sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Sugestões de Leitura para a Feira do Livro

        Alguns leitores pediram-me indicações de livros para leitura, visto que a Feira do Livro de Porto Alegre vai começar hoje, dia 28 de outubro de 2011.
        
Ei-las:

1..Dante. O Poeta, o Pensador Político e o Homem, d e autoria da especialista inglesa, Bárbara Reynolds.
O livro acaba de ser publicado no Brasil, em tradução primorosa de Fátima Marques e revisão técnica domaior estudioso de Dante no Brasil, Marco Lucchesi. É livro obrigatório para quem deseja conhecer a Divina Comédia. Seu preço é relativamente elevado: deve andar pelos 75 reais, mas com os descontos da Feira, torna-se mais acessível.
Senhores leitores, dirijo-me a vocês que não se intimidam com o tamanho físico de um livro. É lógico que tamanho não é documento. No caso, porém, é. A professora inglesa é uma especialista de fama mundial. Mas isso não basta para induzir-me a aconselhar seu livro: acontece que a obra de Reynold possui várias qualidades, que são difíceis de serem encontradas juntas:
         a) Documentação confiabilíssima;
b) O livro não só se atém a interpretações pisadas e repisadas, mas ousa apresentar interpretações inéditas.
c) O estilo é claro, ágil e agradável;
d) Os exemplos apresentados cativam o leitor.

2. Em 1988 editou-seno Brasil um livro de Lu Sin - (seu nome também é grafado: Lu Xun): Novelas Escolhidas. Trata-se de um clássico chinês. Se dependesse de mim, dar-lhe-ia um Nobel póstumo! Não garanto que a tradução portuguesa seja das melhores. Li uma versão espanhola dessas novelas, editada pela Tusquets, de Barcelona, superior à versão nacional. A estas alturas, qualquer coisa de Lu Xun que chegue ao bico de um porto-alegrense é papa fina.
Tenho uma sugestão melhor: Ervas Silvestres, do mesmo autor (Lisboa, Editora Cotovia – Fundação Oriente, 1997).

         3. Aprata da casa, às vezes, é ouro. Leiam os seguintes livros, que tornarão mais compreensível o maravilhoso e adoidado  Brasil:
I. José Castello: Vinícius, Poeta da Paixão.(Ver texto no meu blog).

II.Darcy Ribeiro: Confissões.

III. Paulo de Tarso: O Anjo pornográfico. (Sobre Nelson Rodrigues). (Ver texto no meu blog).

IV. Fernando Morais: Chatô, o Rei do Brasil.
        
4. Robert Hughes: Barcelona.(Ver  3 textos no meu blog). 

5. Por que não ler os contos de Barbosa Lessa: Rodeio dos Ventos? Quem tiver a sorte de encontrar a edição original: O Boi das Aspas de Ouro (Globo) considere-se premiado.

6. Gilbert Keith Chesterton: Ortodoxia.

7. Pensamentos, de Blaise Pascal,
             É um livro essencial da literatura mundial.

8. De Tomás de Aquino merece maior atenção existem duas obras no mercado, que recomendo:
a)Jean-Pierre Torrell: Iniciação a Santo Tomás de   Aquino. Sua Pessoa e sua Obra.
b)Jean-Pierre Torrell: Santo Tomás de Aquino, Mestre Espiritual.

9. Harold Bloom: Gênio. Os 100 Autores mais Criativos da Literatura.

10. Geza Vermes: Quem é Quem na Época de Jesus.

11) Se vocês quiserem honrar-me, adquiram meu livro: Ler por Dentro. A publicaçao é da Editora Pradense, e seu preço é bem acessível. Não chega a 20 reais.

12. Outro livro meu – afinal, estou escrevendo para os leitores do meu blog! – é uma antologia poética, também da Editora Pradense. Autorizei sua publicação para que os estudantes do curso secundário e do curso universitário, bem como o público em geral, pudessem dispor de uma coletânea minha a preço imbatível.
        

Boa leitura!

Um Monumento Vivo: Eva Sopher.

         No momento atual, quando a mídia se concentra em mulheres gaúchas, que exibem qualidades físicas, ou cujos predicados de Mulher Nua  (ou Quase-Nua), as Top-Models em especial, e outros ícones da publicidade e representantes da indústria do entretenimento são exaltados, é imprescindível falar de mulheres vestidas, de mulher que não precisam, expor em público aquilo que, habitualmente,se revela numa alcova, ou num ambiente  de intimidade com um parceiro no amor.
Falei em A Mulher Nua, porque esse é o título de um livro extraordinariamente lúcido, que deixa transparecer os conhecimentos estéticos de seu autor. O livro tem por subtítulo: Um Estudo do Corpo Feminino. (Trad. de Eliana Rocha. São Paulo, Editora Globo, 2005).
Seu autor é Desmond Morris, zoólogo inglês, que já se celebrizara por outro best-seller: O Macaco Nu, traduzido para quase todas as línguas conhecidas, e do qual se venderam mais de dez milhões de exemplares.
      Que tem a ver com isso a Sra. Eva Sopher?
         A rigor, pouco.
Para dizer a verdade: muito!
Ela, também, é mulher, e ainda hoje, na idade em que está, poderia – se o quisesse - gabar-se de seu charme feminino, que nada fica a dever às concorrentes. Pelo contrário, às atrações de suas colegas, ela adiciona o que pertence à humanidade em geral, a inteligência, um apurado sentido estético, e sua cultura.
É bom que o Rio Grande não se esqueça de um pormenor: o fato de suas mulheres serem excepcionalmente belas (o poeta, romancista, e ensaísta alemão, Hans Magnus Enzensberger, quando esteve em Porto Alegre, confessou-me que nunca vira, numa rua de qualquer cidade do mundo, tantas mulheres estonteantes juntas, como as que vira na Rua da Praia de Porto Alegre!) - isso não impede que alguém, do seu porte midiático, possa completar a declaração com outra, em que diga que Porto Alegre oferece, também, um dos índices mais altos de mulheres inteligentes, sensíveis, e de altíssimo gabarito profissional, das quais a Presidente Dilma Roussef pode ser uma amostra com Eva Sopher.
O caso da Sra. Eva Sopher, aliás,  é singularíssimo.
Ela não é propriamente gaúcha, ou antes, é mais gaúcha do que qualquer outra mulher nascida no Pampa, porque quis ser gaúcha de mente e coração, e ninguém lhe tira essa glória.
Nascida na cidade de Frankfurt, na Alemanha, abandonou a  peste hitlerista em 1937,  aos 13 anos, e veio para o Brasil, aonde seu pai emigrara dois meses antes. Como ela mesmo o confessou, na era desditosa da ditadura nazista,  sua saída da Alemanha foi um inferno, e tudo o que ela conseguiu foi, literalmente, salvar a pele.
Com a pele, salvou para nós gaúchos um cérebro maravilhoso, e um coração de igual fibra.
 Sua família radicou-se em São Paulo, cidade onde morou durante seis anos. Em 1943, foi para o Rio de Janeiro, onde nasceram suas filhas. Em 1960, por motivos profissionais de seu marido, transferiu-se para Porto Alegre.
Embora não se tenha diplomado em Artes Plásticas, Eva interessou-se por elas desde os 11 anos. Na sua permanência em São Paulo, dedicou-se, por algum tempo, à escultura. Posteriormente, resolveu trabalhar para a ProArte, entidade de concertos e eventos culturais.
Trabalhou nessa empresa até 1943, quando passou a residir no Rio de Janeiro. Ali dedicou-se à encadernação de livros artísticos.
Após sua transferência para Porto Alegre, Eva recebeu a incumbência de fundar uma filial da ProArte na capital gaúcha.
 Foi então que conheceu sua paixão: o Theatro São Pedro - paixão à primeira vista.
Durante 23 anos, Eva dirigiu a ProArte em Porto Alegre.
         Na temporada de 1972, segundo conta, enquanto uma artista coreana dava um recital no palco do São Pedro, uma peça se despencou do teto, caindo a poucos centímetros de sua mão...
         Em conseqüência disso, de certo modo para salvar outra vez a pele, resolveu que os espetáculos da ProArte teriam de ser dados na Assembléia Legislativa, visto que o Theatro São Pedro fora fechado.
Diz ela com humor: “O cupim ficou dono dele!”
Foi então que o Governador Silval Guazzelli a convidou para presidir uma Fundação a ser criada para o Theatro. Devido, porém, ao “reinante descaso com a cultura”, o projeto da Fundação levou sete anos para ser concretizado. Só foi possível graças ao interesse de um Ministro da Educação, o gaúcho Ruben Ludwig. A lei foi criada, e Eva passou a ser Presidente da Fundação Theatro São Pedro.
         Com isso, a reforma da tradicional casa de espetáculos principiou a ser uma realidade.
Graças a outro gaúcho, o General Ernesto Geisel, que promoveu a restauração dos teatro antigos e teatros-monumentos, o projeto do Theatro deslanchou.
         Fiquemos por aqui.
Descrever a via-crucis de Eva Sopher  em prol de seu projeto importaria em narrar uma crucifixão nas mãos de burocratas (o que daria um filme à Mel Gibson).
Notem bem: Eva não só levou a termo a restauração de um monumento fundamental de nossa cultura, mas ela própria se converteu num monumento vivo.
Dito mais explicitamente: Eva Sopher é uma mulher-monumento, uma gaúcha-mais-que-perfeita!
Hoje ela proclama:
- O Theatro São Pedro é um teatro de primeiro mundo!
Não sei se os leitores de meu blog conheciam esses detalhes biográficos da Eva.
         Agora é hora de meus palpites.
Não direi que a Eva seja uma mulher de trato fácil.
É uma mulher exigente, e neste país, onde tudo se adia, ou onde tudo acontece como na lenda folclórica dos macacos que, num dia de chuva, decidiram construir uma casa, porém, findo o aguaceiro, decidiram, unanimemente, protelar a construção, imaginem o que significou para a Eva gastar os saltos altos e baixos de seus sapatos no pavimento de Secretarias e Ministérios Públicos!
 Se ela fosse uma mulher excessivamente amável, que não soubesse impor-se aos machões  da importância nacional, o Theatro São Pedro estaria, ainda hoje causando tremedeiras às mãos de pianistas e violinistas coreanas...
O que a Eva sempre foi – e disso dou testemunho – é uma mulher de inteligência penetrante, de cultura refinada, de sensibilidade incomum, não só em termos de teatro e música erudita.
Ela é, também, uma mulher educada, cuja finesse e delicadeza só emergem em surdina, principalmente, depois que ela conhece bem as pessoas com as quais convive.
Não é nada esnobe, porém não tolera a cafonice. Nenhum tipo de cafonice! Nem a cafonice que se veste de amarelo como um monge budista, ou enfia um capaz de frade franciscano...
É judia, mas principalmente é humana – isto é,  um exemplar magnífico de “animal racional”, e naturalmente uma magnífica filha de Abraão, o Pai dos Crentes.
Pode, também, ser considerada, uma descendente direta de Terêncio (185-159 antes de Cristo), o escritor romano que afirmou:
- Sou homem: não julgo alheio de mim nada do que é humano.
(Paulo Rónai. Dicionário Universal de Citações. São Paulo, Círculo do Livro, 1985. p.445).
Eva é gaúcha por auto-inoculação, o que nos honra a todos, mas que honra sobretudo a população feminina deste Estado, um Estado que, após 40 anos de ostracismo federal, tem todas as condições para dar certo.




quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Uma Mulher Excepcional: Mafalda Veríssimo.

         Invejo escritores como Manuel Bandeira, que sabem falar de amigos – e até de inimigos - não só com distinção, mas com a mais límpida e melodiosa afetividade.
Parece fácil, mas não é.
Falar de pessoas não é o mesmo que falar de objetos.
Os objetos podem ser descritos, as pessoas só podem ser sugeridas!
         Esta é a diferença essencial!
         Leiam, por exemplo, o que Manuel Bandeira escreveu sobre José de Abreu Albano, na sua Flauta de papel, incluída pelo organizador de sua Seleta de Prosa, um dos melhores manuais de bem escrever que conheço.(Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1997.p.133-135).
         José Albano era um poeta bissexto, poeta original, e às vezes, extraordinário. Vivia, porém, nas nuvens, e não caía delas porque tinha uma cara-de-pau cativante. Por exemplo, na sua opinião: numa sociedade bem organizada os poetas teriam direito a néctar...
         Imaginem!
Num mundo em que as próprias abelhas têm de mourejar para conseguir o seu néctar!
Manuel Bandeira era tão humano que não admitia a mínima trapaça no espírito do poeta, que era – como ele diz – um homem digno e altivo.
 Notem o adjetivo altivo, contrabalançando o adjetivo digno!
Isso é classe.
Eu gostaria de ser Manuel Bandeira para falar sobre a Mafalda Volpe Veríssimo, a esposa de nosso romancista-mor, o Erico Veríssimo, e mãe de nosso Cronista-Mor, o Luís Fernando.
Como era a Mafalda?
Eis aí uma questão que já me deixa confuso.
Porque a verdade é a seguinte: a Mafalda era de uma sinceridade xilográfica!
Nada de lisonjazinhas, de beijinhos e palmadinhas nas costas, nada de maçãs carameladas...
Ela era pão-pão, queijo-queijo, e se o pão era dormido, pior para o pão.
Nos inícios de nossa amizade, confesso que essa atitude da Mafalda me deixava (como se diz em francês) agacé.
Com o tempo, fui descobrindo que não havia coração mais bondoso, nem mais franco, nem mais generoso do que o da Mafalda.
Naturalmente, a Mafalda era uma rosa. E não há rosa sem espinho!
Ela não suportava um costume semi-gaúcho que consiste em bajular.
Dir-me-ão:
- Não existe gaúcho bajulador!
Está bem!
O gaúcho é altaneiro, sobranceiro, altivo, orgulhoso, altanado, arrogante, brioso, soberbo... Copiei quase todos os sinônimos do Dicionário de Sinônimos e Antônimos da Língua Portuguesa, do Pe. Artur Schwab. (Rio de janeiro, MEC-Fundação Nacional de Material Escolar, 1974).
Acrescento que o gaúcho faz questão de afirmar que ninguém lhe pisa no poncho, que não existe capacho no Rio Grande do Sul, etc.
Concordo.
O que, porém, não me agrada, em nossa autêntica cultura gaúcha, não é o servilismo, ou a bajulação, mas o espírito de veneração em relação à Côrte. Senão de veneração, ao menos, de devoção. Ah! A devoção rio-grandense pelos Mandarins de Rio e São Paulo, e atualmente, de Brasília, é de desanimar.
O complexo por ter nascido longe da Côrte, numa zona de fronteira e, em razão disso, ter que batalhar para ser brasileiro, e não ser simplesmente um carioca ou um bahiano, os quais nasceram numa liteira ou, ao menos, num tílburi...Interrompo a frase para não constranger mais meus eventuais leitores.
O gaúcho nasceu em cima de um cavalo. E cavalo relincha.
Por isso, na expressão do Mario Quintana, o gaúcho aprendeu a relinchar...
Quem não conhece aquele escrito ferozmente gaúcho do Quintana:
- Lembro que certa vez me encontrei com seu Zé na rua. Como bons amigos, paramos, relinchamo-nos, abraçamo-nos: “Há quanto tempo!”
(Poesia Completa. Org.0 de Tânia Franco Carvalhal. Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 2005. p.801).
Por isso, quando, certa vez, a Mafalda, que sempre oferecia meias de lã, feitas por ela mesma, ao velho Poeta, este, que já acumulava várias meias, lhe disse com a mesma franqueza meio relinchada:
- Obrigado, Dona Mafalda, pelas meias! Mas não se esqueça de que não sou uma centopéia...
Se o Quintana não lhe disse isso, com veracidade histórica, pelo menos pensou nisso!
Voltemos à Mafalda.
Habituei-me à sinceridade xilográfica da Mafalda, e só assim descobri que essa mulher, além de possuir um coração do tamanho do coração de seu marido (ela devia, também, ter morrido de coração!), era uma das mulheres mais inteligente e de espírito perspicaz deste Estado. Ou antes: deste país!
Além disso, era culta.
Não culta como quem carrega uma biblioteca atrás de si, mas como quem é uma biblioteca!
A Mafalda sabia das coisas, sabia coisas que só ela sabia, sabia das coisas alheias, e ainda encontrava tempo para saber coisas que só o bom Deus sabia, uma vez que era católica sincera, de missa dominical, e acreditava nos Mistério de sua Fé.
Não era carola, nem pactuava com a ranzinzice de certos eclesiásticos, de fita e métrica de alfaiates em tempos de prét-à-porter...
Lembro-me que, um dia, ela me referiu um incidente desagradável desse clericalismo autoritário e obsoleto. É verdade que o bom coração da Mafalda já tinha descoberto que o tal sacerdote do incidente era uma pessoa (como todos nós) com um bom estoque de neura, da mais destilada.
Volto insistir: Mafalda era, não só uma gringa atilada, era também extremamente inteligente. Suas leituras, posto não fossem tão vastas como as de seu marido, eram de uma leitora incapaz de se embeiçar pelos Dan Bronws da América do Norte. Ela sabia distinguir muito bem um best-seller (que podia, diverti-la), mas cujo valor de produto de loja 1,99 ela bem conhecia!
Aproveito a dica para dizer que conheci outra mulher assim, tão inteligente como ela: a Luiza, esposa do Maurício Rosenblatt.
Em termos gerais, se eu tivesse que escolher, entre as opiniões do Rosenblatt e do Erico, e as da Mafalda e da Luiza, acho que hesitaria. Até porque as opiniões dos dois memoráveis intelectuais do Pampa deviam muitíssimo às duas mulheres!
Não direi que a Mafalda era exemplar em todas as “virtudes da casa” e nas outras complexas virtudes da existência de um animal racional. Digo, apenas, que em quase todas era excelente.
Prefiro considerá-la uma criatura singular, privilegiada, seja como carácter (um tanto rígido), mas também como amiga, conselheira, anfitriã, apreciadora de uísques vesperais, montadora de puzzles (de levar ao desvario um matemático de nomeada!(, boa cozinheira, papo ameno e condimentado com as melhores especiarias do Oriente...e do Ocidente!   
Enfim, uma mulher hors concours!
Ah! Antes que me esqueça: possuía um sentido de humor incomparável.
 Em geral, um humor autocrítico e social, como é o humour verdadeiro, mas que podia transformar-se numa ironia de espora gaúcha...quando se defrontava com a estupidez e a idiotice em pureza laboratorial!
Na minha mais recente leitura, lenta e meditada, de O Continente, cheguei à conclusão de que a Mafalda não se explica sem as personagens femininas da grande trilogia de seu marido. Ela é um pouco Ana Terra, Bibiana, e todas as outras mulheres do Erico!
Quantas saudades ela deixou!
Saudades?
Deixou mais do que isso: deixou um vazio que não pode ser preenchido.
Às vezes, surpreendo-me a rezar – não por ela – mas a ela, pedindo que, nos seus ócios celestes (se os houver!), se lembre deste pobre mundo, de cada um de nós, e interceda por nós, para que sejamos mais humanos, e não nos queixemos tanto do planeta em que vivemos.
Uma qualidade que ela tinha, e eu ia esquecendo, era a de aceitar o mundo como ele é, sabendo que para desfruta-lo é preciso um mínimo de bom senso e modéstia.
Humildade?
Creio que a Mafalda aceitaria minha declaração irreformável:
-Já que não pude chegar à humildade, ao menos (parece-me!) cheguei ao humor!

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Kadhafi: Um Ditdor Morreu! (Reflexões de um Aprendeiz-de-Ensaísta Cristão).

        Lembro-me de que fiquei surpreendido quando li, pela primeira vez, no Evangelho de São Mateus (Capítulo 26, versículo 52), as palavras de Jesus a Pedro:
- Mete no seu lugar a tua espada, porque todos os que lançarem mão da espada, à espada morrerão.
Parecia-me que essas palavras contrariavam outras palavras de Jesus, como as que ele pronunciou a respeito dos inimigos, que deviam ser amados, pois: “se não os amais, que fazeis de melhor do que os pagãos? Estes também amam seus amigos”...isto é, favorecem-nos, dão-lhes vantagens para obter vantagens.
 Derpois: não contou Jesus a Parábola do Administrador Infiel, que fez uma trampolinagem, quando, sendo destituído de suas funções, apelou aos devedores de seu patrão, rebaixando-lhes as dívidas, numa atitude digna dos trapaceiros contemporâneos?
Seríamos loucos se atribuíssemos a Jesus estímulos para a raposice e a sem-vergonhice!
Jesus fez referência à astúcia humana, para prevenir-nos contra ela, e dela extrair para nós uma lição:
- Se vocês sabem ser astutos em relação ao pior, sejam astutos em relação ao melhor, à Vida Eterna, que vos venho anunciar.
Mais tarde, meditando sobre as palavras de Jesus, que me pareciam um eco da lei do Talião: “Olho por olho, dente por dente”, apercebi-me de que o significado de suas palavras era diferente.
Jesus queria advertir-nos da seguinte realidade: o mal engendra o mal, e se vós persistis nisso, acabareis pagando um preço muito alto pelo vosso desvario e obstinação.
Foi o que aconteceu com Kadhafi, depois de ter acontecido com Benito Mussolini, o qual não receou condenar à morte seu genro, o Conde Ciano, e um de seus melhores amigos, o Marechal De Bono.
Kadhafi vinha de uma família humilde. Aos 27 anos tornou-se “Líder dos Coronéis” que depuseram o Rei Ydris, um monarca- fantoche, que as potências estrangeiras tinham imposto ao seu país.
Vinte e sete anos – convenhamos - não era idade para ninguém ser chefe, muito menos chefe absoluto. Os exemplos da História mostram-nos que pessoas assim perdem a cabeça. De fato: às vezes a perdem, porque são decapitados!
O que Kadhafi fez na Líbia, os atos terroristas que financiou em 40 anos de ditadura cruel, os inimigos que exterminou, sua reação vingativa contra seus adversário durante a sublevação de Bengazi, tudo isso preparou-o para a vingança desumana de sua captura.
Com ferro feriu, com ferro foi ferido.
Poderá um cristão festejar tal desdita?
De forma alguma.
A coerência com os ensinamentos de Cristo e com sua vida pessoal nos obrigam a deplorar o que aconteceu, não só na realidade, mas também nos meios de comunicação.
Expor seu cadáver obscenamente foi algo indigno do Mundo Ocidental, que contribuiu para a sua derrota.
Merecida?
Digamos: até certa medida, sim.
Ninguém pode governar um povo sem seu beneplácito. Kadhafi, durante 40 anos, desinteressou-se de saber se seu povo o queria, ou não. Fez o que fez Mussolini. Supôs-se necessário, não só ao seu povo, mas até às engrenagens  do mundo.
Hitler foi um pouco além: imitou Nabucodonosor. Autodeclarou-se Deus, humilhando seus Generais, os “Vons” da aristocracia prussiana. Quem quiser saber detalhes sobre essa pasmosa humilhação, imposta aos Feld-Marechais e aos seus Generais, entre os quais Guderian, leia o admirável livro do historiador inglês John W. Wheeler-Bennet: La Nemesi del Potere. Storia ddelll’Esercito Tedesco dal 1918 al 1945. (Traduzione dall’inglese di Luca Pavolini. Seconda edizione. Milano, Giangiacomo Feltrinellçi Editore, 1959).
Nunca teria imaginado que homens tão ilustres, como os generais da Alemanha, se submetessem, com tanta sabujice, a um Ditador.
 Não admira que Hitler, mais tarde,depois de ter transformado seus militares em lacaios, como Von Brauchitsch, Keitel, Jodl, tenha exclamado, num momento de mais líquida estupidez:
- O povo alemão é indigno de minha grandeza! Ninguém aprecia o que fiz por ele...
(Cit. Ibid. p. 728)  

A história repete-se.

Por que?
Porque a insensatez humana recusa-se a aceitar os ensinamentos de Cristo.
A frase de Jesus, que tanto me chocou inicialmente, deve ser interpretada à luz dessa verdade: Jesus não estava sancionando a Lei do Talião, a Lei da Vendetta, dente por dente, mas lembrando que não se pode infringir as leis da Bondade sem incidir nas leis da Maldade.
Embora eu tenha lido mais de uma vez o Alcorão, não me parece que ele autoriza, pura e simplesmente, a vingança, ainda que tenhamos sérias reservas sobre essa dimensão do Islamismo.
Resolvi reler, mais uma vez, o Alcorão, texto venerável da tradição islâmica. Tenho uma edição in suspeita, e valorizadíssima:
Alcorão.
Tradução direta do árabe e anotações de José Pedro Machado. Prefácio de Suleiman Vali Mamede (Presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa). Lisboa, Edição da Junta de Investigações Científicas do Ultramar, 1979.

Na página 39 do Alcorão, referente à Sura da Vaca, leio o seguinte:
- Ó crentes, fica-vos prescrita a pena de talião para o assassínio: um homem livre por um homem livre.um escravo por um escravo e uma mulher por uma mulher; o que for condenado pelo seu irmão deve ser tratado moderadamente, e ele, por sua vez, deve pagar generosamente a quem deve. (...) Nesta pena de talião está (a segurança da vossa) vida, ó homens dotados de in teligência. Talvez ainda vos tornareis tementes a Deus.

Na página 128, Sura Quinta, lemos:
- Na Lei prescrevos-lhes: “Vida por vida, olho por olho, nariz por nariz, orelha por orelha, dente por dente e para as feridas a pena de talião.

Não pretendo analisar os móveis que levaram as Potências Ocidentais, sobretudo a França, a agredirem o Ditador.

Falar em DIREITOS HUMANOS a pessoas fundamentalistas, que seguem o Alcorão ao pé da letra, é assunto que reservo aos catedráticos da Sorbonne e do Collège de France. Será que eles não sabiam que os líbios, na sua maioria, são islâmicos, e portanto seguem o Alcorão?

No mesmo Alcorão, na página 72, está escrito:

- Deus é poderoso e vingador.

Na páginas. 132 e 190 reitera-se:

- (...) Deus é poderoso e vingativo.
                          
- (...) quem se afasta de Deus e do seu apóstolo há de saber como deus é violento  a puni-lo.

É evidente que isso contraria as palavras da Bíblia onde se lê no Deuteronômio:

- É minha a vingança e a represália.
(Trad. da Bíblia de Jerusalém.Nova edição revista. São Paulo, Edições Paulinas, 1985. p.322).

Se isso já estava escrito no Antigo Testamento, imaginem o que está escrito no Novo Testamento, onde Jesus é categórico: o perdão aos inimigos faz parte do seu legado. Basta a um cristão lembrar-se do Pai-Nosso!
Ver, portanto, o que vimos nas telas de televisão, na Internet, nos jornais e revistas, é algo que, por um lado, nos faz constatar que o Mundo Ocidental, se quiser chegar a uma Carta de Direitos Humanos, terá de obter a adesão explícita das nações islâmicas.
Escandalizar-se de que elas sigam, à letra, as instruções de Maomé, é ignorar que as massas o interpretam, não a partir dos princípios essenciais de suas Revelações, mas a partir de tradições tribais que ainda estão presentes entre os beduínos e tuaregues.
Assistir, pois, à vingança deles, e escandalizar-se, é o mesmo que escandalizar-se diante das transgressões horrorosas que as nações católicas fazem de seus badalados fundamentos cristãos.
Seria melhor denunciar a hipocrisia ocidental, que primeiramente favorece os ditadores islâmicos, e depois cobra-lhes que sejam coerentes com princípios cristãos, que eles mesmos desprezam.
Não se conclua dessas reflexões que tenho simpatia pelo Raís morto!
Teria apenas desejado (já que sou contrário, por razões religiosas, à pena de Morte) que Kadhafi fosse julgado e condenado por suas ações, e lhe fosse deixada a possibilidade de, na prisão perpétua, meditar sobre sua loucura.
Tenho confiança na razão humana, que Deus deu a cada homem, ao mesmo tempo que lhe deu uma alma imortal.
Tenho, também esperança de que Deus não se nega a iluminar uma criatura, mesmo quando as trevas ao cobrem com sua mais espessa escuridão.

Duas Mulheres: Marlene Aspis e Maria Helena Torres.

        Raramente tenho falado em meu blog sobre essas criaturas maravilhosas, atuantes em nosso mundo convulsionado, e que inexistem para a mídia!
Refiro-me a pessoas em carne e osso, pessoas concretíssimas, substantivas, transbordantes de vida, as quais, em vez de badalarem nos sets e em outros locais onde os holofotes costumam matar sua fome de sensacionalismo, permanecem ao lado de seus companheiros de vida, de seus filhos e de seus netos, tornando este mundo mais habitável e vivível, e sobretudo, mais humano.
Falo de duas mulheres: uma delas – hélas! – já partiu para aquelas terras sem geografia, que o poeta Francis Jammes denominava “as terras do bom Deus”, ou seja, o estado provisório em que as almas humanas subsistem, antes da prometida Ressurreição dos Corpos.
Chamava-se Marlene Aspis.
Deram seu nome a uma Biblioteca, a do Gravatal, cidade onde viveu seus últimos anos. Seu marido é o Abraão Aspis, um dos indivíduos mais autenticamente comprometidos com a Cultura Gaúcha que conheço. Durante anos, esse engenheiro foi assessor cultural da Petrobrás, em Canoas. e no que lhe foi possível, l
Persuadiu a Estatal a favorecer a Literatura e outras artes, mediante subsídios sempre corretamente aplicados, sem que jamais se tenha levantado a menor suspeita sobre tua atuação,  em termos de destinação das verbas.
Marlene...
como te recordarei, querida amiga?
Éramos amigos por tabela, uma vez que, primeiramente, fui durante anos amigo e confidente de teu marido.
A seguir, uma série de encontros fortuitos nos aproximaram, e eu pude, sobretudo durante um carreteiro famoso, que preparaste para nós, o Taylor Diniz, o Arnaldo Campos, o Cimenti e eu, no teu próprio apartamento.
 Mas não é do carreteiro que tenho saudades, eu que sou um fã absoluto desse prato gaúcho! É de ti, mulher simples, de uma finura congênita, anfitriã das melhores que já pisaram a vastidão
deste Pampa.
É maravilhoso poder a gente ouvir, de alguém, que fala com sinceridade, uma confissão como esta:
- Eu respeitava e amava esta criatura! Transbordante de carinho, sem pose, de uma lealdade comovente!
Lembra-te, Marlene, de nosso papo pré-carreteiro? Foi então que te conheci mais profundamente.
Na ocasião, conversamos relativamente durante breve tempo, mas há conversas de um minuto que duram uma eternidade, e conversas cotidianas, prolongadas que se desfazem no ar como balõezinhos de espuma soprados num canudinho por uma criança.
Obrigado por me teres confirmado numa persuasão íntima: existem mulheres, tão belas no seu anonimato, tão discretamente cativantes, não só por seu físico, mas dez vezes mais por suas qualidades de alma, que tornam este mundo imooredouro, ao menos na meória de nós, seres efêmeros.
Guardarei sempre a lembrança um tanto diáfana de tua pessoa, mas principalmente a lembrança indelével e concretíssima de tua bondade, de tua singeleza psíquica, de tua comunicação sem artifícios, ao mesmo tempo materna e de um frescor primaveril de menina-moça!
Falar da outra mulher, a que me referi no início deste texto, é repetir muito do que já disse.
Quero dizer algumas palavras sobre a Maria Helena, que não é gaúcha, mas paulista. Refiro-me à mulher extraordionária do Waldemar Torres, o paulistano que decidiu acampar nestes pagos.
Definir Maria Helena?
Primeiramente, é ilusória qualquer definição de uma pessoa. Há um mistério em cada pessoa, um mistério de luz (quando são boas), e um mistério de trevas (quando são infelizes e más).
Más?
Não tenho certeza de que exista maldade humana em estado químico.
 Prefiro fiar-me em Sócrates, o Mestre da Grécia que dizia:

 - O homem mau (não dotado de filantropia) é algoz de si mesmo.

Digamos que existem pessoas que são tão infelizes que chegam a ser más!
Maria Helena é a bondade em estado puro. Possui, por assim dizer, uma bondade laboratorial. Se resolvessem fazer nela um teste “glicogênico” de bondade, teríamos uma amostra do que existe de melhor no coração de uma mulher, de uma mãe, de uma esposa, porque Maria Helena é tudo isso.
 Não serei indiscreto revelando os porquês de tão convicta afirmação.
Creiam-me, ó incrédulos!
Enquanto Maria Helena existir, afirmarei de pés juntos que nem todas as atrocidades do Planeta me convencerão de que o homem não foi vocacionado para a bondade!
Se vocês desejarem conhecer Maria Helena, guardem a seguinte dica:
- No dia em que vocês encontrarem na Rua da praia, ouno Bairro em que ela reside, uma mulher com um sorriso sem malícia, límpido e luminoso, que vos faça evocar, por sua despretensão e modéstia, o da Beatriz de Dante na Divina Comédia, perguntem-lhe o nome!   
Não gosto de autógrafos, mas adoro leitores!

        Que quer dizer autógrafo?
      Simplesmente: “escrito do próprio autor; assinatura ou grafia autêntica do próprio punho”: - assim o registra o Dicionário Aurélio.
Em palavras mais comuns: autógrafo é aquilo que o povão chama de firma. Quando, num cartório, o escrivão aproxima-se de nós, com sua tradicional cortesia, o que pede ele em nome da Lei?
Pede nossa firma, às vezes reconhecida!
      Creio que todos sabem quem inventou esse hábito – o das tardes de autógrafos - que qualquer autor teme, detesta, deplora.
Foram os Editores! Benditos Editores!
Foram eles que inventaram as Tardes eNoites de Autógrafos, quando a leitura -  como a água do DEMAE, nos depósitos do Moinhos de Vento - baixou tanto que a venda de livros atingiu índices de periculosidade mercantil.
Imaginativos, os editores bolaram essa saída para suas finanças.
Resolveram apelar para a vaidade de uns e de outros: para a vaidade dos autores – a nossa - e para a vaidade de vocês, ó amáveis e in dispensáveis leitores.
Vaidade dos autores? Quem não ama seus dezoito ou vinte segundos de celebridade? Creio que só a comovente modéstia, mesclada com uma cândida dose de modéstia, ou antes, de prazer de estar cercado por admiradores, é que fazia um autor feliz ao dar autógrafos. Este autor era Mario Quintana!
 O Quintana, segundo penso, exultava com isso: como não tinha família, nem filhos, nem, netos, sua verdadeira família eram os leitores!
Quanto à vaidade dos leitores: quem não gosta de estar na companhia de gente pseudo-famosa, ou pelo menos conhecida no seu bairro?
 Quintana, a respeito de dedicatórias, legou-nos duas frases pérfidas:
I.                Sim, o mais triste das dedicatórias são as datas.
(Poesia Completa. RJ, Nova Aguilar, 2005. p. 263).
II.              O mais difícil da arte de escrever é quando temos
de redigir as dedicatórias.
(Ibid. p. 820).
De resto, o Poeta do Caderno H legou-nos outra frase pérfida sobre o tema; não a consegui localizar.
É mais ou menos o seguinte:
       III. Não é conveniente ser prolixo nas dedicatórias. Sempre há tempo de melhorá-las...
       Repito: um dos piores momentos de um escritor é estar à frente de um leitor atento, afetuoso, e se for uma mulher, bonita ou simpática, e não saber o que dizer-lhe.
Escrever o quê? Não conhecendo o leitor ou a leitora, ficamos perplexos.
 Se o conhecêssemos, ou se a conhecêssemos, podíamos ser gentis, fazer-lhe um cumprimento gentil, até um inofensivo piropo verbal...
       Sabem o que me aconteceu com o grande escritor alemão, Hans Magnus Enzensberger?
Estava eu no Instituto Goethe da capital, e o Diretor do Instituto me apresentou ao escritor, informando-o de que eu tinha ajudado o Kurt Schafer, seu tradutor, a aprimorar a tradução poética de seu livro Eu Falo dos que Não Falam.
O escritor não estava habituado a autógrafos.
Quando o Diretor do Goethe pediu-lhe a gentileza de me dedicar um dos exemplares do livro, Enzensberger não teve dúvida: escreveu na primeira página do exemplar seu próprio nome!
Com certo constrangimento, o Diretor pediu-lhe, mais uma vez, que pusesse uma dedicatória a mim, visto que eu tinha colaborado com Kurt Scharf na re-criação de seus poemas... Sobriamente, Enzenbsgerger atendeu-o, e dessa maneira conseguiu atenuar o rubor de meu rosto...
Ele me havia conhecido pessoalmente, momentos antes...
       Embora não goste de autógrafos, confesso-lhes que adoro conversar com leitores, mesmo os que não me leram. O simples fato de serem leitores leva-me a fraternizar com eles!
       Digo isso porque, no próximo dia 6 de novembro, às 19 horas, estarei no Pavilhão dos Autógrafos da Feira do Livro de porto Alegre, para autografar...uma pequena Antologia de poemas meus, que o editor Fonini, da Editora Pradense, compilou, e publicou num volumezinho jeitoso, a preço acessibilíssimo para estudantes do primeiro grau, do segundo grau, e universitários, e para os leitores em geral, se é que existem esses leitores, em se tratando de um poeta.
Venham, vocês que desejarem conversar comigo!
Depois dos autógrafos, estarei à disposição de vocês para conversarmos sobre literatura e outros temas. Até estarei disposto a contar alguma piada inteligente! Por exemplo, a de Churchill e a Lady Astor...
Poderemos – se houver lugar – assentar-nos na Praça da Alimentação, e bater um papo descompromissado, fraternal, sobre nossos autores preferidos.
Durante a Feira do Livro estarei, sobretudo à tarde, após as 16 horas, ao dispor dos leitores que queiram conversar.
A Feira do livro oferece essa possibilidade: a de conhecer-nos.

domingo, 23 de outubro de 2011

Um Cânon para o Leitor Gaúcho?

Estive em dois países onde se tentou estimular a leitura e, por meio dela, criar uma identidade maior nas pessoas, viabilizando-lhes o aceso à prata da casa, isto é, aos tesouros da memória coletiva. Refiro-me ao México e à Venezuela.
         Em ambos os países, por ocasião de Feiras do Livro, pude verificar que é possível fazer muito mais do que se faz no Brasil para levar o livro à população.
No México encontrei à venda edições populares de grandes clássicos de Cuba, por exemplo, as obras completas de José Martí, a preços incrivelmente baixos, dois ou três dólares. Na Venezuela, aonde fui a convite da Universidade de Carabobo, na cidade de Valencia (pois fui colaborador da revista Poesia, desde 1973) pude adquirir livros valiosos a preços convenientes. O Governo de Hugo Chávez subsidiou tais edições.
         Por que não se faz algo semelhante no Rio Grande do Sul?
O Governador Tarso Genro, cujo governo sucede a dois períodos de inapetência cultural, pode dar o exemplo. Um Estado, como o Rio Grande do Sul, que só dedica meio por cento de seu orçamento à Cultura,e que está atrás de todos os outros Estados do país, desonra-se perante a nação.
         Todo o mundo sabe que a Presidente Dilma e o Governador Tarso foram vítimas da Ditadura de 64.
A Presidente foi torturada. Nosso Governador pagou um pedágio alto pela sua dignidade, sendo obrigado a exilar-se no Uruguai, one, para sustentar-se, lecionou em estabelecimentos locais.
A Presidente, pois, e o Governador, são personalidades insignes, são líderes do que a Esquerda tem de melhor no Brasil, e no mundo. Podem ajudar-nos a criar uma nação democrática. Uma nação democrática se faz, aztualmente, com livros e Internet, porém  ambos a preços acessíveis.
         Livros? Quem não sabe que essa invenção da humanidade, que nasceu com a escrita na Suméria, aproximadamente 4.000 anos a.C., é - e será sempre - o instrumento básico da liberdade pessoal, e das possibilidades concretas de cidadania?
Sinceramente, não tenho a mesma convicção em relação à Internet. Por uma razão específica: a Internet continua nas mãos de poderosos grupos empresariais, e se tornou, com o transcurso do tempo, um instrumento nas mãos daqueles que outrora eram denominados capitalistas, e quem, na época atual, mereceriam ser chamados pelo seu nome verdadeira: exploradores sociais, ou seja, os donos dos capitais voláteis, e outras invenções sofisticadas daquela coisa horrorosa, que hoje tem um nome de fidalga: a Usura. AUsura chama-se agora invesntimento, agiotagem, etc.
  Já pagamos muita coisa para sobrevivermos, porém não pagamos ainda, tudo o que nossos escravocratas de gravata desejam que paguemos!
Não nos livraremos disso, se o Estado não compreender que, da mesma forma que a instrução popular não deve ficar ser privatizada, como não o podem ser a água e outros bens básicos e universais, (veja-se o exemplo da privatização do ensino secundário no Chile pós-Pinochet), assim também a Internet não pode ficar nas mãos de grupos privados.
 É preciso lutar, desde já, por uma Internet universal, a serviço de todos, não lucrativa, como o ensino universal não é lucrativo. O ensino é um investimento que gera lucros, mas não produz, em si, dividendos imediatos à nação.
         Uma vez que as editoras comerciais já não conseguem baixar os preços de seus livros à altura das alguibeiras do povo, devido a fatores não-culturais, é preciso que o Estado saia de seu olímpico isolacionismo – diria mesmo: de seu hipócrita neutralismo - e deixe de fazer de conta que  ele, ao publicar um livro, está roubando pão a bocas famintas.
Até Cristo advertiu: “Nem só de pão vive o homem”.
O livro e o pão são ambos necessários.
A simulação populista – ou melhor, ideológica – de imaginar que, favorecendo a Cultura se desfavorece as populações carentes, é a maior balela inventada pela Esquerda. Tão bem inventada que deu no que deu: no Mensalão!  O Mensalão foi a alavanca de Arquimedes imaginada pelo execrado J.D. para levantar o mundo do PT às alturas das mais tétrica baixaza! Ninguém pensa que estratégias desse tipo favoreçam favelados e marginalizados.
         Daí a necessidade de se estabelecer um Cânon de Leitura para os brasileiros e os Gaúchos.
Harold Bloom compreendeu isso há muito tempo. Por isso publicou seu livro Gênio. Os 100 Autores Mais Criativos da História da Literatura.(RJ, Objetiva, 2003).
         A idéia de que cada um pode constituir seu cânon, além de errônea, é de uma louvável... idiotice!
Existem competências em todas as áreas do saber. Se queremos saber algo sobre memória e neurociência, não cometemos a insensatez de consultar um oftalmologista, ou mesmo, o Secretário de Segurança do Estado. Iremos direto à procura das luzes do prof. Ivan Izquierdo, e do Reitor atual da UFRGS, o cientista Alexandre Neto. Se desejamos informar-nos sobre livros na área da antropologia brasileira, recorreremos a Darcy Ribeiro, embora ele esteja morto. Acontece que os mortos falam – e falam alto – quando os interrogamos!
 Se queremos saber algo sobre genética,  faremos uma visita ao laboratório do Prof. Dr. Salzano.
E sobre Cardiologia? Se estivermos com  problemas, tentaremos uma consulta com três cobrões da área: Nesralla, Lucchese e Zielinsky. Se precisamos de informação sobre Cirurgia Pulmonar, quem não se lembrará do Dr. José Camargo?
         Existem competências em todas as áreas. Um povo instruído as acata. Também na Literatura e nas Artes existem leitores privilegiados, que podem orientar-nos. Esses homens – não só professores de literatura – poderiam compor uma  cesta básica de leituras para toda a população, colocando-a – como o fizeram Cuba e Venezuela – ao dispor de todo o mundo.
         As editoras comerciais já não conseguem vender o suficiente, nem mesmo apelandfo para best-sellers – para poderem lançar outras obras, além dos romances-bonbons de Dan Brown, e colegas que faturam milhões, à custa de Gutenberg, e sobretudo, dos anônimos escribas da Suméria, que consideramos os inventores da escrita.
         Está na hora de o Estado sair de sua condição de Vestal Política, e assumir a responsabilidade de manter a memória cultural de uma nação, de um Estado.
Imaginar que tal memória subsista por si, conduzida pela lei da inércia, é tão irriisório como imaginar que de pais alfabetizados nasçam filhos alfabetizados, por simples geração biológica.
         Não precisamos cair na cafonice hitlerista que obrigava os alemães, que desejavam casar-se, a adquirir um exemplar de Mein Kampf (“Minha Luta”). Dizem os historiadores que Hitler nunca tentou apropriar-se do dinheiro público, visto que os royalties, provenientes da venda dessa sua malfadada autobiografia, lhe garantiam direitos autorais mais polpudos do que os royalties de nossos autores mais vendidos.
         Se o Governador do Estado quiser honrar a confiança que o Rio Grande lhe hipotecou, numa eleição verdadeiramente democrática, faça alguma coisa pela Cultura, não como esmola, nem como se ela fosse o sorriso da sociedade, mas sabendo que a liberdade e o bem-estar de um povo dependem de seus autores, que são os responsáveis pela memória coletiva, a qual, por sua vez, só existe quando a memória pessoal dos criadores individuais a abastece com sua produção personalizada.
         Não existe Cultura Popular, no sentido de que essa Cultura seja possível por geração espontânea. Ninguém cai na idiotice de supor que se pode encomendar um Dante, um Shakespeare, ou um Erico Veríssimo, por amostra. a um mascate que traz à nossa casa os seus têxteis e as suas quinquilharias.
         Ninguém é pai de si mesmo.A Cultura é uma transmissão de memória, recombinadas pela imaginação criativa de escritores e poetas privilegiados.
 Harold Bloom apontou apenas 100 gênios. Quantos haverá no Rio grande do Sul, além de Simões Lopes Neto, Erico Veríssimo e Mario Quintana?
Temos vários quase-gênios, até um bom número deles, como Dyonélio Machado, Augusto Meyer, Moacyr Scliar, Sérgio Faraco, e outros. Temos muitos, muitos mesmo, talentos. nas mais diversas áreas, também na medicina (o já citado José Camargo), nas ciências, nas artes (o Iberê Camargo e o Xico Stockinger), na historiografia (Carlos Teschauer), na Hist[ória Natural (Balduíno Rambo), na sociologia, na lexicografia (O Celso Luft), etc.
Gênios são erupções vulcânicas!
Tais erupções não são freqüentes, principalmente numa terra que se orgulha de não possuir vulcões!
Não se esqueça o leitor de que o próprio Dante só conseguiu escrever sua Divina Comédia, porque alguns mecenas de sua época o financiaram. E o nosso Machado de Assis s[o se tornou Machado de Assis, não com o apoio dos leitores, mas apesar deles!
 É fácil ufanar-se hoje de que possuímos uma obra-prima intitulada Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas dói saber que os 2.000 exemplares da edição original levaram dez anos para serem “consumidos” pelos leitores...Hoje, o brasileiro estufa o peito para dizer que Machado de Assis é um de seus genios! De fato, Harold Bloom diognou-se incluí-lo na sua lista e lá está ele, nas página 686-695, após José Maria Eça de Queirós, e seguido, para nossa alegria, por Jorge Luis Borges.

Pós-Escrito:

Não há dúvida de que gente como o romancista e humanista Luís Antônio Assis Brasil, na direção da SEDAC, e  o poeta Ricardo Silvestrin, à frente do Instituto Estadual do livro, estão fazendo coisas inacreduitáveis e gloriosas com as parcas verbas da SEDAC.  
É pouco.
Eles não podem fazer mais porque a verba da Cultura Estadual é meio por cento!
Aproveite, Sr. Governador, esses homens. Não são tão encontradiços como parecem!
Persuada a Assembléia Legislativa a aumentar a verba até u por cento.  
Verá que o Rio Grande pode sair do marasmo em que esteve, a partir da Ditadura: durante quarenta anos, fizemos passeios inúteis sob o escaldante sol de um Deserto que rivaliza com o que se estende aos pés do Monte Sinai...