domingo, 13 de novembro de 2011

Fermamdo Morais a propósito de:

I.

    O Brasil possui uma plêiade de jornalistas investigativos, afoitos, e alguns de talento literário, dignos de figurar entre nossos melhores escritores.
São homens que não se dobram às pressões dos patrões,isto é, dos proprietários de jornais e tevês, e não se dobram (o que é infinitamente mais importante!) a um outro tipo de pressões, às de sua ideologia pessoal.
São homens que se empenham para realizar o ideal que Machado de Assis anunciava em 1858:

- No estado atual das coisas, a literatura não pode ser perfeitamente um culto, um dogma intelectual, e o literato não pode aspirar a uma existência independente, mas sim tornar-se um homem social, participando dos movimentos da sociedade em que vive e de que depende.
(Obra Completa. Volume III. Rio de Janeiro, Editora José Aguilar, 1959.p. 801).
      
Fernando Morais é um desses jornalistas, e talvez seja o mais bem sucedido, ou, mais precisamente, o de maior criatividade.
Comecei a ler Fernando Morais na melhor época possível para se ler um autor: quando ele começa a passar de moda!
Todos sabem que Morais produziu algumas das obras primas do jornalismo brasileiro – ou melhor, sem falsa modéstia para o Brasil – do jornalismo internacional: A Ilha (1983), Olga (1985) e Chatô (1999).
Morais não se interessa por bisbilhotices e conversas-fiadas.
Apaixona-se por pormenores datados, que vergam sob o peso de arrobas de provas. Às vezes, na ânsia de trazer os fatos à luz do sol, Morais quase exagera.
Não se interessa em enaltecer personalidades, mas em entendê-las, situando-as no seu contexto político e sócio-econômico, fazendo com que elas, na medida do possível, emerjam como seres humanos concretos, capazes de revelar seu fundo (ou duplo-fundo?) intelectual e religioso.
Morais não se deixa embelecar por elogios baratos. Quer saber o que lateja atrás dos biombos das lisonjas e das aparências falazes.
 Não persegue morcegos, nem jaguatiricas, nem leões africanos: contenta-se com as onças nacionais. Para dizer a verdade, já está chegando à pós-graduação  na caça às raposas e gambás de nossa politicagem.
É um jornalista absolutamente hors concours: Morais sente o homem, tateia o osso,
tangencia os abismos subterrâneos dos animais racionais que somos todos. Às vezes, mais animais que racionais.

II.
      
É o jornalista menos chato que conheço.

III.

Primeiramente, porque Morais é um romancista que finge ser um jornalista.
É um jornalista-romancista, que possui um dom peculiaríssimo: não inventa, desvela; não trapaceia, expõe; não filosofa, explica.
Corre atrás dedocumentação sólida.
Efetua triagens sobre triagens.
Ao fim e ao cabo (penso que deva ter o hábito do cachimbo, porque nunca entorta a boca!), põe o material, à maneira de um Chesterton ou de um Bernard Shaw, numa centrifugadora, e dela retira o mel ou o fel que os favos da bondade ou da malignidade escondem.
Para mim, Fernando Morais deveria tornar-se o biógrafo de gente morta há alguns séculos, ou de gente viva, cujas trampolinagens são, por ora, indemonstráveis.
Imagino Morais escrevendo, por exemplo, uma biografia de São Francisco de Assis; outra de   Dante; outra de Voltaire; e principalmente duas biografias definitivas sobre dois Ditadores: Mussolini ou Hitler!
Eu só aceitaria uma biografia sobre Silvio Berlusconi, se ela fosse escrita pelo Fernando Morais!
Não estou interessado em ler biografias carameladas, ou com coberturas de chocolate. Tenho certeza moral de que, se Fernando Morais se decidisse a escrever sobre Silvio Berlusconi, os leitores,finalmente, teriam a possibilidade de acessar um retrato falado do maior Imbroglione da Política Italiana desde Il Risorgimento. Excetuado, evidentemente, outro Imbroglione mais famoso, o inventor do Fascismo!
Até hoje, quedo-me atônito de Morais ter escrito um livro como Chatô, a história quase ocular do arrivismo nacional, da megacanalhice do tráfico de influências, da corrupção empresarial, e do talento a serviço dos nossos politicões.
 O verdadeiro romance Macunaíma está corporificado em CHATÔ, em cujas páginas podemos apertar a mão - não de um herói sem carácter, extraído das nuvens neuronais da ficção, mas de um Herói Sem Carácter, extraído dos fatos reais de nossa História.
Fernando Morais foi capaz de inventar, no jornalismo, a tomografia computorizada  antes que essa técnica se vulgarizasse nos meios de comunicação.
O livro CHATÔ é um dos 10 livros que se poderiam sugerir a um estrangeiro, que tencionasse apanhar o Brasil com a boca na botija, compreendendo-o como Nação, Cultura, e Safadice.
Principalmente agora que a pré-faxina da Dilma tem condições de apanhar algumas das raposas e dos gambás de nossas instituições.
Chamo a atenção do leitor para um aspecto insólito da pesquisa de Morais: o livro dele sobre Assis Chateaubriand é um livro trágico!
Sempre que nos defrontamos com um destino humano real, histórico – no caso, o do Capitão dos Diários Associados – que culminou numa implosão pessoal, como não abrir em si um espaço para a piedade?
Chateaubriand, afinal, foi uma criatura humana, concretíssima, como o foram o Padre Anchieta, o Marechal Rondon, e Dom Helder Câmara.
 Quem não tem pena desse desditado que, por tantos anos, fez o que queria, e que, numa determinada noite paulistana, chegou à humilhação de ter de contar palitos de fósforo para sabotar um adversário?  
      
IV.

       O presente texto convida os leitores a ler Os Últimos Soldados da Guerra Fria (A História dos Agentes Secretos Infiltrados por Cuba em Organizações de Extrema Direita nos Estados Unidos). São Paulo, Companhia das Letras, 2011.
       Não é leitura para pessoas demonizadas ou angelizadas.
É livro para leitores normais, que se dispõem a empregar a inteligência para descobrir até onde se espraia a malícia humana, com a colaboração dos demônios.
Demônios?
Não entendo por esse vocábulo as figuras de Dante, nem as outras figuras que se tornam patéticas na boca de alguns párocos católicos.
O jornalista gaúcho, Carlos Reverbel, num livro de memórias, queixou-se do seu primeiro “contato com a monstruosa culpa cristã e o terror do inferno”.

Diz ele:

- Não havia escapatória: quem desencarnasse em pecado mortal ia direitinho para as fornalhas de Belzebu, nelas permanecendo em estado de incandescência sem fim.
(Cláudia Laitano: Arca de Blau. Memórias. Porto Alegre, Artes e Ofícios, 1993. p.19).

Demônios, segundo a compreensão cristã, são seres sobrenaturais, que podem, eventualmente, sob a permissão de Deus, tentar os homens, não para prejudicá-los mas para prová-los. Leiam o Livro de Jó, do Antigo Testamento, onde se metaforiza a ação invisível e misteriosa desses seres, aos quais não temos acesso direto.
Os demônios só prejudicam os homens quando estes, consentem em ser seus colaboradores, noutras palavras, quando os homens querem demonizar-se, tornando-se insensíveis e hostis, não apenas às sugestões de bondade dos seres humanos, mas até às sugestões de bondade dos irracionais, já que os animais não agridem os membros de sua espécie, e são bons por sua própria natureza, desde que não queiramos obrigá0los a serem bons para nós, para nosso egoísmo ou proveito.
Fernando Morais demonstra até que ponto os anticastristas de Miami utilizavam seus recursos monetários para penalizar os cubanos, visando golpear Fidel Castro.
Quero deixar explícito que nunca fui, nem serei defensor incondicional de Fidel Castro.
Nos inícios, Castro chegou a me impressionar.
 Suas atitudes radicais, porém, atenuaram minha admiração pelo Herói de Sierra Maestra. Castro optou por uma vendetta social, El Paredón, e tal atitude acabou por ser simétrica à de seus opositores, como Fulgencio Batista, e outros gusanos.
Não sou tão ingênuo a ponto de não saber o que fizeram os Americanos, isto é, o Governo Americano, principalmente o do Partido Republicano, para estrangular a frágil economia cubana. Com tais métodos iníquos, quase estrangularam os próprios cubanos.

V.

Leiam o livro de Fernando Morais!
É um documento que mostra, sem dúvida, mais simpatia pelos isleños, do que em relação aos americanos de Ronald Reagan e George Bush. Mas, em nenhum momento, Morais sataniza os americanos.
O jornalista Morais narra os fatos com lisura.
Ele sabe que dividir os homens em bons e maus, neste planeta, não compete aos jornalistas, nem aos escritores, nem aos eclesiásticos.
Ninguém deve julgar o íntim o dos homens, segundo o preceito explícito do Evangelho.
Pode-se opinar, sempre que o façamos sem pigarrear primeiramente, nem assumir a pose de um Pontífices, que os há em demasia no meio de nós.
Fernando Morais faz um esforço permanente para chegar à a versão concreta dos fatos (que, a rigor, não existe). A versão concreta dos fatos nós a veremos projetada no telão no Vale de Josafá!
Se nos apegarmos aos fatos narrados com objetividade por Fernando Morais, ficamos indecisos quanto ao resultado desse jogo de rato-e-gato.
Quem sai melhor dessa luta inglória?
Pobre humanidade!
       O que dá uma sorte de vitória moral aos Cubanos é o fato de as Autoridades Americanas, antes de Jimmy Carter e Bill Clinton, nunca terem forçado os exilados cubanos a se portarem de acordo com as leis internacionais, que proíbem ações beligerantes a partir da terra que os acolhe.
As Autoridades Americanas mostraram-se constantemente velhacas, e esse tempo foi fatal para o povo cubano.
Os exilados anticastristas de Miami, rancorosos e de uma ideologia feroz, tudo fizeram (refiro-me às organizações anticastristas) para levarem seus compatrícios à desesperança.
       Para neutralizar os ataques das forças paramilitares do outro lado do mar, os cubanos tiveram que infiltrar desertores, ou seja, falsos desertores, em Miami. Nem a esposa deles, nem seus familiares, sabiam que seus maridos e pais não eram desertores.
O mal, como sabemos, gera o mal.
Leiam, por favor, o capítulo nono do livro de Fernando Morais: “O Mercenário Cruz León Não Queria Matar Ninguém. Seu Sonho Era Ser Igual a Sylvester Stallone”.
 O leitor dar-se-á conta de como se pode perverter uma criatura inocente, transformando-a num assassino (p. 209 e seguintes.)
A mim me fez bem ler esse emocionante depoimento.
Morais evidenciou-me um aspecto da humanidade: a certeza de que o Poder e o Dinheiro nunca deverão ser os Senhores deste Mundo.
É um crime contra a Humanidade colocar a Ciência e a Tecnologia a serviço de Caim.
Vejam só: o ex-inocente mestiço salvadorenho, filho de pais pobres, camuflou nas suas botas 250 gramas de C-4, o explosivo preferido por terroristas e heróis de filmes de ação,que produz uma velocidade de detonação de nove quilômetros por segundo, mais de 30 mil quilômetros por hora:
- “Trata-se de um punhado de C-4 do tamanho de uma bola de tênis, que é suficiente para derrubar paredes de concreto ou estruturas de aço”.

Por isso:

- O que dava a Cruz León alguma segurança para viajar com material tão letal sob os pés, a salvo do risco de virar carne moída, era a certeza de que, sem a ajuda de um detonador, aquela meleca era tão inofensiva quanto uma massinha de modelagem. E os detonadores, assim como os fios e temporizadores, estavam prudentemente guardados na mochila Tommy Hilfiger de náilon azul, que ele depositara no compartimento de bagagens do teto do avião.(p. 213).

A leitura desse livro de Fernando Morais não me ideologizou!
Tenham certeza do que afirmei!
 Tornou-me unicamente mais consciente do cicio da serpente, como o denominava o Poeta Manuel Bandeira.
A Serpente do Paraíso Terreal continua viva, não no Instituto Butantã, mas nas nossas ruas barulhentas, nos nossos mercados e supermercados, nos subúrbios de nossos corações, e principalmente no cipoal manipulado de mil informações trapaceadas. 
Os que pensam que a Serpente só tentou Adão e Eva precisam ler o livro de Fernando Morais. A Serpente está viva, e – para nossa infelicidade – continua a sussurrar coisas aos ouvidos de todos nós.
Cruz Leon - um salvadorenho de 26 anos, que com enorme esforço da mãe conseguiu chegar ao nono grau do Colégio Salesiano, de onde saiu falando inglês com fluência - não só sonhava imitar o brutamontes Sylvester Stallone, (”de quem já vira todos os filmes, alguns deles mais de uma vez”) e que só se lembrava de ter lido dois livros: O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, e o Manual do Guerreiro da Luz, do brasileiro Paulo Coelho, sonhava, também, em dormir com uma mulher, quem sabe uma jinetera, que se assemelhasse à deslumbrante Sharon Stone...

Perguntemo-nos: onde terminou seus dias Cruz León?

- Treze anos mais tarde, sentado numa cela da prisão da Villa Marista, em Havana, à espera de ser posto diante do pelotão de fuzilamento, que executaria a pena de morte a que fora condenado, Cruz León, quinze quilos mais gordo, se lembraria daquela remota e ensolarada manhã de domingo: “Quando o avião sobrevoou Havana, eu só pensava numa coisa: eu era de fato um Ray Quick, um especialista. Eu merecia levar Sharon Stone para a cama”. (Ib. p. 231).

O mercenário Raul Ernesto Cruz León, condenado por um tribunal cubano, teve sua pena convertida em trinta anos de prisão.

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