segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Receita de Político: Ninguém lhes Atire a Primeira Pedra!

I.    
        Os filósofos antigos, principalmente Aristóteles, consideravam a Política a maior das artes liberais, uma vez que o Bem Público se situa acima do bem particular. Interessar-se pelo bem de todos os cidadãos, era considerado mais digno de um cidadão do que se interessar pelo bem próprio.
        Jesus deixou um conselho que mereceria meditação, mas que, no mundo atual tem sido objeto de irrisão, e até de sarcasmo (principalmente por parte dos políticos): É melhor dar do que receber.
No fundo, tal afirmação encontrou um eco límpido na prece de Francisco de Assis, que glosa a afirmação de Jesus: É dando que se recebe.
        A opinião pública, no Brasil e no cenário internacional, mostra-se, não só desconfiada dos políticos, mas decepcionada com eles.
        Quem, hoje admira uma Personalidade Política?

II.

        Uma nação, porém, não pode existir sem Políticos!
        Se eliminássemos os pais devido aos maus pais, em breve as mulheres só teriam chance de conceber por inseminação artificial. Teriam, eventualmente, de recorrer a um Banco Coletivo de Sêmen.
Que admirável Mundo Novo surgiria!
        Corramos, pois, o risco de ter maus pais, para termos bons pais.
        Uma vez que é necessário ter Políticos, corramos o risco de tê-los, maus e bons.

III.

        A impressão que os profanos – isto é, os que nunca tiveram a pretensão de ser Políticos – parecem dar, a respeito deles, é a seguinte: quantos, dentre eles, os profissionais da Política, ter-se-iam perguntado, alguma vez na vida, o que é pré-exigido para ser um Bom Político?
        Dada essa dúvida, é hora de se pensar num Manual do Bom Político, como São Bernardo de Claraval teve a idéia de escrever, para um ex-monge de sua comunidade, ex-discípulo seu, que foi eleito Sumo Pontífice, Eugênio II, um Manual do Bom Papa.
São Bernardo deu ao seu manual o título latino: De Consideratione.
Mesmo assim, após o Manual de São Bernardo a Igreja Católica foi obrigada a suportar as imoralidades de Alexandre VI, o Bórgia, negação completa do figurino do Manual.

IV.
         
        Talvez pudéssemos esquematizar algumas qualidades de um Bom Político!
       
Vamos a essa receita, à maneira da Receita de Mulher de nosso grande lírico, Vinícius de Morais:
       
1.   Um Bom Político teria, primeiramente, de depositar num Tabelionato uma declaração, não só de bens pessoais, mas de intenções pessoais.

2.   Um Bom Político teria de admitir, desde o início, que é incuravelmente vaidoso e, a seguir, teria de admitir, com a humildade que lhe ficou no fundo do coração, que se acha melhor do que os outros, mas que, a despeito disso, pretende não se achar melhor do que os outros no exercício de suas funções. Que pretende, se possível, desde o primeiro dia de sua posse, recorrer à sabedoria de assessores selecionados.

3.   Um Bom Político teria de admitir que, à maneira de todo o mundo, deseja ganhar um salário compatível com suas altas funções, mas que, satisfeita tal cláusula, jura não aceitar propinas, nem para si, nem para sua mulher, nem para seus filhos (se os houver, de diferentes matrimônios), nem para seus netos, nem – principalmente - para a Direção Executiva e Ideológica de seu Partido, nem mesmo para os correligionários.

4.   Um Bom Político teria, sempre, de admitir dúvidas em suas decisões, mas jurar que toma as próprias decisões considerando suas dúvidas melhores do que as dúvidas alheias.

5.   Um Bom Político teria (se possível já na sua Pré-Candidatura) declarar que tem uma esposa a quem ama, e que esta lhe é suficiente. Deveria fazer tal declaração sem hipocrisia nem enfatuação. Em vista de tal dádiva da Natureza (e, para os crentes) da Providência, poderia revelar discretamente seu propósito de não namorar secretárias, e quaisquer outras funcionárias do entorno. É claro que isso, em termos de pura política, é um detalhe. Mas, como dizia Einstein, “Deus está nos detalhes”.


7. Um Bom Político teria de admitir que, do ponto de vista profissional, já se sente hiper-realizado, ou até, que nasceu realizado, e que, findo o exercício de sua governança, voltará a exercer sua profissão antiga, sem excessivas saudades do tempo em que foi o centro das atenções dos meios de comunicação audiovisual, além, é claro, do grupo dos lisonjeadores, e de outros festivos entusiastas.

8.Um Bom Político teria, invariavelmente, que dispor de tempo para leitura, para a meditação de textos substanciais sobre a situação presente e futura Teria de dispor de tempo para ler Plutarco, e os Prêmios Nobel da Economia, como Stieglitz e Krugman. Teria, também, de dispor de tempo para ler filósofos, lúcidos e preocupados com o bem-estar das classes A, B, C, D,F, G, H, e outras.  O Bom Político leria, igualmente, bons romances, principalmente a Trilogia de O Tempo e o Vento, bem como Incidente em Antares,  de Erico Veríssimo, e Cem Anos de Solidão, de García Márquez. Do primeiro, poderia ler, ainda, O Senhor Embaixador, e do segundo, O Outono do Patriarca). O Político Ideal leria, também, grandes poetas, como Mario Quintana, do qual guardaria a seguinte inesquecível lição, que mandaria afixar em seu gabinete: “Sou tão orgulhoso que nunca acho que escrevi algo à minha altura!” Onde está escrito: “que nunca escrevi”, ponha-se: “que nunca fiz”. Não leria livros de auto-ajuda, dado que ele próprio se propõe a ajudar os necessitados de qualquer tipo de ajuda, inclusive de auto-ajuda.
Em vez de ler livros de auto-ajuda, o Bom Político poderá – se for o caso - usar bengala, e recorrer a um personal trainer, que o Luiz Augusto Fischer assim define em seu Dicionário de Palavras e ExpressõesEstrangeiras: “Designação de nossos tempos, nascida com a privatização de tudo, até mesmo de professor de ginástica, que é o que a expressão significa”. Tratando-se de um Político com tendências socialistas, aconselha-se tomar cuidado, tanto com a expressão inglesa, como com outras conseqüências imprevisíveis de nosso amor ao idioma tão amado, que quase já o anglecizamos.

9. Um Bom Político deverá, necessariamente, encontrar tempo para orar. Se for cristão, sua opção está feita. Se for ateu, reze às Estrelas - cujo silêncio eterno deve (se for bom ateu) de quando em quando ouvir, pois até Olavo Bilac ouvia as estrelas. Se for agnóstico, ore a Ghandi, Buda, ou a uma das vítimas de Auschwitz ou Guantánamo, que merecem não ser esquecidas. Se não quiser orar de maneira alguma, interrompa sua jornada, com minutos de silêncio cronometrados, durante os quais escutará os brados coléricos dos desempregados, os sussurros das mães que estão com as contas atrasadas, principalmente em relação à CEEE, que é impiedosa, e corta a energia após alguns dias de insolvência. Ouça, também, os balbucios dos pobres-diabos de Dostoievsky, ou de Lima Barreto e Graciliano Ramos.

10. Um Bom Político, em hipótese alguma, pleiteará sua reeleição. Só aceite retornar à Política após um interregno, durante o qual as pessoas, que votaram nele, terão tempo de refletir sobre sua passagem pelo governo, e decidir se vale a pena reconvocá-lo a um cargo público.

11.Um Bom Político, ao fim de seu mandato, deverá proferir, publicamente, as palavras que Jesus colocou na boca de todo cristão, obrigando-os a dizê-las, ao fim de cada dia: “ Fiz tudo o que me foi possível fazer. Mesmo assim, sou um servo inútil”.

12.Um Bom Político jamais declarará ser fiel a uma ideologia. Será fiel a uma Utopia. Não acreditará nos homens, mas apenas no que a Humanidade conseguiu preservar de melhor na intimidade de seus neurônios. O Bom Político desconfiará de soluções prêt-à-porter. Visará soluções a médio e a longo prazo. Quando tiver dúvidas sobre o que é melhor para seus governados, consultará:

A) Primeiramente, o Bom Deus;
B) Depois, sua mulher;
                        C)  Depois, seus amigos;      
D)  Só então consultará os companheiros de Partido.

13. O Bom Político não terá ódio a ninguém. Nem a si próprio. Seria ótimo se tivesse em sua casa um cachorro, por exemplo, um Labrador, ou - caso sua mulher preferir – um pequeno ou médio Yorkshire. Em momentos de tensão, olhará para os olhos desses bichos, e dirá, de si para consigo: “Serei tão inocente como esse animal? Tão humano como ele?”

       
Seria necessário introduzir na Constituição de todas as nações democráticas do mundo o seguinte parágrafo:
       
“Fica proibido atirar a primeira, a segunda, a terceira, e até a milésima pedra, contra um Político que se auto-demite, ou que é demitido. Que ele tenha a possibilidade de se exilar, ou de cair no anonimato. A razão disso está em que, escolhida a forma democrática de governar, admite-se que os votantes são tão responsáveis pelo Governo quanto o eleito. Se alguma coisa der errado no exercício do governo, que os votantes aproveitem o momento para repensar a Democracia, ou a forma de votar que essa Democracia propõe.
As sugestões acima não são as sugestões ideais. Maquiavel, se vivo, daria outras. Lincoln também. É possível que Rui Barbosa aceitasse algumas.
Enfim, já que são permitidas tais sugestões,
 deixêmo-las para que algum governante, num momento de extrema solidão, quando não estiver à sua mão nem uma dose de uísque escocês, nem uma triste caipirinha de última hora, possa refletir sobre elas. Isto é: tanto sobre as sugestões para um Bom Político, como sobre as bebidas convenientes a um Bom Político. 

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