domingo, 25 de setembro de 2011

Os Católicos e Bento XVI

I.
        Não sabemos exatamente quando virou moda entre os católicos - apelidados pela mídia de progressistas -  o hábito de criticar o Papa.  
Constatamos, apenas, que, da conclusão do Concílio Vaticano II aos nossos dias, tornou-se comum fazer criticas à Santa Sé e, em medida menor, à pessoa do Papa.
        Tentemos compreender esse fenômeno.
        Durante o Papado imperial de Pio XII (1939-1958), a figura do Sumo Pontífice, com sua tiara, ou coroa de três círculos (abolida por Paulo VI em 1964), foi por vezes mitificada.
Como conseqüência disso, após a morte de Pio XII, principalmente após a estréia da peça teatral de Rolf Hochhut , O Vigário (1965), que  questionou a atitude em relação à Questão Judaica e à Campanha Nazista e Fascista Antisemita, a personalidade do Papa Pacelli, que sempre  aparecia em público  na “Sédia Gestatória”, isto é, sobre uma cadeira sustentada aos ombros por funcionários  (como se o Papa ocupasse um andor de Santo em procissões) ,não só foi desvalorizada, como aviltada.
Confesso que li algumas biografias de Pio XII. Poucas mereceriam comentários. Numa delas, descrevem-se detalhes sobre o seu sepultamento, que me chocaram por sua vulgaridade, ou melhor, por sua obscenidade.
É evidente que a desvalorização de Pio XII pode ser explicada, em parte, pela nova mentalidade que dominou os católicos após o Concílio Vaticano II.
Principiou-se por impugnar sua piedade pessoal, que, na minha opinião, não pode ser contestada. A seguir,  implicou-se com o lado humano, demasiadamente humano, tanto de Pio XII, como também de seus sucessores.
A Pio XII sucederam alguns Papas simpáticos, de aura popular, como João XXIII – talvez o Papa moderno mais evangélico – em todo o caso, menos formal e mais contemporâneo. Foi seu sucessor outro Papa cognominado Papa-Sorriso, o Papa Luciani, que faleceu misteriosamente após um mês de Pontificado. Teve como sucessor um Papa-Tsunami, o Papa Woytila. Esteapelou para todos os meios de comunicação possíveis. Com ele as vozes hostis baixaram o tom, porém sem nunca deixar de destilarem veneno nas veias abertas do Catolicismo. n
Não há dúvida que também João Paulo II foi mitificado.
Queremos dizer com essa expressão, um tanto dúbia, afirmar que se criou um imaginário dele, que nem sempre corresponde às imagens discretas, e mais densas de interesse, que as suas biografias nos oferecem.
João Paulo, pelo que pude depreender de vários relatos biográficos, foi um homem de profunda vida interior, um intelectual de altíssimo gabarito, um sólido teólogo,por vezes original, e por vezes de um tradicionalismo inexplicável. Mas também, - sejamos honestos – deixou-se, não raro, impulsionar pelos ventos midiáticos, e não raro por seu temperamento dinâmico,  impulsivo, e até explosivo.
Nunca pude entender sua atitude em relação a um sacerdote de tão elevado espírito evangélico como Ernesto Cardenal, da Nicarágua. Compreendi, menos ainda, sua aversão quase rancorosa à Teologia da Libertação.
É verdade que, também nunca entendi como um discípulo de Francisco de Assis do Brasil podia chegar aos excessos acintosos de um livro como Carisma e Poder, publicado pela Editora Vozes. O livro, em si, tem páginas substanciosas, e criticamente aceitáveis. Mas, umas 10 ou 15 páginas de seu texto não honram seu autor.
O representante mais categorizado da Teologia, que não está morta (talvez esteja anestesiada, restabelecendo-se numa UTI Teológica...) é o grande, o luminoso, e sóbrio fundador dela, Padre Gustavo Gutiérrez, um peruano cujas obras merecem ser melhor apreciadas. Há outros vultos dessa mesma corrente, que precisam ser redescobertos.
Que diremos, en plus, sobre João Paulo II ?
Teria sido um “Santo”?
 Na minha opinião, ele o foi.
Mas um Santo que cometeu erros pastorais, que prolongou um modelo de pontificado, cujas origens remontam ao famoso Dictatus Papae, de Gregório VII (1073-1085), para quem – diz o respeitável historiador da Igreja, P. Joseph Lortz – o mundo inteiro, incluindo as potências políticas e seus representantes, constituía patrimônio de Cristo e de São Pedro. (Histoire de l’Église.Trad. français. Paris, Payot, 1962. p.131).Notemos que Lortz reconhece-lhe outros méritos, e que o apresenta como o inspirador longínquo das Cruzadas, que ele parece considerar positivas, e nós, não.
João Paulo II sempre nos deu a impressão de um Pontífice ansioso - e até nervoso – perante os possíveis danos na imagem da Igreja de Cristo. Por essa razão, procurou diligentemente ocultar os escândalos do clero, e de outras organizações católicas.
Por isso, se existiu uma dimensão de João Paulo II, que nunca admiramos, foi sua pressa em encobrir toda forma de escândalo na Igreja. Para obter esse objetivo, que ele considerava uma de suas obrigações principais, como Pastor Supremo, o Papa João Paulo II não receou recorrer ao freio-de-mão de seu voluntarismo pessoal, não propriamente pontifical, e de sua experiência traumática da repressão de detrás da Cortina de Ferro. Até certo ponto, podemos dar-lhe razão. Mas o que nos parece ter-lhe faltado foi mais atenção aos conselhos que lhe eram dados no sentido de desconfiar de determinadas personalidades da época, como o mexicano, Fundador da Legião de Maria.
Às vezes - desculpem-nos os leitores nossa aparente insolência - tínhamos a impressão de que João Paulo II estava fascinado com a repercussão de suas megavisitas , e de sua participação em megashows religiosos,  os quais, ao menos parcialmente, parecem contradizer duas passagens dos Evangelhos: a primeira referente às palavras “O Reino de Deus acontece sem aparato...”; e a segunda, ligada à parábola do grão, que é posto debaixo da terra, e que ninguém vê chegar à superfície, a não ser após longo tempo.
Admitimos, até, estar equivocados nessa avaliação do eros publicitário de João Paulo II. Mas é bom não levar muito ao pé da letra a metáfora do anúncio da Boa Nova sobre os telhados das casas! A mídia é boa, mas como tudo, neste planeta, não nasceu necessariamente cristã.  
Acontece que Papa algum pode ser clonado!
Daí a diversidade de temperamentos, de opções teológicas, pastorais, e até de atitudes intelectualis, de cada Papa em particular.

II.
Supomos ter chegado a hora de  se criticar menos o Papa e a Hierarquia Eclesiástica, e de se compreender mais, e dialogar mais com ela.
 O Catolicismo, como todo crente sabe, não é “propriedade privada” do Sumo Pontífice, nem do Vaticano. Muito menos do Vaticano.
O Estado do Vaticano, começou como uma vantagem para o Catolicismo, e acabou tornando-se um problema logístico. Afinal, ele é um Estado, não um estado religioso, mas um Estado Civil. Possui estruturas executivas e empresariais. Por isso, o Vaticano dá margem a certos riscos. Os riscos que toda sociedade política, por menor e mais católica que seja, comporta.
Se é verdade que o Dogma da Infalibilidade Papal contribuiu para assegurar a unidade da Igreja, por outro lado enfraqueceu a Colegialidade Episcopal, tendendo a dificultar aos Papas a compreensão do que, efetivamente, pensam as ovelhas do Rebanho de Cristo, e principalmente, a não permitir-lhes tatear a sensibilidade humana e religiosa de suas ovelhas.
Dom Fulton Sheen, quando foi eleito Bispo auxiliar de New York, contou que alguém lhe disse, precisamente no dia de sua sagração:
- Excelência, daqui por diante, o Sr. nunca saberá a verdade... 
Nós admiramos, sem dúvida, os gestos simbólicos de João Paulo II , e também os do Papa Ratzinger, por exemplo, o de ambos entrarem dentro de um confessionário, e ouvirem “confisões” de penitentes anônimos.
Admiraríamos, muito mais, tais gestos se se tornassem cotidianos, e fora de qualquer publicidade. habituais.
Ficaríamos comovidos, se víssemos um Papa ajoelhar-se num confessionário, do lado de fora, para confessar seus pecados (caso os tiver), como qualquer fiel, a um sacerdote anônimo...
Numa biografia de João Paulo II li o seguinte episódio: quando ele era Arcebispo de Cracóvia, teve de repreender a conduta de um sacerdote de sua diocese. O sacerdote faltoso, após a repreensão do Arcebispo, pediu-lhe  que o ouvisse em confissão. Qual não foi a surpresa do faltoso quando, ao fim de sua confissão, o Arcebispo, por sua vez, pediu-lhe, humildemente, que o confessasse.
Voltamos ao tema básico deste texto: é preciso que os católicos se persuadam de que Um só é Nosso Mestre, e um só é Nosso Salvador, e que por isso o Papa necessita contar com nosso apoio - não servil - mas caloroso e fraterno.
É claro que o Papa, que sechama por vezes, “o servo dos servos do Senhor”, necessita renunciar a tanta pompa exterior, a tanto ritualismo, a tanta fausto oficial.
Ao menos exteriormente, Bento XVI dá demonstrações de discrição e humildade. A sua “corte” é que se mantém ainda obsequiosa e curial.
Unamo-nos a Bento XVI.
Demos-lhe nosso apoio – mais do que nosso aplauso. Falemos -lhe em voz baixa, oremos por ele, não em público, não em  aglomerações ruidosas e exibicionistas,  mas no silêncio de nossos oratórios domésticos, de preferência nas horas caladas da noite, quando as cidades, como as aves, enfiam o bico debaixo de suas asas, isto é, de seus arranhacéus e nuvens de poluição e decibéis enlouquecidos.
Sejamos solidários com Bento XVI.
Sejamos afetuosos com ele.
Não nos rebaixemos diante dele. Sejamos-lhe respeitosos e afetuosos! Beijar suas mãos pode ser uma lembrança feudal. Existem ritos sociais modernos mais consentâneos com nossa mentalidade.
Deixemos, sobretudo, de medi-lo com nossas fitas métricas. Sempre que discordarmos dele, tenhamos a coragem de o dizer, com educação, e sempre com a máxima polidez, como quando falamos com nossos pais.
Será possível tal coisa dentro da práxis vaticanista?
Acho que não!
Mas insistimos: Bento XVI, talvez ainda mais do que João Paulo II, é um homem lúcido, culto, de hábitos simples e marcados pela piedade e pela adesão sincera à Pessoa de Cristo. Se é verdade que João Paulo II acabou sofrendo o martírio de um atentado contra a sua vida, é verdade também que a Bento XVI está sendo impostou outro martírio: o de carregar a cruz pesadíssima dos escândalos de pedofilia do clero, de desvios globalizados, de transações milionárias incompatíveis com o Evangelho, e de “mil e uma anomalias” anti-cristãs, que, a rigor, não atingem o Cristianismo, mas que atingem nós, os católicos.
Ofereçamos-lhe apoio, solidariedade, carinho.
Ajudemos Bento XVI a frear os capitais voláteis, a tornar a economia de mercado uma economia solid´[ária, e principalmente, a influir mais na eliminação dos conflitos armados, que são uma vergonha para todos nós.
Por fim, aumentemos com ele nossa fé, e também nossa esperança. Nietzsche tinha razão: se os cristãos não puderem mostrar um rosto mais alegre, ninguém crerá na Ressurreição de Jesus.
O que o mundo Nietzsche não sabia, nem o mundo de hoje sabe, é que nenhum túmulo pode reter o corpo de Cristo, mesmo o de Corpo Místico de Cristo, por mais de três dias.
 Não há modo de neutralizar uma Ressurreição, nem técnologia capaz de deasativá-la nos corações dos seguidores do Evangelho, dos que aderem intimamente, e comunitariamente, à Pessoa de Cristo.
Talvez me seja permitido concluir este texto com as palavras de Blaise Pascal (1623-1662), o intelectual cristão de quem mais me sinto próximo, além , evidentemente, dos autores apostólicos, e dos grandes Doutores da Igreja como Agostinho e Tomás de Aquino:
- Não sou digno de defender a religião, mas vós não mereceis defender o erro e a injustiça. Que Deus, em sua misericórdia, não atentando para o mal que está em vós, e sim para o bem, nos conceda a todos a graça de a verdade não sucumbir em minhas mãos, e a mentira...   
(Pensamentos. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo, Difusão Européia do livro, 1957. p.292).  
        

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