segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A Lição de Meu Professor de Filosofia Sobre a Etiópia

        Tive o privilégio de ser aluno, na Universidade de Fribourg, na Suíça, de um professor, de origem polonesa, I. M. Bochenski, do qual duas obras foram publicadas no Brasil: A Filosofia Contemporânea Ocidental  (São Paulo, Editora Herder, 1962), e Diretrizes do Pensamento Filosófico (6 ed. São Paulo, Editora Pedagógica e Universitária, 1977).
        Não falarei sobre tão extraordinária personalidade, que também se notabilizou - além da História da Filosofia - pela análise da ieologia marxista-leninista, tendo brilhado, mais tarde, numa ciência que então fazia sua aparição, a Lógica Matemática, da qual seria uma das sumidades.
        Referirei, apenas, a lição de vida que esse professor meu deu, en passant, numa de suas aulas ordinárias de História da Filosofia, no período 1959-1962, quando freqüentei seus cursos.
        Aludindo à incrível interferência dos sentimentos no plano intelectual, Bochenski narrou-nos o seguinte episódio:
- Quando ele exercia seu magistério em Roma, em 1935, o Ditador Mussolini decidiu invadir a Etiópia. O país era governado pelo Imperador Haile Selassié. Como o soberano quisesse ver-se livre das restrições econômicas, que o  pseudo “Protetorado Italiano” lhe impunha, Mussolini, sem mesmo recorrer a uma “Declaração de Guerra”, aproveitou-se de um incidente de fronteira para invadir o país. Um ano mais tarde, o Duce proclamou o “Império Italiano da Etiópia”.
        Não me deterei no que veio depois de tão absurda intervenção colonialista, já que isso faz parte da História Mundial.
        Cinjo-me à lição de meu professor, que tirou uma lição dessa invasão, e no-la transmitiu: o quanto a razão humana – isto é, a inteligência humana – sofre as interferências dos sentimentos e emoções!
Segundo Bochenski, apesar de a maioria dos professores estrangeiros, como ele, dissentirem naquela ocasião dos colegas italianos quanto à legalidade da intervenção, os italianos unanimemente achavam que Mussolini tinha razão. Tão cegados estavam pela propaganda fascista! Inclusive os melhores dentre eles, sábios de nomeada internacional, aderiram à ideologia reinante, e puseram-se do lado do Ditador, como se a culpa da invasão fosse dos etíopes, que de invadidos passaram a ser...invasores!
        Bochenski sorria ironicamente do episódio, recomendando-nos que nunca nos deixássemos enganar por semelhantes “invasões emocionais”!
        Até hoje recordo meu professor, e a lucidez de sua advertência!
        Convenhamos: é fácil ter razão.
É só querer tê-la, não importa contra o que, e contra quem, principalmente se a oponente for a própria Razão!
Transcrevo esse comentário de meu ex-professor porque acabo de ler a famosa Storia d’Italia. Dal 1861 al 1997.(Roma-Bari, Editori Laterza, 2000), de autoria de Denis Mack Smith.
Trata-se de uma obra considerada “clássica” por sua ampla e sólida documentação, pelo equilíbrio nas avaliações, e pela argúcia interpretativa do autor.
Smith não se deixa distrair por sentimentos e emoções. Dá primazia à razão, que seleciona os documentos, analisando-os e ponderando-os, e finalmente deles extrai conclusões, que não atropelam os fatos, nem se superpõem a eles.
Para se entender a Itália de hoje, é preciso remergulhar na sua história, não só do passado remoto, mas sobretudo, a do seu passado recente.
Noutros termos, é preciso considerá--la a partir do Risorgimento, de Cavour e Garibaldi para cá, passando pelo túnel tenebroso do Fascismo, fantasma perturbador da consciência italiana, como o é, na Alemanha, o túnel tenebroso do Nazismo.
É fácil fingir que, uma vez morto o monstro, nada mais fica dele. Vãs ilusões! Talvez Freud tenha dado aos homens uma ilusão a mais: a de que se pode facilmente exorcizar os demônios da memória!
Pode-se, quando muito, anestesiá-los.
Quando esses monstros despertam, tornam-se tão ativos como antes.
O fascismo e o nazismo são males psíquicos de origem tumoral. São cânceres. A metástase está sempre à sua espreita.
Será possível não ver, na Itália contemporânea “germes” do Fascismo mussoliniano?
Dizemos. “germes”. Serão vírus?
Por mais ilusões que façamos sobre a figura patética de Berlusconi e de seus aduladores, torna-se quase impossível não ver nele uma figura bufa, que reproduz em miniatura a de Mussolini, com a mesma auto-confiança, a mesma arrogância, o mesmo culto ao eu, e a mesma tagarelice do modelo.
Os tempos são outros, os figurinos da Alta Costura modificaram-se,  Armani e Gucci ainda pontificam com Vuitton.
Como deixaria Berlusconi de inovar?
Desafio qualquer leitor a ler a Storia d’Italia, de Mack Smith (da página 378 em diante, até à sua página final, 666, que  abarca os acontecimentos até 1995), sem descobrir afinidades, entre a situação da Itália nos tempos do Duce, e a Itália contemporânea.
O que está em jogo não são, unicamente, situações geográficas e históricas, e outros fatores sócio-políticos. O que está em jogo são as estruturas psíquicas de uma Cultura, de um jeito de ser, que estão em declínio, e os sofismas que giram em torno da verdadeira Italianidade e da pseudo-Italianidade.
Obviamente, não se pode comparar Berlusconi a Mussolini, até porque Mussolini, antes de se converter no deplorável Bufão da Piazza Venezia, teve seus méritos de professor primário, de agitador social, de leitor deSorel e Nietzsche – e, como ele fazia questão de trombetear (“scusate l’erudizione”!)  de leitor de Dante e Maquiavel.
Não esqueçam que Mussolini foi educado num seminário católico dirigido pelos Padres Salesianos, do qual teve o bom senso de merecer a expulsão.
De qualquer modo, em 1901, ele tinha nas mãos o seu diploma de professor. O seu “guazzabuglio di idee e tendenze”, que veio a chamar-se Fascismo, é hoje um guazzabuglio, isto é, uma mixórdia  globalizada de luhares-comuns empresariais, pois Berlusconi recebeu lições de ardilosidade de outros estilos, e provavelmente aprendeu muito nas escolas secretas que todo o mundo sabe quais onde estão, e quais são.
Na época de Mussolini, Pio XI preferiu o Duce a Don Luigi Sturzo: cabe criticá-lo?
Papa é Papa, e não serei eu quem se atreverá a julgar um Papa, um servo dos sercos de Deus, que um dia será também julgado como nós. E será examinado no amor - segundo a fórmula de São João da Cruz!
O fato é que o próprio Pio XI - que publicou a famosa encíclica Non abbiamo bisogno - percebeu, antes de morrer, que Mussolini não era aquele “homem providencial” que tinha aparentado ser, por ocasião da Reconciliação do Estado Italiano com o Vaticano, o “uomo di famiglia modello” que posou ao lado de Rachele, nos “patti lateranensi”.
(Ver Mack Smith: Storia d’Italia. p. 510; ler: 507-511).
        O fato indiscutível é que Mussolini, “scaltro nell’arte política”, soube bem explorar suas “concessões” à Igreja Católica, e fez render juros publicitários ingentes quando, na companhia de seus jerarcas, “cretinos obedientes”, mimoseou o Banco do Vaticano com:
-una notevolissima somma di denaro, que fece della Chiesa il più grosso possessore di titoli di Stato italiani di modo che essa venne ad avere um diretto interesse finanziario alla stabilità del regime di Mussolini, il che doveva dare origine a numerose ed aspre critiche. (Mack Smith. Ib. p. 509).
        Querido Mestre Bochenski: confesso que, atualmente, sou mais capaz de entender-te do que, nos meus tempos de estudante na Universidade de Fribourg!
        Entendo, também, melhor a Europa, que passa por uma crise de valores, de economia, de líderes...
        O apoio, que os italianos, e os católicos em geral, deram a Mussolini custou caro a Itália e à Igreja.
        O que não custará aos italianos de hoje  Berlusconi e os seus colaboradores?
        Resta saber.
        Sejamos razoáveis: não podemos fazer de Berlusconi o bode expiatório de uma situação, cuja responsabilidade deve ser coextensiva aos italianos como Nação. Berlusconi é apenas o herdeiro clownesco de erros , que se têm acumulado, como o lixo nas ruas de Nápoles.acumulados.
Talvez, a longo prazo, ver-se-á que Berlusconi merece mais respeito e compaixão do que o socialista Bettino Craxi, “o arquicorruptor”, e do que o democrasta c ristão,  Andreotti, que Mack Smith qualifica de cínico.
Merecerão maior consideração aqueles insensatos das Brigadas Vermelhas, que trucidaram um homem como Aldo Moro?
Afinal, Silvio Berlusconi assume seus desvarios com uma espécie de aprumo de “cavaliere”, talvez não como garbo que ele pensa ter, pois é grosseiro, e de uma vilania digna de um Prêmio Ignobel.
Digamos, sem mastigar muito as palavras, que  ele é, fundamentalmente, um milanês espertíssimo, “um imprenditore di sucesso”, o pretenso criador de um milhão de novos empregos, “um monopolista che aveva copnstruitola sua fortuna eliminando la concorrenza”, o instaurador de um blind trust à americana, que soube tirar vantagem do boom imobiliário dos anos setenta e, descartando os verdadeiros problemas da Itália, o desemprego, a Máfia, a corrupção, o débito público, tentou inutilmente amarrar as mãos da magistratura de seu país, que tinham razões de sobra para investigar as contas de sua holding, a Fininvest.
(Cf. Mack Smith. P. 653).
É isso?
Entre outras coisas...
Político? Tornou-se por acaso, porque Craxi e outros incompetentes, arrivistas, ou ap´roveitadores, o jogaram na piscina.
Em última análise, Mussolini e Berlusconi diferem, ainda, num pormenor folclórico: o primeiro tinha uma úlcera estomacal que o aporrinhava; Berlusconi parece um bebê –adulto de um outdoor da Parmalat!
Mas, enfim: a Itália fará da sè?
Naturalmente!
Com a ajuda de Deus, da Virgem ( de que todos os italianos são devotos), e dos gênios e líderes responsáveis que esta nação possui!
Sempre os possuiu.

Valha-nos Dante (scusate l’erudizione”), e sua severa advertência:

Ó vãos, fúteis mortais que loucamente
os corações torceis à glória eterna
só por volverdes à vaidade a mente!


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