domingo, 23 de outubro de 2011

Um Cânon para o Leitor Gaúcho?

Estive em dois países onde se tentou estimular a leitura e, por meio dela, criar uma identidade maior nas pessoas, viabilizando-lhes o aceso à prata da casa, isto é, aos tesouros da memória coletiva. Refiro-me ao México e à Venezuela.
         Em ambos os países, por ocasião de Feiras do Livro, pude verificar que é possível fazer muito mais do que se faz no Brasil para levar o livro à população.
No México encontrei à venda edições populares de grandes clássicos de Cuba, por exemplo, as obras completas de José Martí, a preços incrivelmente baixos, dois ou três dólares. Na Venezuela, aonde fui a convite da Universidade de Carabobo, na cidade de Valencia (pois fui colaborador da revista Poesia, desde 1973) pude adquirir livros valiosos a preços convenientes. O Governo de Hugo Chávez subsidiou tais edições.
         Por que não se faz algo semelhante no Rio Grande do Sul?
O Governador Tarso Genro, cujo governo sucede a dois períodos de inapetência cultural, pode dar o exemplo. Um Estado, como o Rio Grande do Sul, que só dedica meio por cento de seu orçamento à Cultura,e que está atrás de todos os outros Estados do país, desonra-se perante a nação.
         Todo o mundo sabe que a Presidente Dilma e o Governador Tarso foram vítimas da Ditadura de 64.
A Presidente foi torturada. Nosso Governador pagou um pedágio alto pela sua dignidade, sendo obrigado a exilar-se no Uruguai, one, para sustentar-se, lecionou em estabelecimentos locais.
A Presidente, pois, e o Governador, são personalidades insignes, são líderes do que a Esquerda tem de melhor no Brasil, e no mundo. Podem ajudar-nos a criar uma nação democrática. Uma nação democrática se faz, aztualmente, com livros e Internet, porém  ambos a preços acessíveis.
         Livros? Quem não sabe que essa invenção da humanidade, que nasceu com a escrita na Suméria, aproximadamente 4.000 anos a.C., é - e será sempre - o instrumento básico da liberdade pessoal, e das possibilidades concretas de cidadania?
Sinceramente, não tenho a mesma convicção em relação à Internet. Por uma razão específica: a Internet continua nas mãos de poderosos grupos empresariais, e se tornou, com o transcurso do tempo, um instrumento nas mãos daqueles que outrora eram denominados capitalistas, e quem, na época atual, mereceriam ser chamados pelo seu nome verdadeira: exploradores sociais, ou seja, os donos dos capitais voláteis, e outras invenções sofisticadas daquela coisa horrorosa, que hoje tem um nome de fidalga: a Usura. AUsura chama-se agora invesntimento, agiotagem, etc.
  Já pagamos muita coisa para sobrevivermos, porém não pagamos ainda, tudo o que nossos escravocratas de gravata desejam que paguemos!
Não nos livraremos disso, se o Estado não compreender que, da mesma forma que a instrução popular não deve ficar ser privatizada, como não o podem ser a água e outros bens básicos e universais, (veja-se o exemplo da privatização do ensino secundário no Chile pós-Pinochet), assim também a Internet não pode ficar nas mãos de grupos privados.
 É preciso lutar, desde já, por uma Internet universal, a serviço de todos, não lucrativa, como o ensino universal não é lucrativo. O ensino é um investimento que gera lucros, mas não produz, em si, dividendos imediatos à nação.
         Uma vez que as editoras comerciais já não conseguem baixar os preços de seus livros à altura das alguibeiras do povo, devido a fatores não-culturais, é preciso que o Estado saia de seu olímpico isolacionismo – diria mesmo: de seu hipócrita neutralismo - e deixe de fazer de conta que  ele, ao publicar um livro, está roubando pão a bocas famintas.
Até Cristo advertiu: “Nem só de pão vive o homem”.
O livro e o pão são ambos necessários.
A simulação populista – ou melhor, ideológica – de imaginar que, favorecendo a Cultura se desfavorece as populações carentes, é a maior balela inventada pela Esquerda. Tão bem inventada que deu no que deu: no Mensalão!  O Mensalão foi a alavanca de Arquimedes imaginada pelo execrado J.D. para levantar o mundo do PT às alturas das mais tétrica baixaza! Ninguém pensa que estratégias desse tipo favoreçam favelados e marginalizados.
         Daí a necessidade de se estabelecer um Cânon de Leitura para os brasileiros e os Gaúchos.
Harold Bloom compreendeu isso há muito tempo. Por isso publicou seu livro Gênio. Os 100 Autores Mais Criativos da História da Literatura.(RJ, Objetiva, 2003).
         A idéia de que cada um pode constituir seu cânon, além de errônea, é de uma louvável... idiotice!
Existem competências em todas as áreas do saber. Se queremos saber algo sobre memória e neurociência, não cometemos a insensatez de consultar um oftalmologista, ou mesmo, o Secretário de Segurança do Estado. Iremos direto à procura das luzes do prof. Ivan Izquierdo, e do Reitor atual da UFRGS, o cientista Alexandre Neto. Se desejamos informar-nos sobre livros na área da antropologia brasileira, recorreremos a Darcy Ribeiro, embora ele esteja morto. Acontece que os mortos falam – e falam alto – quando os interrogamos!
 Se queremos saber algo sobre genética,  faremos uma visita ao laboratório do Prof. Dr. Salzano.
E sobre Cardiologia? Se estivermos com  problemas, tentaremos uma consulta com três cobrões da área: Nesralla, Lucchese e Zielinsky. Se precisamos de informação sobre Cirurgia Pulmonar, quem não se lembrará do Dr. José Camargo?
         Existem competências em todas as áreas. Um povo instruído as acata. Também na Literatura e nas Artes existem leitores privilegiados, que podem orientar-nos. Esses homens – não só professores de literatura – poderiam compor uma  cesta básica de leituras para toda a população, colocando-a – como o fizeram Cuba e Venezuela – ao dispor de todo o mundo.
         As editoras comerciais já não conseguem vender o suficiente, nem mesmo apelandfo para best-sellers – para poderem lançar outras obras, além dos romances-bonbons de Dan Brown, e colegas que faturam milhões, à custa de Gutenberg, e sobretudo, dos anônimos escribas da Suméria, que consideramos os inventores da escrita.
         Está na hora de o Estado sair de sua condição de Vestal Política, e assumir a responsabilidade de manter a memória cultural de uma nação, de um Estado.
Imaginar que tal memória subsista por si, conduzida pela lei da inércia, é tão irriisório como imaginar que de pais alfabetizados nasçam filhos alfabetizados, por simples geração biológica.
         Não precisamos cair na cafonice hitlerista que obrigava os alemães, que desejavam casar-se, a adquirir um exemplar de Mein Kampf (“Minha Luta”). Dizem os historiadores que Hitler nunca tentou apropriar-se do dinheiro público, visto que os royalties, provenientes da venda dessa sua malfadada autobiografia, lhe garantiam direitos autorais mais polpudos do que os royalties de nossos autores mais vendidos.
         Se o Governador do Estado quiser honrar a confiança que o Rio Grande lhe hipotecou, numa eleição verdadeiramente democrática, faça alguma coisa pela Cultura, não como esmola, nem como se ela fosse o sorriso da sociedade, mas sabendo que a liberdade e o bem-estar de um povo dependem de seus autores, que são os responsáveis pela memória coletiva, a qual, por sua vez, só existe quando a memória pessoal dos criadores individuais a abastece com sua produção personalizada.
         Não existe Cultura Popular, no sentido de que essa Cultura seja possível por geração espontânea. Ninguém cai na idiotice de supor que se pode encomendar um Dante, um Shakespeare, ou um Erico Veríssimo, por amostra. a um mascate que traz à nossa casa os seus têxteis e as suas quinquilharias.
         Ninguém é pai de si mesmo.A Cultura é uma transmissão de memória, recombinadas pela imaginação criativa de escritores e poetas privilegiados.
 Harold Bloom apontou apenas 100 gênios. Quantos haverá no Rio grande do Sul, além de Simões Lopes Neto, Erico Veríssimo e Mario Quintana?
Temos vários quase-gênios, até um bom número deles, como Dyonélio Machado, Augusto Meyer, Moacyr Scliar, Sérgio Faraco, e outros. Temos muitos, muitos mesmo, talentos. nas mais diversas áreas, também na medicina (o já citado José Camargo), nas ciências, nas artes (o Iberê Camargo e o Xico Stockinger), na historiografia (Carlos Teschauer), na Hist[ória Natural (Balduíno Rambo), na sociologia, na lexicografia (O Celso Luft), etc.
Gênios são erupções vulcânicas!
Tais erupções não são freqüentes, principalmente numa terra que se orgulha de não possuir vulcões!
Não se esqueça o leitor de que o próprio Dante só conseguiu escrever sua Divina Comédia, porque alguns mecenas de sua época o financiaram. E o nosso Machado de Assis s[o se tornou Machado de Assis, não com o apoio dos leitores, mas apesar deles!
 É fácil ufanar-se hoje de que possuímos uma obra-prima intitulada Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas dói saber que os 2.000 exemplares da edição original levaram dez anos para serem “consumidos” pelos leitores...Hoje, o brasileiro estufa o peito para dizer que Machado de Assis é um de seus genios! De fato, Harold Bloom diognou-se incluí-lo na sua lista e lá está ele, nas página 686-695, após José Maria Eça de Queirós, e seguido, para nossa alegria, por Jorge Luis Borges.

Pós-Escrito:

Não há dúvida de que gente como o romancista e humanista Luís Antônio Assis Brasil, na direção da SEDAC, e  o poeta Ricardo Silvestrin, à frente do Instituto Estadual do livro, estão fazendo coisas inacreduitáveis e gloriosas com as parcas verbas da SEDAC.  
É pouco.
Eles não podem fazer mais porque a verba da Cultura Estadual é meio por cento!
Aproveite, Sr. Governador, esses homens. Não são tão encontradiços como parecem!
Persuada a Assembléia Legislativa a aumentar a verba até u por cento.  
Verá que o Rio Grande pode sair do marasmo em que esteve, a partir da Ditadura: durante quarenta anos, fizemos passeios inúteis sob o escaldante sol de um Deserto que rivaliza com o que se estende aos pés do Monte Sinai...

Um comentário:

  1. Parabéns poeta Armindo Trevisan! Teu texto é um chamamento a população e aos intelectuais gaúchos para reinventarem novos caminhos para iluminar a cultura. As organizações populares, que clamam por democracia e por participação nos destinos do País e de nosso Estado, ao terem acesso ao livro e aos demais bens culturais serão fortalecidas e incentivadas na sua criatividade.

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