírito criado por Deus, de modo particular, a existência da alma humana.
Alguns cientistas fizeram tudo, isto é, chegaram a neurotizar-se na vã tentativa de reduzir a alma a uma coisa, a um produto neuronal, a algo, enfim, sobre o qual o homem pudesse enfim colocar sua mão.
Até recentemente, os cirurgiões (agnósticos e ateus), em suas aulas de anatomia, achavam-se com o direito de einterferir nas convicções de seus acadêmicos, e tentavam prender a alma, como um pássaro, na gaiola da anatomia, forçando-a, por assim dizer, a capitular perante seus bisturis.
Os esforços do Agnosticismo e do Ateísmo fracassaram - e continuarão a fracassar - porque,  de acordo com  o Salmo 2: Deus se ri da pretensão humana.
Já no século XIX, Claude Bernard (1813-1878), criador da fisiologia moderna e iniciador da medicina experimental, embora fosse “um determinista”, teve a honestidade de revelar, numa carta à Sra. Raffalovitch, um de seus insights:

- As manifestações de nossa alma nunca serão reduzidas às propriedades brutas dos aparelhos nervosos, assim como não se compreenderão suaves melodias apenas pelas propriedades da madeira e das cordas do violino, necessárias para as exprimir.
(Cit. por Jean Bernard. Então e a Alma? Lisboa, Publicações Europa-América, 1987.p.49-49).
Por sua vez, o Prêmio Nobel de Física, Max Planck (1858-1947), autor da Teoria Quântica (1908), percebeu que o homem não pode decifrar “o último mistério da Natureza” simplesmente porque “ele próprio faz parte do segredo do mistério que pretende resolver”.
 (Cit. por Jean Hamburguer: Esperanças e Sabedoria da Medicina. Trad. de Roberto Leal Ferreira. São Paulo, Editora da UNESP, 1998. p. 116. Cf. também:John Simmons: Os 100 Maiores Cientistas da História. Rio de Janeiro,  Difel, 2002. p.165-168).
O que Max Planck descobriu, poderia ser expresso mediante duas questões formuladas com certo humor à Chesterton:
a) poderia um fonema de um dos Cantos da Divina Comédia explicar essa obra-prima?
b) poderia um pigmento de uma tela de Rembrandt, explicar o que é a Pintura, em geral, ou a produção espec ífica do gênio que se chamou do Rembrandt?


II.


Digo isso para afirmar que minha mulher, companheira de vida desde 1974 é, antes de tudo, uma pessoa, isto é, um mistério, como qualquer mulher, como qualquer homem ou mulher o é.
Não digo que minha mulher seja um enigma.
Enigmas são realidades perante as quais os homens se quedam, provisoriamente, perplexos.
Ou seja, um enigma é um dito ou um objeto que não se consegue compreender imediatamente, ou que é difícil de se entender ou interpretar à primeira vista.
Os enigmas podem ser solucionados.
É evidente que os homens são algo muito maior do que isso, e que eles mereceram do autor de um Salmo o seguintes fantástico elogio:

- Quando vejo o céu, obra de teus dedos,
a lua e as estrelas que fixaste,
que é um mortal, para dele te lembrares,
e um filho de Adão,para que venhas visitá-lo?
Fizeste-o pouco menos do que um deus,
coroando-o de glória e beleza,
e, a fim de domine as obras de tuas mãos,
tudo colocaste sob seus pés.
(Salmo 8, 4-5).

Os homens são criações singulares de Deus.
É exemplar – e in imitável - a expressão de um teólogo: “Cada ser humano é uma palavra de Deus que não se repete”.
 Observemos os corpos humanos: eles são mais ou menos afins, uns aos outros, tanto assim que nos convidam à doação de órgãos em vida, ou após nossa morte.
Cada corpo, em termos genéricos, é um clone possível da corporalidade humana.

As almas é que não podem ser clonadas.

É por isso que Manuel Bandeira escreveu, em seu poema, “Arte de Amar”, estes versos memoráveis:

- Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Apesar de serem belíssimos os versos do Mestre dos Mestres de nossa Poesia, eles são, como tudo o que o homem consegue captar, uma meia-verdade.
Cada moeda é uma moeda. Todas, porém, são bifaciais, têm verso e reverso. A face de uma moeda não possui as mesmas características da outra face.
A outra face - que Bandeira não viu - está na luminosa afirmação de Cristo:

- Nunca leram nas Escrituras que, no princípio, Deus os criou homem e mulher? Por essa razão, o homem deixará o pai e a mãe para se unir à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. (Mt 19,5-6).

O homem e a mulher tornam-se uma só carne, não só pela fusão corporal, mas principalmente pela fusão psíquica, isto é, pela entrega recíproca dos corpos e, até onde é possível, pela entrega voluntária e sigilosa das almas dos parceiros.
Em hipótese alguma, não podemos idolatrar as mulheres!
Elas são o que são: companheiras do homem, ou como as qualifica o Livro do Gênesis, “auxiliares que lhe correspondem” (2,20).
As almas das mulheres - como as almas dos homens - têm direito a uma extraterritorialidade, que pertence unicamente a elas, e a cujo acesso elas, apenas, nos podem facultar.
Por que, então, na sociedade contemporânea, existe uma a tendência a torná-las ídolos? A torna-las ícones?
Efetivada a profanação, os homens exigem, com uma grosseria que nos deixa estupefactos, que elas - as mulheres - lhes dêem, de mão beijada, o que elas nunca lhes poderão dar: a saciedade do Infinito.

As mulheres são o que são: maravilhosas, inteligentes, inventivas, dinâmicas, e principalmente desejosas de ser amadas, além de serem colaboradoras indispensáveis. São donas de mini-oceanos de ternura (que deveríamos explorar com mais interesse e deleite).
Muitos maridos, particularmente muitos amantes, gabam-lhes os sortilégios e atrativos corporais, mapeiam-lhes as zonas erógenas, enaltecem-lhes os predicados que lhes suscitam desejo e posse, com o fim napoleônico de, à presença delas, exibir sua masculina potência nuclear erótica.


III.
Escrevo este texto para homenagear uma mulher, em especial, minha esposa, que chega lúcida, e relativamente saudável, aos 60 anos.
Prestando-lhe tal homenagem, faço questãop de estender esta homenagem a todas as mulheres, companheiras fiéis de seus maridos.
Já que sou poeta (Alienor de Aquitânia dizia: “Eu, Rainha da Inglaterra, pela cólera de Deus”), ouso apropriar-me de suas palavras, e também me apresento, “pela cólera de Deus” na condição de poeta, para fazer uma declaração singela, sem ênfase:

- Se alguma coisa ficar (de minha produção literária em prosa e verso),se alguma fragmento (repito) for digno de ser adicionado ao Patrimônio da Cultura Gaúcha,, afirmo que metade de tudo isso deve ser atribuído à minha mulher - e, depois dela, a meus filho,familiares, e amigos.  
Não que a Cleuza tenha intervindo no que escrevi, e muito menos no que escrevo, embora me tenha dado muitas sugestões, principalmente no sentido de não publicar o que eu escrevia, vaidosamente, pensando que era bom.
Sua autoria é de outra natureza, é mais real e profunda.
É a autoria do companheirismo humilde, carinhoso, paciente em relação a reprováveis excessos de meu temperamento – e marcado permanentemente pela compreensão em relação a meus defeitos, lacunas, e manias.
Se ela tivesse sido vaidosa, se tivesse querido brilhar na Sociedade Frívola, se tivesse anteposto - à dedicação aos filhos - as exibições no Mundo Fashion, o universo do “eu sou mais eu” frivolidade, eu teria, como Ícaro, derretido minhas asas poéticas, e caído nalgum açude desse Estado a quem amo!
Reconheço que os fios, que compõem a tapeçaria de uma existência, e forçosamente de uma obra literária ou artística, são tramados por muitas mãos: pelas mãos da família, dos parentes, dos amigos...e até dos inimigos!
No meu caso: fui favorecido por meus longos anos de docência na graduação e pós-graduação, na UFSM e na UFRGS, e em outras Universidades.
Seria preciso insistir no que devo a meus (a estas alturas, milhares_de_ex-alunos inúmeras influências positivas na minha criação literária?
Não me estenderei sobre os Mestres, desde os Mestres do primeiro colégio interiorano que freqüentei, em Vale Vêneto, o “Rainha dos Apóstolos”, dirigido pelos Padres Palotinos, dos quais recordo duas figuras importantes, o P. Artur Soldera e o P. Pedro Luiz Bottari,  até aos meus apreciadíssimos doutores da Universidade de Fribourg, na Suíça, e mais tarde - graças às Bolsas-de-Estudo da Fundação Calouste Gulbenkian, e da Capes - aos meus orientadores de estudos em outros centros do saber, no Exterior, em Lisboa e Sevilha de modo especial.
Não é lugar, aqui, para comentar as decisivas influências de Erico Veríssimo, Mario Quintana, Cecília Meireles, Clarice Lispector, e alguns amigos portugueses como Pedro Tamen, Antônio Ramos Rosa, Luís Amaro, David Mourão-Ferreira. Incluo nessa lista, também, meus ex-docentes da Universidade de Lisboa, Jacinto do Prado Coelho e, (oh sorte - ocasionalmente também) Vitorino Nemésio.
Devo muito à Sophia de Mello Breyner, a quem fui apresentado um dia, quase de supetão,  pelo poeta Ramos Rosa, embora eu não tenha sido propriamente amigo dela. Fui mais amigo de sua poesia!  
É impossível lembrar todas as pessoas a quem devo algo na minha trajetória.
Impossível, inclusive, mencionar as influências anônimas, que teceram minha vocação de poeta.

Mas, entre toda essas influências, a de minha esposa foi a maior.
Uma tecelã despretensiosa, embora possua o radar que mais respeito e ao qual mais obedeço: o instinto. O instinto estético e literário.
Em certas ocasiões, o instinto estético e literário funciona melhor que um Departamento de Letras de uma Universidade, tanto nacional como estrangeira!
Cleuza não é o que se poderia qualificar de mulher “excepcional”.
Aliás...as tais mulheres excepcionais são, nas mais das vezes, aquilo que J.L. Borges chamava. Graciosamente, de ficciones.

Nem sua beleza é estonteante!

Ela é simplesmente bela!

De uma beleza na qual se conciliam a graça e a polidez, o respeito e o dom de admirar os outros, a ternura  e certa modéstia, que se deixa acompanhar por uma auto-confiança que lhe permite.em, certas ocasiões, manter sua opinião (sobre determinados assuntos e autores), mesmo divergindo radicalmente de mim.    
Ela foi, e continua a ser, minha primeira amiga, no sentido mais arcaico, e mais verdadeiro da expressão.O sentido que até o Cântico dos Cânticos concede à Sulamita.
Também continua a ser a amiga de meus amigos e – o que é mais raro - amiga de minhas amigas.

Acrescento dois ou três detalhes: sem dúvida, ela tem fé em Deus. Não conseguiu, porém, até hoje, o dom de  suportar as homilias dominicais de nossos párocos, igrejas nem foi capaz de entrever ( e isso eu continuo a pedir a Deus que lhe dê) a imensa riqueza dos tesouros sacramentais do Catolicismo.  

Parece não temer a morte.

Tem um coração compassivo, dotado de uma bondade que ultimamente parece mjais encontradiça nas páginas de Tristes Trópicos de Claude Lévi-Strauss, ou no mundo das pesquisas de antropologia de Darcy Ribeiro.

Uma curiosidade: quando a dor chega, minha mulher duplica-se.
Invejo-lhe tal capacidade de aceitação dos limites humanos, especialmente os da velhice. Sempre demonstrou sensibilidade atenta em relação aos desfavorecidos e marginalizados.


IV.
Agora, duas ou três palavras que me atrevo a dirigir-lhe, diretamente:

Digo-te, Cleuza,se é possível ainda neste mundo globalizado, ser simples:

- Eu te amei como é possível a um homem, sem dúvida apaixonado, amar - a um homem – digamos -concreto, que nada tem a ver com  os homens bizarros dos romances de amorsensatos ou insensatos.
  Não pretendo ter sido, nem fui, um marido ideal. Fui, apenas, reitero, um marido comum, um desses maridos que se sentem felizes por ter os filhos que têm, e que agradecem a Deus por terem sido amados com o amor limitado com que as mulheres, de carne e osso, amam.  

Sim, vocês mulheres, amam!

Mas amam humanamente.
 Vocês são capazes de super-amores, de acrobacias emotivas, de paixões desvairadas, de amores surrealistas, de amores de romances policiais, enfim de amores transbordantes de lisonjas e firulas, transmitidos por insuportáveis caixas-de-som.
Vocês amam, e amam de verdade, porém com a mescla de narcisismo e oblatividade com que todos nós, c amamos!
Amor, no fundo, é isto

- Entendimento de corpos, e – na medida em que esse amor se intensifica e se purifica – com uma adição de “êxtases”, os quais, assumidos com gratidão, podem conduzir-nos às grutas secretas das almas de vocês, ó mulheres, a essas grutas que são propriedade exclusiva de vocês, e – não se esqueçam! - do Criador, que lhes concedeu o que as torna realmente intercambiáveis e insubstituíveis: uma alma.
A Fé Cristã assegura que os espíritos dos homens não poderão existir separados de seus corpos.
É por isso que, nós cristãos, cremos na Ressurreição dos Corpos – embora não nos tenha sido prometida a “Ressurreição dos Sexos”.
 O sexo continuará a existir nos corpos ressuscitados, transfigurados, nos corpos psíquicos, como os denominou o Apóstolo Paulo. O grande Doutor da Igreja, Tomás de Aquino, ensina a mesma c oisa.
Mas...o sexo existirá nos corpos ressuscitados como um troféu de vitórias passadas, de souvenirs que tornarão os que se amaram, carnalmente,  mais felizes.
Se ele serviu aqui na terra, e serviu bem, tanto como fator da propagação da espécie, como fator de fruição psico-física, na nossa condição de habitantes de um planeta, vinculados espacial e temporalmente a este mundo, por que não terá outra existência Cristo naquele estado em que haverá novos céus e novas terras?
 Pedro, a Rocha em que Cristo fundamentou sua Igreja, escreve, na sua Segunda Carta, no capítulo 3, versículo 13:

- O que nós esperamos, conforme a sua promessa, são novos céus e nova terra, onde habitará a justiça.

Que ninguém se atreva a minimizar a imaginação de Deus!
Talvez alguns dos meus leitores, que não partilham minha Fé, poderão dizer-me com um sorriso irônico, embora vagamente benévolo, o que outrora o Rei Agripa disse ao Apóstolo Paulo:

- Poeta, tu deliras!

Por que não?
Posso, realmente, estar delirando.

- O delírio é o devaneio de Gaston Bachelard,  elevado à sua intensidade máxima.

Em síntese:

- Prefiro delirar com Cristo, a delirar com qualquer indivíduo da espécie humana, mesmo o mais sábio, o mais culto, o mais inteligente,e o mais imaginoso dos mortais!

Pós-Escrito:

Faltou, apenas, uma coisa, para complementar este texto. Dizer, como todo o mundo diz, e eu o digo com profunda satisfação:

- Muito Obrigado, Aniversariante!

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