quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Uma “Receita” para Salvar a Itália?

         Não estou caçoando!
Estou falando com a máxima gravidade, se é que esta qualidade do pretérito-mais-que-perfeito ainda existe na política ocidental.
         Todos ouviram falar no Renascimento, um período áureo da Itália! Todos ouvimos falar, alguma vez, sobre a Florença dos Médicis e de outros príncipes, protetores de Miguel Ângelo, e da maioria dos artistas do séxculo XV.
         Neste momento, tenho diante de mim um livro magnífico, traduzido para o português: O Homem Renascentista (Coordenação de Eugênio Garin, com a colaboração de P. Burke, A. Chastel, M. Firpo, M.L. King, J. Law, M. Mallet, A. Tenenti, T. Todorov). Lisboa, Editorial Presença, 1991.
         Resolvio reler essa obra: é um show de informações, de observações documentadas, de análises precisas, de requintes de percepção estética.
Não foi, porém, nessa obra que encontrei a receita milagrosa, que pode talvez solucionar a crise italiana.
Foi em Jacob Burckhart e seu Renascimento Italiano (Tradução de Antônio Borges Coelho. Lisboa, Editorial Presença, 1973).
A receita é a seguinte – ou seja, não é propriamente uma receita teórica, mas uma receita prática:
- Piero de Pazzi, filho dum rico negociante, destinado à mesma profissão, dotado de um físico gracioso e muito dado aos prazeres do mundo, pensava em tudo, menos na ciência. Um dia quando passava diante do palácio do “Podestà”, Niccoli chamou-o. Acorreu prontamente ao sábio respeitado, muito embora nunca lhe tivesse falado antes. Niccoli perguntou-lhe quem era seu pai. Ele respondeu: - “Messire André de Pazzi”. – Qual é tua profissão, continuou o outro. Piero respondeu com a sem-cerimônia da juventude: - “Dou-me à boa-vida”... Niccoli disse-lhe: - Sendo tu filho dum tal pai e dotado de tão boa aparência, deverias envergonhar-te por ignorares a ciência latina que te daria honra. Se não a estudares, não serás ninguém e, quando a flor da juventude fanar, serás um homem sem nenhum valor.
Mal Piero ouviu estas palavras, reconheceu que o sábio tinha razão e disse-lhe que estudaria de boa vontade se encontrasse um mestre, ao que Niccoli respondeu: - Eu trato disso. E efetivamente, arranjou-lhe um mestre culto que começou a ensinar-lhe latim e grego. Era um tal Pontano. Piero fé-lo residir em sua casa, deu-lhe uma pensão anual de 100 florins de ouro. Em lugar de continuar na má vida como fizera até então, Piero estudou dia e noite. Foi amigo de todas as pessoas cultas e tornou-se um eminente estadista. Aprendeu de cor toda a “Eneida” e um grande número de discursos de Tito Lívio, aproveitando para isso o trajeto que tinha de fazer entre Florença e a sua casa de campo em Trebbio.
(Ibid. p. 166-167).

Está aí, na sua limpidez de espelho de cristal, a receita.

Ela é endereçada, antes de tudo, ao Cavaliere.
Depois, ao seu ministério.
Na minha opinião, o povo italiano está dispensado de a aplicar a si, pois é um povo inteligente e trabalhador. Apenas - para espanto do mundo - parece ser um povo que não aprendeu a votar bem.
Não lhes custa, aos grandes da Itália, principalmente aos descendentes de Mussolini, do qual se dizia - na sua época de fastígio - que “Mussolini sempre tem razão”, compreender, que os ditadores, mesmo os melhores dentre eles, como os que atualmente exercem o poder do dinheiro e dos capitais voláteis,  a cavalo de três cadeias de televisão, de diversos jornais, com diretores contratados a peso de ouro, não lhes custa – repito - aprender um pouco de respeito à cidadania,  principalmente maneiras mais inteligentes de governar, que podem ser as que o douto Maquiavel não lhes ensinou.
O caso é que a Itália, se se descuidar, será a nova vítima do Euro, depois da Grécia, de Portugal, e da Espanha. Possivelmente, nenhum político italiano terá a insensatez de apelar para um plebiscito, como o que o primeiro ministro Papandreu tenciona realizar na querida Grécia de Aristides e Péricles.
Tenho sangue italiano nas veias, “e me ne vanto”!
Mas assistir, como estamos todos assistindo, a um repeteco dos tempos da anarquia imperial de Roma, em que o próprio Império foi leiloado, a espetáculos tão deprimentes de disputa de poder, e de mulheres, após tantas lições morais e políticas que eles, os peninsulares nos deram, deixa-nos vexados.
Pior que isso: nós, que acompanhamos tais fatos do lado de cá do Atlântico, não podemos compreender que uma nação de tantos gênios esteja sendo conduzida por arrivistas, por mentes medíocres, mais afeitas a negócios que a idéias de planejamento sócio-econômico,  intelectuais medíocres, cujos méritos estão sustentados apenas pela habilidade em manipular o grande público.
É verdade que o povo italiano é um povo – como outroras o Povo Bíblico, de dura cerviz, isto é, de uma condenável obstinação.
 Recentemente, estive na Itália, e constatei, mais uma vez, o quanto se sonha, ainda, com Mussolini!
 Na autobiografia de Anthony Quinn, descobri que sua segunda mulher, a italiana Iolanda, o convenceu de que o Duce não era tão fanfarrão e cabotino, como todos os historiadores o afirmam.
É verdade que existe um ditado: “Dos mortos, ou se fale bem, ou não se fale!”  Não concordo com esse ditado hipócrita. É, no máximo, uma atitude piedosa, porém sugerida para nos livrarmos de sua incômoda, ou impertinente memória.
Só após a morte dos grandes homens, vemos claramente como eles são pequenos. Como são mesquinhos. Como são como as mentiras que os envolvem em papel celofane! Só então é que podemos apanhar uma fita métrica, e medir-lhes a verdadeira estatura. Com efeito, quem se atreveria a medir, agora, o Comandante Chavez, ou o cafoníssimo latin lover Berlusconi, que saltou pequeno do ventre de sua mãe?
Dona Iolanda Addolori, a segunda mulher de Anthony Quinn, convenceu o “Zorba” de que o Duce não era “o ditador malvado que hipnotizava o povo”:
- Recusei-me a ir ao jantar oferecido a ele(Mussolini) em Hollywood por meu sogro, quando não me custava comparecer. Hoje vivo com uma mulher que vê em Mussolini um Mussolini diferente. Para minha esposa, ele foi um herói, pois, sob seu governo, a Itália adquiriu dignidade. Ela perdoa o que desaprova e passa por cima do resto. Seu pai perdeu uma perna na Primeira Guerra Mundial, e ela cresceu acreditando que isso tinha um significado. Mas agora também sou italiano, por isso modifiquei minha opinião”.
(Tango Solo.Tradução de Ângela Lobo de Andrade. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1995. p.58-59).
Apesar de Anthony Quinn citar o saneamento dos Pântanos Pontinos, “quilômetro após quilômetro de terra pantanosa, que transformou num passe de mágica o atoleiro num dos vales mais férteis da Europa”, divirjo da opinião do ator.
Se nos deixássemos guiar por tais critérios, passaríamos a admirar Hitler por ter dotado a Alemanha de autopistas, e até por alguém  ter inventado o Volswagen dedbaixo de suas botas de Ditador.
É ridículo – e atroz - pensar assim!
Mais vale pensar no que Henri Bergson escreveu (cito de memória):
- Se eu tivesse que trocar a vida de uma única criança inocente por todos os benefícios materiais de qualquer governante, não a trocaria!
Está na hora de voltarmos ao que de melhor a Itália deu ao mundo: suas lições de Humanismo.
É melhor pensar nos seus homens ilustres, e não nos seus Condottieri, que Dante, aliás, meteu – quase todos – no Inferno.
O colérico Poeta meteu ali até alguns Papas, entre os quais um Santo, santo de verdade, canonizado pela Igreja, Celestino V:
- che fece per viltà  il grand rifiuto
(que fez, por medo, a grande recusa).
(Divina Comédia, Canto III, versos 58-60).

É como interpretam essa passagem os melhores especialistas sobre Dante!   
De que se trata?
Em 1294, o papa Celestino V renunciou ao Papado, abrindo caminho à eleição de Bonifácio VIII, o eclesiástico mais detestado pelo genial Poeta.
Vejamos, primeiramente, quem era Bonifácio VIII.
Segundo a especialista Jacqueline Risset, que traduziu a Divina Comédia para o francês em data recente, Bonifácio VIII pertencia à família dos Gaetani. Foi eleito em 1294. Era um glutão, adorava criar escândalos. Colecionava línguas de serpente, objetos de magia, e até possuía um anel que lhe permitia invocar os demônios. Segundo a expert, esse papa não acreditava em Deus. Para ele, Jesus era um homem como os outros. Eis por que Dante o colocou no Inferno, e o cumulou de insultos, chamando-lhe, inclusive, “o príncipe dos novos fariseus”.
Bonifácio VIII teve um fim trágico. Foi aprisionado por Guilherme de Nogaret, um ministro de Felipe, o Belo, o qual, aliando-se às duas famílias inimigas do Papa, os Colonna e os Orsini, o teria esbofeateado na prisão, onde o Pontífice foi encontrado morto, um mês após o seu encarceramento.
(Dante. Une Vie. Paris, Flammarion, 1995. p.121-129).
E quem era Celestino V?
Um monge de 80 anos, Pietro del Morrone, que morava numa cela miserável nas montanhas dos Abruzzi. Devido a um vergonhoso tráfico de influência eclesiástica em troca de dinheiro e poder durante dois anos, que houve entre os Cardeais de duas famílias da nobreza de Roma, o eremita foi eleito Papa - uma espécie de acolchoado entre dois opositores.
 Pobre e santo, Celestino V! Após cinco meses de pontificado, não suportou as pressões do Cardeal Gaetani, que viria a sucedê-lo sob o nome de Bonifácio VIII, renunciando ao Pontificado. Retomou, imediatamente, sua vida solitária e ascética na região da Ciocciaria.
 A Igreja o canonizou em 1313 como São Celestino V.
(Bárbara Reynolds: Rio de Janeiro, Editora Record, 2011. p.72; Natalino Sapegno: La Divina Commedia. 12 ed. Vol. I. Firenze, La Nuova Itália, 1962. p.33-34 (Nota 59); Vittorio Sermonti: L’Inferno di Dante. 2 ed. Milano, BUR, 2007. p.62-65; La Divine Comédie de Dante. Traduction, Préface, Notes et Commentaires par Henri Lorgnon. 2 ed. Paris, Éditions Garnier Frères, 1956. p.535).

Se Dante voltasse à Itália de hoje, na atual conjuntura, quem ele poria no Inferno?
Talvez todo o Ministério de Berlusconi?!
Não o creio.
A estas alturas, o Poeta teria que pensar mais. Somos todos pecadores, e quem quiser atirar a primeira pedra, que a atire.
Eu não a atiro.
Prefiro orar a Deus, pedindo que a Madonna nos auxilienão a Madonna que anda por aí, escrachada, nas telinhas de tevê, coberta de cosméticos, e sempre badalativa – mas a humilde Virgem Maria, que lhe emprestou o nome, e que tem, por isso, esperança de salvá-la.
Todos precisamos, não só os italianos, de sua ajuda, e todos desejamos encontrar, algum dia, se possível, Dama Felicidade, que ao nascer é prometida a cada  animal da espécie racional, isto é, da Espécie Humana.
  

Um comentário:

  1. Um belo passeio pela cultura do povo italiano, da qual sou descendente. Foi muito interessante e agradável ler.

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