terça-feira, 29 de novembro de 2011

Dulce Helfer: A Arte Dentro da Reportagem.

I.
Há muito tempo estava à espera de um clic, que suscitasse, na minha memória, na minha imaginação e na minha sensibilidadele, as condições mínimas de inspiração, propícias à análise - no espaço intermédio entre a pele e a alma, entre a visibilidade e o coração - da produção dessa fotojornalista, uma das mais talentosas dentre as que atuam no  Rio Grande do Sul.
 Dulce Helfer foi funcionária do jornal Zero Hora, a partir de 1985. Obteve 23 prêmios na sua carreira profissional, três dos quais de nível internacional. Um deles foi-lhe conferido pela SIP em Guadalajara, no México.
Vários experts em fotografia já se pronunciaram sobre seu trabalho. Luciano Ramos dedicou-lhe breve, porém interessante ensaio.
Sempre achei que existe certo paralelismo entre a fotografia e – perdoem-me - a prostituição. O fundamento do paralelismo consiste nos fatos, que parecem jogar-se à cama – isto é, à câmeracom uma velocidade. uma voracidade, e até uma voluptuosidade, de fêmeas famintas.
Não confundam mulher faminta, que vende seu corpo, com mulher que (ao vender seu corpo) não vende sua alma, e ambiciona algo mais do que o dinheiro e o prazer. Algo que lhe foi escamoteado na infância e na adolescência: verdadeiro amor familiar.
A câmera de muitos fotógrafos - e também a de Dulce Helfer - parece entregar-se, por vezes, aos faits divers da vida social, à multiplicidade dos mil e um incidentes do cotidiano.
 Notem que eu disse: a câmera.
Atrás, porém, da câmera, está sempre um olho, aquele olho que Luís Fernando Veríssimo descobriu, antes que nós, distraídos, o flagrássemos.
 Veríssimo escreveu sobre a Dulce o texto mais conciso e mais belo que conheço, o qual começa assim:    
- Apertar o botão qualquer um aperta. O aparelho do fotógrafo mesmo está atrás da máquina. Chama-se olho. Existe há anos.
Veríssimo conclui, irretocavelmente:
- A Dulce levou seus olhos para fotografarem o mundo e isso é o que eles fizeram. A Dulce tem olhos da melhor qualidade.
E, ainda por cima são azuis.
A expressão: “Que olho!”, salvo engano, foi dita pela primeira vez por Paul Cézanne, que considerava Monet o maior pintor de sua época:
- Monet é um olho! - dizia ele. Mas que olho!
O caso, porém, dessa fotógrafa gaúcha de olhos azuis é de enciumar os colegas, visto que todos sabem que olhos azuis vêem melhor, penetram mais a intimidade das coisas e das pessoas, e... são os mais vistos!
       Um outro autor descobriu, também, o segredo de Dulce. Foi o Tabajara Ruas, romancista e cineasta, o qual escreveu:
       - Ela busca a decifração das formas e o jogo de luz e sombra. Ergue a imagem da imaginação.
Atrevo-me a acrescentar - ao “instantâneo” de Tabajara - uma observação:
- Dulce é, não nos esqueçamos disso,  uma fotógrafa. Eu tenho observado que todas as fotógrafas, apesar de empregarem os mesmos aparelhos que os homens empregam, os utilizam com um espírito feminil. O que as singulariza é a felinidade! São tigresas...O tigre nunca ataca frontalmente. O tigre ataca à traição. Semelhantes a eles, são as boas fotógrafas!

II.
       Desde criança, fiquei fascinado pela fotografia.
Percebi que o aparelho do fotógrafo não era o fotógrafo, e que o fotógrafo não era o aparelho que ele utilizava.
Notei que a relação fotógrafo-aparelho - ou máquina fotográfica - para salientar melhor a comparação – é parecida com a relação Homem-Mulher.
Há casais ajustados; há casais razoavelmente ajustados; e há casais que se amam, brigando.
       O fotógrafo mantém uma relação literalmente ex-ótica com sua Nikon com sua Leyca, ou com sua Cannon Digitalizadas.
 As lentes, se é verdade que estão a serviço do fotógrafo, também não estão, e lhes pregam peças imprevistas. Impingem-lhes sofisticados adultérios ópticos.
O fotógrafo não pode contar com fidelidade de outra personagem feminina, a moça chamada Luz, que sabe que é belíssima, e se aproveita disso.
       Portanto, a fotografia pressupõe uma bizarra “Guerra Conjugal”.
 Mas uma guerra na qual o fotógrafo pode perder; mas quem nunca perde, quando há vitória, é a fotografia, produto de três fatores: o olho, o acaso, e a técnica.

III.
       Afinal: qual o segredo que produz a foto excelente, a foto excepcional?
       Esse segredo reside num DNA: a Premeditação.
O grande fotógrafo é um estrategista. Ele vence por antecipação, porque projeta a vitória antes do combate.
 Pensa, reflete sobre a vida, experimenta, nem que seja de leve, a penúria existencial, talvez a miséria de nossa condição, deixa-se morder pela solidão.
Principalmente, trava diálogos íntimos com a solidão, depois de ser mordido.

IV.
Analisemos – que já é hora – algumas das fotos da Dulce.

       1. Comecemos por um retrato: o retrato de um compositor de música clássica, de um ex-Professor do Instituto de Artes da UFRGS.
O que se vê nesse retrato?
Um homem dominado pela música.
Ou antes: um homem domado por ela.
A inclinação da cabeça, os olhos internalizados, a mão esquerda no colarinho: nesse conjunto o que se impõe ao espectador é a impressão psíquica: noutras palavras: eu acreditaria na música desse homem, mesmo que essa foto não fosse a de um compositor!
 Conseguir a sugestão de tal qualidade super-ótica, eis o sucesso da fotógrafa.
      
2. Detenhamo-nos noutra foto: a da mulher deitada, submergida pela velhice, e pela prostração física.
 A foto precisa ser vista de dois pontos-de-vista: do lado da mulher, forçando um pouco o olhar; e do lado contrário ao da mulher, como se ela estivesse em pé.
Deitada, a mulher é dor. De pé, é soledade (isto é, a idade adicionada à solidão).
Convém que nós, contempladores, nos fixemos na mão descarnada da anciã: a mão de uma crucificada!
Crucificada pela nossa indiferença, pela ausência de solidariedade social, pela marginalização.
      
3. Observemos, neste momento, a foto do sacerdote italiano no confessionário.
Fixemos nosso olhar, antes de tudo, no confessionário: avermelhado, de uma frieza de chama extinta.
Lá dentro, nessa gaiola sagrada, está o padre, que deixa transparecer respeito e acolhimento. Está consciente de que os pecados dos homens – e os pecados das mulheres – são na aparência sucessos pessoais. Na realidade, são erros, fracassos, desditas, tentativas de contrarias as normas do fabricante, para que a aeronave ou o carro funcionem melhor...
       O padre, com a luz que lhe bate em cheio na cabeça e sobre a mão espalmada, parece dizer:
       - Mulher, ou Uomo Qualunque: vocês fizeram grandes tolices, e causaram infelicidade a vocês e a outras pessoas.Cristo, porém, já perdoou vocês!  Eu também sou pecador como vocês! Só posso dizer-lhes o que Ele me mandou dizer: “Vão em paz, e não tornem a pecar”?
       Como católico, aprecio tal foto: ela deixa entrever, por parte da fotógrafa, respeito e compreensão em relação a um ato misterioso, cuja aparência banal leva a suposições insignificantes.

4. Analisemos a foto do garoto atrás do poste, acima do qual se vê um cartaz afixado na parede do prédio, mostrando um par dançando um tango, ou outro ritmo qualquer.
As duas janelas em arco, gradeadas, são como olhos cubistas, com as pálpebras descidas. O verde do ambiente lembra o petróleo. Falar em solidão é  conduzir o visível ao superlativo.
      
5. Uma foto da Dulce transborda de um lirismo à Jan  Vermeeer (1632-1675): ela é toda em arabescos lumínicos, com verdes e azuis, melancolizados.
A mocinha teria descido das nuvens?
A mesa, as cadeiras, e as duas portas parecem aceitar a carícia da cortina levemente inflada pelo vento, que diz, silenciosamente: Boa tarde!
No fundo, a foto é uma imagem de nosso estar-no-mundo, no meio de assombros e enigmas.
Com um pouco de fé, pode-se, não só agüentar o mundo, mas quem sabe amá-lo!
      
6. Calemos momentaneamente os ruídos de nosso ego interior!
Fixemos a lindíssima mulher que a Dulce clicou no esplendor de sua sensualidade. Repito: de sua sensualidade. Só depois acrescento: sexualidade!
Com essa mulher um homem gostaria, previamente, de entender-se, de trocar souvenirs, de ler poemas, de ouvir música, à moda de Anthony Quinn. Só depois  convida-la para outra coisa: a cama. Ou talvez, não? Dir-lhe-ia subitamente: “Ciao!” e acrescentaria, contrariando o chimpanzé que costuma estar atrás de nós:
- Serás mais bela, e mais feliz, assim como estás! O indivíduo, que te conquistar, tem que ser um pouco Orfeu! Eu estou longe disso...
      
7. Outra foto genial da Dulce é a da Bela Desadormecida, fotografada num subúrbio de alguma grande cidade (Milão? Roma?), ou numa das tantas cidades interioranas, e  às vezes um tanto mofadas, da Itália.
Aquela pele marmórea, aquela cera de círio pascal, aquele seio...
Completem minha frase com o adjetivo mais luxurioso que vocês encontrarem!  
A foto é a imagem da própria cupidez, da tentação que nos acossa, que não cessa de perseguir nosso calcanhar-de-Aquiles, de zombar de todos nós. Que não cessa, inclusive,de nos fatigar - porque não fomos feitos para tanta cobiça e luta contra instintos, não raro fora de controle.
 Fomos feitos para o amor, embora ninguém acredite nisso.
 Os cristãos ouviram falar do espinho-na-carne de São Paulo.
Ele existe, e está ali: um espinho, que se apresenta deleitoso, que joga o homem para fora de si, e finalmente, o faz despencar de um barranco.
A Dulce, no caso, foi maliciosa: preferiu aliar-se à Serpente.
Não a censuro.
É bom para nós, para que não presumamos de nossa liberdade, para que não nos julguemos imunes aos vírus da carne, para – em resumo – que não nos joguemos num outro seio: o da hipocrisia.
 Diante de uma foto como essa, somos obrigados a curvar a cabeça, e a pedir ajuda ao Único que pode salvar-nos, porque só Ele pode não nos deixar cair em tentação.  
O prazer é falaz, e o que fica de seus goles de apressado delírio, são os tijolos das duas paredes, que na foto permanecem na sua indiferença.
A bandeira do Brasil, que a mulher acaricia, dá-lhe, talvez, mais calor do que todos os afagos de seus ávidos clientes.
      
IV.
       Fotos assim são parábolas!
Ou são drágeas, que a gente engole, e fica pensando, sofrendo, sonhando... com o coração em apuros.
Está é a fotojornalista Dulce Helfer, que eu conheço há longos anos.
Gabem sua beleza física meus amigos, e os amigos dela.
Deixem-me gabar-lhe unicamente certa tristeza, que ela não consegue afugentar, como se afugenta, com delicadeza, um passarinho que pousou na janela de nosso apartamento, ou um cãozinho com frio, que nos pede carícias deitando-se humildemente aos nossos pés.
Dulce não consegue, por outro lado, afugentar certa alegria, que ela tem constantemente dentro de si, e até fora de si, quando está em casa, quando conversa com suas amigas e amigos, quando – como boa alemoa – bebe cerveja num bar, ou saboreia um café. Nesses encontros ela reparte sua afetividade sincera, sua ternura quase aveludada, que ela dá primeiramente a seus filhos e netos, e depois a quem lhe merece respeito e afeição.
Quando, se tem sorte, Dulce nos obsequia com pratos gaúchos e da cozinha teuto-brasileira. Sabe também oferecer-nos quitutes, que só ela sabe preparar.
       Vocês ficaram sabendo por que o Mario Quintana adorava essa mulher!
Minha mulher, Cleuza, também a adora!
É que existe na Dulce algo de intrinsecamente humano, que a torna para seus amigos, uma autêntica amiga, apesar de ela ser, à primeira vista, uma tentação para qualquer homem.


V.

       Não poderia concluir este breve ensaio, sem inserir nele uma foto que a Dulce tirou no México, na qual se vê, na plena nudez do deserto, a alma de um mexicano entre árvores mirradas.
Não sei por que, essa foto me fez lembrar Pedro Páramo, de Juan Rulfo.
       A foto revela o grau de compaixão que Dulce sente pela humanidade.
Que ela sente pelos homens, pelas mulheres concretas, que tropeçam uns nos outros, em nossas cidades barulhentas e atravancadas. Pelos homens e mulheres, que não entram no seu aparelho fotográfico, e que continuam a esparramar mundo afora desamparo de criaturas, a pobreza de seus lares, a falta de ideais de suas existências, a falta de tudo que se sobrepõe à animalidade,  neste novo admirável mundo novo da Globalização.
       A Dulce tirou essa foto porque queria fazer companhia a esse pobre latino-americano!
Talvez ela acredite (não sei!) que o amor e o poder de Cristo ainda podem salvar-nos.
       Se ela acreditar nisso, considerá-la-ei também minha irmã.
  


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