domingo, 13 de novembro de 2011

Cristo Estará Ainda Presente no Mundo Globalizado?
        
I.
         No Ano da Graça de 2011, um cristão, que olha ao redor de si, tem a impressão de que a promessa de Cristo: “Eu estarei convosco até à consumação dos séculos” (Evangelho de São Mateus 28,20) parece não estar sendo cumprida.
         Duvidaremos disso?
Um cristão não pode duvidar das palavras de Cristo. Pode – se quiser – ir-se embora, pode dar-lhe as costas, enfurecer-se contra Ele.
         Duvidar jamais!
         No entanto, quem de nós, entre seus fiéis, se sente seguro? Quem O encontra em nosso mundo doido, acelerado, com supermercados e shoppings enxameados de gente, com uma enxurrada de carros que parecem tigres ao nosso encalço, com edifícios que rivalizam com as Torres de Babel imaginadas pelos artistas medievais e renascentistas?
         A realidade sobrenatural, que Cristo trouxe ao mundo, não esteve, nem estará vinculada aos quadros geográficos e históricos de sua época.
Da mesma forma como Ele esteve na Palestina de seu tempo, está no mundo globalizado de hoje. Está – e está dito.
         A questão, para um cristão, é outra.

II.

         A vida humana de qualquer cristão não se distingue muito, no cotidiano, da vida de qualquer pagão. O cristão, em relação ao pagão, oferece apenas um pormenor transcendente: ele é um batizado.
Ou seja, recebeu um dos “Sacramentos”.
Que é um sacramento?
É um sinal sensível, que, devido aos méritos infinitos da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, eleva o cristão a um tipo de vida acima de sua natureza inicial, a de seu nascimento.
Nascemos todos pagãos. Com o batismo, recebemos um DNA espiritual, de outra natureza que o DNA biológico, que nos habilita a ter Fé, Esperança e Amor em Cristo. Esse tripé, invisível é claro, é a base da existência cristã.

III.

         Os demais sacramentos: a Confirmação, que importa numa ajuda especial do Espírito Santo para que o cristão possa combater os ventos tempestuosos que tentam apagar-lhe a chama da Fé, da Esperança e do Amor; o Matrimônio, que é uma ajuda sobrenatural para que o marido e a mulher possam resistir às ilusões do sexo, que tende a propor aos casados formas alternativas de prazer (que, na condição de prazeres, são prazeres de verdade), mas que, em termos de amor, são armadilhas sexuais e emotivas, que desnorteiam a relação entre os esposos, a qual é de natureza pessoal, ou como dizem alguns teóricos da sexualidade, de natureza oblativa, uma entrega consciente e definitiva; o sacramento da Ordem é uma designação sobrenatural que coloca o indivíduo numa espécie de serviço social a bem da comunidade dos crentes; finalmente a Unção dos Enfermos que, nos momentos dolorosos da existência, traz aos enfermos uma sorte de consolação (também sobrenatural) aos pacientes.
         Todos esses sinais sensíveis simbolizam os dons de Deus e os concretizam na existência corporal e psíquica do imndivíduo. Constituem a presença eclesial de Cristo no meio de nós.
Deixamos de falar num Sacramento, que é o maior de todos: o da Eucaristia.
 Esse Sacramento deixa o cristão desarmado perante qualquer ser humano que o interrogue. Se é verdade que os outros sacramentos significam e produzem a graça, eles ainda são toleráveis pelos nossos irmãos pagãos. O Sacramento da Presença de Jesus (com seu Corpo Ressuscitado sob as aparências de uma frágil hóstia ou pedaço de pão, isto é não sujeito às necessidades das fisiologia e outras), com sua Alma (Humana), e com sua Divindade, esse Mistério é, realmente, para “épater le bourgeois”, e não só o bourgeois, mas qualquer cidadão deste planeta: o islâmico, o budista, o judeu, o confucionista, enfim, qualquer homem pertencente a qualquer religião do mundo, que não a Católica, a Luterana, a Presbiteriana, e outras que aceitam à Revelação de Cristo sobre esse Mistério.

IV.

         Digamos, então: Cristo está presente no mundo globalizado, mesmo nos aeroportos do planeta, nas suas áreas de concentração popular, nos centros comerciais, nos estádios, etc.
         É ridículo tentar limitar a presença de Cristo.
Ou ela existe, e abarca o mundo,embora o mundo não a abarque, nem física nem intelectualmente, ou ela é negada.
         Repito: o problema é outro: o problema de um cristão é descobrir a presença de Cristo nas calamidades naturais, nos tsunamis, nos atentados terroristas, na Guerra da Líbia, no desemprego maciço que atormenta milhões de lares, na ganância veloz e insaciável dos capitais voláteis, nas faces (ou máscaras) dos políticos que se reúnem em Bruxelas, Paris ou New York.
         Se me perguntarem como está Cristo nesses fenômenos naturais e sociais, respondo: sei que Ele está em todos fenômenos deste mundo, mas não sei como.
         Se alguémme pressiona, impolidamente, respondo-lhe:
         Quer fazer-me a gentileza de ler, ao m,enos uma vez na vida, uma das obras-primas da reflexão humana de todos os tempos? Então leia o Livro de Jó, um dos livros da Bíblia. Entre outras coisas, cito uma das respostas metafóricas de Deus à angústia humana
         - Quem é que vem denegrir os meus planos,
Falando sem saber o que diz?
Se tens coragem, prepara-te,
Para responderes às perguntas que te vou fazer.
Já que pretendes saber a verdade, diz-me:
Onde estavas, quando eu organizava a terra?
(Livro de Jó, capítulo 38, 1-4).
         Se já é difícil responder às perguntas de um poeta, que se põe do lado de Deus, imaginem como não o será, se o próprio Deus quiser falar-nos!
         Alguém dirá:
         - Mas Cristo não deixou sinais identificadores de Sua Presença?
         Deixou.
Nossos olhos, todavia custam a vê-los.
A realidade é que nós, inclusive os cristãos, queremos que Cristo esteja como desejaríamos que Ele estivesse: sensível, atendendo as pessoas. Ao dispor das pessoas.
 Tenho certeza de que Ele está próximo às pessoas, e que as atende. Não sensivelmente.
 Estamos no Reino da Fé.
 As palavras que o próprio Jesus dirigiu a Tomé ressoam em nossos ouvidos:
         -Tomé, tu creste porque me viste, e tocaste nas minhas chagas. Felizes os que crerem sem nunca terem visto!
(Evangelho de São João, cap. 20, 28).

V.
         Ocorre que...Cristo declarou que O encontraríamos neste mundo!
Onde? Quando? Com quem?
As afirmações de Cristo não admitem réplica.

Leiamos:

-Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, sentar-se-á no seu trono glorioso. Todas as nações se reunirão diante dele, e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. Colocará as ovelhas à sua direita, e os cabritos à sua esquerda. Então, o Rei dirá aos que estão à direita: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, era peregrino e me acolhestes, nu, e me vestistes, enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim. Perguntar-lhe-ão os justos: “Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer? Com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos peregrino, e te acolhemos, nu, e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou na prisão, e te fomos visitar? Responderá o Rei: “Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes”.
(Evangelho de São Mateus, 25, 31-46).
Não reproduzi a parte simétrica contrária a dos bons.
Mais uma vez, diremos que Cristo não está presente no mundo globalizado?
Está.
Mas, para todos os efeitos, Sua presença é esnobada. Mais do que isso, é uma presença insultada, ridicularizada.
Lendo-se as declarações de Jesus, entendemos porque Leon Bloy dizia que a única tristeza que existe é a de não sermos santos.
Santos?
É possível que apenas tenhamos chegado à Pré-História do Cristianismo, o Evangélico.
Já a deixamos para trás, em termos culturais. Em termos de assimilação do Evangelho, não estaremos ainda nela?
Nós, cristãos, católicos e de outras denominações fraternas, pedimos aos pagãos, aos ateus, aos agnósticos, que não nos julguem.
O Cristianismo Prático do mundo globalizado é um Cristianismo extremamente imperfeito.
Do ponto de vista social e cultural, que é o Cristianismo nesse pretendido mundo globalizado?
Um fermento, porque Cristo prometeu atuar nele, mediante seus sacramentos, e sua Graça. Como realização histórica, porém, o Cristianismo está ainda num estado  inicial.
Aceitá-lo como tal, é aceita-lo na sua condição pecadora.
Quer dizer que então não há Santos entre nós?
Existem, e em maior número do que pensamos.
Mas diante dos 7 bilhões de seres humanos, o que é a presença cristã nos negócios, nas bolsas, nos governos, nas universidades, na cultura, etc.?
Longe de nós pretender o retorno a uma situação de Cristandade, a uma situação histórica de maioria católica. Se fomos chamados de “pequeno rebanho” pelo próprio Jesus, é porque falta muito para que haja um só rebanho e um só Pastor.
Aceitar a nossa condição de cristãos precários, é preparar-nos para uma nova etapa de Evangelização e Presença Real – não de Cristo, que sempre esteve presente, e sempre estará – mas de nossa presença, a de cristãos que  não nos assumimos como tais, que não temos nem 15 minutos por dia para dedicar à oração, à leitura dos textos sagrados, que não encontramos tempo para um mínimo de vida sacramental, que não enfrentamos a realidade das forças forças homicidas de Guerra e, neste preciso momento, as forças da exploração maciça dos agiotas e delinqüentes financeiros internacionais, como Paul Krugman chamou a George Soros...
Nós, cristãos, comos os pafgãos, nossos irmãos é verdade, vivemos uma vida de consumidores compulsivos, sem nos apercebermos que as riquezas do mundo são limitadas, que a ecologia precisa de quem lute por ela, etc.
Noutras palavras: a grande afirmação cristão do momento seria um combate permanente, sem tréguas, às desigualdades sociais.
Dirá um gladiador anti-cristão:
-Tudo isso é maravilhoso, mas utópico. Vocês, cristãos, são uns sonhadores!

VI.

Tenho a convicção de que tudo que se fizer, a favor de Cristo e do seu Evangelho, ajudará a evidenciar uma coisa que nem Renan, nem seus piores colegas  contemporâneos imaginaram: o triunfo final do Salvador.
Ele calou-se perante Pilatos que, arrogantemente, lhe perguntava pela Verdade, e cala-se ainda hoje à frente de cientistas petulantes e cheios-de-si. Mas Cristo nunca recusou a verdade aos pequeninos, nem quando disse:
- Eu venci o mundo!
  (Evangelho de São João 16, 33).
Remato estas considerações, citando-lhes Dante, que por sua vez está citado por Freeman Dyson, um grande cientista contemporâneo, ex-Professor do Institute for Advanced Study da Universidade de Princeton

         - Para descrever a metamorfose da humanidade enquanto embarcamos em nossa imensa jornada pelo Universo, volto à humilde imagem da borboleta. Tudo que possa ser dito já o foi, há muito tempo, por Dante, no Canto X do Purgatório (da Divina Comédia):
         Vós, orgulhosos cristãos, almas danadas e pequenas,
que pelas fracas luzes de vossas mentes distorcidas
pensais que ides prosperar mesmo quando caís,
não enxergais que sois vermes, todos vós,
cada qual nascido para ser uma borboleta no céu,
voando indefesa na direção do Juízo Final?”

(Infinito em Todas as Direções. Do Gene à Conquista do Universo. Trad. de Fernando S. Vugman. São Paulo, Editora Best Seller, 1988 (?). p. 323).




             

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