terça-feira, 1 de novembro de 2011



Dois Dom-Juans:Darcy Ribeiro e Anthony Quinn.

I. Anthony Quinn.

         A definição de Dom-Juan  (tal qual os dicionários Aurélio e Francisco S. Borba registram, visto que o verbete aportuguesado, Dom-João, tira seriedade à palavra) é arqui-sabida:
        a) homem a quem as mulheres não resistem;
b) sedutor.
Dom-Juan era, originalmente, uma peça de teatro de Tirso de Molina: El Burlador de Sevilla y Convidado de Piedra (1630).
O tema foi retomado, em 1665, por Molière na sua obra Dom Juan ou le Festin de Pierre.
Mozart, com sua ópera homônima (1787), cujo libreto foi elaborado pelo italiano Lorenzo da Ponte, que o extraíra de uma peça de Molière, e o Romantismo, foram os dois propulsores dessa legenda, que acabou adquirindo uma espécie de aura.
Aura?
Até certo ponto.
Dom-Juan parece figurar um ideal dos povos latinos, o latin lover. Sobre as cabeças – e os corações - de boa parte dos maridos ocidentais, que timbram em ser livres: liuvres-pensadores e mais ainda, livres-gozadores, paira um balãozinho disneylândico que os convida às transgressões da sociedade-de-consumo, no significado mais amplo do termo.
As considerações do presente texto nasceram da leitura de duas autobiografias: a de Anthony Quinn: Tango Solo (RJ, Editora Nova Fronteira, 1995) e a de Darcy Ribeiro: Confissões (SP, Companhia das Letras, 1997).
Trata-se de documentos instigantes, às vezes alegremente memorativos de farras elegantes, outras, de documentos auto-apologéticos, que agrupam constelações de motivos das aventuras eróticas e algumas vezes, por incrível que pareça, dão a impressão de documentos de sabor  semi-auto-punitivos.
 Por vezes, tais documentos transformam-se em introspecções existenciais ou metafísicas.
A maioria desses documentos confluem para uma conclusão, que provavelmente seus autores não me autorizariam a formular: a de um final-feliz-infeliz de relações marcadas pela voracidade de paixões consideradas irresistíveis, que suscitam tanto emoções de êxtase, como turbulentos conflitos familiares.
Pode-se falar em temporadas de amores, dificilmente, porém, em temporadas de novo e sereno amor.
Antes de tudo, tentemos expor uma tipologia rudimentar dos Dom-Juans.
Existem, provavelmente, Dom-Juans centrípetos e Dom-Juans Centrífugos.
Uma sub-espécie poderia ser designada como Dom-Juans-Folgazões e Dom-Juans Auto-Punitivos.
Darcy Ribeiro figuraria no rol dos Dom-Juans Centrífugos. Anthony Quinn, no rol dos Dom-Juans Centrípetos.
Darcy Ribeiro, em nossa opimnião, merece ser classificado como um Dom-Juan Folgazão. Anthony Quinn, como um Dom-Juan Auto-Punitivo.
O Centrífugo não se importa com a mulher com quem casou. Ela foi um ponto-e-vírgula na sua existência.
 O Centrípeto considera seu casamento um ponto-final que, com o tempo, se converteu num dos três pontos das reticências.
Anthony Quinn tem o mérito de ter publicado sua autobiografia em data anterior à de nosso indigenista.
Começaremos, pois, por Anthony Quinn.
Expor o curriculum vitae de Quinn é literalmente chover no molhado.  Quem não o conhece?
Informemos, eventualmente, algum leitor distraído.
O ator nasceu em 1915 e faleceu em 2001, aos 86 anos. Era filho de um mexicano, meio irlandês e meio indígena (maia), e de uma mãe de origem asteca.
Deixou uma filmografia de mais de cem títulos, dos quais os títulos mais célebres são:  Jornadas Heróicas (1936), Viva Zapata  (Direção de Elia Kazan,1952), La Strada ( Direção de Federico Fellini, 1954), Sede de Viver ( Direção de Vicent Minelli, 1956), O Corcunda de Notre-Dame (Direção de Jean Delannoy,1956), Os Canhões de Novarone (Direção de  J. Lee Thompson, 1961),  Lawrence da Arábia ( Direção de David Lean, 1962),  Zorba, o Grego (Direção de Michael Cacoyannis, 1964), O Segredo de Santa Vitoria (Direção de Stanley Kramer, 1969),  Jesus de Nazaré (direção de Franco Zeffirelli, 1976),  e O Leão do Deserto (Direção de Moustapha Akkad, 1981), Febre da Selva (Direção de Spike Lee, 1991).
Quinn casou-se, pela primeira vez, com Katherine De Mille, da qual teve cinco filhos; o casamento durou 25 anos. Tornou a casar-se com Iolanda Addolori, uma estilista italiana, que lhe deu outros seis filhos. O segundo casamento prolongou-se até 1993.
Nesse ano, Quinn teve, de Kathy Benvin, uma filha, Antônia e, tempos depois, um filho, de nome Ryan.
Ao todo 12 rebentos.  
         Anthony Quinn foi um dos maiores atores cinematográficos do século XX.
Falemos um pouco sobre suas memórias.
Foram escritas com a colaboração de um jornalista, mas percebe-se, na leitura delas, que quem conferiu o verdadeiro toque à narrativa foi o próprio autor. Sua autobiografia não é nem auto-enaltecedora, nem lamuriosa. É uma visão pessoal que revela sensibilidade, cultura, e humor.
Transborda de machismo. O ator recebeu esse tipo de educação mexicana.
Sua descrição da primeira noite de núpcias com Katherine De Mille chega a ser grotesca, para não dizer -com  o risco de exagerar - simiesca!
Suas referências, porém, ao pai, que depois de três anos de guerrilhas sob as ordens de Pancho Villa, tornou a buscar sua mulher, e suas referências à avó paterna, Dona Sabina, que resolveu procurar o neto abandonado, nos consolam de seu machismo.
De quando em quando, Quinn permite-se uns vôos líricos, por exemplo quando escreve, não sem certa afetação:
- No horizonte, no limite do Mediterrâneo, já percebo a ignição da aurora.
Em compensação, há momentos em que o ator atinge a mais pura poesia. A descrição de seu encontro, aos oito anos, com uma  pantera do Jardim Zoológico, onde seu pai trabalhava, é de uma delicadeza notável.(p. 39-40-41). A pantera foi, como Quinn faz questão de dizer, “seu primeiro amor”.
Seu humor transparece na descrição de algumas personalidades que conheceu, como seu excêntrico tio Cleofus (p. 44 ss.).
Quinn foi ajudante-de-missa durante certo tempo. Talvez por ter tido essa in timidade com o clero, não deixa de alfinetar “a pomposa afetação católica”. Reafirma, no entanto, ao longo de toda a autobiografia, sua condição de “homem religioso”.
Quanto ao resto, divirta-se o leitor, se o desejar, com seus depoimentos sobre as mais variadas profissões que exerceu: de boxeador (aos 16 anos) a estudante de arquitetura no atelier de Frank Lloyd Wright.
Quanto às mulheres com quem teve relações, desde vulgares prostitutas de rua, a criaturas do mais alto nível ético e intelectual, como Sylvia, uma mulher mal-casada, que o iniciou, não só na leitura de Whitman e Edna St. Vicent Millay, como na História da Arte, deixo ao leitor o prazer de o descobrir.
Esse aventureiro conheceu uma série incrível de personalidades, desde Fiodor Chaliapin, o baixo russo de nomeada internacional, até Rachmaninoff, Horowitz e Heifetz, cujo violino o chateou algumas vezes. (p. 94).
Resumindo: Anthony Quinn teve a sorte (ou o azar?) de, um dia, casar com a filha do todo-poderoso, mítico – e megalômano - Cecil B. De Mille. As estórias sobre as suas perfomances, no palácio de De Mille, são hilariantes.
Passemos por cima dos filmes insossos que o sogro o obrigou a interpretar, em segundo plano.
Detenhamo-nos, um instante, na morte de Christopher, seu primeiro filho com Katherine. A criança morreu num acidente de piscina. Baste-nos consignar aqui seu paterno e lancinante grito:
- Deus, como adorei essa criança!
(Ib. p. 132).
Seria fastidioso recordar seus tórridos amores com Rita Hayworth, a atriz “de tempestuosa cabeleira ruiva”, com Lina Darnell, a sonsa pseudo-virgem, ou com Peggy Ryan, amante de Howard Hughes. Abstraímos de dezenas de outras.
Também não vale a pena deter-se nos irritantes embates de Quinn com o Comitê de Atividades Antiamericanas,  que via  no anticomunismo um monstro onipresente.
Citemos Mama Borgia, uma figura da Máfia, mulher hors concours , exótica, que se impôs como árbitro aos gânsgteres da época, inclusive Al Capone.
Talvez valha a pena aludir à antipatia que se estabeleceu entre Quinn e Marilyn Monroe, “uma loura de cabeça oca e traseiro grande”, enviada ao set de Viva Zapata para “absorver a inspiração do diretor Gadge”, que Quinn considerava “um pé no saco”.
Parágrafo inesperado, e comovente, é o que aborda a relação de Quinn com “o único amor verdadeiro de minha vida”(p. 185), uma jovem atriz de nome Susan Ball, que faleceu  atingida por um câncer nos ossos, tendo antes perdido todos os dentes, e sido obrigada a deixar-se amputar uma perna. As páginas dedicadas a essa frágil criatura são das mais belas do livro!
Recordemos, enfim, o encontro de Quinn com Federico Fellini, que o convidou a atuar no filme La Strada (A Estrada da Vida). Quem diria: Quinn vendeu seus 25% de direitos autorais sobre esse filme por apenas 12.000 dólares! (p.201).
Tango Solo regurgita de fatos dramáticos, hilariantes, tristes, trágicos, e oferece um leque de exemplos de infidelidade matrimonial.
Cá e lá, o ator torna-se um Emerson callejero, e tece reflexões finas e bem-humoradas sobre – por exemplo – o sorriso-clichê das americanas - de cuja amperagem emotiva Quinn não parece ter dúvidas.
Uma das cenas mais espetaculares do livro é o relato de sua atuação num filme de tourada, dirigido por Budd Boetticher, O Magnífico Matador.  Relato alucinante! (p. 205-209). Vale o livro.
Extraordinário, igualmente, o que refere sobre a realização dos filmes Lawrence da Arábia e Zorba, o Grego.
Concluamos: projetar na memória dos leitores os turbulentos amores de Quinn não aproveitará a ninguém. Pode dar um pouco de inveja aos peerfeitamente alienados, e é tudo.
Há um outro Quinn que merece atenção.
É o Quinn que demonstra possuir uma vocação filofófica, ou se quiserem, moralista, que o leva a escrever de repente, com assombrosa lucidez:
- Vivi uma vida feliz, mas não sou um homem feliz. (p. 289).
A frase sintetiza o melhor e o pior desse homem excepcional.
Em nenhum momento Quinn deplora seu dom-juanismo. Em nenhum momento, também, o desculpa. É como se ele deixasse escrito: aconteceu, eis tudo.
Quinn sente a compulsão de declarar, pouco antes de embarcar noutra tumultuosa paixão, a de Dominique Sanda, que ele “era fiel à italiana Iolanda, por falta de opção”.(p. 298).
No final do livro, o Dom-Juan devaneia bachelardianamente: imagina uma atrizinha de strip-tease, “perdidamente apaixonada por ele”. Para agradar-lhe, vai procurá-la num barzinho da Main Street, onde possivelmente a garota o estaria aguardando, sentada sozinha no bar:
-Ela me dirá que faz poesias e lerá algumas para mim com voz fanhosa. Tudo nela será lindo e triste. Não dormirei com ela. Beijarei seus olhos e irei embora.
Diz que voltará para casa, e aí subirá ao escritório para escrever a história da moça do striptease, que tem voz fanhosa e faz poesia.
- Se eu tiver algum amigo médico (na ocasião), provavelmente o chamarei para me dar uma injeção e assim poder escrever mais quando acordar no dia seguinte. Então irei dormir e terei medo – por meus filhos, por minha mulher, por mim.
Diante disso, amáveis leitores, que acrescentaremos?
Nada, a não ser o seguinte:
- Dorme em paz, Anthony Quinn!
 Que Deus te dê um coração capaz de ficar ancorado para sempre no amor.
Seria inglório fazer qualquer tipo de considerações sobre um Dom-Juanismo tão autocrítico!


II.Darcy Ribeiro.

       Como caracterizar nosso genial antropólogo, político e romancista?
       Não conheço outro adjetivo que melhor o defina do que: um Dom-Juan folgazão.
       Para não errar, recorro a um Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa, já inencontrável até em sebos: o de Henrique Brunswick:
             - Folgazão, que comumente se confunde com jovial e alegre, deve exclusivamente aplicar-se às pessoas que abandonam qualquer dever para entregar-se à alegria ruidosa, ao divertimento. Ser folgazão é próprio da juventude, não da idade madura em que cabe perfeitamente ser jovial ou estar alegre.
       (Lisboa, Editora Francisco Pastor, 1899. p.65).
       Creio que se podem aplicar ao ilustre escritor nacional tais palavras, naturalmente ressalvando sua dignidade, sua sua lucidez, sua elegância, e principalmente sua capacidade de entregar-se ao trabalho como um escravo!
 A verdade é que Darcy foi mais amado pelas mulheres que encontrou na vida, do que capaz de tê-las amado, apesar de suas enfáticas declarações de amor. Foi um grande amador à sua maneira, isto é, à maneira de um Dom-Juan auto-satisfeito.
É possível que ele tenha agradado a muitas mulheres, e se tornado um ídolo erótico delas. Mas todas?
       No fundo, Darcy oi um Dom-Juan convicto, até pela sua aparente indiferença às Elviras de sua vida, entre elas, a digníssima Berta Gleiser, sem a qual (que pensais disso, senhores biógrafos?), ele não teria sido o cientista social que foi, nem talvez o extraordinário escritor que ele foi.   
       O Dom-Juan típico é um egoísta em estado puro. Ou seja: contanto que ele se divirta, todos devem estar se divertindo!
 Não lhe interessa saber o que suas amadas, e principalmente, ex-amadas, estão pensando dele! Não se interessa em saber, até mesmo, se elas sentiram todo o prazer que ele pensa ter-lhes dado. Não lhe ocorre, em hipótese alguma suspeitar de uma maravilhoso orgasmo fingido, mesmo que o finguimento seja como aquele do fingidor de Fernando Pessoa.
O Dom-Juan folgazão supõe que todas as mulheres com as quais dormiu, se afogam de prazer. Mais do que isso: eles acham que elas babam de prazer!
Para o Dom Juan folgazão não existem estratos geológicos, nem arqueológicos no erotismo.
O Dom Juan folgazão é o exemplo mais réussi de um Robinson Crusoé da Arte Amatória. Vive na sua ilha, e não espera encontrar nenhum invasor dela.
       Teria sido isso o amável Darcy Ribeiro?
       Não tenho certeza: nem de minha definição de um Dom-Juan folgazão, nem da aplicação dessa definição ao imaginoso Darcy Ribeiro.
Limito-me a afirmar que suas Confissões são dez vezes mais divertidas do que a maioria das coletâneas congêneres, inclusive a de Casanova, desse gênero de memórias flamejantes que andam por aí.
 Ribeiro é inteligente, imprevisto, capcioso, solerte, e adora o corpo das mulheres. Sabe descrev-los, usa uma linguagem coleante e viscosa, quase líquida, como os ungüentos que as odaliscas vbertiam, outrora, aos pés dos paxás.
Impossível negar-lhe uma qualidade que faz a glória de um Desmond Morris no seu último best-seller, A Mulher Nua (Um Estudo do corpo Feminino). (São Paulo, Editora Globo, 2005).
Aproveito a deixa para sugerir às leitoras esse livro. Toda mulher, na minha opinião, deveria lê-lo. Por uma razão: para persuadir-se de que a frase do zoólogo inglês:
       -Toda mulher tem um corpo belo.(Ibid. p. 7)
é de uma veracidade ofuscante!
Tenho a impressão de que muitas mulheres, após lerem tias descrições detalhadas dos órgãos femininos. iriam interessar-se menos por cosméticos e complçic adas maquiagens, que por vezes custam os olhos da cara, e iriam dar mais importância aos próprios olhos, nos quais se espelha a alma, que em algumas étão arisca como um pintassilgo de nossos matos.
 O corpo feminino é belíssimo, mas um corpo feminino, turbinado por uma alma, por um bom carácter, por um finura de sentimentos, e por uma ternura materna ou esponsal...
Bem... interrompo-me. É a vez de Dante ou Camões!
Da leitura das Confissões de Darcy Ribeiro – à parte o que nelas ele narra a respeito de sua formação científica, de sua família e amigos, dos personagens incríveis de seu círculo parental, de sua mãe, Dona Fininha, das diabruras realizadas na  menininice, entre outras, a de jogar um pacote de azul de metileno na caixa d’água de Montes Claros, o que lhe acarretou merecidíssima surra”; além da narração de suas marotices juvenis em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, e mais tarde, a descrição de sua estadia em São Paulo, na Escola de Sociologia, bem como sua adesão ao Partidão, a história de seu encontro com o Marechal Rondon e os Povos Índios (Kadiweu, Kaiowá),  da criação do Parque Indígena do Xingu, das viagens que empreendeu América em fora, da influência de Anísio Teixeira, da fantástica idéia de inventar a Universidade de Brasília, de seu trabalho do Ministério da Educação, de seu trabalho como Chefe da Casa Civil do Presidente Jango Goulart, de seus êxitos e insucessos, de seu primeiro exílio no Uruguai... – bem, além de tudo isso, o leitor topará, a partir da página 361, uma sorte de diário, lírico, escrachado e superiormente literário,  de seus exploits eróticos!
Referi-me à página 361 onde se lê: Uruguai, pois foi nesse simpático país que se inaugurou o ciclo de suas dom-juanices oficiais, que principiaram na Universidade de Montevidéu, na Faculdade de Humanidades, onde as suas aulas deviam ser boas, “porque aumentava sempre o número de alunos sobretudo de alunas, belas”. (p. 362). Foi aí que Emília o civilizou, ensinando-o a ser decente quando:
- (...) depois de nossa primeira transa, procurou o marido, disse tudo a ele, esperando que eu fizesse o mesmo. É a dignidade uruguaia. A decência de um amor está em que ele é encarado como o início de uma relação que pode dar no casamento. Conduta de um país que tem um século de divórcio. O contrário da brasileira, que nos obriga a amores clandestinos, que ninguém quer ver devassados, sobretudo as mulheres. Principalmente para seus maridos. Amei Emília largada do marido por anos, e tive dela banhos de ternura pura, que me dão muita saudade.(p. 362).
Isto é uma amostra.
A encomenda fica para as restantes páginas que são uma sucessão de conquistas, desde a bela paulista Fernanda, “muito rica, apaixonada por mim”...até às outras, inclusive a Berta Gleiser, com quem um dia teve a curiosa idéia de “unir-se em matrimônio”, a Mariana, filha de Miguel Otero, grande escritor venezuelano, a quem a pena flúida do autor de Maíra tributa ditirâmbicos elogios, que obviamente podemos admitir, pois se trata, como no caso do ex-famoso locutor da Rádio Nacional, de um testemunha ocular da história...(ibn. p. 408 ss).
Esqueci-me de registrar um pormenor: foi no Uruguai, ou na Venezuela, que Darcy começou a viver o amor dos cinqüenta anos!  
Darcy, como auto-narrador é tão honesto que até refere uma queixa da Berta Gleiser, quando esta, devido a uma indiscrição maligna de uma secretária (dela? Do autor?) soube das escapadas de seu marido:
- Não tenho ciúmes dela. Tenho é inveja de você. Como é que um velho quereca, broxa, conquista aquela menina? (p. 409-410).
Realmente, Darcy é imbatível, e dez vezes melhor do que o pretensioso Casanova!
Pode-se dizer o que se quiser a seu respeito, mas não acusá-lo de insinceridade, de falta de...tato, e sobretudo, de chatice!
Depois desse feixe de façanhas extra-conjugais, veio o Golpe no Chile, e infelizmente um câncer prostático:
- Eu traduzi o afrancesado do médico em voz alta para conferir com Luís: “É câncer fechado e mortal”. (p. 430).
Não precisamos desbobinar todos os êxtases de Darcy para afirmar que ele assumiu, decididamente, o seu papel de Dom-Juan – reiteramos - apesar de não descurar sua atividade política, seus CIEPS, seus “fazimentos”, seus “desafios”, soberbamente verdadeiros, que tornaram o Brasil maior e mais cidadão.
Condensemos, por uma questão de tempo, as descrições eróticas numa bela exclamação:
       - Comi a vida sôfrego. Ainda como, ávido, sem nenhum fastio ou tédio. Quero é mais. Para isso fui feito. Para comer a vida. Para agir, para pensar. Isso sou eu. Máquina de pensar, de fazer, faminto de fazimentos. Cheio de fé nos homens, nas gentes. Sobretudo nas mulheres, fontes de meus sentimentos mais fundos, de meus gozos mais sentidos. Oh, minhas sacrossantas mulheres!(p. 520).
       Há qualquer coisa de pateticamente respeitável, e de humanamente pungente nesse dom-juanismo  art-nouveau de Darcy!
 Que as mulheres me perdoem, pois, pessoalmente, nunca poderia aprovar tais atitudes libertárias e libertinas de nosso grande antropólogo! 
Os capítulos finais de Confissões (da página 550 em diante), são um estranho e indiáticoCântico dos Cânticos do autor, que nessas páginas rememora suas “donas”, nas suas “encarnações inumeráveis”.
Idem, o capítulo Amores (p. 557 ss.), no qual Darcy inseriu poemas de sua autoria.
O fenômeno do Dom-Juanismo deveria ser analisado com mais realismo e responsabilidade.
Minha impressão é que os seus defensores encaram a questão unilateralmente, preocupados apenas pelo próprio espelho retrovisor, sem jamais se interessarem em levantarem a questão das parceiras.
Os homens tendem a considerar o Dom-juanismo um privilégio aos nascidos machos.
Por que não ir um pouco além, econsiderar a situação pelo lado das mulheres?
O fato de Darcy não ter tido filhos, nem de poder tê-los, facilitava-lhe, sem dúvida, a “compreensão” desse pseudo-privilégio.
Do ponto de vista cristão, porém, não há possibilidade alguma de se aceitar (como regra pessoal) tal comportamento erótico.
As palavras de Jesus não autorizam a mínima hesitação a respeito da ética sexual.
Deixarei, por isso, de lado essa questão.
Para mim, ela está resolvida: a palavra do Mestre é a espada que corta esse terrível nó górdio, embora como homem comum, do meu século, deva confessar que as tentações dom-juanescas são como os vírus que contaminam nossa atmosfera. Estão em toda a parte.
Um cristão só pode imunizar-se contra tais seduções mediante a humildade, a oração, e a vida sacramental, além – é claro – de uma estratégia que nunca o prive da lucidez.
O que, porém, me impressiona fora da Fé Cristã, é que alguns especialistas do erotismo mundial concordem mais com a ética sexual cristã, dom que com os alumbramentos de Darcy Ribeiro e Anthony Quinn.
O autor, cujo livro até ao presente, permanece para mim como um guia nessa matéria é o do grande sexólogo francês, A. Hesnard, cuja “La Sexologie” (Paris, Payot, 1959) nada perdeu, ou pouco perdeu, de seu rigor científico.
 Hesnard diz:
- Nós já mencionamos o Dom-juanismo, mentalidade sexual pseudo-viril, que oculta uma ausência de maturidade sexual masculina. (Ib. p. 224. Ler também: p. 139-140). 
Leiam, por favor, A. Hesnard!
Não esqueçamos que o valor de um  livro não está na data de sua publicação. O valor de um livro está na sua verdade, tanto quanto esta pode ser abarcada por nós, e na permanência dela como verdadeira experiência da condição de animais-racionais.
 

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Um comentário:

  1. Gostei muito e muitas referências feitas neste texto me eram desconhecidas. Excelente. Vou guardar para posterior leitura com mais acuidade.

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