quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O Mexicano e o Sexo.


(Reflexões Sobre a Permissividade Sexual na Sociedade Contemporânea).

Às vezes, um acaso arremessa-nos às profundidades do  real. Essa frase, caros leitores, poderá estar borrifada de uma retórica desprezível. Não seria, com efeito, mais sensato dizer, como todo o mundo diz:

- Devido a um acaso, ou a um incidente sem maior importância, podemos chegar a descobrir aspectos da realidade que nos conduzem a reflexões inesperadas, ainda quando tal revelação ocorra dentro de um contexto de vulgaridade?
       
Foi o que aconteceu comigo, anos atrás, quando por razões profissionais tive de ir à Ciudad de México.
        Um mexicano, isto é, o editor de meu livro Reflexiones sobre la Poesia, descendente autêntico de índios zapotecas, quis ser gentil comigo, e ofereceu-se para me mostrar alguns aspectos da megalópole de seu país.
No passeio, disse-me algo - a propósito de uma manchete que ocupava generoso espaço nos jornais daquela manhã – que jamais esqueci.
Esclareço, primeiramente, a manchete dos jornais: os mexicanos estavam sobreexcitados com a exumação dos restos mortais de Maria Félix, estrela-mor da história do cinema latino-americano. Sua herança estava sendo disputada pelos irmãos da artista, visto que a diva, nos últimos anos de existência, resolvera tomar por companheiro seu motorista particular. A exumação destinava-se a esclarecer a acusação dos irmãos de Maria Félix, de que a irmã fora envenenada pelo seu companheiro, supostamente ávido da herança da artista. A exumação provou que o motorista, que acompanhara a artista (e que fora para com ela de uma solicitude ímpar, elogiada até por seus amigos) não cometera tal crime.
        Do clamoroso escândalo ficou-me o comentário do mexicano:
        - No que diz respeito ao sexo, as mulheres se equivalem! Todas - e cada uma por si,  são atraentes! Todas são irresistíveis! Não há mulheres feias ou bonitas, quando se trata de sexo!
        Na hora fiquei perplexo!
Aquela afirmação parecia-me irrealista, ou no mínimo contestável.
        O curioso é, com o transcurso dos anos, minha experiência de vida parece confirmar o mexicano.
        Fixemo-nos, por exemplo, no livro Confissões de Darcy Ribeiro (São Paulo, Companhia das Letras, 1997).
Esse livro não é só uma autobiografia fascinante de Darcy Ribeiro, mas também uma verdadeira epopéia sexual, cujo herói é, naturalmente, o antropólogo. É uma apologia do amor livre, não menos surpreendente que a de Vinícius de Moraes, e suas nove esposas de papel passado, tal qual a descreveu José Castelo, em sua obra sobre o Poeta: Vinícius de Morais, Poeta da Paixão.
        Darcy Ribeiro foi um homem notabilíssimo, uma sorte de  Mix: um mix de gênio, de antropólogo, de ficcionista, de promotor do indigenismo, de fundador da Universidade de Brasília, de político, de pensador. Além disso, foi também um dos mais bem sucedidos sedutores de mulheres do Brasil. Ao menos, se nos dispomos a dar crédito às suas auto-revelações sobre sua “Arte Amatória”.
Creio que podemos admitir tal epopéia, visto que ainda existem amantes de Darcy, em todas as nações da América Latina, e do mundo, do Uruguai ao Chile, do Peru à Venezuela, do México à França. Como os leitores vêem, a epopéia do grande antropólogo foi uma epopéia planetária.
Sim...
Mas que têm a ver as palavras do mexicano com as do autor de O Povo Brasileiro?
 Quero dizer o seguinte: na autobiografia de Darcy não se cita nenhuma opinião das mulheres com as quais ele teve aquilo que os jornalistas da moda adjetivam como tórridas aventuras, ou seus badaladíssimos idílios.
Prossigamos: também tenho, hoje, a persuasão, como meu editor mexicano, de que o sexo, salvo raríssimas exceções, não é uma conquista – como direi? – consciente e pessoal.
O sexo é um instinto da natureza, dirigido, em primeiro lugar, a um objetivo super-individual: à multiplicação do gênero humano, como se lê num dos capítulos iniciais da Bíblia.
O sexo existe no homem como uma força que obriga as pessoas, a não deixarem este mundo, antes de nele semearem, ao menos uma, semente-de-corporeidade.
Por isso, antes de se tachar a Igreja Católica de obscurantismo, por causa de sua insistência sobre a finalidade primária do sexo, seria de bom alvitre consultar os biologistas, os entendidos em sexualidade biológica. Eles nos garantem que a Natureza quer, em primeiro lugar, sua sobrevivência.
Como o ser humano, todavia, é também uma auto-consciência, e por isso, também uma alma (isto é, um espírito, criado por Deus, sem interferência dos pais: esta é a doutrina cristã), o sexo foi assumido por Cristo e, de certo modo, energizado, ou sobrenaturalizado através de um Sacramento, o Matrimônio.
 Mediante tal “graça”, o sexo, naturalmente egoísta e unidimensional, voraz em seus objetivos, é constrangido a tornar-se altruísta, ou – como dizem os sexólogos, entre os quais o grande psiquiatra francês, A. Hesnard – é obrigado a tornar-se oblativo.
À luz do Evangelho de Cristo, o narcisismo sexual é condenado. As palavras de Jesus sobre a fornicação e sobre o adultério não podem ser contestadas. É abrir os Evangelhos e ler.
Sem dúvida, a afirmação unilateral do sexo constitui um problema angustiante, e permanente, para qualquer discípulo de Cristo. Constitui o espinho na carne - a que se refere o Apóstolo Paulo.
O fato incontornável é que o sexo é um rebelde nato. Ele quer sempre, e só, o que é seu.
Daí a afirmação do mexicano: todas as mulheres do mundo são igualmente atraentes! Dito de outro modo: todas são tentadoras, e eventualmente um risco ético para um indivíduo cristão, não diria dotado de especial sex-appeal, mas simplesmente dotado de sex-appeal.
Por que?
Porque – como diziam os anacoretas do Deserto da Tebaida , no Egito, o sexo é como a água: quando se tem sede, bebe-se de qualquer água, mesmo a de um pântano.
É claro que mulher alguma é pantanosa, como nenhum homem o é!
O problema é outro: o instinto – desde que existe o Pecado Original – é indócil à razão. O instinto sexual é um impulso de direção única. Daí a afirmação do mexicano ( que se declarava, aliás, não-cristão).
As manchetes da mídia não deveriam causar-nos admiração. Deveriam produzir em nós reflexões e atitudes. Reflexões sobre a energia “atômica” indisciplinada, que é a do sexo. Atitudes? As mesmas que adotamos em relação ao arsenal atômico.
A energia atômica é maravilhosa, como o é o sexo. Mas precisa ser controlada. Precisa ser submetida às leis da razão e do bem coletivo. O descontrole em ambas provoca catástrofes irreparáveis.
Como cristão, dou razão ao mexicano.
Ninguém está imune de se deixar descontrolar pela energia sexual. O sexo, na atual condição humana, não pode ser controlado sem uma ajuda especial, isto é, sem um mínimo de humildade por parte da criatura, que, sozinha, não consegue refrear todos os impulsos egoístas, e sem um subsídio sobrenatural, que deriva da Encarnação, Paixão e Ressurreição de Jesus.  
Por isso, devemos admitir que é um risco para a consciência cristã condenar orgulhosamente os desmandos sexuais. Tal atitude pode levar os cristãos ao moralismo, e à hipocrisia.
 É preciso, se desejamos ser cristãos, mostrar um mínimo de compreensão – compreensão, não justificação em relação aos escândalos que nos são oferecidos com uma verbosidade e uma visualidade dignas de melhor assunto.
A inclusão do sexo na esfera do amor, a sua efetiva amorização – como propunha Teilhard de Chardin – é complexa, desafiadora, e belicosa, para qualquer cristão. Ou antes: para qualquer ser humano.
Mesmo um pagão natural, que nem chegou a ter idéia da existência de Jesus, como o filósofo Epicuro (341- 271 a.C.), sustentava que o prazer humano, qualquer tipo de prazer sensorial, só era possível dentro de um contexto de auto-domínio. Epicuro ia ao ponto de sugerir uma sorte de sexualidade reprimida. Sob esse ponto de vista, precedeu de alguns séculos, Siegmund Freud, que sustentava não existir civilização, sem um mínimo de repressão. Dizia Epicuro não ser possível chegar ao prazer de máxima intensidade, tanto o genital como o erótico, sem auto-controle.
Meu amigo mexicano deu-me uma lição: não é possível neste mundo amar uma mulher apenas pelo seu sexo. O sexo, sejamos explícitos, tende a gozar solitariamente. Dom Juan foi o maior solitário do mundo. Ele, porém, dizia amar todas as mulheres...
Amar?
Pode haver amor exclusivamente sexual?
Reiteremos:o sexo funciona a serviço da Espécie. O sexo é uma invenção da natureza, antes que ela pudesse fugir ao cio, que é o sexo programado. Antes, noutras palavras, que o sexo pudesse, na espécie humana, independentizar-se.
Na hora em que o homem conseguiu usar seu instinto sexual fora da programação da espécie, fora da moldura instintual, nasceu nele aquilo que denominamos amor, a possibilidade de integrar o sexo numa dimensão não prevista por ele, numa dimensão supra-instintiva.
Surgiu - para o animal racional - a possibilidade, alucinante e gratificante, de submeter o sexo a uma lei não fatal, à lei da relação consentida, à lei da relação Eu-Tu, tão lúcida e ardorosamente defendida por Martin Buber (1878- ).
Noutras palavras, não existe amor que não seja semelhante a um piloto. O amor necessita de uma  consciência ética que lhe permita voar. Existe amor quando existe controle, da mesma forma que existe vôo quando existe controle. Querer voar instintivamente é acabar, como o Airbus da Air France, no fundo do mar, donde se retirou, com imensa dificuldades tecnológicas, a famosa caixa-preta, na qual estavam registrados todos os momentos que precederam o desastre.
Quem, porém, poderia restituir ao convívio da humanidade os homens e mulheres, e crianças, que pereceram devido a um erro de pilotagem, ou a uma imperfeição de engenharia aeronáutica?
Segundo a Revelação de Cristo, adultério não é só ir para a cama com a mulher cobiçada; já é adultério ir com ela para a cama imagináriamente. Desde que essa imaginação seja consentida, desde que ela seja um ato que não se realizou efetivamente, porque a ocasião não deu oportunidade ao indivíduo de realizá-lo. Quando uma mulher é vista à distância, caso ela for desejada de verdade, isto é, se o indivíduo quiser ter relações concretas com ela, nesse caso já ocorreu o adultério em quem a cobiçou.
O amor é algo mais difícil, comprometedor, e responsável do que uma aventura centrífuga, do que um prazer fruído a expensas de um parceiro, mesmo que este parceiro consinta no ato.
A ética cristã do Evangelho de Cristo, se não se quer trapacear, é uma ética de oblatividade, que exige monogamia.
E mais que monogamia: exige amor!
Um amor que necessita ser todos os dias, capaz de reabastecer-se na sua própria relação, como um rio que não flui duas vezes debaixo da mesma ponte.
A ponte seria o voto de indissolubilidade.
Tal atitude só é possível ao homem, na sua condição atual, na medida em que ousa ir além do plano natural.
O Cristianismo renega-se, tanto quando prega um moralismo estreito, uma ética sexual repressora, como quando se distrai de si mesmo, e aprova implicitamente as evasões do sexo, tão devastadoras como as de um leão, que obedece (como lhe compete) à sua natureza animal, aos seus impulsos carnívoros.
Não é de admirar que, neste momento, a ética sexual cristã seja a mais detestada, a mais ironizada, a mais caricaturizada de todas as éticas, na sociedade em que vivemos.
Também, se não o fosse, para que serviria o Evangelho? Se Cristo não tivesse oferecido à humanidade uma nova forma de ser feliz, sua vinda a este mundo teria sido desnecessária.
Não podemos desconsiderar o fato de que a Encarnação de Cristo significou uma Revolução para o homem, um retorno à sua condição misteriosa de existência anterior ao pecado.
Que ocorreu como? Quando? Em que situação da Pré-História? Ou da História?
Não nos foram revelados pormenores de tal situação. Foi-nos revelado apenas a existência dessa situação.
A ética cristã enquadra-se dentro de um novo tipo de Humanismo, o do homem que aceita ser suplementado na sua animalidade, e até na sua racionalidade, em direção a uma inteligência maior que a de sua Razão: a Inteligibilidade da Fé.
Ao aceitar a ética cristã, o discípulo de Cristo não recusa a realidade, por vezes maravilhosa do instinto. O cristão simplesmente dá um passo à frente da animalidade racional: aceita que o sexo possa ser redimido, que ele, também, seja sobreelevado pelo Mistério da Encarnação. Que o sexo, noutras palavras, seja digno de participar da Ressurreição Futura, não como instinto genésico, que isso deixará de ser, mas como uma realidade superior, maior que a que ele tinha neste mundo, a do Amor.
A famosa pergunta dos Saduceus (machistas) do tempo de Jesus:
- De quem será, na vida futura, a mulher que aqui na terra foi, consecutivamente, mulher de sete irmãos?

teve uma resposta –
não à alturas dos Saduceus, mas à altura de Jesus!

No fundo, os Saduceus queriam bloquear Jesus:
- A quem será adjudicada tal mulher?

Como se a mulher fosse um objeto de disputa entre competidores...
Se a ética cristã não for escarnecida neste mundo, é porque deixou de ser cristã.
Ela opõe-se ao egoísmo do sexo, e este egoísmo é hoje a regra de ouro das relações sexuais.
Por mais que os psiquiatras – e até os biólogos – chamem a atenção das pessoas para o carácter de sucção do sexo, as pessoas não acreditam neles. Para admitir tal risco, é preciso ou ter chegado, como Epicuro, a um grau de cinismo filosófico excepcional, a um Cinismo Laboratorial, ou ter chegado à Revelação de Cristo, curvando-se humildemente, às suas exigências, e admitindo, como Dante o fez no fim de sua vida, à realidade, que seus versos insuperáveis sintetizam:
- A sua vontade é a nossa paz.
 Isto é, em tradução que não viola o sentido de Dante:
A sua vontade é a nossa felicidade.
        Longe de nós subestimar o prazer sexual, ou afirmar que ele é a única finalidade da união que o próprio Cristo sacralizou: “Serão dois numa só carne”.
Sob esse ponto de vista, o cristão poderá ler com proveito uma obra documentada e responsável, como a de Desmond Morris: A Mulher Nua. Um Estudo do Corpo Feminino. (Trad.  de Eliana Rocha. São Paulo, Editora Globo, 2005). As observações de Desmond Morris podem ser úteis a um casal cristão.
Quando Morris, por exemplo, escreve:
- O fato de a fêmea humana (ao contrário da fêmea do macaco) não transmitir um sinal claro ao macho quando está ovulando, também significa que a maior parte dos atos sexuais não são de procriação, mas servem para estreitar ainda mais os laços emocionais entre os amantes. Os seres humanos literalmente (sublinhado pelo próprio autor) fazem amor.(Ibid. p. 193).
Ele propõe o que a Igreja de hoje, despojada de resíduos monásticos e eclesiásticos celibataristas, defende, depois de ter resistido séculos a algo, que já estava intrínseco dentro dela, desde as disputas do Século V entre Santo Agostinho e o Bispo Juliano de Eclano.
(Cf. Peter Brown: Santo Agostinho, uma Biografia. Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, Editora Record, 2005. p.481-495).
 Admitir, portanto, que há leis físicas, que não nos permitem jogar-nos do décimo quinto andar de um edifício, e admitir que há leis psicossomáticas, que não permitem que tratemos os corpos humanos como meros objetos de prazer, é uma atitude só possível quando o homem e a mulher decidem enfrentar uma coisa chamada: Destino - palavra que obriga o ser humano a decidir se quer, livremente, ser apenas um animal aperfeiçoado, ou se aceita , também, ser um “filho de Deus”, elevado por Cristo à sua condição filial mediante uma nova criação – a da Fé.
       

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