segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Os Burgueses conquistaram o Mundo?

       Sempre fui apaixonado leitor  de livros que estão acima do meu bico!
Teria desejado que esses livros tivessem estado à altura (e às dimensões) de meu bico, desde muito tempo atrás.
Quando, por exemplo, leio que um cientista, do porte domatemático alemão Gauss (1777-1855), neto de um jardineiro e filho de um operário de Brunswick, descobriu sozinho,– aos 10 anos (Repito: aos 10 anos!) – na sua ardósia de estudante, os segredos das progressões aritméticas... sim, que  “este homem solitário, pobre, enternecedor por sua fidelidade a seu príncipe derrotado e ferido em Jena, modelo de simplicidade”, que, posteriormente, iria descobrir “o significado dos números complexos e simultaneamente a geometria euclidiana”, e que, também, iria brincar com os teoremas de Fermat; e, transcorridos alguns anos, chegaria à “a noção de congruência”...e, mais tarde, seria finalmente conhecido “pela sua intervenção nos estudos de eletricidade”...
Dizei-me: não é para ficarmos mudos, nós, a quem nos sobeja tempo para comentar o cachê que a Sra. Gisele Bündchen recebe da Lingerie Hope?
Se as descobertas de Gauss fossem, apenas, divertimento de seu cérebro privilegiado, e não servissem para nada, a não ser para lhe conquistarem um Prêmio Ignóbil, tudo bem!
Leiamos o que escreve Charles Morazé sobre tal celebridade:
-  Gauss ligara o seu observatório de Göttingen ao seu Laboratório de Física por um fio elétrico. Ofereceu sua invenção à rede ferroviária saxônica, que não viu qual o interesse. Contudo, a idéia foi retomada na Inglaterra e aí rapidamente triunfou em cheio: de gare para gare, o fio elétrico anunciando os trens e permitindo regularizar o tráfego. Em breve, o processo voltou a entrar, vitorioso, na Alemanha ao mesmo tempo que na Bélgica e França, e todas as redes ferroviárias européias utilizaramm esse cômodo meio de sinalização. A Inglaterra foi a primeira a abrir ao público o telégrafo ferroviário. Graças ao alfabeto do americano Morse, o sistema conheceu, já em 1846, um real êxito na opinião pública. Em 1848, a Firma Siemens experimentou, no fundo do porto de Kiel, um cabo submarino. Em breve, em Londres se pensou num telégrafo que ligasse a Inglaterra ao Continente e a New York.
(Os Burgueses à Conquista do Mundo. 1870-1895. Lisboa, Edições Cosmos, 1965. p. 238-239).
O mesmo autor, mais adiante, a páginas tantas do seu livro, quase a picar nossa soberba, acrescenta:

- As funções analíticas monogênias duma variável complexa foram estudadas por ele a partir de 1811, mas este estudo conservou-se secreto até ao dia em que Weierstrass o descobriu, quarenta anos mais tarde. Isso completa o esboço já traçado do gênio de Gauss, que vivia dificilmente do seu pequeno ordenado, desolado por vezes por só ter três alunos, “dos quais um medíocre, e dois ignorantes”. Gauss ficou menos conhecido do que Pascal, por não ter tido a solicitude duma irmã a serviço de sua glória”.
(Ibid. p. 288).
Ninguém, por favor, me pergunte se entendi o que são “funções analíticas monogênias”...
Permito-me perguntar-lhes: Algum de vocês sabe, exatamente, o que é um tomografia computorizada, isto é, como ela funciona do ponto de vista técnico, que processos científicos ocorrem nela quando é acionada?
Pois bem, já passei por várias tomografias computorizadas, e me salvei graças a elas, e a um par, também, de cintilografias de Gálio...Estou vivo, é o que me importa! Meu linfoma, depois das sessões de quimioterapia, foi-se embora, e me deixou tempo para escrever os textos de meu blog...
O que pretendo dizer-lhes, leitores é que não é preciso saber nada de teorias atômicas para gozar de um belo sol de primavera! A luz do sol comporta explicações complexíssimas, que os cientistas descobriram, mas cujo segredo final continua nas mãos de Deus, até ao dia em que ele dispuser que isso chegue ao conhecimento das suas criaturas.
Sem os cientistas, a maioria de nossas conquistas técnicas e tecnológicas não poderiam ser empregados a favor da humanidade. Só uma delas me deixa mais do que estupefacto: a eletricidade!
Tenho lido alguma coisa sobre sua descoberta: impressionou-me o caminho longo, que foi necessário percorrer, para chegar até ela! Teríamos que entrevistar Faraday, Volta e outros benfeitores da Humanidade para saber como se deu essa conquista sensacional. Sem a eletricidade, o que seria de nossa vida de hoje, de de nosso conforto?
É por isso, quase por gratidão a esses gênios, que me atrevo a ler livros que estão acima de meu bico!
Acabo de ler um deles: o livro que acabei de citar:Os Burgueses à Conquista do Mundo.
Acontece que dizer acima do próprio bico, não significa dizer: nada fica no bico! Todo o mundo sabe que até galinha cegueta topa, às vezes, com um grão de milho para sua fome!
       Não passo de um professor universitário, que durante 30 anos lecionou História da Arte na UFRGS.. Dediquei mais de trinta anos ao estudo das produções visuais, fruto da memória e da imaginação humanas.
       Quanto aprendi! Não só aprendi a entender tais fenômenos artísticos e estéticos, como a senti-los, a amá-los!
O poeta romano Terêncio (190-150 A.c.) escreveu um verso, que se tornou célebre:
-Sou homem: não julgo alheio de mim nada do que é humano.
       Quando, pois, há poucos dias, virei a última página do livro de Charles Morazé, que outro grande cientista social, Fernand Braudel honrou-se de apresenta-lo ao leitor, pensei comigo:
      
- Não entendi nem um décimo de tanta informação, de tantos dados, de tantas intuições, de tantas análises! Mas alguma coisa da história da burguesia,objeto da atenção do autor,a partir de 1780 (antes da Revolução Francesa) até 1895, cheguei a perceber. Algo, portanto, sobre a produção, os preços, o consumo, e suas crises periódicas.
       Ao chegar à página 425do livro: Os Burgueses à Conquista do Mundo, comecei a esbarrar em títulos inesperados, alguns aparentemente catastróficos:

1.   Um Capitalismo Expulsa o Outro;
2.   O Burguês em Xeque;
3.   A Europa em Xeque;
4.   Newton em Xeque;
5.   (inalmente, quase como um farol que se acende no horizonte entenebrecido); a Conclusão.

Vale a pena sintetizar o essencia das duas  páginas finais:

I.
Charles Morazé diz que a expansão européia começou com a certeza de que a Terra era redonda, e que era preciso reconsiderar o lugar que o homem estava habituado a dar-lhe no Universo. (Ib. p. 442).

II.
Morazé diz que os empresários, utilizando técnicas novas, elas também filhas da ciência, abateram a velha sociedade de privilégios, de cortesãos, e fizeram triunfar a liberdade econômica - base do crédito, fé no futuro e no progresso. Triunfo daqueles que se sentiam orgulhosos por se chamarem burgueses: senhores das,do comércio, e da indústria, senhores,enfim, do mundo. (Ib. p. 442).

III.
Morazé diz que as reestruturações sociais afogaram os burgueses numa maré alta de técnicos, que a escola fez surgir do povo, dum povo organizado pela educação. Dos cientistas, como Monge, Gauss e Lobatchevsky em diante, a matemática conquistou o continente e a Rússia; e de Fresnel a Michelson, a experiência mais crucial transpôs o Atlântico. E foi nas geometrias filhas de Lobatchevsky que o pensamento científico encontrou a explicação para os problemas propostos por Michelson. Assim como a Biblioteca do Vaticano não tinha podido guardar fechado o pensamento de Galileo, filho mediterrânico de antepassados universais, os laboratórios e bibliotecas da Europa não impediram a ciência de dar a volta ao mundo.(Ibid. p. 443).

IV.
Morazé diz que os burgueses da Europa estavam orgulhosos das suas conquistas! Conquistas da própria ciência de que eles não sido senão os instrumentos, instrumentos escolhidos por ela porque tinham fé nela. Laboratórios e bibliotecas da América e da Ásia retiraram aos burgueses da Europa os fundamentos do seu poder: “Eis os nossos burgueses, inquietos com os progressos dos tecnocratas e dos socialismos, dos novos continentes, depois pouco a pouco privados do seu poder. E exatamente como eles próprios tinham privado os privilegiados de ontem: pela fé no progresso e pelo respeito das suas leis. Vãs, as guerras mais mortíferas: aceleram a evolução! A ciência é humanidade.”
(Ibid.p. 443).

Não precisamos - é lógico - concordar com todas as conseqüências que Morazé tira de suas análises, algumas de inspiração nitidamente marxista. Mas alguma coisa delas merece ser meditada profundamente, em particular neste momento em que a Europa se debate numa crise inédita, em que estão em em crise, também, os valores dessa sociedade burguesa, ou pós-burguesa, que teima, com orgulho ridículo, em ironizar os valores do Evangelho.
Seria hora de a humanidade levar a sério os paradoxos e chacotas intelectualizadas de G. K. chacotas, glosando-as com mais ironia. T
Talvez assim:
- O Cristianismo foi experimentado, mas experimentado às avessas, e por isso pré-julgado incapaz de resolver os verdadeiros problemas sócio-econômicos da humanidade!

Sejamos menos orgulhosos: o Cristianismo nem foi seriamente experimentado!
]O que foi experimentado foi uma contrafação do Cristianismo, apresentada por cristãos displicentes, ou de má Fé, acocorados na Pré-História.É preciso confessar, abertamente, que o erro não foi do Cristianismo, mas dos cristãos.
Quando virá alguém, com mais coragem, e principalmente com mais Fé no Espírito Santo, prometido por Cristo, que ouse empreender novas tentativas sócio-econômicas de solução do impasse, em que nos jogaram os astros da Economia sem Comunhão, da Economia Atéia ou Agnóstica, da Economia de colarinho alto, contra a qual nem Prêmios Nobel da Economia conseguem fazer-se ouvir? Tenho a impressão de que faria bem aos católicos ouvir mais Stieglitz e Paul Krugman, que se se inspirarem diretamente do Evangelho de Cristo estão mais próximos dele do que muitos cristãos, que se deixam cativar por teorias liberais, liberalizantes, ou simplesmente caponamente prisioneiras de Walt Street e de seus Capitais Voláteis, que até ai presente vão bem, muito bem, e não sofreram ainda sequer uma constipação intestinal diante da gritaria que a Taxa Tobin tem suscitado.
O Ocidente não mudará enquanto não houver mais pessoas que se atrevam a ler coisas acima de seu bico!
Oxalá que esse tipo de leitura chegue a atrair a atenção de altos funcionários do Vaticano, e de todos os Governos Civis da Eurozona, que se declaram tributários da cultíssima Europa, ou como os Estados Unidos que, a estas alturas, não precisam aprender mais nada de ninguém,conforme a opinião dos representantes dos dois grandes Partidos Hegemônicos da nação,e de modo singular, de acordo com a opinião do curioso, elegantérrimo, e cínico Tea- Party, da Sra. Sarah Palin e seus correligionários.

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