sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Até Onde Chega a Competitividade do Mundo em que Vivemos! O Triste Caso de um Psicólogo Holandês Famosíssimo...
        
I.
         Sempre ouvi dizer que o homem é um lobo para os outros homens.
         O ditado deveria ser aggiornato: um lobo?
Não!
Do jeito que as coisas estão, o homem é dez lobos para os outros homens!
O mundo contemporâneo tornou-se um cemitério de invejosos.
Se Dante estivesse vivo, modificaria sua Divina Comédia: inventaria um círculo do Inferno só para os invejosos, que hoje se chamam competitivos!
Consultei um Dicionário (relativamenter antigo) para saber qual a diferença entre ciúme, inveja e competição.

Vamos aos resultados dessa consulta:

1.         Ciúme:
Vocábulo essencialmente português e que parece formado do verbo latino CIO, INCITO, e MENS,  é na verdade a dolorosa impressão de uma paixão sempre originada pelo desejo de possuir exclusivamente o que julgamos que outrem nos disputa, ou que pretendemos disputar-lhe.
 Este termo melhor faz referência ao objeto que suscita a paixão, que à própria pessoa que a sente, e parece estabelecer que, entre a pessoa que têm o ciúme e aquela que o origina, há pelo menos igualdade de circunstâncias ou de condições – igualdade que pode não ser real, mas que é sempre presumida por aquele a quem a paixão domina, quando não for uma convicção de superioridade que lhe esteja arraigada no ânimo. Em todo o caso, é essa persuasão de igualdade ou de vantagem que faz que com que a manifestação exterior do ciúme seja excessivamente violenta e apaixonada.(...)
         2.
Inveja
(do latim INVIDIA, de IN, prefixo que indica oposição, e VIDEO, VER) é o sentimento que nos leva a ver com desprazer e pesar as vantagens alheias, desejando-as unicamente para nós.

O autor do “Diccionario de Synónymos da Língua Portugueza”, Sr. Henrique Brunswick (Lisboa, Empreza Editora de Francisco Pastor, 1899, p. 236-237) não se limita a dizer o que disse! Segue em frente, advertindo que:
o ciúme é nobre, e por isso nem sempre trata de ocultar-se”, e que “a inveja é vil, e por essa razão o invejoso quase sempre se esforça em dissimular os seus sentimentos”.
O ciúme declara abertamente que quer a posse do objeto; a inveja, sempre traidora, segue os ditames do ardente ódio que o invejoso tem a quem é mais feliz do que ele.
                  
O autor não nos poupa nada:

                  - Também dissemos que o ciumento considera-se em condições de igualdade ou de superioridade relativamente ao seu rival; a inveja, pelo contrário, afirma ao próprio invejoso a sua inferioridade. Do que a inveja pode, e como ela obra, dá-nos a Bíblia um belo exemplo na história de José vendido por seus irmãos. (...)
                  
O autor, finalmente, cita Roquete que diz:
                  
- A inveja é uma paixão desprezível, porque nasce do sentimento penoso que ao invejoso causa o bem alheio. Ciúme é o zelo, a cuidadosa inquietação de que a pessoa que se ama se inclina para outrem, e lhe ganhe a afeição; ou de que ao objeto amado suceda algum mal.(Ib. p. 237).

Tinha imaginado que no dicionário de Brunswick não se encontrasse o verberte competição.De fato, não há. Existe, porém, o verbo competir, acompanhado de rivalizar.
Vejamos a lição que nos ministra o Sr. Henrique Brunswick:

- Há entre COMPETIR e RIVALIZAR uma diferença principal de que dependem as outras que distinguem estes dois vocábulos. COMPETIR tem por objeto obter uma coisa no futuro; RIVALIZAR tem influência na atualidade.
Competir é brigar para vencer a pretensão comum a vários para adquirir o gozo exclusivo do que muitos desejam obter.Rivalizar é pugnar para exceder a outrem na posse do que se tem.
Quem deseja alcançar uma dignidade, uma honra, um emprego, e trata de vencer quantos pretendem o que ele deseja, COMPETE.
Quem , gozando das mesmas vantagens de que outro goza, trata de igualá-lo ou de excedê-lo em predicados ou circunstâncias, seja só pelo desejo de se tornar mais saliente, seja com o fim de se tornar único possuidor do que na atualidade lhe é comum, RIVALIZA. (Ib. p. 268).
II.
Meu Deus: esse Sr. Brunswick poderia, no mínimo, rivalizar com Siegmund Freud!

Julgamos esclarecida a questão.

Em termos genéricos:
a)                          O ciúme é bom, quando não exagerado.
b)                         A inveja é sempre má.
c)                           A competição, como a entendemos hoje, deveria ser identificada com RIVALIZAR.
Competir tem mais sentido de disputar um lugar que, em princípio, deveria ser atribuído a quem apresentasse mais condições de ocupá-lo.
Competir, antigamente, era tentar ser o melhor entre iguais, em igualdade de condições, sem interferências malévolas ou ardilosas.
                 
Por que estamos tratando dessas coisas?
         Primeiramente, porque o que era rivalidade degenerou: tornou-se competição.
Em segundo lugar, porque a nossa competição já não tem nada, ou quase nada, de uma afirmação de qualidade. É a destruição de um rival.
         A competição entre as nações, a competição entre as empresas, e até a competição esportiva, degeneraram para uma luta inglória entre parceiros, onde a regra do VALE TUDO comanda até o crime.
No próprio futebol, e em outros gêneros esportivos, devido à intromissão ditatorial do dinheiro, uma sorte de Moloch moderno (pois é ele que permite as mansões luxuosas, os iates, as amantes, os jantares em restaurantes principescos, etc. etc.), o monstro canibal domina, aclamado pela FIFA e outras entidades. O esporte está voltando para os tempos do Circo Romano, quando o final feliz era matar o adversário.


III.

Mas a verdadeira razão deste precário texto é outra.
É denunciar, pela milésima vez, a degradação maior de nossa sociedade baseada no lucro, no endeusamento do Ego, e na exploração sistemática dos seres humanos considerados simplesmente objetos.
 Troca-se um homem ou uma mulher, como se troca uma pilha.
A competição penetrou o templo sagrado das Ciências; Penetrou, possivelmente (?) no templo sagrado da própria Fé cristã.

Exemplifiquemos o que se afirmou acima.

Os jornais europeus acabam de divulgar o clamoroso caso de um dos mais famosos psicólogos europeus, o Prof. Diederik Stapel.
        
Olhem só o que aconteceu com ele.
        
O professor Diederik era, até ontem, um expert em psicologia cognitiva. Um dos mais festejados do país. Publicava suas pesquisas nas duas maiores revistas científicas do mundo: Science et Nature.
         De repente, o Presidente da Academia Holandesa de Ciências, desconfiou de que alguma coisa não andava funcionando na trajetória do astro científico de sua terra.
 Resolveu fazer uma “pesquisa” sobre o pesquisador.
         Que resultou dessa busca de informações corretas sobre o astro?
         Que ele falsificava seus trabalhos, que suas pesquisas (ao menos 30 delas) eram trapaceadas, que suas publicações não possuíam a solidez exigida pelas publicações onde divulgava seus  papers, os quais, obviamente, faziam furor nos meios acadêmicos, e em outros meios de igual sofisticação.
         O Prof. Diederik Stapel, apanhado com a boca na botija, foi obrigado a confessar que as afirmações do Presidente da Academia de Ciências da Holanda, Dr. Pim Levelt, eram irrefutáveis.
Escreveu uma carta autocrítica ao jornal De Volskrant, admitindo a falsidade documental de boa parte de seus trabalhos.
Publicou mais de 130 artigos científicos em grandes periódicos científicos.
Uma de suas afirmações mais exóticas, que correu mundo à sombra de sua autoridade, dizia o seguinte:

- Comer muita carne produz egoísmo!
        
Os jornais in formam que seus numerosos alunos de pós-graduação ficaram com a cara no chão...

IV.
         Que desejamos insinuar com nossos comentários?
         Que a sociedade competitiva em que vivemos tem de ser brecada!
Ou somos doidos, que desejam precipitar-se no abismo, ou voltamos às nossas raízes humanistas e cristãs, e nos penitenciamos de tanta imbecilidade e canalhice.
         Na sociedade em que vivemos, tudo é empurrar o vizinho para trás, jogá-lo no chão, passar-lhe uma rasteira, chegar aos 17 segundos de fama midiática... e poi morir.

         Tentemos repensar com humildade o Evangelho de Cristo.
Sem eles a civilização ocidental não seria o que é, no que tem de melhor – e até de pior.
Experimentemos fazer uma catarse de nossas raízes cristãs, e tentemos, de uma vez, viver ao menos a Pré-História do Evangelho, nós que, como Nietzsche pretendia, já anunciamos a Morte de Deus.
Por que anuncia-la, uma vez que Cristo, o Homem-Deus, realmente morreu?
Morreu...e resssuscitou - fenômeno de que Nietzsche não se dignou tomar conhecimento.
        
V.

Ah!
Antes que me esqueça: para quem é sul-americano,ou melhor, latino-americano, tenho uma dica de leitura agradável e pungente: o  livro de EDUARDO GALEANO, O Século do Vento, terceiro volume de sua “Memória do Fogo”.
Estou terminando de ler (pela primeira vez!) essa pequena obra-prima (para o grande público) de reflexão histórica e de crítica social

Que livro lúcido e benemérito!

Um livro que deveria obrigar-nos a refletir sobre nossa condição de latino-americanos, justamente agora em que a Europa está pagando caro suas traições ao que de melhor ela possuía, e nos transmitiu.
A tradução é de Eric Nepomuceno, e a publicação é da Editora Nova Fronteira.
A edição, que tenho em mãos, comprada num sebo a preço de banana velha, é de 1988.
Corram atrás desse livro!
Lendo-o, tornei-me mais latino-americanos, tenho mais orgulho do Brasil de Dilma Roussef, e do Rio Ghrande de Tarso Genro, e acabarei persuadindo-me de que tomar um caminho errado pode ser mero engano, mas persistir nele , não só é burrice pós-graduada, mas tragédia.

Dizia Chesterton, mais ou menos assim:
- O Cristianismo nunca foi totalmente experimentado,porém sempre foi julgado.

Que tal o experimentarmos, ao menos pelas beiradas, comendo o que dele já esfriou?
        

Um comentário:

  1. Meu comentário seria inócuo desde que tudo já foi dito. Parabéns se isso se pode dizer para uma pessoa que escreve textos maravilhosos.

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