quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Nós, Brasileiros, e a “Falência” da Europa.

Tranquilizemo-nos: a Europa não está falida!
O que está em falência, provavelmente, é um tipo de política e de economia (sem comunhão!), e até uma espécie de contaminação cultural, que assolou a Europa nas últimas décadas e, em determinados momentos, a tornou ridícula.
        A questão do ridículo europeu vem de longe.
        Em 1945, quando terminou a Segunda Grande Guerra, eu era um menino de 12 anos.
Naquela época, a Guerra representava, a meus olhos, uma espécie de luta entre o Bem e o Mal, uma guerrilha mega-ampliada à Robin Hood.
Não dispúnhamos, na época do Estado Novo, de informações adequadas sobre o que estava realmente acontecendo no mundo. Eu estava sendo criado à sombra do mito getulista, e é lógico que tomava partido pelos Aliados, principalmente porque, no colégio religioso em que eu estudava, a revista ilustrada que mais preenchia nossa avidez visual era Em Guarda, um periódico subsidiado pelo governo dos Estados Unidos, em cujas páginas se exibiam  grandes aviões-bombardeiros, grandes navios -cruzadores e porta-aviões – comandados por brigadeiros e almirantes de peitos condecoradíssimos. Guardo até hoje o nome de um deles: o do Almirante Nimitz!
À luz de tais estrelas (seriam as do Cruzeiro do Sul?), ou de outras constelações, felizmente hostis ao Nazismo e ao Fascismo, eu podia torcer à vontade a favor do Aliados. Considerava-os encarnações dos Anjos, atribuindo ao Eixo as maldades dos Demônios.
        Terminada a Guerra, fui, em 1958, estudar na Universidade de Fribourg, na Suíça. Aperfeiçoei meu francês, aprendi melhor o italiano, comecei a me interessar pelo espanhol, e assim meu nível de inteligibilidade e avaliação aumentou razoavelmente.
Acabei doutorando-me com uma tese sobre a concepção de criação (cosmológica, psicológica, ética e estética) de um filósofo judeu-francês, Henri Bergson.
Graças a isso, passei a me interessar, também, pela situação dos judeus nos campos de concentração da Alemanha, em parte porque Bergson não quis ser batizado na religião católica por uma questão de solidariedade com os seus irmãos perseguidos. Declarou sua explícita adesão ao Catolicismo, mas adiou seu batismo, na esperança de que a insensatez e a crueldade nazistas viessem a acabar.
        Foi a partir dessa data que iniciei minhas leituras sobre o Nazismo e o Fascismo.
Só então me dei conta de como eram ridículos, supremamente ridículos, os nazistas e os fascistas!
Quando me foi dado ouvir, pela primeira vez, os apopléticos discursos de Hitler, em gravações autênticas, exclamei:
- Nunca teria acreditado! Como foi possível que um povo tão inteligente e culto como o povo alemão, apoiasse tal fanático, tal histrião de alto estilo - um histrião com dentes de hiena?
 Ao descobrir, mais tarde, filmes autênticos sobre o Duce Benito Mussolini, comecei a me interpelar sobre o estado de espírito de ítalo-brasileiros, com os quais convivia na minha infância, muitos deles entusiastas desse falso herói de opereta.
        O fato, porém, decisivo para mim, foi uma visita que fiz, em 1970, ao Campo de Concentração de Dachau, onde um sacerdote excepcional, Joseph Kentenich, que cheguei a conhecer pessoalmente, fora aprisionado e torturado, não perecendo aí por milagre. Li um resumo de um depoimento sobre ele, redigido por um confrade, intitulado: Fui Prisioneiro da Gestapo, através do qual me inteirei do que tinham sido os métodos de extermínio dos carrascos nazistas.
A seguir, li uma bibliografia, relativamente extensa, sobre os crimes, perpetrados por outros monstros, principalmente em Auschwitz e Birkenau, onde foi incinerada Edith Stein, fatos que o cinema por vezes tentou maquiar, detendo-se nos “aspectos (des)humanos de um Ditador como Hitler.
        A primeira coisa que me chocou, em tudo isso, não foi a gigantesca crueldade de Hitler, Mussolini e seus hierarcas. Foi o ciclópico ridículo de tais personagens.
 Creio que só Chaplin conseguiu perceber tamanho ridículo. Talvez Curzio Malaparte, também, masparcialmente, com seus romances escrachados. Porque, se a crueldade nazista e fascista foi apocalíptica, essa mesma crueldade, ao vestir-se com as pompas do ridículo, adquiriu tal monumentalidade que parece não ter sido igualada na História.
        Ponhamos entre parênteses, os campos de extermínios, as experiências “científicas” feitas à custa dos prisioneiros, os padecimentos impostos a milhões de inocentes.
Retenhamos apenas um pormenor: o esforço que a Europa tem feito para chegar a um amnésia tolerável, principalmente nas últimas décadas de euforia e consumismo desbragados, que a levaram à beira do abismo.
É verdade que a Europa não conseguiu esquecer!
 Por que?
Porque o ridículo de seus macabros heróis nazistas e fascistas, não foi jamais capaz de se descolar da imensa crueldade de tais “monstros”.
Perguntemo-nos, pela enésima vez: estará falida a Europa?
Evidentemente, não!
O que está falido, reiteramos, é um tipo de sistema sócio-econômico, inventado na Europa, e por ela exportado aos Estados Unidos, e ao mundo, recebendo-o, agora, de volta, reciclado, mas infinitamente pior.
A Europa, que nos legou o Humanismo Cristão no passado, acabou oferecendo-nos um presente grego: o de um cavalo, em cujo ventre ofertou, a nós, latino-americanos, um recheio de maldade: o Anti-Humanismo, com sua regra de ouro: “Cada um por si, Deus por todos!” –o sacrossanto lema da economia livre, pai de todos os sucessos econômicos do século XX, cujos filhos têm nomes como:  Desumanidade, Divórcio social e o econômico, e até uma filha feíssima, a Pauperização universal.
É lógico que a visão, exposta neste texto, é uma visão maniqueísta da realidade atual. É, até, a visão simplória de um câncer, cujas tomografias computorizadas estão nas mãos dos teóricos da economia de mercado, e sobretudo, dos manipuladores refinadíssimos dos capitais voláteis.
Vejam agora uma surpresa: o presente grego está aí! A Europa, neste momento, o está reoferecendo aos gregos, que piamente acreditaram nela, e se vêm sem recursos para atender à exigências do FMI e do BCE.
        O que vemos, na Europa, é um mar de ridículo - um oceano não-pacífico de ridículo - que seus líderes fazem questão de exibir, junto com suas escapadas sexuais, durante as os ícones do erotismo midiático exibem coxas com não menos ridículas tatuagens.
O ridículo europeu só pode ser comparável ao ex-ridículo nazista e ao ex-ridículo fascista.
Se determinados líderes europeus nos parecem bonecos, que reproduzem traços dos empertigados figurões nazistas das décadas de trinta e quarenta, é porque a Europa não está falida!
O ridículo, como uma sorte de mitridatismo, pode salva-la!
Enquanto nela restar um aqueduto romano, um museu com fivelas e barcos viking, um sítio que recorde Vercingetórix, um Manuscrito Celta, um Mosteiro como o de Fontenay, uma Basílica como a de Vézelay, uma Catedral como a de Chartres,  um poema debochado dos Goliardos ou menos debochado e mais patéticom como os de Villon, e sobretudo, um suspiro de Aliénor de Aquitânia ou do Miglior Fabbro,  Dante, continuaremos a amá-la, -  a essa Europa que está preferindo, às figuras dramáticas de Mozart e Beethoven, as máscaras deformadas de alguns bufões.
        Que venha, pois, sobre a Europa um fenômeno social, natural, ou mesmo sobrenatural, que varra tanto lixo de seu Continente, e que os europeus, chamados, também, no passado de europeenses, voltem às fontes fecundas, e  caluniadas da Idade Média.
 Idade das Trevas?
 Alguns eclipses não bastam para emudecer a glória de uma Idade da Luz!
Da Idade Média vieram algumas das lições mais ricas e belas de Humanismo - essa palavra que ficou órfã, e está à espera de que um povo, ou um estilo de vida, voltem a adotá-la, visto que o mundo atual não tem coragem de adotar outra realidade mais essencial, a do Evangelho de Cristo, antes de este ter sido debilitado com o mau fermento da histórica infidelidade cristã.
Na pior das hipóteses, o Humanismo Cristão, herdado de Santo Anselmo e São Tomás de Aquino, que sempre defendeu, e sempre defenderá, a tese elementar que não existe economia, nem política humanas, que possam esquecer que a sua razão de ser é o homem concreto,  o homem que sofre fome na África, que é excluído nas favelas das grandes capitais, e que, no âmbito doméstico, padece de Alzheimer sem ter direito à assistência médica, em última análise o pobre diabo, o miserável de Victor Hugo, o ofendido e humilhado de Dostoievsky, que não tem a seu favor senão o fato de ter nascido.
O resto é pura literatura, mesmo que seja literatura católica.
Concluamos, sem triunfalismos: o Cristianismo é melhor que todos os cristãos juntos!
Ele existe - não pela força e sustentação dos cristãos - mas pela força de Cristo, o Único que nunca se tornou ridículo, nem pode tornar-se ridículo, mesmo que tornem a cuspir-lhe no rosto, e açoitá-lo, antes de O recrucificarem.       
A resposta que Cristo deu aos homens foi sua Ressurreição.
Esta – a Ressurreição de Cristo - é a destruição de todos os ridículos da existência humana, inclusive, o ridículo-mor que nos assedia a todos, a morte.
       

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