sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Eugenio Dittborn e Regina Silveira Valem uma Visita à Bienal do Mercosul.
      
I.
Visitei a Bienal do Mercosul num domingo de calor...senegalesco! Ou...de calor nordestino?
       Senhores organizadores da Bienal: só um apaixonado por Artes Visuais - ou por curiosidades macroscópicas da bravia criatividade plástica contemporânea  - pode dar-se ao luxo de percorrer tantas distâncias para desfrutar da criatividade de nossos artistas geopoéticos.
Não daria para concentrar as obras num espaço menor?
       Na última Bienal do Mercosul, num dos Armazéns do Cais, nas imediações do mais próximo ao Gasômetro, vi um obeso lagarto de papo amarelo atravessando o caminho na minha frente, indo (suponho!) a chimarronear nalgum galpão crioulo aberto de par em par aos dardos do sol.
Vacinado contra a crueldade em relação a qualquer bicho (salvo cobras, que estas não consigo tolerar!), fiquei contemplando o lagartão pachola, que desfilava com  a imponência de um mini- jacaré.
       Abstraiamos da ecologia.
       Em princípio, não gosto do carácter super-mercadista das Bienais. Ou antes: do carácter de mega-shoppings que exibem descaradamente.  
Sou a favor do que está proporcionado ao homem, que por maior que se imagine, é um macaco nu de aproximadamente ,170-1,80 m. de altura.
 Os espaços contemporâneos parace que foram projetados para gigantes ou ciclopes, ou para auto-complexados que se desmesuram mediante a imaginação...

II.
       Depois, portanto, de transpirar obscenamente, de me desafogar com algumas interjeições vulgares, comecei a percorrer os Armazéns do Cais.
Olhei com atenção as geopoéticas dos armazéns A4, A5 e A6, onde “artistas colocam em cheque a noção de nacionalidade, mostrando diversas formas de medir e representar o mundo. Algumas micronações – pequenas nações com ou sem território – também fazem parte desta exposição como zonas de autonomia poética”.
É o que diz o folheto, ou dépliant do evento.
       Parabéns aos promotores da Bienal, e aos autores do dépliant.
A temática está convenientemente definida.
As pessoas que, dentro dos Armazéns, custodiavam as obras, foram gentis no atendimento, e na prestação de informações.
       Gostei do que vi?
       Gostei.
Não digo que me entusiasmei.
Mas senti seriedade nas escolhas, no eros provocativo dos artistas, e – com a ajuda distante do espelho líquido do Guaíba, que àquela hora rebrilhava como um  punhal de sarraceno - deu para entender o “geo” das “poéticas”.
       Algumas instalações me pareceram curiosas, outras exóticas. Em nenhuma, porém, senti a pretensão de “épater lê bourgeois”.
Os artistas estão, mesmo interessados em nos despertar sentimentos e emoções férteis do ponto de vista psico-estético, e do ponto de vista sócio-político.
Quem quer, aproveita. Quem não quer quer, e entra nos Armazéns com o ar superior e esnobe de quem já viu tudo, não se dispondo a fazer a leitura que os artistas propõem, pegue sua mochila, e vá zanzar noutra freguesia, vá corretear por aí – como dizem nuestros hermanos de habla castellana.

III.
       De tudo o que vi nos Armazéns, o que mais me im- pressionou foi o vasto painel da Regina Silveira, uma sorte de diagrama icônico e irônico da América Latina, que me causou a estranha sensação uma Neo-Guernica, embora esse o painel da Regina nada tenha a ver (diretamente) com o painel de Picasso.
Regina não fez nada à moda de Picasso, mas tudo à moda dela. Portanto, Regina oferece-nos uma criação válida, lírica até certo ponto, com um sarcasmo elegante, em que nossas misérias e grandezas são postas a nu.
       Depois da canseira dos Armazéns, e de uma breve passagem pelo Gasômetro, onde apreciei mostras de fotografias que me pareceram boas, mas não me cativaram, fui ao MARGS onde, como sempre, deparei com objetos dignos de interesse, a começar pelas obras de Stockinger, e a terminar pela instalação lumínica (sofisticada) de minha ex-aluna Lúcia Koch.
Do segundo andar, olhei várias vezes, para o interessante e imenso puzzle-tapeçaria (?) no pavimento do primeiro andar. Não entendi exatamente sua finalidade. É claro que exibe uma função decorativa.
Em outras partes do MARGS interessei-me por outros objetos artísticos.
       Valeu a pena, amigos gaúchos, de todas as colorações ideológicas, de todos os gostos, de todos os ponchos e cuias, de todos os espetos e cavalos, de todos os matizes folclóricos!
  A propósito, está boa a livraria do MARGS!
Sempre esteve boa, porém hoje ela está mais diversificada, e com preços...
Bem, os preços são os preços! Razoáveis em termos de edições de luxo, e objetos de boa feitura ghráfica, porém não tão razoáveis em relação às nossas depenadas algibeiras.

IV.
Quando, enfim, o elevador do Centro Cultural Santander me guindou ao segundo andar, donde desci, devagarinho, para o primeiro, experimentei uma grande satisfação.
Cheguei a pensar – devido ao cognome alemão do artista – que podia tratar-se (imaginem?) de uma autêntica vocação de jovem artista gaúcho.
Oh, ignorância de velho professor - que já não timbra em estar à la page !
Basta-me, hoje, estar apenas diante de um objeto de arte!
       O tal Eugênio Dittborn não tem nada a ver com os gaúchos. É um chileno.
 Não só me agradou, me impressionou, mas até me comoveu. E se me permitem uma debilidade estética, em determinados momentos me enterneceu!
Dittborn é um artista excepcional, não direi genial.
Devemos ser mais respeitosos com as palavras.
Gênio é coisa para alguns poucos de nossos contemporâneos: Rothko, Henry Moore, Wols, Pollock, Tobey, e mais perto de nós Francis Bacon, talvez Twombly Cy.
Dittborn, sim senhores, é um mago, que, mediante materiais aparentemente comuns, nos eleva à mais esplêndida acidez da crítica social.
Não é retórico, é cirúrgico. Sabe anestesiar os visitantes, lisonjeando-lhe os sentidos com reminiscências subliminais  de outras artes. Mas não se exibe: faz tudo como se estivesse escrevendo prosa, prosa pura. No entanto, o que oferece aos nossos olhos super-saturados e ao nosso senso estética deprimido, é uma injeção de adrenalina. Graças a essa adrenalidade óptica, aprendemos a ver melhor.
E a...ver-nos!
A ver inclusive os outros, sobretudo os hipócritas e mascarados que nos rodeiam!
A livraria do Santander, também, está excelente.
O café do Santander, muito bom.
       O atendimento das recepcionistas, mais do que polido, é atendimento de moças preparadas para o ofício, que nos oferecem, de lambujem, algumas louçanias da beleza gaúcha.
       Quanto ao resto, OBRIGADO, Senhores Patrocinadores da Bienal do Mercosul! OBRIGADO, também, aos Curadores e demais  Assessores Culturais do evento.

V. 
Após ter visto, ainda que apressadamente, os objetos da Bienal do Mercosul, faço o que fazia um poeta brasileiro, meu Mestre, Murilo Mendes, na época em que era funcionário de um Banco.
Ao chegar ao serviço, Murilo Mendes inclinava-se quase até ao chão, de corpo inteiro, e cumprimentava respeitosamente o Cofre!
Sim...o Cofre!
       Não antipatizo totalmente com ela.
Acho que um cofre, aberto aos humilhados e ofendidos, como o de Bill Gates e sua esposa Melinda, pode ajudar-nos a ser mais felizes, e principalmente, pode ajudá-los, a eles, a ser maias felizes, ou felizes simplesmente.
       Sr. Justo Werlang, Sr. Gerdau e outros, Srs. Empresário Patrocinadores, da Petrobrás, da Vonpar, da Pompéia, da Panvel, do Itaú, do grupo RBS, do Santander, do Banrisul, da CEEE, da Unimed (cujo nome desta vez não vi entre os Patrocinadores da Oitava Bienal):

 no Cofre homenageio
 o Humanismo,
que sei existir nos senhores!

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