quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Uma Mulher Excepcional: Mafalda Veríssimo.

         Invejo escritores como Manuel Bandeira, que sabem falar de amigos – e até de inimigos - não só com distinção, mas com a mais límpida e melodiosa afetividade.
Parece fácil, mas não é.
Falar de pessoas não é o mesmo que falar de objetos.
Os objetos podem ser descritos, as pessoas só podem ser sugeridas!
         Esta é a diferença essencial!
         Leiam, por exemplo, o que Manuel Bandeira escreveu sobre José de Abreu Albano, na sua Flauta de papel, incluída pelo organizador de sua Seleta de Prosa, um dos melhores manuais de bem escrever que conheço.(Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1997.p.133-135).
         José Albano era um poeta bissexto, poeta original, e às vezes, extraordinário. Vivia, porém, nas nuvens, e não caía delas porque tinha uma cara-de-pau cativante. Por exemplo, na sua opinião: numa sociedade bem organizada os poetas teriam direito a néctar...
         Imaginem!
Num mundo em que as próprias abelhas têm de mourejar para conseguir o seu néctar!
Manuel Bandeira era tão humano que não admitia a mínima trapaça no espírito do poeta, que era – como ele diz – um homem digno e altivo.
 Notem o adjetivo altivo, contrabalançando o adjetivo digno!
Isso é classe.
Eu gostaria de ser Manuel Bandeira para falar sobre a Mafalda Volpe Veríssimo, a esposa de nosso romancista-mor, o Erico Veríssimo, e mãe de nosso Cronista-Mor, o Luís Fernando.
Como era a Mafalda?
Eis aí uma questão que já me deixa confuso.
Porque a verdade é a seguinte: a Mafalda era de uma sinceridade xilográfica!
Nada de lisonjazinhas, de beijinhos e palmadinhas nas costas, nada de maçãs carameladas...
Ela era pão-pão, queijo-queijo, e se o pão era dormido, pior para o pão.
Nos inícios de nossa amizade, confesso que essa atitude da Mafalda me deixava (como se diz em francês) agacé.
Com o tempo, fui descobrindo que não havia coração mais bondoso, nem mais franco, nem mais generoso do que o da Mafalda.
Naturalmente, a Mafalda era uma rosa. E não há rosa sem espinho!
Ela não suportava um costume semi-gaúcho que consiste em bajular.
Dir-me-ão:
- Não existe gaúcho bajulador!
Está bem!
O gaúcho é altaneiro, sobranceiro, altivo, orgulhoso, altanado, arrogante, brioso, soberbo... Copiei quase todos os sinônimos do Dicionário de Sinônimos e Antônimos da Língua Portuguesa, do Pe. Artur Schwab. (Rio de janeiro, MEC-Fundação Nacional de Material Escolar, 1974).
Acrescento que o gaúcho faz questão de afirmar que ninguém lhe pisa no poncho, que não existe capacho no Rio Grande do Sul, etc.
Concordo.
O que, porém, não me agrada, em nossa autêntica cultura gaúcha, não é o servilismo, ou a bajulação, mas o espírito de veneração em relação à Côrte. Senão de veneração, ao menos, de devoção. Ah! A devoção rio-grandense pelos Mandarins de Rio e São Paulo, e atualmente, de Brasília, é de desanimar.
O complexo por ter nascido longe da Côrte, numa zona de fronteira e, em razão disso, ter que batalhar para ser brasileiro, e não ser simplesmente um carioca ou um bahiano, os quais nasceram numa liteira ou, ao menos, num tílburi...Interrompo a frase para não constranger mais meus eventuais leitores.
O gaúcho nasceu em cima de um cavalo. E cavalo relincha.
Por isso, na expressão do Mario Quintana, o gaúcho aprendeu a relinchar...
Quem não conhece aquele escrito ferozmente gaúcho do Quintana:
- Lembro que certa vez me encontrei com seu Zé na rua. Como bons amigos, paramos, relinchamo-nos, abraçamo-nos: “Há quanto tempo!”
(Poesia Completa. Org.0 de Tânia Franco Carvalhal. Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 2005. p.801).
Por isso, quando, certa vez, a Mafalda, que sempre oferecia meias de lã, feitas por ela mesma, ao velho Poeta, este, que já acumulava várias meias, lhe disse com a mesma franqueza meio relinchada:
- Obrigado, Dona Mafalda, pelas meias! Mas não se esqueça de que não sou uma centopéia...
Se o Quintana não lhe disse isso, com veracidade histórica, pelo menos pensou nisso!
Voltemos à Mafalda.
Habituei-me à sinceridade xilográfica da Mafalda, e só assim descobri que essa mulher, além de possuir um coração do tamanho do coração de seu marido (ela devia, também, ter morrido de coração!), era uma das mulheres mais inteligente e de espírito perspicaz deste Estado. Ou antes: deste país!
Além disso, era culta.
Não culta como quem carrega uma biblioteca atrás de si, mas como quem é uma biblioteca!
A Mafalda sabia das coisas, sabia coisas que só ela sabia, sabia das coisas alheias, e ainda encontrava tempo para saber coisas que só o bom Deus sabia, uma vez que era católica sincera, de missa dominical, e acreditava nos Mistério de sua Fé.
Não era carola, nem pactuava com a ranzinzice de certos eclesiásticos, de fita e métrica de alfaiates em tempos de prét-à-porter...
Lembro-me que, um dia, ela me referiu um incidente desagradável desse clericalismo autoritário e obsoleto. É verdade que o bom coração da Mafalda já tinha descoberto que o tal sacerdote do incidente era uma pessoa (como todos nós) com um bom estoque de neura, da mais destilada.
Volto insistir: Mafalda era, não só uma gringa atilada, era também extremamente inteligente. Suas leituras, posto não fossem tão vastas como as de seu marido, eram de uma leitora incapaz de se embeiçar pelos Dan Bronws da América do Norte. Ela sabia distinguir muito bem um best-seller (que podia, diverti-la), mas cujo valor de produto de loja 1,99 ela bem conhecia!
Aproveito a dica para dizer que conheci outra mulher assim, tão inteligente como ela: a Luiza, esposa do Maurício Rosenblatt.
Em termos gerais, se eu tivesse que escolher, entre as opiniões do Rosenblatt e do Erico, e as da Mafalda e da Luiza, acho que hesitaria. Até porque as opiniões dos dois memoráveis intelectuais do Pampa deviam muitíssimo às duas mulheres!
Não direi que a Mafalda era exemplar em todas as “virtudes da casa” e nas outras complexas virtudes da existência de um animal racional. Digo, apenas, que em quase todas era excelente.
Prefiro considerá-la uma criatura singular, privilegiada, seja como carácter (um tanto rígido), mas também como amiga, conselheira, anfitriã, apreciadora de uísques vesperais, montadora de puzzles (de levar ao desvario um matemático de nomeada!(, boa cozinheira, papo ameno e condimentado com as melhores especiarias do Oriente...e do Ocidente!   
Enfim, uma mulher hors concours!
Ah! Antes que me esqueça: possuía um sentido de humor incomparável.
 Em geral, um humor autocrítico e social, como é o humour verdadeiro, mas que podia transformar-se numa ironia de espora gaúcha...quando se defrontava com a estupidez e a idiotice em pureza laboratorial!
Na minha mais recente leitura, lenta e meditada, de O Continente, cheguei à conclusão de que a Mafalda não se explica sem as personagens femininas da grande trilogia de seu marido. Ela é um pouco Ana Terra, Bibiana, e todas as outras mulheres do Erico!
Quantas saudades ela deixou!
Saudades?
Deixou mais do que isso: deixou um vazio que não pode ser preenchido.
Às vezes, surpreendo-me a rezar – não por ela – mas a ela, pedindo que, nos seus ócios celestes (se os houver!), se lembre deste pobre mundo, de cada um de nós, e interceda por nós, para que sejamos mais humanos, e não nos queixemos tanto do planeta em que vivemos.
Uma qualidade que ela tinha, e eu ia esquecendo, era a de aceitar o mundo como ele é, sabendo que para desfruta-lo é preciso um mínimo de bom senso e modéstia.
Humildade?
Creio que a Mafalda aceitaria minha declaração irreformável:
-Já que não pude chegar à humildade, ao menos (parece-me!) cheguei ao humor!

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