quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Que Rosto Teria Jesus?

Uma ex-aluna minha, que acaba de receber seu diploma em História da Arte pela Escola do Museu do Louvre , veio visitar sua família em Porto Alegre, e aproveitou a oportunidade para trazer-me
um exemplar do Catálogo Abreviado da exposição realizada em Paris (de 21 de abril a 18 de julho de 2011) :Rembrandt et la Figure du Christ  (em convênio com o Philadelphia Museum of Art, e o Detroit Institute of Arts).
         A leitura do catálogo incitou-me a reanalisar as imagens de Jesus. Levou-me, de modo especial, a refletir sobre a figura de Jesus, visto que esse vocábulo remete ao verbo figurar, que significa produzir uma ficção visual, tanto de um objeto, como de um ser vivo, em geral.
Qualquer figura, portanto, é uma ficção, um “fingimento” materializado no papel, no barro, ou em outro suporte.
Qualquer figura, também, é uma mímesis (uma imitação), uma produção de aparências dos objetos mediante um lápis, um buril, um pincel, um cinzel.
Sabemos que, no tempo de Jesus, existiam diversos meios de reprodução de imagens.
Os judeus, porém, tinham, como princípio religioso (cf. o Livro doÊxodo 20,24; e oDeuteronômio 27,15), não reproduzir imagens de seres humanos. Era-lhes vedado, especialmente, pelos Livros Sagrados fazer ídolos (a palavra eidolon, em grego, significa: imagem; de eidolon, aliás, derivou um vocábulo, que nos é familiar: idéia).
 Ídolo, para os judeus era principalmente uma imagem tridimensional, uma imagem capaz de “fazer sombra”.
O legislador sacro tomara a precaução de advertir o Povo de Israel sobre um perigo que o rondava permanentemente, devido à sua proximidade com os infiéis: a idolatria, culto tributado a imagens de deuses e deusas.
         Como os primeiros cristãos, em sua grande maioria, procediam do Judaísmo, dele herdaram a aversão às imagens.
É significativo que, numa determinada passagem dos Evangelhos, visitantes gregos, que estavam em Jerusalém, sentiram curiosidade em conhecer Jesus. Pediram, então, a Felipe, conhecido deles, que lhes possibilitasse ver Jesus!
Isso revela uma das características essenciais da cultura helênica: a preocupação com a visão. Ou melhor: os gregos privilegiavam tudo o que neste mundo era visível, audível, tangível, em suma, o que podia ser captado pelos sentidos.
Quando Paulo de Tarso, em plena Ágora (a praça principal de Atenas), começou a falar na Ressurreição de Jesus, seus ouvintes, que o tinham seguido até aí com certo interesse, mostraram-se indispostos, pela razão de que Paulo lhes estava falando sobre coisas invisíveis...
Ressurreição? Quem já tinha visto um homem ressuscitado?
A respeito disso, chamou-me a atenção uma cena do Evangelho de São Marcos. Quando os três discípulos de Jesus, Pedro Tiago e João, desceram do Monte da Transfiguração, Jesus ordenou-lhes “que a ninguém contassem o que tinham visto, até que o Filho do Homem ressuscitasse dentre os mortos” (Marcos 9, 9).
Para nossa surpresa, os discípulos:
- (...) retiveram o caso entre si, perguntando uns aos outros o que seria aquilo, ressuscitar entre os mortos. (Marcos, 9,10).
Portanto, também para os judeus a ressurreição era difícil de admitir, era algo não-esperado!
         À medida, porém, que o anúncio do Evangelho se propagou pelo mundo, os adeptos de Jesus aperceberam-se de que seu Salvador tinha sido verdadeiramente homem e, em conseqüência, podia ser representado.
A doutrina, segundo a qual Jesus era Deus e Homem, única Pessoa em duas naturezas, foi reafirmada solenemente no Concílio de Éfeso, em 431 d. C., quando oPatriarca de Constantinopla, Nestório, afirmou que Jesus possuía somente a natureza divina, e que portanto Maria não era sua mãe, mas mãe apenas do homem-Jesus.
Advirtamos que o Apóstolo João, autor do Quarto Evangelho, havia escrito a respeito de Jesus:
         - Deus nunca foi visto por alguém. O Filho Unigênito, que está no seio do Pai, esse o fez conhecer.
         Pouco antes declarara:
         - O Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. (Cap. 1, 14;18).
         Notemos a insistência do Apóstolo no verbo: vimos!
         O Apóstolo relata diversas aparições de Jesus após a sua Ressurreição. É o único a registrar a aparição de Jesus a Tomé, um dos Doze, que se recusara a crer na Ressurreição de Jesus, a não ser que lhe fosse possível tocar o corpo do Ressuscitado:
         -Jesus disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos. Aproxima a tua mão, e mete-a no meu lado. Não sejas incrédulo, mas crente.(Evangelho de São João, Cap. 20, 27).
         Influenciados pela Arte Helenística, espalhada por todo o Império Romano, os cristãos começaram a pensar em possíveis representações de Jesus. Alguns dos convertidos à Fé, talvez, fossem artesãos, ou mesmo artistas, na sua vida anterior à conversão.
Durante as perseguições contra os cristãos, em encontros comunitários, quando oravam pelos seus  mortos, no bojo escassamente iluminado dos cemitérios subterrâneos (nas hoje denominadas Catacumbas), os batizados passaram a sentir  saudades dos entes queridos desaparecidos, e também a sentir a necessidade de confessar sua fé na ressurreição das pessoas amadas.
Foi assim que alguns símbolos da Mitologia Pagã acabaram migrando para os símbolos do culto cristão, utilizados para expressar a Esperança Cristã na vida futura, como os símbolos do Bom Pastor, da Orante, do Peixe, da Pomba, e outros.
A saudade, contudo, dos cristãos não se esgotou nessas primeiras imagens
Os cristãos, com o tempo, conscientizaram-se de que o Salvador tinha nascido de uma Mulher, de umaVirgem, e que tivera um rosto judeu, parecido com o de sua Mãe,  uma vez que Jesus não tinha pai humano. A Virgem Maria era uma judia despretensiosa, porém de nobre linhagem, visto ser descendente do Rei David.
Mas que rosto, então, tinha Jesus?
         Não é aqui o lugar de apresentarmos uma síntese do livro: O Rosto de Cristo. A Formação do Imaginário e da Arte Cristã.( 2 ed. Porto Alegre, Editora AGE, 2003). Nas suas páginas, o leitor poderá obter outras informações sobre a evolução da iconografia cristã.
         Retomo, pois, o curso de minhas reflexões sobre Rembrandt, e a exposição realizada, recentemente, em Paris.
         Discorro aqui, não tanto como estudioso de arte, mas como um cristão comum, desejoso de reflexionar sobre sua fé.
Antes de tudo: Será possível figurar Jesus?
         A questão é formulada de um ponto de vista teórico.
Historicamente – já o sabemos - Jesus foi representado em variadíssimos estilos, sob variadíssimas formas! Foi figurado, às vezes, como recém-nascido, outras vezes como menino no Templo de Jerusalém, outras, como adulto, sobre as águas do Lago de Tiberíades, na casa de Simão, ao pé do túmulo de Lázaro, no Monte Tabor, suspenso na Cruz, e enfim como Ressuscitado, junto ao sepulcro.
Numa palavra, os artistas esforçaram-se por atribuir a Jesus uma fisionomia. Às vezes, deram-lhe rostos desmaterializados, outras vezes, rostos com acentos étnicos. Em determinados períodos históricos,  aproximarem-lhe o rosto do de seus contemporâneos.
Se folhearmos uma História da Arte, verificaremos o quanto o rosto de Jesus variou, de acordo com cada período histórico.
Tais imagens estão, hoje, em toda a parte: nas basílicas bizantinas, nas basílicas românicas, nas catedrais góticas, em igrejas de aldeias nos Pirineus, em cidadezinhas do norte da Itália, em cidades francesas e alemãs, nas igrejas do Renascimento e do Barroco (sobretudo na Itália), e em múltiplos museus e coleções particulares.
Já vimos centenas de imagens artísticas (e não artísticas) de Jesus!
Manifestei-me, em escritos diversos, inclusive neste blog, sobre algumas de minhas preferências em relação a esta ou àquela imagem de Jesus.
A questão, porém, que continua a interessar-me, é a seguinte: qual foi a imagem verdadeira, digamos, o retrato físico de Jesus.
Santo Agostinho de Hipona observou que Jesus não permitira que seu rosto fosse revelado, para que cada cristão o pudesse encontrá-lo (e venerá-lo) no rosto de cada ser humano.
Profundíssima observação!
Quando me ponho a contemplar as imagens de Cristo na Arte, verifico, com pasmo, que a imagem que mais me impressiona não é uma imagem de artista, datada e assinada, mas uma imagem, que ninguém sabe quem a fez, nem onde foi feita, embora tal imagem seja considerada sagrada: a do Sudário de Turim.
Minha persuasão é que essa imagem não foi produzida por nenhum falsário ou impostor. Creio que ela foi feita por um cristão devoto, possivelmente por um monge de um Mosteiro de Constantinopla,  ligado ao estilo artístico que nela predominava, com o objetivo de apresentar aos fiéis uma imagem, o mais próxima possível, da realidade histórica de Jesus. Tenho a convicção de que o monge foi, eventualmente, um Santo, que desejava chegar o mais perto possível da efígie real de Cristo neste mundo, à imagem de sua morte.
Se observamos o Sudário de Turim, vemos que nele Jesus aparece morto, na sua condição de aniquilamento ( kénosis, como a qualificou São Paulo). O monge piedoso, que concebeu tal ícone, quis identificar-se com seu Salvador, e por isso o figurou na sua condição de Homem Mortal.
Sob o ponto de vista teológico, tal monge devia ter uma atitude, a de uma corrente anterior à dos grandes Teólogos Bizantinos, que sublinharam a dimensão pós-mortal de Jesus, ou seja, preferiram destacar a sua Ressurreição, que é o que mais importa, a quem acredita Nele.
São Paulo disse: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé!” (Primeira Carta aos Coríntios, Cap. 15, 14).
É conveniente, pois, chamar a atenção para um detalhe: para a devoção a Cristo Crucificado, a devoção do coração.Essa devoção apareceu relativamente tarde no Cristianismo.
A primeira imagem da Crucifixão de Cristo surgiu, isolada, no século III d.C. Mais tarde, por volta do século IX, apareceu a primeira imagem realista da Crucifixão: o Crucifixo de Gereão (em madeira, 1,88m), cuja invulgar intumescência do corpo sempre impressionou os que a contemplam no interior da Catedral de Colônia, na Alemanha, onde ainda continua exposto. Nele se vê  já um esboço de anatomia realista.
Posteriormente, um dos maiores promotores dessa devoção do coração foi o grande místico – o mais querido da Cristandade - Francisco de Assis. A devoção difundiu-se na Idade Média, no tempo em que os Doutores da Igreja do Ocidente desenvolveram a Teologia da Humanidade de Jesus, e de sua Paixão e Morte.
Antes disso, a Cristandade não havia aprimorado suficientemente sua sensibilidade para aceitá-la, e sobretudo para amá-la.
A Crucifixão, durante séculos, foi deixada de lado, para não chocar os pagãos.
Com efeito, para que insistir nela, uma vez que Cristo estava Vivo? Além disso, a morte pelo suplício da Cruz era a mais infamante das mortes: era o suplício dos criminosos públicos.
Eis por que se pode sugerir que o Sudário de Turim deve ter aparecido numa data mais antiga do que aquela que seus defensores  lhe atribuem. O Sudário deve ter sido feito antes que a Teologia da Ressurreição se tivesse imposto aos cristãos.
Os gregos e romanos das primeiras épocas não esperavam nada após a morte. O fato de Jesus ter ressuscitado, ou não, pouco lhes importava.
Ora, para um cristão, a verdadeira mensagem de Jesus centraliza-se na sua Ressurreição.
Apesar disso,a Paixão e Morte de Jesus é o dogma do coração, o dogma que nos revela a solidariedade de Jesus para com o sofrimento humano. É o dogma da misericórdia de Jesus que tem pena de nós, que assume nossa angústia e nossa morte, obediente aos desígnios do Pai, entregando-se à morte voluntariamente, e dela emergindo com inteira liberdade:
- (...) o Pai me ama porque dou a minha vida para retomá-la. Ninguém a tira de mim, mas eu a dou livremente. (João 10, 17-18).
Eis por que tenho grande amor ao Sudário de Turim, que considero a imagem mais humana já feita de Jesus!
Rembrandt, em 1648, em Os Discípulos de Emaús, refez, de certo modo, o que o monge bizantino fez no seu tempo. Só que Rembrandt não pintou o rosto de Jesus como ele aparecia na sua Paixão e Morte.
Rembrandt, que era um homem “moderno” apresenta, na sua pintura Os Discípulos de Emaús” (atualmente no Museu do Louvre) o segundo Rosto mais Humano de Jesus.
Por uma razão: Rembrandt pinta o rosto de Jesus após a sua Ressurreição, ou seja, pinta um rosto terrestre  para Jesus Ressuscitado. Sua originalidade consiste em mostrá-lo- antes de Jesus desaparecer da presença dos dois discípulos, de modo que estes não o viram com seu rosto de Ressuscitado, mas com um rosto anônimo de homem. Eles não o tinham reconhecido quando viajavam na sua companhia, a caminho de Emaús. (Ler: Evangelho de Lucas, Cap. 24, 13-35).
Ninguém sabe, ao certo, como seria o rosto humano de um Ressuscitado!
Quando Jesus apareceu a Maria Madalena, após sua Ressurreição, Madalena o confundiu Jesus com um jardineiro (Rembrandt também figurou essa cena, para nossa surpresa!).
         No fundo, Rembrandt imitou o monge de Bizâncio, o monge que tentou apresentar um Jesus étnico, próximo à sua morte.
Rembrandt foi à procura de judeus na comunidade de Amsterdam, e os tomou como modelos para suas pinturas. Só que esses judeus, mais que modelos da morte de Jesus, serviram para Rembrandt de modelos para o seu disfarce na aparição em Emaús.
A partir deles, Rembrandt realizou outras representações de cenas evangélicas. Mas a principal foi a pintura de Os Discípulos de Emaús.
         O catálogo da exposição do Museu do Louvre informa que, numa das figurações de Rembrandt, alguém anotou: “Retrato (de Jesus) ao vivo”, ou seja, ao natural (d’après nature).
Blaise Ducos, Conservador das Pinturas Flamengas dos Séculos XVII-XVIII no Museu do Louvre, traduziu a expressão “d’après nature” por: sur le vif , deixando claro que Rembrandt reproduziu o rosto de um judeu da sua época.
         Que nos importa isso?
Milhares de judeus, e não judeus, no tempo de Jesus, viram o Mestre fisicamente.
Quantos, porém, creram Nele?
Pelo fato de terem convivido com Jesus, alguns até o desconsideraram.
Diziam:
- Donde Lhe vem tal sabedoria? Não é este Jesus ,o Rabi, o filho de um carpinteiro que conhecemos.
Toda imagem de Jesus neste mundo, mesmo as imagens das aparições de Jesus aos Místicos, como o das aparições à Santa Teresa de Ávila, me parecem imagens prêt-à-porter , imagens devocionais, que têm valor para determinadas pessoas, para determinadas épocas, para determinadas correntes espirituais, e até para determinados temperamentos.
Não negamos crédito, evidentemente, aos que nos dizem que São Pio de Pietralcina viu Jesus;  ou que o Padre Réus, de São Leopoldo, o viu.  
         Não nos cabe a arrogância de dizer a Jesus como deve revelar-se a alguém!
         A Igreja ensina que tais aparições são particulares, válidas para indivíduos, não para toda a comunidade cristã. A comunidade cristã tem o dever de respeitar tais aparições. Se alguém não quer acreditar nelas, fique tranqüilo na sua consciência, e não importune a consciência dos outros.
         No que me diz respeito, sugiro aos leitores que não se entusiasmem excessivamente com as imagens de Jesus.
Já encontrei indivíduos  entusiasmados com o Cristo de Salvador Dali, do Museu de Glasgow. A mim, tal imagem, que foi inspirada a Dali por uma visão de São Juan de la Cruz,  esboçada pelo Santo numa folha de papel (que se encontra no Convento de la Encarnación, em Ávila.Cf. a reprodução desse desenho no livro de Heinrich Pfeiffer: Le Christ aux Mille Visages – Paris, Nouvelle Cité, 1986. p.64, ilustração n. 57) é, sob certo ponto de vista, uma visão impressionante. Diria que possui a beleza do exótico (ex-óptico, isto é, do que não costuma estar em nossos olhos).
Outros enaltecem outras imagens de Cristo, o Cristo Crucificado de Velázquez, o Cristo Ressuscitado de Piero della Francesca, os Cristos de Giotto.
         De Giotto?
Sim, para mim os rostos dos Cristos de Giotto são os que dão a  impressão mais inesquecível. O pintor representa Jesus com uma fé singela, uma fé semelhante à de Francisco de Assis.
Essas imagens de Giotto não só me comovem, como ainda me enternecem!
A imagem de Giotto, que talvez mais me impressiona, é a que aparece no Beijo de Judas (1304-1306; um afresco (pintura mural sobre argamassa) da Capela Arena, ou Capella degli Scrovegni, em Pádua).
Tenho outras preferências: por determinados Cristos Românicos, o Belo Cristo de Chartres, a Crucifixão de Grünewald (no Museu Interlinden, em Colmar, na Alsácia), a já citada Ressurreição de Piero della Francesca, na Pinacoteca de Borgo San Sepolcro, perto de Arezzo,  por determinados Cristos de  Georges Rouault (1871-1958), em diversos museus  europeus.
A verdade é que, até ao fim de nossa vida, buscaremos nossa imagem pessoal de Jesus. Buscaremos  o rosto com o qual Ele se apresentará a cada um de nós, na hora de nossa morte.
Ou antes: na hora de nossa ressurreição.

(NB. Agradeço à minha ex-aluna, Themis Vieira da Silva Cheinquer, o mimo do Catálogo da Exposição de Rembrandt).

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