sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Bertrand Russel Pode Ensinar Algo aos Católicos!

 
I.
O grande historiador da filosofia – e admirável católico - Étienne Gilson, um dos mais respeitados intelectuais franceses do século XX, - observou, na sua La Philosophie au Moyen Âge (2 ed. Paris, Payot, 1952) que Tertuliano, que se converteria ao Cristianismo e se tornaria um defensor do Cristianismo perante a inteligentzia da época, acabou tornando-se um herege, justamente porque ele tinha sido, antes de ser católico, um mau pagão.
Ao contrário de São Justino, também pagão, por ter sido um bom pagão, soube compreender as razões que os não-cristãos tinham para não se tornarem cristãos!
São Justino é autor da célebre divisa:
       
- Tudo o que foi dito de verdadeiro alguma vez, é nosso! (isto é, é cristão).
        ( Segunda Apologia, Cap. XIII. Cit. por E. Gilson. Ib. p. 18).
       
Segundo Justino, Sócrates era “parcialmente cristão”, dado que tinha descoberto verdades fundamentais.
Dizia o ilustre Santo:

- Toda verdade é uma participação da luz do Logos, isto é, do Filho Unigênito do Pai, que se fez carne e habitou entre nós.
 Sócrates, segundo Justino, pertencia também aos cristãos.(Ib. p. 19).
Mais tarde, o grande humanista cristão do Renascimento, Erasmo de Rotterdam,  dirá:
 - São Sócrates, ora por nós!
(Ibid. p.21).
Justino nasceu em 132 d.C., e morreu, mártir, em Roma no tempo do Prefeito Junius Rusticus (163-167 d.C.).
Que aconteceu, porém, com o famoso Tertuliano (155-220 d.C.), autor das palavras: “O sangue dos cristãos é semente de novos cristãos”, e de uma frase maravilhosa, em cuja veracidade continuo a crer: “A alma humana é naturalmente cristã”?
Pergunto, outra vez: que aconteceu com esse grande retórico da literatura latina?
Morreu herege.
Foi excluído da comunidade cristã, apesar de ter sido, durante bom tempo, defensor corajoso da Fé.
Tertuliano caiu na presunção, na petulância de se achar o único cristão – por ser cristão! Segundo seus inimigos, foi ele quem cunhou a expressão:  
- Creio porque é absurdo...
Frase de uma gritante imbecilidade!
Tertuliano, que descobrira a Luz do Mundo em Jesus, enfatuou0se tanto que começou a desprezar as luzes menores que Deus havia dado aos pagãos. Tornou-se anti-filosófico, anti-sofístico, anti-racionalista, anti-tudo – como são hoje os fundamentalistas de todas as religiões, inclusive a católica.
Tertuliano possuía uma inteligência vivaz e um talento oratório extraordinário. Deixou-se, porém, arrastar pela sua própria retórica, terminando por enredar-se na própria auto-suficiência.
A melhor análise de sua vida e obra é a de Étienne Gilson, que em frases econômicas condensou tudo:

- Tertuliano, defensor da liberdade dos cristãos no Império Pagão, não mostrou a mesma veemência em defender a liberdade dos pagãos num Estado Cristão. Uma vez cristão, Tertuliano esqueceu as razões que tinha para ser, e atépara conservar-se pagão. Talvez ele tenha sido um mau pagão na sua juventude.
 (La Philosophie au Moyen Âge. p. 100).

Nosso século XXI está seguindo um caminho cheio de curvas de derrapagem: a dos radicalismos vergonhosos, ou – como diria Manuel Bandeira – “abestalhados”.
Os islâmicos pretendem que todo o mundo seja islâmico. Os cristãos pretendem que todos os islâmicos se convertam ao Cristianismo. Os cristãos já estão entrando num desvio evangélico: alguns pretendem que só eles possuem a verdade, e que ninguém, afora os cristãos, têm algo de verdadeiro a dizer.
Os cristãos estão querendo privatizar a Verdade, como se esta só pertencesse a eles. Amanhã ou depois, tais cristãos (com vocação herética, por sua absurda radicalidade) exigirão um copyright para o Evangelho, como se Cristo tivesse anunciado a Boa Nova só para eles, que são até capazes de se intitularem “o pequeno rebanho” – a que Cristo fez alusão, um dia.
Proclamarão, eventualmente, um “made in Cristianismo”, como existe um “made in China”, ou um “made in Japan”.

II.
       
Tudo isso é de um ridículo monstruoso!
Recuso-me a endossar tal Catolicismo  unidimensional, feroz e analfabeto.  
Não se pode confundir a universalidade da mensagem de Jesus, que ordenou que anunciássemos a Boa Nova “a todas as criaturas” – portanto, também aos confucianos, taoístas, judeus, islâmicos, primitivos da África,  bosquímanos, remanescentes tarascos, mais e zapotecas da América,  etc. – ordenando-nos que os convidássemos a ser batizados – com a  pretensão desumana de que não existe salvação para os não cristãos.
        Como não existe?
Não foi um mesmo e único Criador e Pai que os criou, a eles e a nós, que nos deu uma alma imortal? Como podemos supor que só se salvem os cristãos batizados, imaginando que bilhões de pagãos possam ser precipitados no Inferno?
Uma coisa é afirmar (e eu o afirmo como católico) que ninguém neste mundo pode salvar-se sem a graça de Jesus, sem os méritos que nos obteve com sua Paixão , Morte e Ressurreição; outra afirmar que essa salvação deverá ser feita segundo o figurino de cristãos fanáticos.
Além do Batismo normal, existe outra forma de Batismo, que é o Batismo de Desejo. Um cristão, que não conhece Jesus, pode salvar-se se, no fundo de seu coração, tiver um núcleo de bondade, de modo que, com esse “desejo”, esteja disposto a aceitar a Fé em Jesus, caso lhe sejam dadas condições concretas de a conhecer, de a entender, e de a abraçar.
A mensagem de Jesus é para todos os homens. Para a humanidade inteira, sem acepção de pessoas.
 Na hora em que Cristo assumiu a natureza humana, assumiu-a para todos, possibilitando a todos o regresso à condição de filhos adotivos de Deus.
O dito: Não existe salvação fora da Igreja necessita ser entendido aproximadamente assim:
- A ajuda sobrenatural, que Cristo trouxe à humanidade, foi confiada à Igreja. Esta Igreja - reunião dos que crêem Nele - é uma comunidade visível, que supõe outra comunidade invisível, a dos potenciais cristãos, que creriam em Jesus se o conhecessem à altura de seus conhecimentos pessoais, beneficiando-se de seus sacramentos, se conseguissem entende-los e praticá-los.
Portanto, dentro da Igreja Institucional,  a da Hierarquia católica: Papa, bispos, sacerdotes e leigos, existe uma outra Igreja, subliminal, que é a dos bons pagãos, a dos bons agnósticos, a dos bons irreligiosos, isto é, a Igreja de todos que, sem orgulho, sem rancor para com a vida e para com Deus, se declaram incapazes de aderir à realidade concreta de uma Fé, que lhes exige submissão intelectual aos Mistérios, e  à prática de mandamentos, entre os quais o Quinto, o Sexto, e  atualmente, o Sétimo Mandamento e o Décimo Mandamentos (“Não cobiçar as coisas alheias”), que são os mais difíceis para os cidadãos da sociedade globalizada, a  dos manipuladores de capitais voláteis, e de outras trampolinagens de nomes decorativos.
Este mundo confunde emulação com com- petitividade canibalesca.
Os Mandamentos de Cristo só podem ser levados a sério por bons pagãos, isto é, por homens obrigados primeiramente a ser homens, homens nascidos no pecado original (sem dúvida), mas homens normais dentro dessa anormalidade, que não vêem outra finalidade na vida senão a de gozarem, à sua maneira, todas as ilusões possíveis.
 Contanto, porém, que observem uma regra da Ética Cristã (e Universal), que não pode jamais ser violada:
-Deves fazer o bem, e evitar o mal.
Na sua versão mais simples, ela é formulada assim:
 - Não faças a outrem o que não desejarias que o fizessem a ti.

III.

        Daí o título desse breve ensaio: Bertrand Russell pode ensinar algo aos católicos...
        Esse homem que, em 1950, conquistou o Prêmio Nobel de Literatura, foi um filósofo e matemático notável. Escreveu um libelo contra os cristãos que merece ser lido pelos cristãos, embora o libelo em si transborde de presunção, orgulho, e vaidade.
Russell parece experimentar uma raiva imensa contra a auto-confiança dos cristãos. Por isso, retruca-lhes na mesma moeda.
 A uma bofetada “santa” replica com outra bofetada diabólica.
E dizer que não existe autor mais tolerante do que ele, Bertrand Russell, quando não se se põe a cutucaer os cristãos com espeto curto, ou à maneira de um um toureiro andaluz, que enfurece um miúra com sua capa de vermelho sangrento...
        Os satíricos da Humanidade têm razão de rir da humanidade!
Tem razão até de escarnecê-la!
Quem somos nós, homens, que um salmo bíblico acha tão ridículos, que chega a sugerir que Deus é obrigado a curvar-se no Céu para poder ver-nos?!
Somos de uma pretensão inimaginável!
       
Bertrand Russel, quando não apanha um fuzil telemétrico e se põe a alvejar cristãos, é um bom pagão, um indivíduo que os cristãos deveriam ler para ver o quanto de paganismo cada cristão precisa ter dentro de si para ser...um bom cristão!
Russel, com um pouco menos de presunção, poderia tornar-se cristão.
        Sugiro aos cristãos, como eu, que leiam seu livro, A Conquista da Felicidade (Trad. de Luiz Guerra. Rio de Janeiro, Ediouro, 2003).
        O livro é constituído de uma coletânea de ensaios sobre a Competição, o Tédio e a Excitação, a Fadiga, a Inveja, o Sentimento do Pecado, a Mania de Perseguição, o Medo da Opinião Pública: estes são considerados  as CAUSAS DA INFELICIDADE.
        Na segunda parte, Russel apresenta um varal com as CAUSAS DA FELICIDADE.
Segundo ele, essas seriam: o Entusiasmo, a Afeição, a Família, o Trabalho, os Interesses Impessoais, o Esforço e a Resignação.
        Por incrível que pareça,o filósofo inglês é uma espécie de pedagogo para a ética cristã.
Insisto: não se pode ser cristão sem um mínimo de bom paganismo, bem implementado, não paganismo Tertuliano tinha.
Numa sociedade como a nossa, de uma competitividade absurda, pior que a de animais esfaimados diante de uma carcaça, os cristãos
não têm a mínima reação “cristã”!
 Acham-na normal.
São capazes até de a defenderem, como exigência “cristã”.
Bertrand Russel, um pagão até certo ponto semi-cristianizado, anatematiza a competição – tal qual a vemos praticada em nosso mundo. Mostra que a mola propulsora da competividade não é o desejo de adquirir bens, de ter comodidades, de conseguir um bom café da manhã (como os cafés coloniais que fazem as delícias dos gaúchos na Serra!)... Nada disso!
 Russel mostra que competir, hoje, é “bom” porque nos possibilita “eclipsar nossos vizinhos”.(p. 38).
Afinal: que são o grande executivo, o clínico e o cirurgião de sucesso, os homens de “salários polpudos  - diz Russell – senão os que transitam pelas altas esferas do poder”? (p. 38)
 A ironia de Russell torna-se aqui incandescente: são homens  (prossegue ele) “que têm uma casa encantadora, uma esposa encantadora, filhos encantadores,”que levantam muito cedo e saem correndo para seus ambientes de trabalho, e depois voltam cansados para casa, com o tempo exato para vestir-se para o jantar! São homens “que nada sabem sobre seus filhos, sobre suas mulheres; que provavelmente não têm amigos, para os quais oslivros parecem tolices, a música, coisa de intelectuais.
Por sua vez, esses executivos e grandes endinheirados, são para as mulheres desses, na opinião delas, que naturalmente não a expressam, “uns bobões”. (p. 40).
Russell refere-se, também,  aos investidores: “é difícil ser grande sem ter dinheiro”.(p. 41)
Eis um diagnóstico arqui-evidente, mas que ninguém aceita, nem se lhes ofereçamos chapas de tomografia computorizada:

- A raiz do problema se acha na excessiva importância que é dada ao êxito competitivo como a principal fonte de felicidade.(p. 41)

Russell lembra, ainda, que “os prazeres tranqüilos” foram banidos de nossa sociedade.
(p.44).
A conclusão de Russell mereceria ser objeto de reflexão, também para os psicanalistas:

- Seja como for, o prodigioso êxito desses modernos dinossauros, os quais, como seus protótipos pré-históricos, preferem o OPODER à INTELIGÊNCIA, está fazendo com que todos os imitem (...). (p. 44-45).
Leiam, ainda, o que Russell – que é ateu! - escreve nas páginas 154-155 sobre Afeto e Sexo.
Enfim, os cristãos só têm a ganhar lendo esse livro de Russel, A Conquista da Felçicidade, desde que o façam criticamente, responsavelmente, com bom humor.
Depois, ó amigos, tentem (como eu) ser cristãos!
A experiência nos tornará mais próximos dos modelos de todos os cristãos, a Virgem Maria e José, e sem dúvida porá no refrigerasdor, por algumas horas ao menos, nossa fatuitade e nossa presunção.


          

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