segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Grécia e Itália: o feitiço contra o feiticeiro?
I. O CASO DA GRÉCIA
        Estou mais do que aturdido: a Grécia foi a civilização-mãe do Ocidente, visto que ela, de certa maneira, recolheu a Herança Mesopotâmica e a Herança Egípcia, unificando-as numa primeira síntese, na qual imprimiu sua fisionomia intelectual, a de seus filósofos, poetas trágicos e satíricos, na qual acabou por se enxertar, decorrido algum tempo, a fisionomia de outra civilização: a romana.
        O Cristianismo, que veio mais tarde, parasitou-se na Civilização Greco-Romana, na sua terceira fase, a do Helenismo, o qual se tornara cosmopolita.
Que língua, por exemplo, aprendeu no berço o Apóstolo Paulo, o segundo fundador do Cristianismo? O grego.
Paulo nascera em Tarso, na Cilícia. Assimilou na sua primeira leitura da Bíblia a Versão Grega dos Setenta, realizada em Alexandria no III século a.C.
 Posteriormente, com sua ida a Jerusalém, Paulo aprimorou seus estudos de teologia judaica na Escola de Gamaliel, que ensinava em hebraico.
        Dado que Paulo propunha-se a ser o Apóstolo dos Gentios (ou Pagãos), ele foi obrigado a escrever na lúingua grega suas Cartas aos Cristãos.  
Todo o Novo Testamento foi escrito em grego, embora se pense que alguns Evangelhos tenham sido, inicialmente, escritos em hebraico, ou aramaico, e depois traduzidos para o grego.
        No passado, alguns dos primeiríssimos Padres da Igreja viram na difusão da cultura helenista um propósito de Deus, que por esse meio facilitara a internacionalização (ou catolicidade) da Mensagem de Jesus.
        Nós, cristãos, somos espiritualmente semitas, devi- do às raízes bíblicas do Antigo e do Novo Testamento,  e culturalmente greco-latinos porque, foi através do “batismo” de mitos e ritos greco-latinos que o Evangelho se materializou nos seus símbolos e imagens.
Donde procede, por exemplo, a imagem da Orante, que terminaria sendo a inspiração longínqua da imagem da Virgem Maria? Da Pietas Romana. E a imagem do Bom Pastor? Do mito grego de Orfeu e Eurídice.
        A Civilização Cristã, portanto, paga um pedágio altíssimo a todas essas fontes de influências e confluências.
Sabemos que a Primitiva Arte Cristã, a das Catacumbas, uniu-se à arte dos mosteiros da Palestina e da Tebaida, e assim deu origem à Arte Bizantina que, mais tarde, nos séculos XII-XIV, possibilitaria a Cimabue e a Giotto, e à Escola de Siena, a revolução do Realismo Ocidental, que aparece, límpido e insuperável, nos afrescos de Giotto em Assis e Florença.
Giotto é considerado o Pai da Pintura Ocidental Moderna. Sabemos que os mosaicos de Ravenna, e os afrescos das igrejas monásticas da Sérvia, sobretudo a do Mosteiro de Nerezi, tiveram um papel decisivo na criação de um dos motivos iconográficos cristãos mais importantes, o da Deposição do Corpo de Cristo, do qual procedem as Pietàs de Miguel Ângelo, precedidas, é claro, por outras figuras do mesmo tipo, mais próximas de seus modelos orientais.
       
II.

Que vemos suceder na Grécia na atualidade, isto é, em 2011?
        A infeliz Grécia que já em 1543 d.C. caíra sob os golpes do Sultão turco Maomé II – a Famosa Queda de Constantinopla ou Bizâncio – que transformou Bizâncio em Istambul.
No século XIX, após uma luta feroz contra os Turcos, os Gregos proclamaram sua Independência, reconstituindo, porém só parcialmente, sua antiga extensão territorial. Recuperaram o coração da Grécia antiga, Atenas.
        A Grécia de hoje está, por assim dizer, falida do ponto de vista econômico, com uma qualidade de vida que humilha o povo que foi o berço cultural do Ocidente.
Os jornais mostram, diariamente, jovens revoltados, que atiram pedras contra a polícia, a qual os afugenta mediante bombas lacrimogênicas.
        Perguntemo-nos: de que vive, fundamentalmente, a Grécia?
        De Turismo, da lembrança de seus monumentos do passado, tanto pagãos como cristãos.
 Recentemente, uma amiga, professora universitária de História, em Porto Alegre, e seu marido, um ex-engenheiro da Embratel, resolveram fazer um tour pelos caminhos do Apóstolo São Paulo. Desse tour trouxeram-me como mimo um livro: les Missions de Saint Paul en Grèce. (Atenas, Éditions Haitalis, 2003).
        Li, e percorri as ilustrações a cores das viagens do Apóstolo, cujos ecos da mensagem de Jesus ressoam nas suas Cartas aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, aos Tesalonicenses. Todos eles eram cristãos de origem grega.
        Senti uma espécie de dor íntima ao visualizar os lugares onde o Apóstolo pregou.
Que existe ainda por lá?
Colunas, algumas inteiras, outras mutiladas, arcos semi-desfeitos, paisagens bucólicas onde é possível ouvir o vento assobiar, e descobrir ilusórias silhuetas dos ouvintes- fantasmas do Pregador da Boa Nova.
Detenho-me, de repente, em Atenas, pois foi no seu Areópago em que Paulo anunciou a um auditório de discípulos de filósofos cínicos e estóicos o Deus Desconhecido...
        As pessoas, que viajam para as Ilhas Gregas, Santorini, Naxos, Cos, Samos, etc., também não deixam de ir a Éfeso, para contemplar, com emoção, o local onde a Virgem Maria teria passado os anos finais de sua existência.
Emociono-me com tais imagens!
       
Mas...a Grécia?

Já nem é a de Papandreu, mas a de outro Premier...conseguirá, num futuro próximo, saldar seu bilionário empréstimo?
Houve alguém, na Europa, que propôs escandalosamente que os europeus comprassem o Partenon, e outros monumentos, para tentar explorá-los comercialmente...com mais êxito que seus atuais proprietários.
        O que me preocupa é que os Monumentos da Antiguidade, os que ainda retêm amostras da criatividade genial de Fídias e outros grandes artistas, passem às mãos dessa gangue refinada, em que pontificam Soros, Buffet, e outros investidores
 Será que tais tesouros, que sempre pertenceram aos Gregos e ao Patrimônio da Unesco, podem correr o risco de passar às mãos de tais bilionários?
        Corre-me pela espinha um calafrio! A tanto já chegamos, em nosso afã de privatização!
       
II. O CASO DA ITÁLIA.

Não bastasse isso, leio notícias espantosas sobre o Patrimônio Artístico da Itália.
Para quem não está informado sobre isso, informo que esse patrimônio constitui, no seu conjunto, algo como 50 %, ou mais, do que subsiste de arqueológico e de artístico em toda a Europa!
Em 2006, a Itália conseguiu uma arrecadação-record de seus museus: 6 milhões e 333.707194 euros - “roba da leccarsi i baffi”, segundo o jornalista Sergio Rizzo, do Corriere della Sera (17.11-2011).
Ou, em outras palavras: “Coisa para nos lambermos os bigodes”, de acordo com o jornalista.
O montante equivale a 80 % do que obtém, em um ano, o Louvre! Ou, como informa o mesmo jornalista, 1/3 do Museu Metropolitano de New York.
Qual a causa disso?

Responde o jornalista  com a maior cinceridade:

- Temos objetos artísticos em excesso...

Com humor agressivo, acrescenta:
       
- A Itália corre o risco de morrer de indigestão estética, à semelhança dos, personagens de um famoso filme de Marco Ferreri, intitulado: “La Grande Abbufata”!

O Museu Nacional de Pisa teve vendeu apenas, em 2011, duzentos e cinquenta e três ingressos.
Por sorte, a Galleria degli Uffizi, em Florença, continua sendo o museu mais freqüentado da Europa, levando-se em conta sua extensão. Rende mais que a Tate Modern, os Museus Vaticanos, o Museu d’Orsay, e o Louvre.
O jornalista Sergio Rizzo prossegue, e nos choca ainda mais. Diz ele que o Ministério dos Bens Culturais da Itália dá a impressão de considerar o patrimônio cultural italiano mais como um peso, do que uma oportunidade.
Descreve o grau obsceno de politicagem. que servia de critério para Silvio Berlusconi preencher os postos diretivos de seu Ministério da Cultura.
Eis um exemplo: já que o ex-Governador da Região Vêneta, precisava ser substituído, no Ministério da Agricultura, por um partidário do ex-Premier da Sicília, Berlusconi tirou Giancarlo Galan do Ministério da Agricultura e o colocou no Ministério da Cultura. Afinal, agricultura e cultura parecem apresentar afinidades terminológicas...
(Corriere della Sera.17 de novembro de 2011).
 Quem pagou a conta do conchavo foi o ex-ministro Sandro Bondi.
Nos últimos anos, as despesas com os funcionários do Patrimônio Cultural reduziram-se de 2,4 milhões para 1,6 milhões. Em cifras mais claras: de 2001 a 2011, as verbas destinadas a investimentos nos Bens Culturais da Itália reduziram-se 50 %: de 750 milhões de euros para 213 milhões.
A incumbência de revitalizar os Museus Italianos foi confiada, recentemente, a um ex-Executivo da Rede McDonalds, Mario Riesca.
Qual a verba que lhe foi posta nas mãos?
Apenas um milhão e 480 mil euros...
Não é preciso dizer mais nada.
A Itália berlusconiana, que foi freneticamente aplaudida pelos italianos durante 17 anos, aparentemente expirou há poucas semanas.
Expirou?
Não acreditem.
Berlusconi é um gato, não de sete fôlegos, mas de setenta vezes sete fôlegos.
Ele vai voltar.
Provavelmente, o Queremismo Getulista, de tão triste memória, encontrará sua segunda edição, revisada e com notas bibliográficas  num atualíssimo:

- Queremos Berlusconi!

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