segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Kadhafi: Um Ditdor Morreu! (Reflexões de um Aprendeiz-de-Ensaísta Cristão).

        Lembro-me de que fiquei surpreendido quando li, pela primeira vez, no Evangelho de São Mateus (Capítulo 26, versículo 52), as palavras de Jesus a Pedro:
- Mete no seu lugar a tua espada, porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão.
Parecia-me que essas palavras contrariavam outras palavras de Jesus, como as que ele pronunciou a respeito dos inimigos, que deviam ser amados, pois: “se não os amais, que fazeis de melhor do que os pagãos? Estes também amam seus amigos”...isto é, favorecem-nos, dão-lhes vantagens para obter vantagens.
 Derpois: não contou Jesus a Parábola do Administrador Infiel, que fez uma trampolinagem, quando, sendo destituído de suas funções, apelou aos devedores de seu patrão, rebaixando-lhes as dívidas, numa atitude digna dos trapaceiros contemporâneos?
Seríamos loucos se atribuíssemos a Jesus estímulos para a raposice e a sem-vergonhice!
Jesus fez referência à astúcia humana, para prevenir-nos contra ela, e dela extrair para nós uma lição:
- Se vocês sabem ser astutos em relação ao pior, sejam astutos em relação ao melhor, à Vida Eterna, que vos venho anunciar.
Mais tarde, meditando sobre as palavras de Jesus, que me pareciam um eco da lei do Talião: “Olho por olho, dente por dente”, apercebi-me de que o significado de suas palavras era diferente.
Jesus queria advertir-nos da seguinte realidade: o mal engendra o mal, e se vós persistis nisso, acabareis pagando um preço muito alto pelo vosso desvario e obstinação.
Foi o que aconteceu com Kadhafi, depois de ter acontecido com Benito Mussolini, o qual não receou condenar à morte seu genro, o Conde Ciano, e um de seus melhores amigos, o Marechal De Bono.
Kadhafi vinha de uma família humilde. Aos 27 anos tornou-se “Líder dos Coronéis” que depuseram o Rei Ydris, um monarca- fantoche, que as potências estrangeiras tinham imposto ao seu país.
Vinte e sete anos – convenhamos - não era idade para ninguém ser chefe, muito menos chefe absoluto. Os exemplos da História mostram-nos que pessoas assim perdem a cabeça. De fato: às vezes a perdem, porque são decapitados!
O que Kadhafi fez na Líbia, os atos terroristas que financiou em 40 anos de ditadura cruel, os inimigos que exterminou, sua reação vingativa contra seus adversário durante a sublevação de Bengazi, tudo isso preparou-o para a vingança desumana de sua captura.
Com ferro feriu, com ferro foi ferido.
Poderá um cristão festejar tal desdita?
De forma alguma.
A coerência com os ensinamentos de Cristo e com sua vida pessoal nos obrigam a deplorar o que aconteceu, não só na realidade, mas também nos meios de comunicação.
Expor seu cadáver obscenamente foi algo indigno do Mundo Ocidental, que contribuiu para a sua derrota.
Merecida?
Digamos: até certa medida, sim.
Ninguém pode governar um povo sem seu beneplácito. Kadhafi, durante 40 anos, desinteressou-se de saber se seu povo o queria, ou não. Fez o que fez Mussolini. Supôs-se necessário, não só ao seu povo, mas até às engrenagens  do mundo.
Hitler foi um pouco além: imitou Nabucodonosor. Autodeclarou-se Deus, humilhando seus Generais, os “Vons” da aristocracia prussiana. Quem quiser saber detalhes sobre essa pasmosa humilhação, imposta aos Feld-Marechais e aos seus Generais, entre os quais Guderian, leia o admirável livro do historiador inglês John W. Wheeler-Bennet: La Nemesi del Potere. Storia ddelll’Esercito Tedesco dal 1918 al 1945. (Traduzione dall’inglese di Luca Pavolini. Seconda edizione. Milano, Giangiacomo Feltrinellçi Editore, 1959).
Nunca teria imaginado que homens tão ilustres, como os generais da Alemanha, se submetessem, com tanta sabujice, a um Ditador.
 Não admira que Hitler, mais tarde,depois de ter transformado seus militares em lacaios, como Von Brauchitsch, Keitel, Jodl, tenha exclamado, num momento de mais líquida estupidez:
- O povo alemão é indigno de minha grandeza! Ninguém aprecia o que fiz por ele...
(Cit. Ibid. p. 728)  

A história repete-se.

Por que?
Porque a insensatez humana recusa-se a aceitar os ensinamentos de Cristo.
A frase de Jesus, que tanto me chocou inicialmente, deve ser interpretada à luz dessa verdade: Jesus não estava sancionando a Lei do Talião, a Lei da Vendetta, dente por dente, mas lembrando que não se pode infringir as leis da Bondade sem incidir nas leis da Maldade.
Embora eu tenha lido mais de uma vez o Alcorão, não me parece que ele autoriza, pura e simplesmente, a vingança, ainda que tenhamos sérias reservas sobre essa dimensão do Islamismo.
Resolvi reler, mais uma vez, o Alcorão, texto venerável da tradição islâmica. Tenho uma edição in suspeita, e valorizadíssima:
Alcorão.
Tradução direta do árabe e anotações de José Pedro Machado. Prefácio de Suleiman Vali Mamede (Presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa). Lisboa, Edição da Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1979.

Na página 39 do Alcorão, referente à Sura da Vaca, leio o seguinte:
- Ó crentes, fica-vos prescrita a pena de talião para o assassínio: um homem livre por um homem livre.um escravo por um escravo e uma mulher por uma mulher; o que for condenado pelo seu irmão deve ser tratado moderadamente, e ele, por sua vez, deve pagar generosamente a quem deve. (...) Nesta pena de talião está (a segurança da vossa) vida, ó homens dotados de in teligência. Talvez ainda vos tornareis tementes a Deus.

Na página 128, Sura Quinta, lemos:
- Na Lei prescrevos-lhes: “Vida por vida, olho por olho, nariz por nariz, orelha por orelha, dente por dente e para as feridas a pena de talião.

Não pretendo analisar os móveis que levaram as Potências Ocidentais, sobretudo a França, a agredirem o Ditador.

Falar em DIREITOS HUMANOS a pessoas fundamentalistas, que seguem o Alcorão ao pé da letra, é assunto que reservo aos catedráticos da Sorbonne e do Collège de France. Será que eles não sabiam que os líbios, na sua maioria, são islâmicos, e portanto seguem o Alcorão?

No mesmo Alcorão, na página 72, está escrito:

- Deus é poderoso e vingador.

Na páginas. 132 e 190 reitera-se:

- (...) Deus é poderoso e vingativo.
                          
- (...) quem se afasta de Deus e do seu apóstolo há de saber como deus é violento  a puni-lo.

É evidente que isso contraria as palavras da Bíblia onde se lê no Deuteronômio:

- É minha a vingança e a represália.
(Trad. da Bíblia de Jerusalém.Nova edição revista. São Paulo, Edições Paulinas, 1985. p.322).

Se isso já estava escrito no Antigo Testamento, imaginem o que está escrito no Novo Testamento, onde Jesus é categórico: o perdão aos inimigos faz parte do seu legado. Basta a um cristão lembrar-se do Pai-Nosso!
Ver, portanto, o que vimos nas telas de televisão, na Internet, nos jornais e revistas, é algo que, por um lado, nos faz constatar que o Mundo Ocidental, se quiser chegar a uma Carta de Direitos Humanos, terá de obter a adesão explícita das nações islâmicas.
Escandalizar-se de que elas sigam, à letra, as instruções de Maomé, é ignorar que as massas o interpretam, não a partir dos princípios essenciais de suas Revelações, mas a partir de tradições tribais que ainda estão presentes entre os beduínos e tuaregues.
Assistir, pois, à vingança deles, e escandalizar-se, é o mesmo que escandalizar-se diante das transgressões horrorosas que as nações católicas fazem de seus badalados fundamentos cristãos.
Seria melhor denunciar a hipocrisia ocidental, que primeiramente favorece os ditadores islâmicos, e depois cobra-lhes que sejam coerentes com princípios cristãos, que eles mesmos desprezam.
Não se conclua dessas reflexões que tenho simpatia pelo Raís morto!
Teria apenas desejado (já que sou contrário, por razões religiosas, à pena de Morte) que Kadhafi fosse julgado e condenado por suas ações, e lhe fosse deixada a possibilidade de, na prisão perpétua, meditar sobre sua loucura.
Tenho confiança na razão humana, que Deus deu a cada homem, ao mesmo tempo que lhe deu uma alma imortal.
Tenho, também esperança de que Deus não se nega a iluminar uma criatura, mesmo quando as trevas ao cobrem com sua mais espessa escuridão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário