sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O Que Pensar Do Natal?
É Melhor Entrar Nele.

I.
      Não pertenço ao grupo de pessoas que se entristecem com a chegada do Natal.
Nem estou no grupo dos que sentem uma euforia histérica quando o vislumbram no horizonte, e se põem a cismar em presentes, festejos, nozes e avelãs, bacalhaus ou perus.
       Para mim o Natal é, cada vez mais, uma festa íntima.
Diria mais: uma festa misteriosa.
       Noutras palavras, cada vez compreendo menos o Natal. Embora cada vez o ame mais.
       Quem pode compreender o Natal no seu significado primeiro, no seu significado profundo, ou talvez - melhor expresso - o seu significado essencial?
       Dias atrás, relendo um livro que, de quando em quanto sinto necessidade de reler, uma compilação de um monge beneditino, Dom Cirilo Folch Gomes: Antologia dos Santos Padres ( 3 ed. São Paulo, Edições Paulinas, 1985), deparei-me, pela décima ou vigésima vez, com um fragmento da Carta que  o Bispo Inácio de Antioquia, que teve contato direto com os Apóstolos de Jesus, escreveu aos cristãos de Esmirna. Inácio foi martirizado em Roma, no Coliseu, sob o governo do Imperador Trajano, aproximadamente no ano 110 d.C.
       O fragmento de Santo Inácio diz assim:

       - (...) aprendi e creio que JESUS CRISTO, mesmo após a Ressurreição, permanece na carne. Quando se aproximou de Pedro e seus companheiros, disse-lhes: “Tocai em mim, apalpai-me e vede que não sou um espírito incorpóreo”.(Lc 21,33). Ao íntimo contato de sua carne e de seu espírito, logo que o tocaram, creram; por isso desprezaram a morte e tornaram-se vencedores dela. Depois de sua Ressurreição, comeu e bebeu com eles, como alguém que tem carne, embora unido espiritualmente ao Pai.
       (Ob. cit. p. 42).

Comovem-me tais palavras, ditas há quase dois mil anos!
Inácio era um cristão, que tinha tido a possibilidade de entrevistar-se com testemunhas oculares de Jesus, quando o Cristianismo estava ainda nos cueiros.
Límpida e humildemente, o Bispo exprime sua fé, sem interessar-se pelas estruturas metálicas e inoxidáveis do Dogma, que hoje parecem sustentar a fé de muitos cristãos.
       É evidente que tais estruturas da Teologia são boas. São importantíssimas.Porém, Mas, mais importantes do que elas, é o “Deus sensível ao coração”, de Blaise Pascal, de Francisco de Assis, de São João da Cruz.
As armações intelectuais da Fé Cristã honram a razão iluminada pela luz sobrenatural, mas não dão a fé existencial o comprometimento que esta exige do homem, na sua condição carnal.
       Notemos a insistência do velho Bispo sobre o termo carne!
Santo Inácio repete esse vocábulo três vezes! O que o grande Padre da Igreja queria significar era sua Fé num fato histórico, numa realidade tangível: o Filho Unigênito do Pai se fez carne, isto é tornou-se homem como qualquer nascido de mulher.
Aliás, pouco antes, nessa mesma carta, Santo Inácio reiterara que “Jesus Cristo, Deus...é verdadeiramente da estirpe de David segundo a carne” (referindo-se provavelmente à Carta de São Paulo aos Romanos, 1,3).
      
II.

O Natal do mundo globalizado corre o risco de nos fazer esquecer tão incontornável realidade: que uma das Pessoas Divinas, que subsistem numa única Natureza, e que portanto são um só Deus, se humanizou. E como onde está uma das Três Pessoas, estão as outras, embora só a Segunda Pessoa se tenha encarnado, devemos confessar que Maria não é só Mãe de Jesus, mas Mãe de Deus.
       Não me peçam para explicar esse Mistério!
Mistério não se explica.
Ou se ri e se zomba dele, como fazem os ateus militantes, ou se aceita a Verdade, cuja inteligibilidade só nos é parcialmente acessível.
       Mistério não é coisa absurda, contraditória, irracional. Mistério é uma Verdade, que a mente humana, apenas com sua lanterna luminosa, não pode abarcar, mas consegue entrever.
Imaginemos uma criança, à noite, com uma lanterna nas mãos. Ela vê alguma coisa à luz de sua lanterna. Talvez veja flores aos seus pés, uma árvore, talvez, à sua frente, e mais além um cachorro, um boi, e até um vaqueiro.
Diremos que ela vê o Mundo?
Ela vê um fragmento do mundo.
O que lhe aconteceria se, de repente, ela se encontrasse numa praia, como a de Copacabana, e diante de seus olhos lhe aparecessem o mar, as ilhas, os navios, os Boeings a cruzarem os céus?
Somos essa criança perante os Mistérios revelados no Evangelho.

III.

       É difícil – ou antes, dificílimo! - concentrar-se na época do Natal.
       Tudo nos projeta para fora.
       Primeiramente, o Natal acontece no fim do ano.
Ora, o fim de ano brasileiro não é a mesma coisa que o fim de ano europeu, segundo o qual se organizou eclesiasticamente o calendário do rito católico.
 O Natal, para um europeu, ocorre no meio das aulas.
Lembro-me (e agora, no Brasil, fico pasmado!) da primeira vez que passei um Natal na Europa.
Era estudante da Universidade de Fribourg, na Suíça, onde fazia meu doutorado em Letras (especificamente, em Filosofia). De repente, informaram-me que teríamos 15 dias de férias, em pleno semestre letivo.
      
- Férias? perguntei quase despertando de um sonho.
       -Sim!  As férias de Natal, seguidas pelas férias de Ano Novo...
             
Não preciso dizer que fiquei encantado.
No início, indaguei, sondando:

- O que fazem os estudantes daqui nessas férias?
      
- Alguns aproveitam para visitar suas famílias, e lá festejarem o Natal. Outros vão esquiar nas montanhas. Outros fazem turismo...Vão conhecer países que não conhecem, principalmente depois que passou a festa do Natal!
       Fazia frio. Muito frio nessa época.
 Natal sem neve, sobretudo na Suíça onde eu estava, era algo herético em termos climatológicos.
De fato, poucos dias antes do Natal, vi neve caindo pela primeira vez!
Fiquei, pois, em Fribourg, meditando, estudando obras fundamentais para minha futura tese, principalmente curtindo as festas na companhia de colegas.
Naquela época – 1958-1963 – o Natal na Europa tinha outras características. Era menos comercial, menos estridente. As rádios aproveitavam a temporada para encher os ares não só com cantos de Anjos e crianças, mas também com as sinfonias de Mozart, Beethoven e Schubert. As canções natalinas soavam em toda a parte.
As ruas engalanavam-se com luz e bolas coloridas. Felizmente, não eram comuns os Papais-Noéis – se é que os havia.
Creio que nem os havia!
 Por lá existiam apenas os atores que se revestiam de vestes episcopais para imitar o Bispo São Nicolau, que era quem trazia os presentes para as crianças. Os presentes não eram dados no Natal, mas noutro dia, salvo engano no dia da Epifania, ou Festa dos Reis Magos.
IV.
Existia, então, mais espírito religioso na Festa?
Mais do que hoje, sem dúvida. Não exageremos, porém. Já nessa época a Europa se “laicizara”, e a Festa me parecia mais uma pausa nas atividades do que outra coisa. A pausa facilitava certa concentração íntima. Não posso,porém, afirmar que o espírito religioso predominasse.
Como os europeus viviam, no Natal, uma estação fria, aproveitavam-na para uma sorte de reaquecimento doméstico.
O forte da religiosidade da época eram os concertos de música sacra, realizados nas igrejas, e em outros locais. Principalmente nas igrejas. É lógico que uma pessoa que ouve música clássica está já se preparando para ouvir outra coisa: o ruflar das asas de um Anjo, ou o ciciar de uma brisa suave que anuncia a Presença de Deus, ou, ao menos, a Presença de uma Criança que anuncia Deus.

V.

       O Brasil, devido a nossos calores “senegalescos”, ou melhor, “made in Brazil”, não nos permite interiorizações maiores.
Como pensar em algo espiritual quando se está transpirando como uma torneira mal-fechada? Com o corpo visguento, será possível meditar em outra coisa senão em fugir de si, até Da própria pele?
       O ar condicionado – na pior das hipóteses, os ventiladores, sobretudo os menos barulhentos – nos têm livrado das obscenidades do calor. O calor, para mim , é obsceno, digam o que disserem. Advirto que emprego o adjetivo com plena consciência do que significa. “Obsceno” não é a mesma coisa que imoral.
       Recordo-me de um Natal que passei no Brasil, com minha esposa e filhos, no qual o calor era tanto que os chocolates se derretiam diante de nossos indefesos olhos...E com os chocolates, nos derretíamos, nós também! Creio que, nesse Natal, o bom Deus nos dispensou de pensar noutra coisa senão em duchas e sonos de jararacas entorpecidas...
       Não é razão suficiente para não meditarmos no Natal, e abrirmos os olhos à Grande Luz que nele se oferece à Humanidade.
       Temos, felizmente, nestes tempos de tecnologia mais avançada, a climatização (espero que essa comodidade se torne, o quanto antes, complementação da cesta básica), e acabe favorecendo os desfavorecidos. Eles, também, precisam pensar em Deus!
       O Natal deveria ser uma das ocasiões mais propícias à semelhante redescoberta. A tomada de consciência do ser humano de que esse dia – o Natal – celebra o dia em que um Homem como nós veio a este mundo, e nos trouxe Consigo o próprio Deus, deve deixar-nos envolvidos por um mínimo de ternura.
       Cristo trouxe mais: com seu nascimento, santificou qualquer nascimento, de modo que, se já antes o nascer de uma criança era sagrado, a partir do nascimento de Jesus, o nascimento de qualquer ser humano tornou-se um evento, um acontecimento único, que confere ao aniversário da mais anônima pessoa uma espécie de anúncio de felicidade.

VI
Não sou um iconoclasta, nem um radical, imaginando que devemos varrer como lixo mercantil e publicitário o que temos acumulado sobre essa festa.
Contentemo-nos em descarnavalizar o Natal. Contentemo-nos em desmascará-lo, para que ele possa revelar-nos seu verdadeiro rosto.
Não precisamos mandar para uma cadeira elétrica ficcional nossos Papais-Noéis. Que eles continuem tirando fotos com bebês e crianças nos espaços iluminados dos Shoppings!
 Cumprimentemos, até, tais profissionais que se dispõem a andar de barbas compridas e vestes vermelhas e sedosas, calçados de botas, em tais espaços! Só não lhes permitamos a indecência de, à nossa frente, com ou sem barbas chuparem um picolé, ou comerem um sanduíche, mesmo  que seja vegetariano...
Podem fazê-lo, mas devem faze-lo em ambientes reservados, que os Shoppings precisam destinar a esses profissionais decorativos que pagam caro o seu salariozinho de carícias e afagos às crianças...

VII.

       O principal é redescobrirmos, sob tanta publicidade vã, sob tanta áudio-visualidade barata, o Invisível, que se oculta nas dobras de nossa loucura e pseudo-alegria: a chegada de Cristo a esse mundo, não por meio de um helicóptero que desce num estádio de futebol, ou noutro local público, mas silenciosamente, no coração de cada homem, que se despe do orgulho, que descasca sua vaidade como se descasca uma laranja, e - que de repente, não mais que de repente, descobre que até seu ex-Presidente mais popular está precisando um pouco de Deus nesta conjuntura, e que é preciso ajuda-lo com um pouco de oração, cujas beiradas do prato podem ir, inclusive, para nossa simpática e competentíssima Presidente Dilma, que também passou por um linfoma.
       Se vocês são generosos, dêem-me também umas lasquinhas das preces de vocês, pois também passei por um linfoma Não-Hodgkin, e apesar das garantias que me dá o inteligente, eficiente, e generoso oncologista, Dr.Luiz Antônio Bruno, de que estou clinicamente curado, é bom, se confiar plenamente só Àquele, de quem Jesus disse, um dia:
       - O Pai sabe o de que precisais. Sabe até quando cai um único cabelo de vossas cabeças...
      
Caro Sr. Ex-Presidente Lula, cara Dona Marisa,  coragem e confiança: eu também perdi todos os cabelos! Perdi até minha barba... Tenham confiança!
A barba, ao menos voltará.

         


2 comentários:

  1. Caro Armindo:
    Tuas palavras estão impregnadas pela sabedoria Divina, concordo em sua plenitude, visto que, estamos nestes dias enrolados pela malha social "alienados a pseudo-verdades"; Somos arrastados como peixes por essa rede.
    - Quando vamos nos libertar?

    Um grande abraço, muita luz saúde e paz.
    Alceo Luiz De Costa

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  2. O Natal é a comemoração do Cristianismo, embora se tenha tornado quase uma festa pagã, devido à influência comercial que nele se infiltrou. Por outro lado esta data não só difere entre continente, do sul e do norte, mas na história também. Caso formos pesquisar nos historiadores da época, esta data varia no dia e ano. Dizem até que o censo tão falado nunca houve. Existe muito mais a se especular sobre esta data, mas como cristãos a comemoramos neste dia, que um determinado Papa selecionou, reverenciando àquele que nos trouxe nossas crenças religiosas. Adoro o Natal. Obrigada por mais um texto tão inteligente e de agradável leitura. Desculpe se fui prolixa. Feliz Natal!

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