segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A Feira do Livro de Porto Alegre (III).
Homenagem a Waldemar Torres.

I.
     Anos atrás, um paulista chegou da Paulicéia Desvairada, e abancou-se entre nós, com o máximo de discrição e elegância.
Era um agrônomo de fama nacional,aliás internacional, um funcionário público de integridade reconhecida, e um bibliógrafo de renome, dos poucos que podiam realmente dialogar com o melhor bibliógrafo do Brasil, o empresário José Mindlin.
      Torres trouxe consigo verdadeiro tesouro de primeiras edições, algumas, até, com dedicatórias de seus autores. Instalou essa preciosa biblioteca numa casa da Cidade Baixa, e colocou-a a serviço da comunidade porto-alegrense.
      Durante anos, Torres foi presença obrigatória na Feira. A cada ano, preparava - a expensas suas é claro, uma mostra de obras raras, ou de manuscritos de escritores.
Era uma delícia chegar ao Clube do Comércio, na Praça de Alfândega, e lá visitar a mostra.
Freqüentava-a um público de alto nível. Mas também era normal topar, entre os visitantes, curiosos ou interessados de todas as classes sociais. Creio que cheguei a ver, até, mendigos nessas mostras!
      No melhor da festa, porém, que incidente aconteceu?
      Até hoje não sei.
Um desencontro? Uma divergência de mentes e corações?
      Aconteceu algo, sem dúvida. Digamos que a fatalidade decidiu pregar-nos uma ruim peça.

II.
Faço questão de declarar que não desejo contribuir, nem com uma pitada de mau humor, ao mal-entendido que se criou. Não estou interessado em reacender antipatias, nem estou interessado em fomentar rancores!
Todo rançor, principalmente quando acompanhado de sua comitiva de picuinhas, é deplorável. E inútil.
Desejo, unicamente, que Waldemar Torres, nos autorize a pedir-lhe desculpas, (ou perdão!) do que ocorreu, em circunstâncias que ignoro quase in totum.
Desejo, excluysivamente, que a diplomacia de alto nível do atual Presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, João Carneiro, profissional de alto gabarito, além de um gentleman sem pôse,, com o apoio de seus assessores, nos ajude a superar o incidente, restabelecendo a concórdia.
Precisamos perdoar-nos, uns aos outros, não sete vezes, mas setenta vezes sete.
O grande São João da Cruz dizia, e é necessário, nestes momentos de confusão,  prestar atenção a um Místico e a um dos mais erncantadores Poetas da História da Literatura:
- Ao fim da jornada, seremos examinados no amor.
Eis a razão deste meu apelo carinhoso ao Waldemar Torres, à Câmara do Livro, e aos gaúchos em geral, para que se volte à paz, em consideração, também a tantos amigos do Waldemar, entre eles o ex-Governador Olívio Dutra, a ex-Secretária Municipal de Cultura, Margarete Moraes, o ex-Presidente da Câmara, Paulo Flávio Ledur, o ex-Patrono da Feira, Paixão Cortes , todos ansiosos para comemorar esse reencontro.
Não acredito que tenhamos de esperar pela Ressurreição dos Corpos, para que tal amizade volte a vicejar.
Nossas Eminentes Insignificâncias, a começar pela minha,aprendam, de uma vez, que o caminho para a compreensão universal passa pelo atalho de cada um de nós, e que só começaremos a eliminar os conflitos mundiais quando apagarmos, dentro de nós, a cahamazinha de nosso orgulho ferido e de nosso ressentimento. Obviamente, não estou aludindo ao comportamente de Waldemar Torres, mas a outros comportamentos.
Na minha opinião, nem houve má vontade explícita, e sim, afirmações de prestígio, alguns equívocos, e até, talvez, usurpação da opinião pública.
Afinal, quem pode far em nome do povo gaúcho?
Nós, todos os gaúchos, não porém cada um por si.
Do mais humilde ao mais importante - suposto que haja Importantes entre nós  como os houve Potentes, no tempo dos Romanos... Pobres de nós? Importantes?
Regressemos ao bom entendimento, ao amor pelo livro!
Querido Waldemar: dirijo-me a ti, e à tua mulher, a inteligente, finíssima, amorosa, e delicada Maria Helena; e ainda, ao Flavinho, a quem dedicamos ternura; bem como aos teus demais familiares!
 A Feira do Livro é nossa maior festa. Depois que deixaste, querido amigo, ela se empobreceu.
É evidente que se tornou mais moderna, mais famosa, mais altiva...e mais globalizada!
No entanto, em termos de Cultura, é bom desconfiar. Será que não podemos estreitar mais os laços entre as exigências de mercado livreiro, e as outras exigências humanísticas, que tendem, na hora atual, em serem catalogadas com perfumaria?
Não é de minha alçada inventariar as soluções possíveis desse difícil equilíbrio. Ele pode existir. Pergunte-se, por favor, aos escritores, aos editores, aos distribuidores, aos usuários, ao zé-povinho, ou zé-massinha... Pergunte-se, também, aos jacarandás, e aos cachorrros que vagueiam pelas imediações da praça da Alfândega...
Não é suficiente bradar, mundo afora, que somos A Maior Feira do livro ao Ar livre. Eu mesmo o afirmei, diante de um público cosmopolita, quando me deram a honra de convidar para representar o Estado na II Feria Internacional del Libro, na Ciudad de México.    
Ar livre? Não brinquem!
Ar livre não existe mais, menos ainda no estupendo México, onde os assassinatos, praticados pelos Narcotraficantes, estão estarrecendo um povo imaginativo e bom!
Mas ninguém esqueça que, a este mundo, como ele existe, o grande Poeta Dante Alighieri qualificou de dolce mondo, e que foi nele que, a despeito da insensatez humana, se realizou o maior de todos os milagres: o nascimento de Cristo em Belém.

Para animar meus queridos amigos a dar um passo na direção da harmonia, refiro-lhes um episódio que me fez sofrer muito, em anos passados.
Começo por informar que tive a honra imerecida de ser amigo de duas personalidades de grande fama nacional:
a primeira chamava-se Bruno Giorgi, o escultor que criou a peça de mármore diante do Palácio Itamaraty, Meteoro, e também a outra peça monumental, Os Candangos, que se ergue à frente do Palácio da Alvorada; a segunda era um altíssimo Poeta, relativamente desconhecido do grande público, Dante Milano, excepcional poeta.
Participei com eles de um histórico (para mim, naturalmente!) almoço, que o próprio Bruno Giorgi preparou no seu atelier no Leme. Ainda me vejo lá, no seu atelier, um tanto intimidado perante essas duas personalidades, às quais se juntou, logo depois, ainda durante o almoço, o pintor Alfredo Volpi.
Foi uma reunião fraterna,em que nos regalamos, até com vinho francês!
Anos depois, em revisita ao Bruno Giorgi, perguntei-lhe pelo Dante Milano. Bruno respondeu-me que fazia tempo que não o via.
Fiquei intrigado. Perguntei ao escultor a eventual razão do desencontro.
Bruno Giorgi confessou-me que tinham brigado.
Explicou-me que, por princípio, ele nunca visitava ninguém num Hospital. Tinha aleregia a Hospitais!
Achei curiosíssima a desculpa.
Calei-me.
Bruno era um amigo leal, querido, e até generoso, e eu precisava continuar o papo. Mudei de assunto.
Regressei a Porto Alegre com uma pedra sobre o coração, do tamanho da pedra do Drummond no meio do caminho.Não podia acreditar no que tinha ouvido.
Durante anos, entristeci-me à lembrança daquele episódio.
Até que um dia, um amigo, do escultor e do poeta, me referiu que outro amigo, que estava de aniversário, convidou os dois ilustres desamigados, e pediu-lhes, como presente de aniversário, que se reconciliassem.
Os dois acabaram abraçando-se, e a amizade renasceu, com mais força.
Não seria hora de algum de nós, aniversariar, repetindo o gesto cortês do amigo, que provocou a reconciliação dos dois extraordinários artistas?

Nenhum comentário:

Postar um comentário