sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O filósofo KANT teria estado em Porto Alegre?

        O bom de se ler livros antigos, é verificar o quanto são modernos!
O leitor, possivelmente, nunca ouviu falar do livro Fabordão, de João Ribeiro.
Eu o descobri, por acaso, ao ler os Textos Críticos de Augusto Meyer. (São Paulo, Editora Perspectiva-INL, 1986).
 O título vem do francês faux-bourdon, e  define-se: “canto eclesiástico antigo; por extensão: música desentoada, sem pausa e de harmonia silábica”.
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira é mais explícito: “Uma das mais antigas formas de polifonia vocal, a três vozes, em contraponto simples de primeira espécie (nota contra nota), e na qual a nota fundamental, ou bordão, passou da parte mais grave para a parte superior, formando série de terças e sextas paralelas”
.Por extensão, assume o significado de “dissonância, sensaboria, insipidez, monotonia”.
A modéstia do autor, porém, leva-o ao exagero.
Logo, nas primeiras páginas de seu livro, João Ribeiro lamenta-se de que, no seu tempo (escrevia em 1902), as coisas não andavam bem, no tocante ao silêncio da cidade do Rio de Janeiro. uma cidade.
Ribeiro queixa-se amargamente da “vida moderna com suas mesclas e confusões”.
 Chega a declarar:  
- faz-nos perder muito tempo e gastar inúmeros cuidados, nesse atrito constante com o que nos enfastia ou nauseia, com seres e órgãos cuja função obsoleta os vai atrofiando, como esses enormes e estorvadores elefantes que sem embargo da grande e inútil mole são só buscados e estimados...por causa dos dentes  (Ib. p.33).
Insero no seu texto uma lamentação, ao melhor estilo do choro-livre:
- (...) para todos os que trabalham se impõe uma filosofia do exílio que é também uma filosofia do estômago que se não apraz em revoltas de enjôo.(Ib. p. 34).
Desejamos salientar, aqui - não propriamente o protesto do autor, redundante para nós, imersos numa sociedade que parece amar o ruído e a balbúrdia - mas o que o autor refere sobre o filósofo Immanuel Kant, um dos mestres da Filosofia de todos os tempos, que mereceu de Karl Jaspers um capítulo na sua série “Os Grandes Filósofos”.
Ribeiro registra que Kant era um homem nascido para viver numa época distante da nossa época - ou talvez distante de qualquer época.
Relata o seguinte curioso episódio, registrado por seu biógrafo, Cuno Fischer: Kant tentou comprar um galo “altíloquo e incômodo”, que lhe irritava os nervos nas madrugadas frias de Koenisberg.
Para sua desgraça, o vizinho negou-se a vender-lhe a ave.
Que restava ao filósofo?
- Mudar de casa”, e com freqüência - explica Ribeiro.
A exclamação do autor, que acompanha a frase diz tudo:
- Tanto custa o silêncio!  
Neste momento, socorre-me Mario Quintana, o qual afirmava que um indivíduo azarado é desajudado por todos!
Em razão disso, Kant foi obrigado a mudar-se para “uma propriedade quase fora de muros”.
Teve a desdita, também, de não sondar suas imediações, onde se erguia a prisão da cidade, na qual os guardas obrigavam os apenados a cantar salmos e hinos religiosos, “no intuito de os edificar na fé e na santa doutrina de que se haviam desgarrado”.(Ib. p. 35).
Ribeiro esclarece:
- (...) esses cantos de religião eram quase que a única pândega daqueles pobres detentos, de modo que quando soava a hora de louvar o Senhor, entoavam enfaticamente a algazarra (infernal, se não fora divina) com todos os pulmões, descompassada e desafinadamente.
À semelhança dos personagens do filme de Almodóvar, estando já “à beira de um ataque de nervos”, o filósofo resolveu dirigir-se ao Governador da cidade, Herr Hippel, enviando-lhe a seguinte carta:
- Peço-vos encarecidamente que nos liberteis a nós moradores do lugar, das orações estentóreas que hipocritamente entoam os presos. Não digo que careçam de motivos para se lamentarem; assás devem tê-los. Mas creio que lhes bastaria o ouvirem-se a si próprios, fechando as janelas; e a salvação de suas almas não correrá maior perigo se cantarem um pouquinho mais baixo. Se o que esses míseros presos querem é apenas um certificado do carcereiro de que são homens tementes a Deus, não creio que seja necessário elevar esta justa súplica a uma vozeria e celeuma que não é costume praticarem os que rezam em casa e silenciosamente. Uma palavra vossa poria um termo a essa desordem e aliviaria de grande importunação aqueles por cuja tranqüilidade vos tendes incomodado tão repetidas vezes. (Fabordão. p. 35-36).
Ribeiro concluía a transcrição da carta de Kant com as seguintes palavras:
- A fortuna, toda nossa, é que não temos um Kant. E é duvidoso que o tivéssemos numa grande cidade americana, tmultuosa, anárquica e progressiva Qualquer de nós, por humilde que seja, por menos que se proponha altas filosofias, terá de cortar pela tranqüilidade e renunciar ao repouso moral.
Quem escapará, por mais ateu que seja, a uma ladainha estentórea da vizinhança? (Ib. p. 36).
Nessa altura: apelamos aos leitores: digam se os livros antigos, ao menos, os editados no século XIX , não são modernos, inclusive pós-modernos?
Se isso, também, acontecia em 1902, na pacata cidade do Rio de Janeiro, onde ainda vivia Machado de Assis, imaginem o que ocorre, nas atuais circunstâncias, na aperreada cidade de Porto Alegre.
Um taxista informou-me que existe um carro para cada dois habitantes em nosso estrangulado funil topográfico. Sim, o taxista fez questão de esclarecer que Porto Alegre é um funil, e que a expansão da cidade só pode ser centrífuga (o taxista não empregou tal vocábulo, mas outro similar) .
Voltemos à realidade de Porto Alegre. A cidade está se preparando para a Copa. Ou, mais especificamente, para o caos?
O taxista (que usou a palavra bagunça em vez de caos) deu-me explicações detalhadas sobre os prenúncios dessa bagunça. Acusou, por exemplo, a montadora de carros Celta de contribuir para isso.
Como os leitores vêem, a explicação do taxista me faz perder o fio da conversa!
Numa cidade, onde todo o mundo entende de Porto Alegre, eu não a entendo.
Amo-a cegamente, pois é minha segunda cidade natal, se é que existe isso. Afinal, sou cidadão honorário desta lindíssima cidade.
No entanto, sou obrigado a admitir que Porto Alegre está cada vez mais triste, e que nada desculpa os porto-alegrenses de se terem tornado, nas últimas décadas, descorteses.
Principalmente nas horas de trânsito intenso.
Poderíamos arriscar uma Campanha Pro-Cidadania baseada no slogan:
“Procure ser educado!
Podendo, seja cortês!
Querendo, seja amável.
Não querendo... que o diabo o carregue!”

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