sábado, 26 de novembro de 2011

Deputado Bolsonaro: como é possível que um parlamentar possa interpelar a Presidente da República, como V.S. a interpelou?

I.
     O Brasil, atônito, ouviu, o deputado federal do PP-RJ, Sr. Jair Bolsonaro, dirigir-se à Presidente da República, no dia 24 de novembro de 2011, nos seguintes termos:
       
        - Dilma Roussef pare de mentir. Se gosta de homossexual assume. Se o teu negócio é amor com homossexual assuma.

        Reproduzo a declaração do parlamentar tal qual O Estado de São Paulo a transcreveu (na sua edição de 25-11-2011). Se o jornal não falseou as palavras do deputado, foi assim que ele falou.
        Prescindamos dos erros gramaticais cometidos pelo parlamentar: primeiramente um “pare” (na terceira pessoa), depois um “assume” (na segunda pessoa), finalmente o retorno à segunda pessoa - no “teu negócio” - que o Sr. Bolsonaro combina com a terceira pessoa do verbo assumir.
É muito erro para um cidadão alfabetizado, e muito erro para um ex-militar de carreira.
O que, porém, atingiu as alturas do Pico do Itatiaia em grosseria, foi o teor de sua interpelação.
1.   Primeiramente, o Sr. Bolsonaro parece considerar-se íntimo da Sra. Presidente. Resolveu tratá-la como se trata uma faxineira, talvez porque a imprensa tenha excessivamente badalado a FAXINA que ela está fazendo no terreno melindroso da corrupção nacional.

2.   A interpelação do Sr. Bolsonaro choca-nos, ainda mais por ele estar refugiado debaixo do guarda-sol do Partido dos Evangélicos.

3.   Em se tratando de nossos irmãos, os Evangélicos, abramos o Evangelho de São Mateus, e leiamos no capítulo 5, versículo 22 (preferi a tradução interconfessional do hebraico, do aramaico e do grego em português corrente, publicada em Portugal pela Difusora Bíblica (Franciscanos Capuchinhos), edição de 1993, a seguinte advertência de Cristo:

- (...) todo aquele que se irritar contra o seu semelhante terá de responder em julgamento; aquele que insultar o seu semelhante, chamando-lhe “imbecil”, será julgado pelo tribunal; aquele que lhe chamar “estúpido” merece ir para o fogo do inferno.

    Confesso que considero um exagero semita a condenação ao “fogo do inferno”. Já que não sou expert em hebraico, atenho-me à tradução portuguesa, adotada inclusive pela Sociedade Bíblica de Portugal.
   
O grave, o gravíssimo, foi a insinuação, oculta sob as dobras verbais da frase do deputado. A frase é uma serpente com as presas transbordantes de peçonha.

Vejamos:

A)   Antes de mais nada, existe na declaração do deputado Bolsonaro uma ofensa à Presidente;

B)   Além de uma ofensa, uma ofensa à pessoa da Presidente, à cidadã brasileira que ela é;

C) Finalmente, na declaração do deputado aparece claramente uma ofensa genérica – dir-se-ia “globalizada” – a todos os homossexuais do mundo, inclusive ao atual Prefeito de Paris, Sr. Delanöe que, por ter tornado pública sua opção, é conhecido como tal.

Nunca teria imaginado que alguém, na Câmara Federal do Brasil, chegasse a tal baixeza.
Já que alguém chegou, não nos contentemos com a retificação do Sr. Bolsonaro, que se explicou:
       
- Tencionava apenas referir-me ao amor de Dilma à causa homossexual.

Antes de mais nada, fujamos a qualquer tipo de ênfase hipócrita. De resto, com sua explicação de pé quebrado, o deputado Bolsonaro não fugiu a ela.
 Convenhamos: mau grado todas essas faltas, o deputado não pode ser bode expiatório de uma atitude que subjaz à cultura da sociedade brasileira, e que é encontradiça entre os católicos e evangélicos, ou seja, a existência de um preconceito que como aos jacarés do Pantanal é dada permissão para exibir uma bocarra de dentes afiadíssimos. 
Sou, também, católico.
Cresci numa sorte de ódio sublimninal aos homossexuais.
Felizmente, guias religiosos lúcidos, autênticos, censuraram-me, em tempo oportuno, minha atitude não-cristã.
A verdadeira atitude cristã consiste em rejeitar o homossexualismo, e respeitar e amar os homossexuais, mesmo quando eles nos agridem com uma espécie de desdém snob, cobrando-nos a negação de nossos princípios religiosos.
É preciso adverti-los de que, de igual maneira como não os forçamos a aderir à nossa ética, eles também não podem exigir de nós uma adesão à sua ética, diferente da nossa. Salvo naquilo em que nossas éticas têm em comum, no tocante aos Direitos Humanos, não lhes devemos explicações.
O respeito mútuo, fraterno é o que vale.
Não os agridamos, com nossa indiferença, nem nosso ar superior de  pseudo-catolicidade.
Não os consideremos como a indivíduos portadores de um estranho vírus mortífero...
 Acatemos-lhes a pessoa, e sua opção comportamental.


II.

No caso da agressão do deputado Bolsonaro à Sra. Presidente, não há nem o que comentar.
O que nos faz falta, a nós, cidadãos brasileiros, é um dinamismo maior, a capacidade de exigir das autoridades nossos direitos, dos quais não abrimos mão por ter votado.
 Votar não é dar um  cheque em branco. Votar é comprometer nossos representantes a serem os primeiros a observar a Constituição, e a respeitarem a ética social, e a ética religiosa particular de quem é religioso, e não atenta contra a liberdade alheia.
O país – aliás, o mundo inteiro – está necessitado de um produto interno da consciência pessoal: Vergonha!
Estamos nos tornando, literalmente, uma sociedade de sem-vergonhas, e isso pode levar nossa sociedade, mimoseada outrora com o apelativo de sociedade cordial, não só ao caos, mas à pulhice.


      

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