sábado, 5 de novembro de 2011

Ler Por Dentro: Que Tal Vocês Lerem, Também, Esse Livro?

      Um amigo poeta contou-me que uma editora lhe pediu, para exame, poemas de sua autoria.
 Ao encontrar-se com a “editora” – que, no caso, não era uma casa de edições, mas uma mulher em carne e osso, elegante, inteligente e atilada – informou-lhe que os seus poemas eram inéditos.
A mulher, mal ouviu essa  fatal palavra, atalhou-o:
- Todos os poemas no Brasil são inéditos, uma vez que ninguém os lê! 
Quando eu era jovem – e isso lá vai quase um século! – acreditava que meus poemas, publicados no SuplementoLiterário do Correio do Povo, o celebrado Correio da época, eram devorados pelo público. Devorados, não digo, mas ao menos aperitivados!
Com o transcurso dos anos, apercebi-me de que eu era, praticamente, o único leitor de meus versos.
 Mais tarde, descobri que existiam alguns gatos pingados (assim os chamam os entendidos, embora eu nunca tenha sabido por que...) que também os liam.
Com mais dois ou três transcursos do tempo, descobri que os famosos professores de literatura das Universidades dispõem de tão pouco tempo que nem lêem os autores clássicos.
 Como teriam tempo para ler os autores mais recentes, principalmente os recentíssimos, mal saídos dos cueiros?
Ah, vaidade das vaidades, quanto custamos nós, autores, a deixar-te!
 É verdade que um autor, que chegue aos 50 anos, e ainda se julgue autor, no sentido europeu da palavra, deve imediatamente consultar um psiquiatra, ou até mesmo, um neurologista. Nunca um psicanalista! Estes tentarão mostrar-lhe os próprios poemas, que são as elucubrações que tecem em torno de enfermidades oníricas. Literalmente oníricas.
Admiro-me de que pouca gente se tenha dado conta de  Siegmund Freud foi um grande Poeta.
 Só em segundo lugar foi um pesquisador da mente que, de resto, teria contribuído mais para a saúde mental dos povos se não tivesse insistido peertinazmente nas suas interpretações dogmáticas. Freud, no fundo, foi um Papa da Psicologia Profunda. Quando o leio, tenho sempre a impressão de estar lendo uma Encíclica de João Paulo II, ou melhor, do Papa Bento XVI.
Descobri – confesso-lhes – que o bom psicanalista, não é o que fica totalmente calado, como um que tive a honra - e o relativo proveito - de freqüentar, nos meus tempos de obnubilação psicológica, nem o que veste uma toga de Professor da Universidade de Upsala, e nos faz uma exposição de motivos e contra-motivos, de uma sutileza tal, que até o Bom Deus fica embaraçado...
O bom psicanalista é o que, modestamente, escuta os atropelos mentais dos seus pacientes (ou clientes), e lhes perscruta os cipoais emotivos. Depois, depois, com um sorriso de imensa benevolência, os convida a superá-los sem covardia, agüentando tudo no osso do peito, corneadas, traições suplementares, alfinetadas nas nádegas, e picuinhas do gênero, convidando os pacientes a acionar todas as reservas para não continuarem bestas.
 Admiro, de modo especial, o psicanalista que, de súbito, iluminado por uma espécie de carisma zen-budista, exclama:
- Não seria bom, talvez, colaborarmos com as técnicas de auto-análise e catarse, valendo-nos de algumas pílulas de fluoxitina, ou de outra droga mais recente e eficaz?
Ah, quando um psicanalista chega a esse estádio de auto-percepção, de domínio técnico de sua profissão, sou capaz até de fazer espoucar um foguete nos céus de porto Alegre, desses que os passionais populares reservam às vitórias do Internacional ou do Grêmio.
Volto a falar na minha vida de autor gaúcho, de autor brasileiro - se é que é lícito empregar a palavra autor para um indivíduo que, além de compor seus livros, tem de inventar um leitor para eles.
Hoje, com os prêmios que ganhei, com os convites do Exterior que me fizeram para conferências, até que me sinto menos solitário, porém continuo tão, ou mais desconfiado, do que antes.
Tenho descoberto que já não se lê nem Shakespeare, nem Camões, nem Cervantes, e que o nosso lidíssimo Machado de Assis não passa de um blefe.
Pobre Machado!
Hoje virou o garoto-propaganda internacional da literatura do Brasil do Agronegócio.
Imaginem: ele entrou na lista dos Gênios de Harold Bloom!
Abram o livro GÊNIO (Os Cem Autores Mais Criativos da Hist[ória da Literatura)(Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2003).
No capítulo IX (Yesod) Lustro 17, p. 665 e seguintes (mais especificamente, nas páginas 688-693), topareis com Eça de Queirós e Machado de Assis, os dois representantes da ficção em língua portuguesa, aos quais Bloom acrescenta Guimarães Rosa e Clarice Lispector.
Harold Bloom considera Machado “o mais original dos romancistas brasileiros”. Declara-o “uma espécie de milagre”, “uma demonstração de autonomia do gênio literário, quanto a fatores  como tempo e lugar, política e religião, e todo o tipo de contextualização que supostamente produz a determinação dos talentos humanos”.(p. 688).
Adiante, Bloom descreve o enredo das Memórias Póstumas, revela seu apreço por Dom Casmurro no lado belo e sutil da obra, suscita dúvidas sobre os “altos e baixos” de Quincas Borba, e se diverte com as repressões sexuais brilhantemente escamoteadas do personagem com Virgília, a quem ela vê, pela última vez, no leito de morte.
Bloom conclui que o livro é cômico, inteligente e evasivo.
Remata, com evidente respeito pelo nosso maior gênio:
- A genialidade de Machado de Assis é manter o leitor preso à narrativa, dirigir-se a ele freqüente e diretamente, ao mesmo tempo em que evita o mero “realismo” (que jamais é realista).
Bloom não refere que, na sua época, a edição de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de 2.000 exemplares, levou dez anos para esgotar-se.
Nós, autores contemporâneos, principalmente autores gaúchos, que vivemos na periferia da Côrte, que podemos pretender diante dessas evidências?
Pessoalmente, não posso queixar-me. Entrei até nos Dez de “Ao Pé da estante, da Zero Hora e da RBS.
        Obrigado, queridas amigas, Cláudia Laitano e Adriana Franciosi.
Obrigado aos patrões de vocês, que autorizaram tal privilégio a este poeta.
Vou aproveitar-me disso para convidar os leitores da Feira do Livro de Porto Alegre – um milhão e setecentos? – para que se interessem pelo meu melhor livro de ensaios, um livro breve, de apenas 126 páginas, mas onde coloquei o que de melhor extraí de meus neurônios, antes que eles abandonem este mexidíssimo planeta.
Leiam sobretudo o que escrevi na Terceira Parte do livro, da página 81 à página 126.
O livro custa apenas 15 reais.
Ou nem isso!
Foi editado pela Editora Pradense.
Quem não se interessar pelo meu livro, interesse-se, ao menos, pelo meu Editor, o Ricardo Fonini, que tem um jeito de hippie retardatário, mas que é um sujeito autenticamente apaixonado por literatura, e tem mais bom gosto e cultura do que muito figurões dos círculos ditos literários...    

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