quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Petrarca e Berlusconi: l’Antiquo valore/ Ne l’Italici cor non è ancor morto?
       
Recomendo aos leitores não ler os grandes jornais italianos, Il Corriere della Sera, La Stampa, La Reppublica, Il Sole 24 Ore ou outros jornais europeus de grandes tiragens, enquanto o Premier Berlusconi estiver à frente do governo.
        Acompanhar tais notícias, é quase um desprestígio para a Itália, e constitui um convite a menosprezá-la, a pensar que seu povo não é capaz de escolher um governo digno de suas altas tradições.
        Se os leitores lerem um livro, documentado e ponderado, como o de Denis Maks Smith: Storia d’Italia. Dal 1861 al 1997. (Roma, Laterza, 2000, principalmente as páginas dedicadas ao Vecchio Regime che Comincia a Crollare: p. 625-666) 1981-1991), terão uma idéias de como a subida ao poder de um homem, como Berlusconi, foi precedida por um período de vacilações, erros, corrupção, e baixezas.
Mas, a estas alturas, quem se lembra de  Bettino Craxi, l’arci-corruttore esiliatosi in Tunisia, (Ibid. p. 656), e de Giulio Andreotti, uomo profondamente religioso e insieme habilíssimo político, con un ateggiamento verso la politica estraordinariamente cínico? (Ibid. p. 634).
Denis Mack Smith “è lo storico inglese più noto in Itália”.   
Se algum cidadão brasileiro se indigna com o que está acontecendo a tão extraordinária nação, é porque deve ser ítalo-brasileiro, e a ama, de sangue e coração!
Não me vexo de confessar que tenho devoção à Itália, não só por sua língua, por seus monumentos históricos e artísticos, por suas eminentes figuras na religião e nas artes, como Francisco de Assis, Dante, Giotto, Caravaggio, Miguel Ângelo, Tiziano, Monteverdi, Rossini e Verdi, e centenas de outros, entre os quais Manzoni e Leopardi, Ungaretti e Montale, Ítalo Calvino, e alguns ainda vivos, mas também porque o Brasil deve à imigração italiana valiosa porção de seu patrimônio religioso, social, cultural, industrial, e artístico.
Lembro-me de uma conversa muito fraterna que tive com o Prof. Pietro Maria Bardi - sem cujo visionarismo não teríamos o Museu de Arte de São Paulo. Falávamos, na ocasião, sobre a cultura italiana, comentando algumas realizações de seus gênios, em especial do autor do Palazzeto dello Sport, “o mais brilhante projetista de concreto de sua época”, Pier Luigi Nervi, autor do Palazzetto dello Sport, em Roma (1960).
A leitura dos jornais italianos da atualidade, e a visão de seus vídeos jornalísticos, desnudam um fenômeno: a macrocafonice em que mergulhou a política oficial italiana nas últimas décadas.
É lógico que o povo italiano, em si, nada tem a ver com semelhante descalabro.
É aqui que o problema se complica.
Num país onde as eleições são livres, como sustentar tal afirmação?
Em outras palavras: como foi possível a “consagração” de um homem despreparado e trapalhão, como o atual Primeiro Ministro, e de sua equipe?
A leitura das conversas gravadas do Premier e de Gianpaolo Tarantini, o empresário de Bari, não pode ser mais desqualificada. Parece conversa de boteco da periferia de uma grande cidade. Em especial: por seus comentários obscenos, e expressões abaixo de qualquer decoro.
 Provoca vômitos.
Ressurge a questão: como foi possível chegar a tanta baixeza?
A mídia internacional parece estar convidando os latino-americanos, a tomar conhecimento de tais torpezas, como se fôssemos mendigos recolhidos ao acaso, para aproveitar as sobras de uma ceia de... César Bórgia!
No fundo, a causa essencial de tudo isso reduz-se a pouco mais do que o seguinte: o respeito, a vergonha, deixaram de existir, não apenas nas ruas, mas a nível planetário, até mesmo nos espaços públicos destinados aos governantes, eleitos democraticamente pela sociedade.
Alguns leitores, que se sentem agredidos com tais desmandos, já começam a dar um atestado de óbito ao processo democrático!
Não, meus amigos!
Um medicamento bom não deixa de ser bom por ser mal utilizado.
Melhor é colhermos o instante para repensarmos nosso conceito de Democracia.
Talvez nos sirva para reflexão o que nos dizia, em 1962, numa aula na Universidade de Fribourg, na Suíça, um professor flamengo, quando dissertava sobre a concepção filosófica grega de democracia.
Vincent Kuiper chamava-nos a atenção para o que Sócrates e seus discípulos compreendiam por essa palavra:
- Não se deixem enganar! O conceito de Democracia dos gregos implicava uma eleição pelo critério da competência. Sócrates dava o seguinte exemplo: quando se quer fazer uma viagem de navio, e se tem, fatalmente, de afrontar mares encapelados e repentinas tempestades, não se realiza uma prévia eleição, soi-disant democrática, para escolher um dos passageiros como piloto. Informamo-nos, cuidadosamente, sobre os pilotos disponíveis, quais os mais experimentados e prudentes, que possam ser contratados, a fim de que a viagem decorra sem perigos, e a embarcação atinja o porto. Democracia é isso. Uma escolha lúcida, extremamente responsável.
Se assistimos, atualmente, ao espetáculo, não só de uma Itália, mas até de uma Europa abalada sócio-economicamente, e até do ponto de vista cultural, uma Europa aparentemente à deriva, é porque algo de muito podre se instalou, não na Dinamarca ficcional de  Shakespeare, mas em nações de passado glorioso, como a própria Itália, um dos berços da civilização ocidental.
Será preciso, pois, que os italianos virem a página da situação política presente, rejeitando, de uma vez, o modelo pseudo-democrático que lhe dá sustentação.
Poderá ocorrer tal revolução branca, mediante o voto?
Ou a sombra de Mussolini ainda servirá de consolo à maioria dos italianos?
Talvez os italianos necessitem de alguma ajuda do céu para saírem de tal caos!
Os italianos, aliás, têm a quem apelar. Por exemplo, a São Pio de Pietralcina, que viu prenúncios dessa decadência... Se o Padre Pio não bastar para os primeiros socorros, recorra-se, também, a Tomás de Aquino, e quem sabe? - à fogosa Catarina de Siena. 
   

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