quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Ninguém ouve ninguém: nem o Papa salvou Troy Davis!
       
É de se perguntar: valerá a pena comentar a notícia da execução do negro americano? 
        O Papa Bento XVI fez um apelo em favor do condenado. Outras personalidades, de todo o mundo, também dos Estados Unidos, intervieram a favor do condenado.
Nada disso serviu.
O condenado foi executado, e o Presidente Obama – imensa e dolorosa surpresa para nós! – autorizou a execução.
Verificamos que nosso mundo contemporâneo continua a oscilar entre dois pólos repulsivos: o Legalismo extremo, e o Laxismo, ou Permissivismo, descarado e vergonhoso.
O Legalismo pretende ser o defensor da Lei, ou melhor  da legalidade, Pouco importa-se se a lei foi elaborada com critérios de justiça e humanismo. É lei? Deve ser cumprida.
O Permissivismo defende todo tipo de concessões, no fundo, está a favor da impunidade, alegando razões que, bem filtradas, se reduzem a absurdos maquiados.
O que está em jogo, na sociedade atual, são duas atitudes: a da racionalidade e do reto juízo da ética, entendida como uma norma de conduta baseada em valores seguros, que os códigos de comportamento da Humanidade consagraram, desde o Código de Hamurabi e o Decálogo do Sinai, até à Declaração dos Direitos do Homem; e a atitude anárquica a-ética ou anti-ética, de que todas as ações humanas são livres, e portanto se equivalem, mesmo que, agindo assim, se destrua a própria liberdade, e a liberdade dos outros.
Não falamos, aqui, da mensagem de Cristo que, para os cristãos, deveria ser o único critério das decisões pessoais, e coletivas, enquanto compatíveis com a tolerância de religiões nao-cristãs, ou de concepções ateístas e agnósticas.
A intervenção do Papa Bento XVI ajuda-nos a respirar, principalmente a nós católicos! O mix Catolicismo-Vaticano nunca foi bom para nenhuma das partes. É preciso distinguir – e até separar – o vinho e a água - o Catolicismo e o Vaticano.
Que é o Vaticano?
Um Estado que nasceu errado.
Um fruto espúrio dos chamados Estados Pontifícios que, por sua vez, nasceram de uma “Doação de Constantino”, que nunca existiu, obra de falsários que se perpetuou com Pepino, o Breve, e depois, com seu filho, Carlos Magno.
Foi a partir do século VIII que se deu a assimilação do Papa a um soberano temporal.
 Não há historiador sério que ignore que a Doação de Constantino (que constitui o segundo capítulo doConstitutum Constantini”), hipoteticamente concedida ao Papa Silvestre I (314-335), foi forjada.
Sem dúvida, Constantino, o enigmático imperador batizado in extremis, existiu. Mas não fez nenhuma Doação ao Papa, a não ser a de templos e tesouros pagãos, cuja transferência aos cristãos autorizou, como se tais bens lhes pertencessem, de direito.
Recentemente, um conhecido historiador alemão, Horst Fuhrmann, condensou, para o grande público, a verdadeira história desse “falso”, na sua Guida al Medioevo  (Não existe, por enquanto, tradução  pórtuguesa do original alemão: Einladung ins Nittelalter.Valemo-nos da Terza edizione Italiana. Roma-Bari, Editori Laterza, 2009. p. 111-124).
O que resultou do documento eclesiástico falsificado, a que nos referimos, nem vale a pena comentar. Foi um equívoco monstruoso, uma contaminação chamada Cesaropapismo, que nunca mais deixou de afligir o Catolicismo.
O Vaticano, propriamente dito, resultou de um acordo entre o Ditador Benito Mussolini e a Santa Sé.
A rigor, a idéia de existir um território na Itália, exclusivo, reservado ao Papado, não era má, uma vez que constituía uma forma de não-interferência da Itália no Papado, e do Papado na Itália.
O que ocorreu, historicamente, foi outra coisa: o nascimento, não só de um Estado, ou de Estados Pontifícios, mas também o nascimento de um estado-de-espírito, que poderíamos chamar de “vaticanista”, e que desfavoreceu a Itália e o Papado.
Temos, pois, o Papa, Pastor do Rebanho, herdado de Pedro, a quem foi inicialmente confiado por Jesus. Ao lado ao Papa, trabalham Cardeais, Bispos, Presbíteros, e numerosos funcionários civis.
Mas o Vaticano não é só isso. É uma política, uma pressão de cima, um jogo de interesses, uma complicadíssima teia de poder, de prestígios e ilusões.
Esqueçamos tão desoladora realidade.
O Papa Ratzinger agiu, de certo modo, à revelia do Vaticano. Foi corajoso. Foi Pedro, e ousou condenar a pena de morte, que a legislação americana do Sul persiste em manter.
Que o Papa tenha perdido esse lance, que o legalismo americano não o tenha atendido, é para nós, católicos, uma lição. Ao menos desta vez, o Vaticano esteve do lado do uomo qualunque, isto é, do pobre-diabo, que no caso se chamava Troy Davis, e dos pobres-diabos que somos todos nós diante de Deus, inclusive o Papa Ratzinger.
Que é o homem diante da realidade de Cristo?
Um pecador.
Como é possível que um pecador ouse condenar outro pecador?
        Como pode alguém tirar a vida a uma pessoa humana,
Se não lhe deu a vida?
 A vida só pertence a Deus, e este é o único a poder tirá-la. O próprio suicídio está vedado à criatura humana, e ao cristão em particular.
A vida é o dom máximo. Só pode pertencer a Deus. Por isso, a Bíblia diz que o Demônio foi homicida desde o princípio.
Matar um homem, ou matar-se um homem, é o pecado maior, depois da tentativa, imaginária, que alguns homens persistem em levar a termo - de matar o próprio Deus, gesto impossível, porém imaginariamente possível.
Nem falemos na realidade da Guerra, visto que esta é o Anti-Cristianismo. É a mais drástica negação do Evangelho.
Só existe uma Guerra permitida, do ponto de vista cristão: a da auto-defesa. Qualquer guerra que ultrapasse a regra do menor dano possível infligido aos outros homens, é má.
Unamo-nos a Bento XVI na sua reprovação do legalismo americano. Quem pretende defender a qualquer preço a Lei, incide numa abominável aberração.
É hora de nos unirmos em defesa dos Direitos do Homem. Só depois de defendermos essa primeira Cesta Básica de Justiça, poderemos pensar em defender a segunda Cesta Básica de Justiça, a Cristã.
A Segunda Cesta Básica já está a caminho do verdadeiro objetivo cristão, que é o amor:
- Queridos amigos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus. Todo aquele que ama é filho de Deus e conhece-o. Aquele que não ama, não conhece a Deus, uma vez que Deus é amor.
(Primeira Carta de São João, capítulo 4, 7-8. Tradução Interconfessional do Texto Grego para o Português Moderno. Primeira edição, recomendada aos católicos de língua portuguesa, pelo Bispo do Porto. Lisboa, Sociedade Bíblica-Difusora (Católica) Bíblica, 1978. p. 489).
  
   

Nenhum comentário:

Postar um comentário