sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Um Monumento Vivo: Eva Sopher.

         No momento atual, quando a mídia se concentra em mulheres gaúchas, que exibem qualidades físicas, ou cujos predicados de Mulher Nua  (ou Quase-Nua), as Top-Models em especial, e outros ícones da publicidade e representantes da indústria do entretenimento são exaltados, é imprescindível falar de mulheres vestidas, de mulher que não precisam, expor em público aquilo que, habitualmente,se revela numa alcova, ou num ambiente  de intimidade com um parceiro no amor.
Falei em A Mulher Nua, porque esse é o título de um livro extraordinariamente lúcido, que deixa transparecer os conhecimentos estéticos de seu autor. O livro tem por subtítulo: Um Estudo do Corpo Feminino. (Trad. de Eliana Rocha. São Paulo, Editora Globo, 2005).
Seu autor é Desmond Morris, zoólogo inglês, que já se celebrizara por outro best-seller: O Macaco Nu, traduzido para quase todas as línguas conhecidas, e do qual se venderam mais de dez milhões de exemplares.
      Que tem a ver com isso a Sra. Eva Sopher?
         A rigor, pouco.
Para dizer a verdade: muito!
Ela, também, é mulher, e ainda hoje, na idade em que está, poderia – se o quisesse - gabar-se de seu charme feminino, que nada fica a dever às concorrentes. Pelo contrário, às atrações de suas colegas, ela adiciona o que pertence à humanidade em geral, a inteligência, um apurado sentido estético, e sua cultura.
É bom que o Rio Grande não se esqueça de um pormenor: o fato de suas mulheres serem excepcionalmente belas (o poeta, romancista, e ensaísta alemão, Hans Magnus Enzensberger, quando esteve em Porto Alegre, confessou-me que nunca vira, numa rua de qualquer cidade do mundo, tantas mulheres estonteantes juntas, como as que vira na Rua da Praia de Porto Alegre!) - isso não impede que alguém, do seu porte midiático, possa completar a declaração com outra, em que diga que Porto Alegre oferece, também, um dos índices mais altos de mulheres inteligentes, sensíveis, e de altíssimo gabarito profissional, das quais a Presidente Dilma Roussef pode ser uma amostra com Eva Sopher.
O caso da Sra. Eva Sopher, aliás,  é singularíssimo.
Ela não é propriamente gaúcha, ou antes, é mais gaúcha do que qualquer outra mulher nascida no Pampa, porque quis ser gaúcha de mente e coração, e ninguém lhe tira essa glória.
Nascida na cidade de Frankfurt, na Alemanha, abandonou a  peste hitlerista em 1937,  aos 13 anos, e veio para o Brasil, aonde seu pai emigrara dois meses antes. Como ela mesmo o confessou, na era desditosa da ditadura nazista,  sua saída da Alemanha foi um inferno, e tudo o que ela conseguiu foi, literalmente, salvar a pele.
Com a pele, salvou para nós gaúchos um cérebro maravilhoso, e um coração de igual fibra.
 Sua família radicou-se em São Paulo, cidade onde morou durante seis anos. Em 1943, foi para o Rio de Janeiro, onde nasceram suas filhas. Em 1960, por motivos profissionais de seu marido, transferiu-se para Porto Alegre.
Embora não se tenha diplomado em Artes Plásticas, Eva interessou-se por elas desde os 11 anos. Na sua permanência em São Paulo, dedicou-se, por algum tempo, à escultura. Posteriormente, resolveu trabalhar para a ProArte, entidade de concertos e eventos culturais.
Trabalhou nessa empresa até 1943, quando passou a residir no Rio de Janeiro. Ali dedicou-se à encadernação de livros artísticos.
Após sua transferência para Porto Alegre, Eva recebeu a incumbência de fundar uma filial da ProArte na capital gaúcha.
 Foi então que conheceu sua paixão: o Theatro São Pedro - paixão à primeira vista.
Durante 23 anos, Eva dirigiu a ProArte em Porto Alegre.
         Na temporada de 1972, segundo conta, enquanto uma artista coreana dava um recital no palco do São Pedro, uma peça se despencou do teto, caindo a poucos centímetros de sua mão...
         Em conseqüência disso, de certo modo para salvar outra vez a pele, resolveu que os espetáculos da ProArte teriam de ser dados na Assembléia Legislativa, visto que o Theatro São Pedro fora fechado.
Diz ela com humor: “O cupim ficou dono dele!”
Foi então que o Governador Silval Guazzelli a convidou para presidir uma Fundação a ser criada para o Theatro. Devido, porém, ao “reinante descaso com a cultura”, o projeto da Fundação levou sete anos para ser concretizado. Só foi possível graças ao interesse de um Ministro da Educação, o gaúcho Ruben Ludwig. A lei foi criada, e Eva passou a ser Presidente da Fundação Theatro São Pedro.
         Com isso, a reforma da tradicional casa de espetáculos principiou a ser uma realidade.
Graças a outro gaúcho, o General Ernesto Geisel, que promoveu a restauração dos teatro antigos e teatros-monumentos, o projeto do Theatro deslanchou.
         Fiquemos por aqui.
Descrever a via-crucis de Eva Sopher  em prol de seu projeto importaria em narrar uma crucifixão nas mãos de burocratas (o que daria um filme à Mel Gibson).
Notem bem: Eva não só levou a termo a restauração de um monumento fundamental de nossa cultura, mas ela própria se converteu num monumento vivo.
Dito mais explicitamente: Eva Sopher é uma mulher-monumento, uma gaúcha-mais-que-perfeita!
Hoje ela proclama:
- O Theatro São Pedro é um teatro de primeiro mundo!
Não sei se os leitores de meu blog conheciam esses detalhes biográficos da Eva.
         Agora é hora de meus palpites.
Não direi que a Eva seja uma mulher de trato fácil.
É uma mulher exigente, e neste país, onde tudo se adia, ou onde tudo acontece como na lenda folclórica dos macacos que, num dia de chuva, decidiram construir uma casa, porém, findo o aguaceiro, decidiram, unanimemente, protelar a construção, imaginem o que significou para a Eva gastar os saltos altos e baixos de seus sapatos no pavimento de Secretarias e Ministérios Públicos!
 Se ela fosse uma mulher excessivamente amável, que não soubesse impor-se aos machões  da importância nacional, o Theatro São Pedro estaria, ainda hoje causando tremedeiras às mãos de pianistas e violinistas coreanas...
O que a Eva sempre foi – e disso dou testemunho – é uma mulher de inteligência penetrante, de cultura refinada, de sensibilidade incomum, não só em termos de teatro e música erudita.
Ela é, também, uma mulher educada, cuja finesse e delicadeza só emergem em surdina, principalmente, depois que ela conhece bem as pessoas com as quais convive.
Não é nada esnobe, porém não tolera a cafonice. Nenhum tipo de cafonice! Nem a cafonice que se veste de amarelo como um monge budista, ou enfia um capaz de frade franciscano...
É judia, mas principalmente é humana – isto é,  um exemplar magnífico de “animal racional”, e naturalmente uma magnífica filha de Abraão, o Pai dos Crentes.
Pode, também, ser considerada, uma descendente direta de Terêncio (185-159 antes de Cristo), o escritor romano que afirmou:
- Sou homem: não julgo alheio de mim nada do que é humano.
(Paulo Rónai. Dicionário Universal de Citações. São Paulo, Círculo do Livro, 1985. p.445).
Eva é gaúcha por auto-inoculação, o que nos honra a todos, mas que honra sobretudo a população feminina deste Estado, um Estado que, após 40 anos de ostracismo federal, tem todas as condições para dar certo.




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