quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Será Que Somos Ainda Animais Racionais?

É impossível tapar o sol com a peneira!
Mais razoável será deter nosso olhar sobre nós mesmos, considerados, há séculos, animais racionais, e perguntar-nos se ainda o somos, ou se deixamos de ser, até mesmo, animais!
Comecemos pela leitura de algumas páginas de um romance, não foi bem aceito pelos gaúchos, e que tem por título: O Gaúcho.
Foi a primeira obra de ficção que se escreveu sobre o tipo étnico e sociológico do habitante do pampa.
Como todas as generalizações, a de José Alencar, escrita à distância, não satisfez os críticos rio-grandenses.
O melhor analista da obra de Alencar foi, talvez, Augusto Meyer, sempre tão reflexivo, tão sagaz, tão equilibrado, tão dotado de faro literário.
Meyer chama a atenção dos leitores para o calcanhar-de-Aquiles do romancista cearense, no tocante ao seu romance regional.
Demos particular atenção ao início de seu ensaio:
- Para poder conciliar as duras contradições que há no Gaúcho de Alencar, em que o pior e o melhor andam lado a lado, em boa camaradagem, acabei por admitir que essa obra são três obras num só título: um drama hamletiano; uma admirável sucessão de quadros em que o paisagista soberbo e o afoito animalista conseguiram realizar um verdadeiro milagre de arte visionária; e finalmente – com que mágoa o reconheço! – um apressado romance regional, feito de remendos de notas, informações precárias, intuições nem sempre bem aproveitadas. (Textos Críticos de Augusto Meyer. Org. de João Alexandre Barbosa. São Paulo, Editora Perspectiva/INL Fundação Nacional Pró-Memória-MINC, 1986. p.499).
Não nos ocuparemos, aqui, do romance de Alencar, nem do ensaio crítico de Augusto Meyer, mas apenas, do aspecto animalista do autor.
Referimo-nos à descrição que Alencar faz do amor de uma égua por seu potrilho, ou – como Alencar escreve, por seu poldrinho (arrancando protestos a essa denominação, por parte do exigente erudito gaúcho).
As páginas que Alencar dedica à égua, no capítulo X, cujo título é “Mamãe”, são memoráveis.
Reproduzo o final desse capítulo:
- Abriu os olhos o poldrinho (isto é, o potrilho), inteiriçou os membros trôpegos, e erguendo o focinho, soltou um suave ornejo, que na linguagem da natureza exprime o eterno e sublime balbucio da criança, e na linguagem dos homens se traduz por esta palavra-hino:
- Mamãe.
Palavra inata que o espírito traz do céu, como traz a consciência de sua origem. Quando Deus encarna as almas, para semear a terra, imprime-lhes dois emblemas indeléveis: o verbo divino e o verbo humano.
 Quem pode afirmar que o animal seja ateu? Os mugidos merencórios do gado ao pôr do sol, os descantes das aves na alvorada, os uivos lastimosos do cão durante as noites de luar, o balido das ovelhas alta noite, sabe alguém acaso se esta é ou não a prece do filho da natureza?
-O sentimento da maternidade, esse é de uma evidência, muitas vezes humilhante para a raça humana. Em todo o corpo onde há uma réstia de vida, reside uma voz para balbuciar o verbo humano. Desde o rugido do leãozinho até o imperceptível estalido da larva, todo ente gerado diz – mãe(Obra Completa. Volume III. Edição, organização e colaboração de M. Cavalcanti Proença. Rio de Janeiro, Companhia Editora Aguilar, 1965. p.383-384).
Não pretendemos ressaltar as semelhanças existentes entre o texto de Alencar e o famoso Salmo 8 da Bíblia (bem como suas semelhanças com outros Salmos), nos quais o poeta hebreu celebra as maravilhas da Natureza em suas relações com o Criador. Tampouco nos reportaremos ao capítulo XI, “Adeus”, do mesmo romance, onde Alencar consegue acentos de ternura animal que podem ser comparados aos de Graciliano Ramos no capítulo Baleia, em Vidas Secas.
O que nos interessa é comentar a crueldade humana,  inclusive quando nasce de ideais justos ou, quando é uma tempestade, produzida por ventos previamente semeados, como o foram os de Sudam Hussein e, mais recentemente, os de Muamar Kadafi...
Quem pode visualizar, sem um estremecimento no íntimo, a explosão brutal dos rostos, tanto dos partidários do Ditador, como de seus inimigos, quando vemos os vídeos que a mídia arremessa aosnossos olhos como uma poeira de sangue e destroços?
É nesses momentos que qualquer ser humano, isto é, nós, sentimos o quanto de animal existe em nós, não o animal no que possui de mais humano, mas o animal, no que não possui ainda de humano.
Teilhard de Chardin, num de seus vislumbres, escreveu que “tudo o que existe no homem preexistiu, de alguma forma, no animal”.
A vida, no fundo, é uma só.
Procede de uma Fonte Eterna e Infinita, e jorra no Universo, ramificando-se nos mais variados organismos superiores, e terminando em filetes quase indetectáveis nos organismos ínfimos.
Por isso, quando a vida é atacada, todos os seres vivos somos atacados.
Quando alguém mata um animal (a não ser por necessidade, se é que não inventamos tal necessidade! Já que que fui educado numa sociedade ocidental, ferozmente carnívora, poucas vezes tomei consciência de que poderia haver, para a nossa alimentação, a alternativa vegetariana. É difícil para quem se acostumou a comer bifes desde menino, reflexionar sobre tais coisas! Mesmo assim, sem me culpar, dado que já sofremos excessivamente de complexos-de-culpa, disponho-me, aos 78 anos, a revisar tais conceitos).
Retomemos a frase tresmalhada:
quando alguém mata um animal, está matando – indiretamente – um homem. Não é ainda homicida, mas.pode vir a sê-lo.
Nos meus cursos sobre História das Artes Não-Ocidentais, cadeira que chegou a existir na Pós-Graduação do Instituto de Artes da URFRGS, apercebi-me de como os orientais eram muito mais sensíveis à realidade cósmica da vida. O estudo do Budismo, por exemplo, levou-me, no passado, a desconfiar de uma série de estereótipos de minha formação ocidental.
A leitura de uma autobiografia de um convertido chinês à Fé Cristã, o Dr. João Wu: Para Além do Oriente e do Ocidente (Tradução de Lúcia J. Vilela. São Paulo, Editora Flamboyant, 1960), acabou por persuadir-nos de que um intelectual ocidental tem muito a aprender com os pensadores orientais.
John Wu, primeiro tradutor do Novo Testamento para o chinês (Ib. p. 261 ss.), relata sua trajetória do Confucionismo e do Budismo ao Cristianismo.
Advirto que, para John Wu, o Confucionismo e o Taoísmo estão imbricados:
- O próprio Confúcio era taoísta, a seu modo. (Ib. p. 180).
Quase no final de sua autobiografia, John Wu anota:
- Não é justo considerar-se o Cristianismo como ocidental. O Cristianismo é universal. Na verdade, o Ocidente tem até bastante que aprender com o Oriente, pois de modo geral, os orientais adiantaram-se mais na sua contemplação natural, do que os ocidentais na sua contemplação sobrenatural. (Ib. p.291).
O autor chinês destaca um aspecto que sempre o chocou no Cristianismo Ocidental.
Confrontando o amor, demonstrado por Buda a todos os seres vivos, com certa indiferença ocidental em relação aos animais, e sobretudo, com aquilo que alguém denominou o excessivo valor conferido pelos ocidentais ao “Eu” humano, John Wu declara:
- Muitas vezes escandalizei-me, na China, ao ver missionários católicos que tomavam parte em caçadas. Verifiquei, depois, que os Santos testemunharam frequentemente grande afeição aos animais; e daí concluí que aqueles missionários não seriam por certo os melhores representantes do Catolicismo (Ib. p. 164).
Wu cita um provérbio budista:
- Assim que o açougueiro larga a faca, torna-se imediatamente um Buda. (Ib. p. 164).
Menciona, de passagem, Shakespeare:
- Quando encontro numa das peças de Shakespeare os versos comoventes (cuja exata citação não recordo), em que ele fala de uma mosquinha que é preciso poupar, pois ela pode ter pai e mãe que hão de chorar sua morte prematura, vibro de alegria e exclamo: “Meu caro Shakespeare, tens um coração de Buda! Perdôo os inúmeros veados que mataste, pois esse sentimento te resgata”. (Ibid. p. 164).
Tenho lido nos jornais que, na França e na Alemanha, as pessoas, cada vez mais, estão criando bichos de estimação, desde os tradicionais gatos e cachorros, até iguanas e serpentes.
Pergunto-me:
- Não será isso indício de que os homens estão cansados de matar-se, e estão compreendendo, como dizem alguns psiquiatras, que os animais só se agridem quando está em causa sua sobrevivência?
Não é nossa intenção justificar os tiranos do Norte da África, que estão sendo depostos um a um, como o foram os da Europa Civilizada, sendo os mais notórios Hitler e Mussolini.
É hora de indagarmos se essa exibição luxuriosa de homens com metralhadoras e lança-mísseis, exultantes com seus troféus macabros, não estão sendo as demonstrações mais odientas de nosso retorno - não à animalidade vibrante de nossos ancestrais, mas à mineralidade sem alma dos metais, de que nos servimos para liquidar-nos uns aos outros.


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