quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Tânia Carvalhal: uma intelectual de alto estilo.

      
I.

Alguma coisa de negativo está acontecendo em nossa Cultura Gaúcha e Nacional.
       Cultura?
Que é a Cultura senão o conjunto das melhores memórias de uma nação? Que é a Cultura senão um imenso favo de mel, que unifica o que um povo conseguiu extrair de mais puro, de mais elevado, de mais inteligente, de mais estético - de suas misérias e sublimidades, de seus terrores e grandezas?
O que está acontecendo, neste momento de Globalização, é um descaso que nos torna mais idiotas, mais falsamente informados, sendo - no entanto - incapazes de fazer adições neuronais criativas!
Digo isso a propósito de nomes que o Estado e o País estão esquecendo. É possível, se ocorrer um crescendo no que tem acontecido, que amanhã ou depois, nos tornemos amnésicos de nós mesmos, de nossa terra e hábitos, capazes apenas de lembranças descosidas do que nos é imposto de fora.
 Sofreremos uma espécie de Ditadura Memorativa comandada à distância. Babaremos de gozo perante personalidade medíocres, que a mídia tende a nos apresentar como gigantes, e acabaremos absorvendo imbecilidades habilmente acondicionadas, que os editores souberem importar, seja da Europa, seja dos Estados Unidos, seja de uma Ásia que, por sua vez, ofuscada pelos seus ienes e yuans, está esquecendo, também, Confúcio, Lao-Tsé, e seus incomparáveis Mestres.

II.

Após essa introdução, podemos falar sobre Tânia Franco Carvalhal, que nos deixou prematuramente.
 Maldito câncer que a obrigou a emigrar – (talvez para sua felicidade, não para a nossa!),  antes que ela pudesse completar sua obra que, mesmo assim, é notabilíssima.
Falemos, pois, primeiramente, sobre sua pessoa.
Não era fácil simpatizar com Tânia à primeira vista.
Parecia antipática.
Parecia – entendam-me!
Todo o mundo sabe que as aparências enganam. No caso de Tânia, enganavam duas vezes.
Por que parecia ela antipática?
Ou esnobe?
Esnobe é um indivíduo – ou “individua” – que não sabe traduzir-se socialmente, que é um determinado indivíduo, e aparenta ser outro, pior.
Tânia era uma pessoa naturalmente fina, mas parecia fina demais.
Parecia superfina.
Ora, ninguém gosta de superlativos concretos.
Quê mais?
Já que estou disposto a jogar todas as cartas na mesa, mesmo valendo-me do humour, ou pseudo-humour galponeiro de nosso Pampa, acrescento que Tânia, intelectual inata, era uma mulher inteligentíssima, sensível, de uma percepção estética inencontrável em estado puro, como era o seu.
Além disso, Tânia era culta - por assim dizer de nascença.
Mas dava a impressão de usar a Cultura para  brilhar, quando nela a exibição era incompatível com seu carácter e dignidade.
Podia, às vezes, ser imodesta?
Podia.
Mas quem, no Brasil, não é vaidoso?
já houve um sociólogo que excogitou uma explicação engenhosa para essa nossa balda: seríamos vaidosos por descender dos Índios! Sabe-se que, entre eles, os homens é que se adornam, e cobrem o corpo de tatuagens - não as mulheres.
Mas digamos que Tânia fosse vaidosa, e o fazemos para – ao menos uma vez – dar satisfação a seus desafetos!
Sou de opinião que o retrato de Tânia, que estou apresentando, é tudo, menos um retrato.
Não é um retrato.
Permitam-me dizer-lhes: é uma caricatura.

II.

Tânia era, em primeiro lugar, uma mulher bonita, de uma elegância quase natural.
Advirto:quase! Não existe elegância natural.
Nascemos todos envolvidos, não só numa placenta material, mas também numa placenta psíquica. Só que a placenta psíquica se vai desprendendo de nós durante a vida, à medida que nos civilizamos, ou adquirimos uma personalidade própria.
Volto a afirmar que Tânia foi uma das intelectuais mais finas que conheci.
Como todas as intelectuais dotadas de finesse, ela nos deixava certo travo de inveja na mente e no coração.
Somos naturalmente grosseiros – esta é a verdade. Ela nunca o foi.
Apraz-me render mais esta homenagem à Tânia.
Tânia era dotada de uma seriedade intelectual insólita, de uma seriedade, isto é, de algo que literalmente preenchia as condições que o poeta indiano Rabindranat Tagore exigia para a felicidade:
- Feliz daquele cuja fama não é maior do que sua verdade! 
Em toda a parte, especialmente no Brasil, a distância entre a verdade pessoal e a fama do sujeito é quase a do Estreito de Bering...
Tânia era exata, uma scholar no sentido rigoroso da palavra.
Uma perfeccionista.
Creio, até, que esse seu perfeccionismo, ao longo dos anos, quando aplicado às coisas mínimas, poderia irritar.
 Não irritava porque Tânia era sempre de uma delicadeza de gente da côrte de Alienor de Aquitânia.
 Imagino que se Tânia devesse deixar um bilhete à sua cozinheira, o bilhete não poderia ser redigido numa linguagem banal e apressada, do tipo: “Compre dois quilos filé, cinco abacates, dez berinjelas, três garrafas de vinho tinto...” Não, o bilhete deveria ser redigido em português correto, fiel à ortografia em voga, sem abreviaturas, possivelmente com um sabor de fraseado à Machado de Assis, ou à Augusto Meyer.
Tânia não fazia nada – do ponto de vista profissional ou literário, que não estivesse à altura de si própria, isto é, à altura do melhor.
Foi uma professora universitária exigentíssima.
Eu não seria bom aluno dela.
Sou exigente comigo mesmo, mas canso-me de regras. Até hoje não aprendi corretamente as regras da ABNT.
Nem as aprenderei jamais! Sei que existe um figurino citatório, mas prefiro mencionar um autor de maneira simplificada, de modo que todos, se possível, o descubram, e se interessem por ele.
 Sob esse aspecto dou razão à Tânia.
 Tratando-se de uma cultura como a nossa, que não tem pendor para o rigor intelectual, ela exigia o máximo dos alunos, cobrava-lhes pedágios didáticos severos.
Tive mestres desse tipo na Europa. Se não lhes sigo todas as orientações, é porque, depois de certa tarimba intelectual, resolvemos ser intelectuais sem empréstimo bancário.
Bom isso?
Mau isso?
Não sei.
Tânia era exigente porque queria fazer alunos, não só informados e cultos; queria que eles fossem construtores de Cultura – que levassem o Rio Grande e o Brasil ao mais alto nível da responsabilidade criativa.

IV.

       Tânia foi professora de Teoria da Literatura e de Crítica Literária. Com o tempo, tornou-se uma autoridade internacional em Literatura Comparada.
       Os estudos que, primeiramente, a celebrizaram foram dois ensaios sobre a obra de Augusto Meyer,que a converteram na melhor intérprete do Erasmo Gaúcho:
A) O Crítico à Sombra da Estante (P. Alegre, Globo, 1976);
B) A Evidência Mascarada (P. Alegre, Globo, 1982).
Divulgou inúmeros artigos em livros, tanto no País como no Exterior. Artigos em revistas especializadas foram dezenas. Impossível contabilizar suas colaborações na imprensa.
Minha intenção não é deter-me na sua bibliografia, que pode ser consultada no Google ou na Wikipédia, e em outras fontes mais especializadas, mas chamar a atenção para um aspecto de sua produção: seu altíssimo gabarito.
Considero a produção ensaística da Tânia comparável à do próprio Augusto Meyer, e a alguns de seus companheiros de geração, como Guilhermino César (mestre de Tânia), Moysés Vellinho, e poucos mais. Admito que Tânia possui pares dignos dela, na sua própria geração, na qual se destacam Carlos Jorge Appel, Donaldo Schüler, Maria da Glória Bordini, Regina Zilberman, e outros.
Creio, porém, que poucos de seus êmulos se igualaram a ela no estilo.
Ela escreve um vernáculo transparente, borrifado de aristocratismos léxicos, num tom preciso e luminoso, quase aromático pelo cuidado que põe em tornear as frases e dar-lhes uma tal ou qual ondulação musical.

É sempre um deleite a leitura de seus textos. 



VI.

A tudo que escrevi adiciono um pormenor: Tânia não era auto-suficiente, como alguns de seus desafetos deram a entender, por vezes, maliciosamente.
Sabemos que um dos maiores favores que Tânia realizou em prol da Cultura Nacional foi a organização, preparação do texto, prefácio e notas da Poesia Completa de Mario Quintana.
(Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 2005).
É um trabalho magnífico, que lhe exigiu paciência (quase infinita!),dedicação beneditina, uma dúzia de insônias e, sem dúvida permanentes hesitações.
No que me diz respeito, não sei como agradecer-lhe, em nome dos gaúchos, tão monumental trabalho crítico.
Todos sabem que o Poeta-Mor do Rio Grande do Sul não ligava a datas, a variantes, a escrúpulos desa e de quaisquer naturezas.
É conveniente revelar aos leitores algumas demonstrações da humildade da Tânia.
Várias vezes telefonou-me, perguntando-me o que pensava sobre tal ou qual variante, o que se poderia fazer com determinadas expressões que não coincidiam, se era melhor esta ou aquela solução, enfim, empenhando-se sempre por acertar;
Sempre interrogativa, algumas vezes dubitativa, na maior parte das vezes, reflexiva.


VII.

Remato estes souvenirs com uma recordação que ainda hoje me comove, e até me provoca lágrimas.
Jamais vi, exceto em alguns rostos de crianças ou adolescentes, um rosto tão sereno no ataúde, como o da Tânia, antes de seu corpo ser cremado.
Para mim, o rosto pálido da Tânia foi, junto com o rosto de meu pai (falecido aos 102 anos), o lugar onde melhor verifiquei a realidade do verso de Basílio da Gama, no Uraguai, verso referido pelo autor à índia Lindóia, que o poeta traduziu de Petrarca, dando-lhe uma forma portuguesa que, segundo Manuel Bandeira, sobrepuja em beleza a do verso original italiano:

-Tanto era bela no seu rosto a morte!



      

2 comentários:

  1. Concordo que a globalização descaracteriza qualquer tradição de um povo, seja ele qual for, de um país inteiro à uma região. Globalização é inevitável no mundo em que vivemos e cabe a cada um selecionar o que lhe será de serventia e o que for lixo jogar fora. Quanto à Tânia só resta a homenagem que já foi feita de forma brilhante neste texto.

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  2. As críticas de Tânia sempre precisas. Esse texto. Muito preciso em definir o que a persona e o trabalho da Professora, Autora e Crítica Literária Tânia ainda representam para o entendimento das letras.

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