terça-feira, 29 de novembro de 2011

Dulce Helfer: A Arte Dentro da Reportagem.

I.
Há muito tempo estava à espera de um clic, que suscitasse, na minha memória, na minha imaginação e na minha sensibilidadele, as condições mínimas de inspiração, propícias à análise - no espaço intermédio entre a pele e a alma, entre a visibilidade e o coração - da produção dessa fotojornalista, uma das mais talentosas dentre as que atuam no  Rio Grande do Sul.
 Dulce Helfer foi funcionária do jornal Zero Hora, a partir de 1985. Obteve 23 prêmios na sua carreira profissional, três dos quais de nível internacional. Um deles foi-lhe conferido pela SIP em Guadalajara, no México.
Vários experts em fotografia já se pronunciaram sobre seu trabalho. Luciano Ramos dedicou-lhe breve, porém interessante ensaio.
Sempre achei que existe certo paralelismo entre a fotografia e – perdoem-me - a prostituição. O fundamento do paralelismo consiste nos fatos, que parecem jogar-se à cama – isto é, à câmeracom uma velocidade. uma voracidade, e até uma voluptuosidade, de fêmeas famintas.
Não confundam mulher faminta, que vende seu corpo, com mulher que (ao vender seu corpo) não vende sua alma, e ambiciona algo mais do que o dinheiro e o prazer. Algo que lhe foi escamoteado na infância e na adolescência: verdadeiro amor familiar.
A câmera de muitos fotógrafos - e também a de Dulce Helfer - parece entregar-se, por vezes, aos faits divers da vida social, à multiplicidade dos mil e um incidentes do cotidiano.
 Notem que eu disse: a câmera.
Atrás, porém, da câmera, está sempre um olho, aquele olho que Luís Fernando Veríssimo descobriu, antes que nós, distraídos, o flagrássemos.
 Veríssimo escreveu sobre a Dulce o texto mais conciso e mais belo que conheço, o qual começa assim:    
- Apertar o botão qualquer um aperta. O aparelho do fotógrafo mesmo está atrás da máquina. Chama-se olho. Existe há anos.
Veríssimo conclui, irretocavelmente:
- A Dulce levou seus olhos para fotografarem o mundo e isso é o que eles fizeram. A Dulce tem olhos da melhor qualidade.
E, ainda por cima são azuis.
A expressão: “Que olho!”, salvo engano, foi dita pela primeira vez por Paul Cézanne, que considerava Monet o maior pintor de sua época:
- Monet é um olho! - dizia ele. Mas que olho!
O caso, porém, dessa fotógrafa gaúcha de olhos azuis é de enciumar os colegas, visto que todos sabem que olhos azuis vêem melhor, penetram mais a intimidade das coisas e das pessoas, e... são os mais vistos!
       Um outro autor descobriu, também, o segredo de Dulce. Foi o Tabajara Ruas, romancista e cineasta, o qual escreveu:
       - Ela busca a decifração das formas e o jogo de luz e sombra. Ergue a imagem da imaginação.
Atrevo-me a acrescentar - ao “instantâneo” de Tabajara - uma observação:
- Dulce é, não nos esqueçamos disso,  uma fotógrafa. Eu tenho observado que todas as fotógrafas, apesar de empregarem os mesmos aparelhos que os homens empregam, os utilizam com um espírito feminil. O que as singulariza é a felinidade! São tigresas...O tigre nunca ataca frontalmente. O tigre ataca à traição. Semelhantes a eles, são as boas fotógrafas!

II.
       Desde criança, fiquei fascinado pela fotografia.
Percebi que o aparelho do fotógrafo não era o fotógrafo, e que o fotógrafo não era o aparelho que ele utilizava.
Notei que a relação fotógrafo-aparelho - ou máquina fotográfica - para salientar melhor a comparação – é parecida com a relação Homem-Mulher.
Há casais ajustados; há casais razoavelmente ajustados; e há casais que se amam, brigando.
       O fotógrafo mantém uma relação literalmente ex-ótica com sua Nikon com sua Leyca, ou com sua Cannon Digitalizadas.
 As lentes, se é verdade que estão a serviço do fotógrafo, também não estão, e lhes pregam peças imprevistas. Impingem-lhes sofisticados adultérios ópticos.
O fotógrafo não pode contar com fidelidade de outra personagem feminina, a moça chamada Luz, que sabe que é belíssima, e se aproveita disso.
       Portanto, a fotografia pressupõe uma bizarra “Guerra Conjugal”.
 Mas uma guerra na qual o fotógrafo pode perder; mas quem nunca perde, quando há vitória, é a fotografia, produto de três fatores: o olho, o acaso, e a técnica.

III.
       Afinal: qual o segredo que produz a foto excelente, a foto excepcional?
       Esse segredo reside num DNA: a Premeditação.
O grande fotógrafo é um estrategista. Ele vence por antecipação, porque projeta a vitória antes do combate.
 Pensa, reflete sobre a vida, experimenta, nem que seja de leve, a penúria existencial, talvez a miséria de nossa condição, deixa-se morder pela solidão.
Principalmente, trava diálogos íntimos com a solidão, depois de ser mordido.

IV.
Analisemos – que já é hora – algumas das fotos da Dulce.

       1. Comecemos por um retrato: o retrato de um compositor de música clássica, de um ex-Professor do Instituto de Artes da UFRGS.
O que se vê nesse retrato?
Um homem dominado pela música.
Ou antes: um homem domado por ela.
A inclinação da cabeça, os olhos internalizados, a mão esquerda no colarinho: nesse conjunto o que se impõe ao espectador é a impressão psíquica: noutras palavras: eu acreditaria na música desse homem, mesmo que essa foto não fosse a de um compositor!
 Conseguir a sugestão de tal qualidade super-ótica, eis o sucesso da fotógrafa.
      
2. Detenhamo-nos noutra foto: a da mulher deitada, submergida pela velhice, e pela prostração física.
 A foto precisa ser vista de dois pontos-de-vista: do lado da mulher, forçando um pouco o olhar; e do lado contrário ao da mulher, como se ela estivesse em pé.
Deitada, a mulher é dor. De pé, é soledade (isto é, a idade adicionada à solidão).
Convém que nós, contempladores, nos fixemos na mão descarnada da anciã: a mão de uma crucificada!
Crucificada pela nossa indiferença, pela ausência de solidariedade social, pela marginalização.
      
3. Observemos, neste momento, a foto do sacerdote italiano no confessionário.
Fixemos nosso olhar, antes de tudo, no confessionário: avermelhado, de uma frieza de chama extinta.
Lá dentro, nessa gaiola sagrada, está o padre, que deixa transparecer respeito e acolhimento. Está consciente de que os pecados dos homens – e os pecados das mulheres – são na aparência sucessos pessoais. Na realidade, são erros, fracassos, desditas, tentativas de contrarias as normas do fabricante, para que a aeronave ou o carro funcionem melhor...
       O padre, com a luz que lhe bate em cheio na cabeça e sobre a mão espalmada, parece dizer:
       - Mulher, ou Uomo Qualunque: vocês fizeram grandes tolices, e causaram infelicidade a vocês e a outras pessoas.Cristo, porém, já perdoou vocês!  Eu também sou pecador como vocês! Só posso dizer-lhes o que Ele me mandou dizer: “Vão em paz, e não tornem a pecar”?
       Como católico, aprecio tal foto: ela deixa entrever, por parte da fotógrafa, respeito e compreensão em relação a um ato misterioso, cuja aparência banal leva a suposições insignificantes.

4. Analisemos a foto do garoto atrás do poste, acima do qual se vê um cartaz afixado na parede do prédio, mostrando um par dançando um tango, ou outro ritmo qualquer.
As duas janelas em arco, gradeadas, são como olhos cubistas, com as pálpebras descidas. O verde do ambiente lembra o petróleo. Falar em solidão é  conduzir o visível ao superlativo.
      
5. Uma foto da Dulce transborda de um lirismo à Jan  Vermeeer (1632-1675): ela é toda em arabescos lumínicos, com verdes e azuis, melancolizados.
A mocinha teria descido das nuvens?
A mesa, as cadeiras, e as duas portas parecem aceitar a carícia da cortina levemente inflada pelo vento, que diz, silenciosamente: Boa tarde!
No fundo, a foto é uma imagem de nosso estar-no-mundo, no meio de assombros e enigmas.
Com um pouco de fé, pode-se, não só agüentar o mundo, mas quem sabe amá-lo!
      
6. Calemos momentaneamente os ruídos de nosso ego interior!
Fixemos a lindíssima mulher que a Dulce clicou no esplendor de sua sensualidade. Repito: de sua sensualidade. Só depois acrescento: sexualidade!
Com essa mulher um homem gostaria, previamente, de entender-se, de trocar souvenirs, de ler poemas, de ouvir música, à moda de Anthony Quinn. Só depois  convida-la para outra coisa: a cama. Ou talvez, não? Dir-lhe-ia subitamente: “Ciao!” e acrescentaria, contrariando o chimpanzé que costuma estar atrás de nós:
- Serás mais bela, e mais feliz, assim como estás! O indivíduo, que te conquistar, tem que ser um pouco Orfeu! Eu estou longe disso...
      
7. Outra foto genial da Dulce é a da Bela Desadormecida, fotografada num subúrbio de alguma grande cidade (Milão? Roma?), ou numa das tantas cidades interioranas, e  às vezes um tanto mofadas, da Itália.
Aquela pele marmórea, aquela cera de círio pascal, aquele seio...
Completem minha frase com o adjetivo mais luxurioso que vocês encontrarem!  
A foto é a imagem da própria cupidez, da tentação que nos acossa, que não cessa de perseguir nosso calcanhar-de-Aquiles, de zombar de todos nós. Que não cessa, inclusive,de nos fatigar - porque não fomos feitos para tanta cobiça e luta contra instintos, não raro fora de controle.
 Fomos feitos para o amor, embora ninguém acredite nisso.
 Os cristãos ouviram falar do espinho-na-carne de São Paulo.
Ele existe, e está ali: um espinho, que se apresenta deleitoso, que joga o homem para fora de si, e finalmente, o faz despencar de um barranco.
A Dulce, no caso, foi maliciosa: preferiu aliar-se à Serpente.
Não a censuro.
É bom para nós, para que não presumamos de nossa liberdade, para que não nos julguemos imunes aos vírus da carne, para – em resumo – que não nos joguemos num outro seio: o da hipocrisia.
 Diante de uma foto como essa, somos obrigados a curvar a cabeça, e a pedir ajuda ao Único que pode salvar-nos, porque só Ele pode não nos deixar cair em tentação.  
O prazer é falaz, e o que fica de seus goles de apressado delírio, são os tijolos das duas paredes, que na foto permanecem na sua indiferença.
A bandeira do Brasil, que a mulher acaricia, dá-lhe, talvez, mais calor do que todos os afagos de seus ávidos clientes.
      
IV.
       Fotos assim são parábolas!
Ou são drágeas, que a gente engole, e fica pensando, sofrendo, sonhando... com o coração em apuros.
Está é a fotojornalista Dulce Helfer, que eu conheço há longos anos.
Gabem sua beleza física meus amigos, e os amigos dela.
Deixem-me gabar-lhe unicamente certa tristeza, que ela não consegue afugentar, como se afugenta, com delicadeza, um passarinho que pousou na janela de nosso apartamento, ou um cãozinho com frio, que nos pede carícias deitando-se humildemente aos nossos pés.
Dulce não consegue, por outro lado, afugentar certa alegria, que ela tem constantemente dentro de si, e até fora de si, quando está em casa, quando conversa com suas amigas e amigos, quando – como boa alemoa – bebe cerveja num bar, ou saboreia um café. Nesses encontros ela reparte sua afetividade sincera, sua ternura quase aveludada, que ela dá primeiramente a seus filhos e netos, e depois a quem lhe merece respeito e afeição.
Quando, se tem sorte, Dulce nos obsequia com pratos gaúchos e da cozinha teuto-brasileira. Sabe também oferecer-nos quitutes, que só ela sabe preparar.
       Vocês ficaram sabendo por que o Mario Quintana adorava essa mulher!
Minha mulher, Cleuza, também a adora!
É que existe na Dulce algo de intrinsecamente humano, que a torna para seus amigos, uma autêntica amiga, apesar de ela ser, à primeira vista, uma tentação para qualquer homem.


V.

       Não poderia concluir este breve ensaio, sem inserir nele uma foto que a Dulce tirou no México, na qual se vê, na plena nudez do deserto, a alma de um mexicano entre árvores mirradas.
Não sei por que, essa foto me fez lembrar Pedro Páramo, de Juan Rulfo.
       A foto revela o grau de compaixão que Dulce sente pela humanidade.
Que ela sente pelos homens, pelas mulheres concretas, que tropeçam uns nos outros, em nossas cidades barulhentas e atravancadas. Pelos homens e mulheres, que não entram no seu aparelho fotográfico, e que continuam a esparramar mundo afora desamparo de criaturas, a pobreza de seus lares, a falta de ideais de suas existências, a falta de tudo que se sobrepõe à animalidade,  neste novo admirável mundo novo da Globalização.
       A Dulce tirou essa foto porque queria fazer companhia a esse pobre latino-americano!
Talvez ela acredite (não sei!) que o amor e o poder de Cristo ainda podem salvar-nos.
       Se ela acreditar nisso, considerá-la-ei também minha irmã.
  


sábado, 26 de novembro de 2011

As Mulheres Islâmicas Imitam as Mulheres Ocidentais?

I.

Que as mulheres islâmicas tirassem o véu que lhes cobre o rosto quase – a burka – e passassem a exibir os olhos, amendoados que as tornam cativantes; que fizessem questão de revelar um pouco mais a própria personalidade feminina, durante séculos sufocada pelo machismo implacável de seus seus maridos; que pudessem, enfim, ser um pouco do que sempre desejaram ser: mulheres – a serviço das Mil e Uma Noites de um Sultão, mas  para os Mil e Um Dias de suas profissões conquistada pelo próprio mérito: nada mais humanista, desejável, e digno  de figurar no painel dos Direitos Humanos da ONU.
Que elas, porém, de repente, preferissem o exibicionismo, a exposição flagrante  dos seios – como profissionais do striptease– não nos teria ocorrido, até porque, no terreno minado das humilhações e vexames que as mulheres do Islã tem  sofrido até  anos atrás, muitas delas deram demonstrações de rebeldia e altivez.
Por que razão, então, a Srta. Alida Magda Elmahdi,  uma egípcia blogueira de 20 anos, opta por exibir suas mamas para um milhão de curiosos da Internet?
Desejo de fama?
Ânsia pelos já anacrônicos 17 segundos de celebridade?
Síndrome de top-model?
O exibicionismo, que a civilização ocidental impulsionou por todos os meios, atingiu, na atualidade, o despudor e o mau gosto.
Os seios, e outros órgãos da anatomia feminina, são extraordinariamente belos.
A natureza os moldou com engenho e arte, dotando-os das provocações propícias à procriação e, em se tratando de animais racionais, das condições que suscitam e favorecem o convívio erótico, o qual ultrapassa as exigências da genitalidade procriativa, dispõndo os parceiros a uma forma de amor, que não existe nos irracionais, ao menos numa dimensão de tanta profundidade e elegância humanas.
O amor, chamemos-lhe assim, ao menos enquanto – como disse uma vítima, ou pseudo-vítima (?) de um atentado sexual na França, não se reduzir à posse brutalizada de um chimpanzé em relação à sua fêmea, copnstitui um relaçcionamento oblativo.
Esse relacionamento é voluptuosa e consciente, e viabiliza, entre o varão e a mulher, não uma posse por assim dizer unilateral do macho, nem ninfomaníaca da mulher, mas algo que, sem deixar de manter seu fundo instintivo e, até certo ponto, egoísta, consegue transcende-lo em direção a uma atitude marcada pela consciência de que o EU e o TU são categorias do existir não-antropóide.
É evidente que se deve admitir uma pré-atitude sexual nos bichos, que nos devia ter sinalizado, desde muito tempo atrás, para uma compreensão maior do sexo dos próprios animais: o da emergência neles de uma sorte de pré-ternura, se é que, nalguns animais, em determinados momentos de sua existência, não atinge mesmo a ternura. Refiro-me a certas mães-animais, quase todas, e a certos bichos que, “hominizados” pela proximidade do convívio humano, se tornaram como que espelhos, embaciados ou não, do que de melhor existe em nós.
 O paleontologista, e filósofo francês, Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955), sempre sustentou que tudo o que existe no homem, preexistiu no animal - quase como se esse fenômeno animal fosse uma antecipação do fenômeno humano.
A ternura dos irracionais pode, em determinados momentos, provocar-nos lágrimas!  Dias atrás, vi na primeira página de um importante jornal europeu um cachorro chinês, que foi manchete na imprensa internacional, porque, ao falecer seu dono, ele se dirigiu ao seu túmulo, e lá ficou, à espera (quem sabe?) do retorno de seu amigo.
Porque o cachorro não só é o melhor amigo do homem, mas, em alguns casos, o seu único amigo.

II.

        O gesto da jovem egípcia, Alida Magda Elmahdi, do Cairo, parece ter nascido como um protesto simbólico contra os ditames da lei islâmica que, oficialmente, não reconhece os direitos das mulheres.
        Vejamos o que escreve a pesquisadora Melanie Miehl, membro da direção da Sociedade cristã-Islâmica e co-Presidente do Conselho Coordenador da União do Diálogo Cristão-Islâmico na Alemanha (http://www.kcid.de/), da qual a Editora Sinodalpublicou um pequeno – e utilíssimo livro -: O Que É o Islã? Perguntas e Respostas (São Leopoldo, 2005):
        - De maneira simplificada pode-se afirmar que, embora seja inquestionável que os sexos tenham o mesmo valor (no Islã), desse fasto não decorre que têm os mesmos direitos em todos os âmbitos da vida.(...) o Alcorão vê uma diferença hierárquica entre mulheres e homens: “Os homens têm autoridade sobre as mulheres pelo que Deus os fez superiores a elas, e porque gastam de suas posses para sustenta-las.(...) Aquelas de quem temeis a rebelião, exortai-as, bani-as de vossa cama e batei nelas”. (4,34).
        No Alcorão, de que habitualmente me sirvo, a passagem citada por Melanie Miehl tem a seguinte tradução do arabista português José Pedro Machado, seu tradutor direto do árabe:
        -Os homens são superiores às mulheres pelas qualidades com que Deus os elevou acima delas e porque os homens gastam os seus bens a dotá-las.
        Lisboa, Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1979. p.103).
Os islâmicos fundamentalistas vivem dentro desses padrões religiosos, e os têm por válidos integralmente para nosso mundo contemporâneo.
Desconhecem, pou parecem desconhecer, que o mundo não-tribal e alfabetizado, em que suas mulheres vivem, e nas quais são cientistas, escritoras, artistas, engenheiras, empresárias, etc., enfim profissionais, em todas as áreas, não é mais compatível com tais aspectos secundários de sua Fé.
Numa palavra: os imãs (mesmo tributando-lhes o máximo respeito) estão defasados em relação às mulheres islâmicas da atualidade,  como.no século XIX, o estavam nossos eclesiásticos católicos, quando pretendiam deter a emancipação feminina investindo contra o rouge, o bâton, as mangas curtas, as calças compridas, e enfim as minissaias.
       
Não terá razão a moça do Cairo, apesar de sua insolência, de sua agressão midiática aos hábitos inerciais de sua religião?
Ao exibir seus seios, com os apelos que eles produzem ou sugerem, a descendente da célebre e remotíssima Rainha do Egito, Cleópatra, talvez tenha pretendido  ferir o calcanhar–de-Aquiles de seus compatrícios, que as desejam ardentemente, mas não as querem livres. Querem que elas, ardam de amores por eles, e se curvem à sua paixão predatória, que carrega flamas que remontam às nascentes do Islamismo.
Nós, ocidentais católicos, que professamos que, em conseqüência do Pecado Original, não é fácil para ninguém, nem para Frei Beto, o herói d9ominicano que enfrentou as torutras dos miliates, resistir ao apelo de tais sucções  psicológicas (como o próprio frei o declarou ainda recentemente), teremos coragem de jogar a primeira, e a segunda pedra a essa jovem que está desabrochando para a sua sexualidade madura?
A jovem do Cairo pode ter querido dizer - não apenas aos seus compatrícios, mas aos machões ocidentais também – o seguinte:

        - Não sejam hipócritas, ó donos do planeta! Vocês querem que nos cubramos, da cabeça aos pés, para poderem continuar a nos explorar com maior facilidade. Ora, nós queremos poder escolher, também, nossos parceiros, ter os mesmos direitos que vocês, e se for o caso amar e desamarcom a mesma liberdfade com que vocês nos amam e desamam!

III.

        Insistamos num ponto, que alguns sexólogos  realçam: a compulsão da mulher ocidental, educada no Cristianismo, de tender para um certo exibicionismo. Ou seria, Dr.,Freud, narcicismo?
Por que tanta desnudez na televisão, e em outros meios de comunicação? Por que essa torreencial difusão de fotos na Internet?
A essas alturas, tenhom a impressão de que já se trata de...mendicância sexual...
        Os sexólogos        olham com suspeição para tudo isso. O desaparecimento do pudor tem a ver com uma sensível desvalorização da relação erótica.
Por falar em pudor, leiamos o que o Profeta Maomé escreveu:
- Dize aos crentes que baixem o olçhar e preservem o pudor: é mais correto para eles. Deus observa o que fazem. E dize aos crentes que baixem o olhar e preservem o pudor, e não exibam seus adornos além do que aparece necessariamente. E que abaixem seu véu sobre os seios, e não exibam seus adornos senão a seus maridos ou pais, ou sogros ou filhos e enteados, ou criador despojados do apelo sexual, ou às crianças que nada sabem da nudez da mulher.
(Cit. por Melanie Miehs. Ib. p.67.No meu Alcorão, o do arabista José Pedro Machado, lê-se:
- Dize às crentes que baixem os olhos e que obzservem a continência, que só deixem ver os ornamentos exteriores, que cubram os seus com véus, que só mostrem os ornamentos a seus maridos...(Ob. cit. p. 368).
Não há dúvida de que o Profeta entendia de mulheres, e era um homem muito inteligente, e dotado de um sentido psicológico no mínimo igual ao do melhor psicanalista contemporânero...
 Para que ninguém pense que estou querendo caçoar do venerável autor do Alcorão, valho-me de um dos mais veneráveis – e mais belos textos da Bíblia – do Livro de Jó, e menciono o “pacto” que Jó declarava ter feito com seus olhos:

- Eu havia feito um pacto com  meus olhos:
   Não desejaria olhar nunca para uma virgem.
(Cap. 31, versículo 1).

Que eu saiba, só São Francisco de Assis fez tal pacto com seus castíssimos olhos, pois nas suas biografias se diz que ela não olhava para as mulheres:

- Temia também por eles (seus frades) o perigo que representa por vezes a familiaridade com mulheres, mesmo as mais piedosas. Ele mesmo – escreve Celano, declarava que não saberia reconhecer de rosto senão duas mulheres nio mundo. Possivelmente eram a Irmã Clara e a Irmã Jacoba.
Omer Englebert: Vida de São francisco de Assis. Tradução de Adelino Gabriel Pilonetto. Porto Alegre, CEFEPAL-Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, 1978. p.144).

Para nós, glutões ópticos genéricos, e em especial, glutões eróticos, uma auto-exigência tão grande como essa, do maior Poeta da Cristandade  – que os autores do mundo o invejem! – talvez mais amado pelas mulheres do mundo ocidental – deixa-nos boquiabertos, como aliás o merecem todos os basbaques do mundo! É lógico que não é para quaisquer olhos tal pureza, ou – se quiserem – tal cegueira voluntária em relação aos estímulos sexuais. A nós, mortais comuns, cabe-nos apenas a discrição, o “pacto” de Jó quando o espinho da carne nos espicaça mais, e simplesmente a humildade de confessar que as devastações de nossa concuspicência, promovidas alegremente pela publicidade das ruas e das tevês, nos torna a vida cristã – como dizia Frei Beto – bem mais difícil do que a dos eremitas do deserto, que só tinham de lutar contra as memórias das cortesãs de Alexandria...
 Nem tudo, porém, são nuvens sombrias sobre nós!
A valorização erótica, em si, pressupõe, não só os atrativos do sexo, como também um plus psicológico que se relaciona com outras qualidades que não são propriamente a-eróticas, mas que se combinam com as eróticas no sentido de conferir personalização a relação corporal, de conferir-lhe um carácter de posse exclusiva, que exclui a relação do âmbito puramente procriativo, e a eleva a outro plano.
É uma espécie de ascensão do núcleo narcisista em direção ao núcleo, que alguns sexólogos denominam, contrariando o esnobiswmo dos sexólogos de moda: “oblativo”, significando com isso que o prazer do coito é complementado por uma penca de prazeres (com perdão da expressão!) que, a rigor, envolvem o coito de sentimentos e emoções que o prolongam no dia-a-dia, à maneira de ecos remanescentes.
É aí que se aninha aquilo que esses mesmos sexólogos, que são em geral não-católicos, mas homens de imensa finesse, qualificam de área da sensibilidade não-egoísta, capaz de submergir o egoísmo, que depende da unidimensionalidade do prazer corporal, numa sorte de comunhão mais extensa, que não consegue manter-se sem a adesão de um ato voluntário de entrega pessoal – ato que os animais irracionais não são capazes de efetivar.

IV.

        As reações (que li na Internet a respeito do gesto da jovem do Cairo) demonstram o quanto a mentalidade das pessoas está impregnada de preconceitos ridículos, do tipo:
- Sexo é isso, é o que é, não tem essa de sufocar sua tensão )ou tesãop, com o é moda dizer-se) instintiva...
        A realidade é que o sexo, por ser uma irrupção, na identidade física (ou corporal) de um indivíduo,  de outro indivíduom, de uma alteridade física (porém não só de ordem física) (ou corporal), que lhe é, no mínimo estranha, requer um mínimo de abertura pessoal, não só anatômica, mas psíquica.
É aqui que se insere a liberdade pessoal, que todo o indivíduo tem, a de dispor de seu corpo para a entrega ou a recusa de outro corpo.
        A atração sexual não suprime tal intervenção livre. Pode torná-la inerte, passiva, submissa. Mas, extinto o flash do deslumbramento sexual, ou se quiserem, do encontro físico, os dois seres que se invadiram um ao outro, recuperam imediatamente a própria liberdade, e se esta não foi doada, isto é, se não houve um consenso amplo e decisivo, ficam no indivíduo oas detritos de um ato que não se completou.
        A moça do Cairo, ao expor, com aparente falta de decoro, os seus membros apetecíveis, deu a entender algo do que se oculta no ato sexual. A necessidade de não submetê-lo à manipulação do instinto, mas a de dar-lhe a possibilidade de tornar o instinto partner de um ato mais íntimo e duradouro: o de uma relação que tem seus motores no sexo, mas suas asas em pleno ar, talvez até no ar rarefeito que existe no céu quando a aeronave voa a dez mil metros de altitude, no ar da ar da liberdade espiritual, que não pode ser aprisionada, porque o ar só pode ser respirado, e só pode servir a um objeto mais pesado do que ele, como sustentação quando os motores impulsionam o objeto até atingir certa velocidade que, por sua vez, está sujeita às leis severíssimas da Aerodinâmica.
        E dizer que a permissividade moderna e pós-moderna propagou, por aí, e convenceu disso boa parte dos jovens, de que basta estirar-se numa cama, e transar, para saber o que é uma mulher!
        Oh santa ingenuidade – se isso não acarretasse tantas catástrofes aéreas de Boeings e Airbus!
        É conveniente, pois, perguntar, antes de qualquer vôo erótico, se não existe, de fato, uma aerodinâmica erótica!!
É claro que ela existe.
Procurai-a nos ensinamentos de Buda, de Maomé, e principalmente dos Profetas do Antigo Testamento, e em especial, num único livro, onde a verdade resplandece mais do que nos outros: nos Evangelhos, e nas Cartas do Novo Testamento.
        

Deputado Bolsonaro: como é possível que um parlamentar possa interpelar a Presidente da República, como V.S. a interpelou?

I.
     O Brasil, atônito, ouviu, o deputado federal do PP-RJ, Sr. Jair Bolsonaro, dirigir-se à Presidente da República, no dia 24 de novembro de 2011, nos seguintes termos:
       
        - Dilma Roussef pare de mentir. Se gosta de homossexual assume. Se o teu negócio é amor com homossexual assuma.

        Reproduzo a declaração do parlamentar tal qual O Estado de São Paulo a transcreveu (na sua edição de 25-11-2011). Se o jornal não falseou as palavras do deputado, foi assim que ele falou.
        Prescindamos dos erros gramaticais cometidos pelo parlamentar: primeiramente um “pare” (na terceira pessoa), depois um “assume” (na segunda pessoa), finalmente o retorno à segunda pessoa - no “teu negócio” - que o Sr. Bolsonaro combina com a terceira pessoa do verbo assumir.
É muito erro para um cidadão alfabetizado, e muito erro para um ex-militar de carreira.
O que, porém, atingiu as alturas do Pico do Itatiaia em grosseria, foi o teor de sua interpelação.
1.   Primeiramente, o Sr. Bolsonaro parece considerar-se íntimo da Sra. Presidente. Resolveu tratá-la como se trata uma faxineira, talvez porque a imprensa tenha excessivamente badalado a FAXINA que ela está fazendo no terreno melindroso da corrupção nacional.

2.   A interpelação do Sr. Bolsonaro choca-nos, ainda mais por ele estar refugiado debaixo do guarda-sol do Partido dos Evangélicos.

3.   Em se tratando de nossos irmãos, os Evangélicos, abramos o Evangelho de São Mateus, e leiamos no capítulo 5, versículo 22 (preferi a tradução interconfessional do hebraico, do aramaico e do grego em português corrente, publicada em Portugal pela Difusora Bíblica (Franciscanos Capuchinhos), edição de 1993, a seguinte advertência de Cristo:

- (...) todo aquele que se irritar contra o seu semelhante terá de responder em julgamento; aquele que insultar o seu semelhante, chamando-lhe “imbecil”, será julgado pelo tribunal; aquele que lhe chamar “estúpido” merece ir para o fogo do inferno.

    Confesso que considero um exagero semita a condenação ao “fogo do inferno”. Já que não sou expert em hebraico, atenho-me à tradução portuguesa, adotada inclusive pela Sociedade Bíblica de Portugal.
   
O grave, o gravíssimo, foi a insinuação, oculta sob as dobras verbais da frase do deputado. A frase é uma serpente com as presas transbordantes de peçonha.

Vejamos:

A)   Antes de mais nada, existe na declaração do deputado Bolsonaro uma ofensa à Presidente;

B)   Além de uma ofensa, uma ofensa à pessoa da Presidente, à cidadã brasileira que ela é;

C) Finalmente, na declaração do deputado aparece claramente uma ofensa genérica – dir-se-ia “globalizada” – a todos os homossexuais do mundo, inclusive ao atual Prefeito de Paris, Sr. Delanöe que, por ter tornado pública sua opção, é conhecido como tal.

Nunca teria imaginado que alguém, na Câmara Federal do Brasil, chegasse a tal baixeza.
Já que alguém chegou, não nos contentemos com a retificação do Sr. Bolsonaro, que se explicou:
       
- Tencionava apenas referir-me ao amor de Dilma à causa homossexual.

Antes de mais nada, fujamos a qualquer tipo de ênfase hipócrita. De resto, com sua explicação de pé quebrado, o deputado Bolsonaro não fugiu a ela.
 Convenhamos: mau grado todas essas faltas, o deputado não pode ser bode expiatório de uma atitude que subjaz à cultura da sociedade brasileira, e que é encontradiça entre os católicos e evangélicos, ou seja, a existência de um preconceito que como aos jacarés do Pantanal é dada permissão para exibir uma bocarra de dentes afiadíssimos. 
Sou, também, católico.
Cresci numa sorte de ódio sublimninal aos homossexuais.
Felizmente, guias religiosos lúcidos, autênticos, censuraram-me, em tempo oportuno, minha atitude não-cristã.
A verdadeira atitude cristã consiste em rejeitar o homossexualismo, e respeitar e amar os homossexuais, mesmo quando eles nos agridem com uma espécie de desdém snob, cobrando-nos a negação de nossos princípios religiosos.
É preciso adverti-los de que, de igual maneira como não os forçamos a aderir à nossa ética, eles também não podem exigir de nós uma adesão à sua ética, diferente da nossa. Salvo naquilo em que nossas éticas têm em comum, no tocante aos Direitos Humanos, não lhes devemos explicações.
O respeito mútuo, fraterno é o que vale.
Não os agridamos, com nossa indiferença, nem nosso ar superior de  pseudo-catolicidade.
Não os consideremos como a indivíduos portadores de um estranho vírus mortífero...
 Acatemos-lhes a pessoa, e sua opção comportamental.


II.

No caso da agressão do deputado Bolsonaro à Sra. Presidente, não há nem o que comentar.
O que nos faz falta, a nós, cidadãos brasileiros, é um dinamismo maior, a capacidade de exigir das autoridades nossos direitos, dos quais não abrimos mão por ter votado.
 Votar não é dar um  cheque em branco. Votar é comprometer nossos representantes a serem os primeiros a observar a Constituição, e a respeitarem a ética social, e a ética religiosa particular de quem é religioso, e não atenta contra a liberdade alheia.
O país – aliás, o mundo inteiro – está necessitado de um produto interno da consciência pessoal: Vergonha!
Estamos nos tornando, literalmente, uma sociedade de sem-vergonhas, e isso pode levar nossa sociedade, mimoseada outrora com o apelativo de sociedade cordial, não só ao caos, mas à pulhice.


      

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Grécia e Itália: o feitiço contra o feiticeiro?
I. O CASO DA GRÉCIA
        Estou mais do que aturdido: a Grécia foi a civilização-mãe do Ocidente, visto que ela, de certa maneira, recolheu a Herança Mesopotâmica e a Herança Egípcia, unificando-as numa primeira síntese, na qual imprimiu sua fisionomia intelectual, a de seus filósofos, poetas trágicos e satíricos, na qual acabou por se enxertar, decorrido algum tempo, a fisionomia de outra civilização: a romana.
        O Cristianismo, que veio mais tarde, parasitou-se na Civilização Greco-Romana, na sua terceira fase, a do Helenismo, o qual se tornara cosmopolita.
Que língua, por exemplo, aprendeu no berço o Apóstolo Paulo, o segundo fundador do Cristianismo? O grego.
Paulo nascera em Tarso, na Cilícia. Assimilou na sua primeira leitura da Bíblia a Versão Grega dos Setenta, realizada em Alexandria no III século a.C.
 Posteriormente, com sua ida a Jerusalém, Paulo aprimorou seus estudos de teologia judaica na Escola de Gamaliel, que ensinava em hebraico.
        Dado que Paulo propunha-se a ser o Apóstolo dos Gentios (ou Pagãos), ele foi obrigado a escrever na lúingua grega suas Cartas aos Cristãos.  
Todo o Novo Testamento foi escrito em grego, embora se pense que alguns Evangelhos tenham sido, inicialmente, escritos em hebraico, ou aramaico, e depois traduzidos para o grego.
        No passado, alguns dos primeiríssimos Padres da Igreja viram na difusão da cultura helenista um propósito de Deus, que por esse meio facilitara a internacionalização (ou catolicidade) da Mensagem de Jesus.
        Nós, cristãos, somos espiritualmente semitas, devi- do às raízes bíblicas do Antigo e do Novo Testamento,  e culturalmente greco-latinos porque, foi através do “batismo” de mitos e ritos greco-latinos que o Evangelho se materializou nos seus símbolos e imagens.
Donde procede, por exemplo, a imagem da Orante, que terminaria sendo a inspiração longínqua da imagem da Virgem Maria? Da Pietas Romana. E a imagem do Bom Pastor? Do mito grego de Orfeu e Eurídice.
        A Civilização Cristã, portanto, paga um pedágio altíssimo a todas essas fontes de influências e confluências.
Sabemos que a Primitiva Arte Cristã, a das Catacumbas, uniu-se à arte dos mosteiros da Palestina e da Tebaida, e assim deu origem à Arte Bizantina que, mais tarde, nos séculos XII-XIV, possibilitaria a Cimabue e a Giotto, e à Escola de Siena, a revolução do Realismo Ocidental, que aparece, límpido e insuperável, nos afrescos de Giotto em Assis e Florença.
Giotto é considerado o Pai da Pintura Ocidental Moderna. Sabemos que os mosaicos de Ravenna, e os afrescos das igrejas monásticas da Sérvia, sobretudo a do Mosteiro de Nerezi, tiveram um papel decisivo na criação de um dos motivos iconográficos cristãos mais importantes, o da Deposição do Corpo de Cristo, do qual procedem as Pietàs de Miguel Ângelo, precedidas, é claro, por outras figuras do mesmo tipo, mais próximas de seus modelos orientais.
       
II.

Que vemos suceder na Grécia na atualidade, isto é, em 2011?
        A infeliz Grécia que já em 1543 d.C. caíra sob os golpes do Sultão turco Maomé II – a Famosa Queda de Constantinopla ou Bizâncio – que transformou Bizâncio em Istambul.
No século XIX, após uma luta feroz contra os Turcos, os Gregos proclamaram sua Independência, reconstituindo, porém só parcialmente, sua antiga extensão territorial. Recuperaram o coração da Grécia antiga, Atenas.
        A Grécia de hoje está, por assim dizer, falida do ponto de vista econômico, com uma qualidade de vida que humilha o povo que foi o berço cultural do Ocidente.
Os jornais mostram, diariamente, jovens revoltados, que atiram pedras contra a polícia, a qual os afugenta mediante bombas lacrimogênicas.
        Perguntemo-nos: de que vive, fundamentalmente, a Grécia?
        De Turismo, da lembrança de seus monumentos do passado, tanto pagãos como cristãos.
 Recentemente, uma amiga, professora universitária de História, em Porto Alegre, e seu marido, um ex-engenheiro da Embratel, resolveram fazer um tour pelos caminhos do Apóstolo São Paulo. Desse tour trouxeram-me como mimo um livro: les Missions de Saint Paul en Grèce. (Atenas, Éditions Haitalis, 2003).
        Li, e percorri as ilustrações a cores das viagens do Apóstolo, cujos ecos da mensagem de Jesus ressoam nas suas Cartas aos Coríntios, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, aos Tesalonicenses. Todos eles eram cristãos de origem grega.
        Senti uma espécie de dor íntima ao visualizar os lugares onde o Apóstolo pregou.
Que existe ainda por lá?
Colunas, algumas inteiras, outras mutiladas, arcos semi-desfeitos, paisagens bucólicas onde é possível ouvir o vento assobiar, e descobrir ilusórias silhuetas dos ouvintes- fantasmas do Pregador da Boa Nova.
Detenho-me, de repente, em Atenas, pois foi no seu Areópago em que Paulo anunciou a um auditório de discípulos de filósofos cínicos e estóicos o Deus Desconhecido...
        As pessoas, que viajam para as Ilhas Gregas, Santorini, Naxos, Cos, Samos, etc., também não deixam de ir a Éfeso, para contemplar, com emoção, o local onde a Virgem Maria teria passado os anos finais de sua existência.
Emociono-me com tais imagens!
       
Mas...a Grécia?

Já nem é a de Papandreu, mas a de outro Premier...conseguirá, num futuro próximo, saldar seu bilionário empréstimo?
Houve alguém, na Europa, que propôs escandalosamente que os europeus comprassem o Partenon, e outros monumentos, para tentar explorá-los comercialmente...com mais êxito que seus atuais proprietários.
        O que me preocupa é que os Monumentos da Antiguidade, os que ainda retêm amostras da criatividade genial de Fídias e outros grandes artistas, passem às mãos dessa gangue refinada, em que pontificam Soros, Buffet, e outros investidores
 Será que tais tesouros, que sempre pertenceram aos Gregos e ao Patrimônio da Unesco, podem correr o risco de passar às mãos de tais bilionários?
        Corre-me pela espinha um calafrio! A tanto já chegamos, em nosso afã de privatização!
       
II. O CASO DA ITÁLIA.

Não bastasse isso, leio notícias espantosas sobre o Patrimônio Artístico da Itália.
Para quem não está informado sobre isso, informo que esse patrimônio constitui, no seu conjunto, algo como 50 %, ou mais, do que subsiste de arqueológico e de artístico em toda a Europa!
Em 2006, a Itália conseguiu uma arrecadação-record de seus museus: 6 milhões e 333.707194 euros - “roba da leccarsi i baffi”, segundo o jornalista Sergio Rizzo, do Corriere della Sera (17.11-2011).
Ou, em outras palavras: “Coisa para nos lambermos os bigodes”, de acordo com o jornalista.
O montante equivale a 80 % do que obtém, em um ano, o Louvre! Ou, como informa o mesmo jornalista, 1/3 do Museu Metropolitano de New York.
Qual a causa disso?

Responde o jornalista  com a maior cinceridade:

- Temos objetos artísticos em excesso...

Com humor agressivo, acrescenta:
       
- A Itália corre o risco de morrer de indigestão estética, à semelhança dos, personagens de um famoso filme de Marco Ferreri, intitulado: “La Grande Abbufata”!

O Museu Nacional de Pisa teve vendeu apenas, em 2011, duzentos e cinquenta e três ingressos.
Por sorte, a Galleria degli Uffizi, em Florença, continua sendo o museu mais freqüentado da Europa, levando-se em conta sua extensão. Rende mais que a Tate Modern, os Museus Vaticanos, o Museu d’Orsay, e o Louvre.
O jornalista Sergio Rizzo prossegue, e nos choca ainda mais. Diz ele que o Ministério dos Bens Culturais da Itália dá a impressão de considerar o patrimônio cultural italiano mais como um peso, do que uma oportunidade.
Descreve o grau obsceno de politicagem. que servia de critério para Silvio Berlusconi preencher os postos diretivos de seu Ministério da Cultura.
Eis um exemplo: já que o ex-Governador da Região Vêneta, precisava ser substituído, no Ministério da Agricultura, por um partidário do ex-Premier da Sicília, Berlusconi tirou Giancarlo Galan do Ministério da Agricultura e o colocou no Ministério da Cultura. Afinal, agricultura e cultura parecem apresentar afinidades terminológicas...
(Corriere della Sera.17 de novembro de 2011).
 Quem pagou a conta do conchavo foi o ex-ministro Sandro Bondi.
Nos últimos anos, as despesas com os funcionários do Patrimônio Cultural reduziram-se de 2,4 milhões para 1,6 milhões. Em cifras mais claras: de 2001 a 2011, as verbas destinadas a investimentos nos Bens Culturais da Itália reduziram-se 50 %: de 750 milhões de euros para 213 milhões.
A incumbência de revitalizar os Museus Italianos foi confiada, recentemente, a um ex-Executivo da Rede McDonalds, Mario Riesca.
Qual a verba que lhe foi posta nas mãos?
Apenas um milhão e 480 mil euros...
Não é preciso dizer mais nada.
A Itália berlusconiana, que foi freneticamente aplaudida pelos italianos durante 17 anos, aparentemente expirou há poucas semanas.
Expirou?
Não acreditem.
Berlusconi é um gato, não de sete fôlegos, mas de setenta vezes sete fôlegos.
Ele vai voltar.
Provavelmente, o Queremismo Getulista, de tão triste memória, encontrará sua segunda edição, revisada e com notas bibliográficas  num atualíssimo:

- Queremos Berlusconi!