quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A Carta dos 300 Empresários e Ex-Políticos.

        Um fato é certo: a opinião pública está saturada de blá-blá-blás de entendidos em micro e macroeconomia.
Quem hoje se interessa em ler textos de economês?
       Primeiramente, tais textos foram ficando cada vez mais exóticos – até mesmo esotéricos. Exóticos porque se tornaram ininteligíveis, salvo aos iniciados. Esotéricos, porque fingem ocultar segredos de Polichinelo, e até um apelo à auto-ajuda que ajuda a curar o câncer de pâncreas com babosa.
       O que há, por baixo deles, é uma confissão constrangida de falta de vergonha. Dito sem rodeios: falta de ética.
       Todos sabem que Soros, um dos signatários da Carta dos 1300 é – no dizer do prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman - “um delinqüente de aventuras financeiras”. (El País, 12-10-2911).
- Um delinqüente?.
Tal afirmação procede de um Prêmio Nobel em Economia, e além disso conhecido analista da situação econômica mundial.
Recentemente, dei-me ao luxo de ler um livro autobiográfico de Soros. Livro curioso, onde o multimilionário refere coisas de sua vida pessoal, fala de um cunhado pintor expressionista, que não se interessava pelo seu mundo de negócios, admirado, no entanto, pelo próprio Soros.
O que me impressionou na autovida desse judeu-húngaro - sem dúvida, um gênio da especulação internacional- foi sua obstinação em descobrir, ou melhor, em tentar “inventar” uma fórmula matemática, que lhe permitisse – não só gerenciar as flutuações do mercado mundial, mas principalmente entendê-las.
Soros (ao menos no livro) dava a impressão de querer encontrar uma fórmula einsteniana que lhe possibilitasse medir as oscilações do mercado e, por meio de tal miraculosa fórmula, prevê-las.
       Naturalmente, não parece ter chegado à fórmula mágica.
Deve ter chegado a outras, que continuam a incomodar-nos, a todos nós!
Em nenhum momento de suas complicadas confissões, percebi interesse em recomendar a Taxa Tobin, ou outras soluções alternativas, eventualmente vantajosas para o comum dos mortais.
       Eis que ele aparece, agora, como signatário de um pedido de estabilização bancária européia!
Não é o cúmulo da ironia?
       Gostamos, aliás, de ser ironizados!
A inteligência coletiva parece estar em estado de hipotermia. Ou seja: resignamo-nos ao irracional. Mesmo que a inteligência despertasse, que poderia ela fazer nas atuais conjunturas?
       Se Descartes estivesse vivo, provavelmente escreveria uma retratação de sua festiva adesão ao princípio: Eu penso, logo existo.
Dadas suas convicções religiosas, creio, até, que seria capaz de aderir a outro princípio: Eu sofro, eu não tenho dinheiro para as necessidades mínimas, eu estou desempregado, logo, eu não existo.
       Impressiona-me a “alienação” dos líderes religiosos cristãos, e não-cristãos, visto que se mostram incapazes de transcender as próprias barreiras “intelectuais”, e de congregar ateus, crentes, agnósticos, etc, num único projeto: restituir a dignidade humana aos nascidos de mulher, a começar por Cristo.
Por Cristo?
Sim, pois no dia em que Ele veio a este mundo, nascendo em Belém, cada homem mudou de condição. Não é mais um mero animal racional, porém um candidato ao diálogo com Deus, um potencial “filho-de-Deus” por sua adesão livre a uma nova condição de existência.
Que vemos que ocorre no panorama mundial?
       A realização histórica da horrorosa sentença: “O homem é um lobo para seu semelhante”.
É por isso que questiono a ecologia e seu Partido dos Verdes: por que defender, prioritariamente, esse princípio elementar: o direito que cada homem tem de ser igual aos outros homens, e portanto, o direito que ele tem, ao menos de morder, pois os animais todos, quando agredidos no seu direito à sobrevivência, usam suas patas e dentes para tal efeito?
Defender o direito dos bugios, do jacarés do Pantanal, o canto dos pintassilgos e outros prodígios da Natureza, é maravilhoso. Como poeta, aprovo esses ecologistas.
Mas a ecologia deve dar passos mais seguros, com o objetivo de se consolidar como Partido: deve defender, também, o direito dos homens ao seu mundo concreto, à sua subsistência.
O que é preciso afrontar, na atualidade, é a irracionalidade do animal racional.
Daí ser preciso partir, primeiramentee, do animal, que tem fome, sede, necessidade de abrigo. Só depois, devemos tentar recuperar a racionalidade, que, por incrível que pareça, comprometeu algo mais fundamental do que ela: o instinto.
É racional que o Sr. Soros, depois de tanta especulação criminosa com os seus Capitais voláteis (ele chegou a abalar a moeda de uma nação inteira, a libra esterlina!), se associe a outros empresários para pedir às autoridades que, com o dinheiro público, estabilizem as finanças européias, uma vez que estas põem em xeque as demais?
Para que? Para continuarem  a explorá-las a seu favor?
As finanças mundiais devem ser estabilizadas com o dinheiro desses especuladores, que não só não se dispõem a pagar mais impostos, mas que não querem abrir mão de suas táticas de “delinqüentes financeiros”.
Será que alguém, finalmente, esboçará uma primeira reação financeira a favor dos ofendidos e humilhados?
Nunca fui entusiasta da Teologia da Libertação, porém, julgo que, neste momento, em que os cristãos, e católicos estão vacinados contra as teorias marxistas, que muitas vezes nem chegavam a ter a original amplidão humanista de seu autor, Karl Marx,  podemos retomar o projeto de um Socialismo Cristão, ou melhor, de um Socialismo Humanista, que poderia ter coloração budista, judaica, islâmica, afro-brasileira, e até confucionista-laotseniana.
 Que importa que o Ecumenismo ultrapasse os obstáculos de uma corrida hípica filosófico-teológica? Que se quebrem algumas pernas de cavalos, mesmo árabes, mas que os indivíduos que os cavalgam, sejam salvos. Filosofia e Teologia são disciplinas ótimas, desde que sejam sensíveis ao coração, segundo a expressão inolvidável de Blaise Pascal.
Cristo não falou em ser instruído em Harward ou Cambridge, nem em simpósios de Davos, nem nas sofisticadas mesas-redondas da Eurozona, mas em ser visitado nas prisões, em ser alimentado em favelas, em ser vestido nas savanas da África.
A Carta dos 1300 é uma demonstração de nosso utopismo às avessas.
Imaginar que Soros e seus comparsas estejam interessados nas contas de cada um de nós, no pagamento de nosso condomínio, de nossa água e energia elétrica, é cair na ilusão de que a política mundial possa ser melhorada com magnatas e  especialistas assentados às mesas de Hotéis como o Sofitel de New York.
A economia mundial provavelmente melhorará quando o cidadão comum, também ele, deixar de se deliciar com as notícias da mídia sobre cachês de astros futebolísticos e top-models, e começar a gastar menos tempo e dinheiro com superfluidades e quinquilharias made in China.
Mas não basta isso: é preciso alinhar-se do lado certo, do lado dos ideais severos das grandes entidades sociais, basicamente do lado do Evangelho de Cristo, ou, ao menos, das éticas que exijam que o homem, antes de tudo, seja homem, e honre seu DNA.-
Projetos políticos? Sem dúvida! Mas que sejam elaborados por homens inteligentes e honestos, que não nos ceguem com suas bandeiras de bem-estar fictício, antes nos convidem a viver a serviço daquilo que importa: a saúde, a educação, o prazer fruído dentro de parâmetros “racionais”, e não nas águas turvas da permissividade irracional. ou seja, na companhia dos brutos, denunciada por Dante Alighieri!
Quanto à Carta dos 1300 empresários e ex-políticos, nós lhes sugerimos, modestamente, que a arquivem.
Baste-nos saber que existe outra Carta, mais antiga e mais urgente, e que deve ser levada muito a sério: a Carta dos Direitos Humanos, que foi – e está sendo escrita - por cinco ou seis bilhões de seres “racionais”, mas que têm em si uma possibilidade alucinante: a de serem mais do que racionais: a possibilidade de serem simplesmente animais-e-homens.

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