sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A Feira do Livro de Porto Alegre (II).

        No dia 4 de setembro de 2011, o repórter Eduardo Lago, do diário El País, entrevistou a Harold Bloom, tido pelo mais perspicaz e mais sensível dos críticos literários dos Estados Unidos. Há escritores que o consideram, até, “o crítico literário mais importante de nosso tempo”, por ter sabido encontrar o caminho para chegar ao grande público, sem abrir mão de sua portentosa sabedoria, e sem renunciar um ápice às suas exigências de qualidade.
Bloom acaba de completar 80 anos.
A entrevista de Bloom vale a pena ser divulgada, principalmente quando nos preparamos para uma nova Feira do Livro.
O ensaísta começa afirmando:
- Para mim, ler é a única maneira de dar sentido à vida. Mediante os livros, estendo uma ponte a milhões de leitores autênticos de todo o mundo, leitores que, contra ventos e marés,embora os tempos sejam terríveis para a verdadeira literatura, se negam a renunciar a ela.

Penso que se pode ver exagero na declaração sobre o hábito da leitura: seria ela a única maneira de dar sentido à vida? Existem, creio eu, outras maneiras: dedicar-se à família, auxiliar o próximo, praticar o voluntariado, trabalhar, não só para sustentar-se, mas também para aumentar a riqueza que deve ser distribuída...
Admito, porém, que Bloom tem o direito de confessar que, para ele, é essa a única maneira de dar sentido à vida.
Bloom prossegue, dizendo que lhe agrada dialogar com leitores dissidentes, isto é, com leitores que não se deixam fascinar pelos autores de best-sellers como J. K Rowling ou Stephen King, os quais conduzem seus seus leitores ao oceano gris da Internet:
- Atualmente, deixou-se de lado toda exigência estética e cognitiva, características da grande literatura. A literatura imaginativa, tal como foi cultivada por Shakespeare, Cervantes, Dante e Montaigne capitulou perante a baixeza da lista dos mais-vendidos.(...) São anos que luto contra essa decadência. Sei que se trata de uma batalha perdida.
O professor, todavia, não desanima. Aos oitenta anos, segue dando cursos na Universidade de Yale:
- Escrevo agora uma peça de teatro sobre Walt Whitman. O que sei é que continuarei lecionando e escrevendo até minha morte. Também elaboro um livro sobre Herman Melville, e sobre quatro poetas norte-americanos: Emily Dickinson, Wallace Stevens, Wal Whitman e Hart Crane. Tenciono escrever minhas memórias literárias, que espero concluir antes de morrer
A uma pergunta do jornalista sobre suas preferências, em relação aos romancistas americanos da atualidade, respondeu:
      
- Aprecio,de modo especial, Philip Roth, Don DeLillo, Cormac McCarthy e Thomas Pynchon, talvez o melhor de todos eles.

Depois de confessar que sabe de cor inúmeros poemas, Bloom conclui:

- Tenho intenção de seguir lendo vida afora, enquanto houver em mim um sopro de vida!
O crítico e ensaísta confirmou ao repórter ter lido 120 vezes o Conto da Barrica, de Jonathan Swift, e de não saber quantas vezes releu A História do Declínio e Queda do Império Romano de Edward Gibbon, que segundo ele, poderia intitular-se: Declínio e Queda do Império Americano - tais as semelhanças que existem entre a obra-prima de Gibbon e a atual situação da América do Norte.
Segundo o ensaísta americano, o livro de Gibbon deveria ser obrigatório para qualquer estudante de seu país.
Julgo que se deve reconsiderar certas observações de Bloom, especialmente as que dizem respeito ao excesso de best-sellers no mercado. Participo do seu pessimismo a respeito disso. O público, não. O público reluta em em autocriticar-se. É como falar mal de cachorros-quentes a uma sociedade que está, cada vez mais, escorregando para uma opulenta obesidade!
Agora, uma pergunta; terão os leitores ouvido falar de Miguel de Unamuno (1864-1936)?
Don Miguel foi um excepcional filósofo, romancista, dramaturgo e poeta espanhol.Tornou-se conhecido por seus estudos sobre o Dom Quixote, Cervantes.
Seu livro: Del Sentimiento Trágico de la Vida(1913) é considerado um dos livros precursores da Filosofia Existencialista.
Os críticos, porém, quase que com unanimidade, preferem destaca-lo como um dos maiores poetas da literatura castelhana.
Graças às minhas buquinações em sebos, veio a cair-me às mãos uma coletânea de textos jornalísticos de Unamuno, com o título: De Esto y de Aquello.(Tomo II. Buenos Aires, Editorial Sudamericana, 1951).
Num dos textos, incluídos nessa coletânea, El Modernismo, que foi publicado pela primeira vez em Paris em maio de 1907, deparei com reflexões estimulantes sobre a leitura.
Unamuno principia por denunciar certa hipocrisia, camuflada nas declarações dos auto-intitulados intelectuais:

- Que é que nossos literatos lêem? Só literatura, nada mais! Por isso, também, fazem teatro de teatro, romance de romances, e lirismo de lirismo.(Ob. Cit. p. 145).
O mordaz vasco censura-lhes não se interessarem por ciências, história da religião, filosofia, grandes poetas:

- Estão a par do último autor que apareceu, porém ignoram Homero, Dante, Shakespeare, Virgílio, Goethe, Wordsworth, Corneille, Lamartine.(Ib. p. 145).

Critica-os por não se interessarem por leituras “que exigem esforço”:

- Quem lê Platão. Sêneca, os Padres da Igreja, Bacon, Spinoza, Descartes, Locke, Hume, Kant, Stuart Mill, e tantos outros, cujas obras constituem o legado perpétuo da linhagem humana?

Lembra que a leitura predileta de Beethoven era Platão!A alguém, que perguntava ao autor das Nove Sinfonias por que tanto interesse pelo filósofo, ele respondia:

- Porque música se faz com o espírito, e Platão contribui para alargá-lo! (Ob. Cit. p. 146).
Unamuno diz que se deve distinguir cultura livresca de horror a livros substanciosos. Insiste em que não se trata de apaixonar-se pela bibliofilia, mas de amar a leitura de livros como veículos de cultura. Os livros ensinam, inclusive, a ver a Natureza!
Outro ponto que Unamuno satiriza é a paixão por resenhas literárias. Já não se lêem livros, mas notícias de jornais sobre livros.
Penso que, sem trair Unamuno, pode-se dizer: hoje se lêem orelhas-de-livros. (Ob. Cit. p. 146-147).
Por fim, o autor de A Tia Tula insurge-se contra os próprios aficionados à leitura, visto que grande parte deles lêem mal.
O escritor verbera a mania de se ler apenas sucessos literários, ou livros que estão na moda.
Num determinado trecho de sua diatribe, recorda que até Nietzsche, grande poeta, não é lido por suas qualidades de genial escritor, mas porque se extravia em afirmações problemáticas, que são aceitas acriticamente por seus leitores:

- Alguns, diz Unamuno, apreciam Nietzsche somente por seus ataques ao Cristianismo.(Ob. cit. p. 149).

Abstraiamos da acidez dessas críticas.
Um homem emocionado sempre peca por exageração. Unamuno, às vezes,incide nessas demasias.
Evitemos, todavia, embaciar a lucidez de sua sátira.
O que está em jogo, na questão da leitura, é a inapetência do público pela literatura exigente, pelos clássicos que não pactuam com gostos fáceis.Um clássico, para dizer, a verdade, tem a vantagem de já ter morrido. O que ele disse, ele o disse para si, ou eventualmente para os outros, porém já blindado contra a gritaria e os insultos idiotas.
Um livro pode ser deixado de lado, até pode ser contestado, mas não se pode privar homem nenhumde dizer o que lhe vai na alma, o que sente no mais íntimo de si.  Mesmo que se equivoque.
O mal da literatura da atualidade é o marketing, a impostura, o jogo mercadológico, o compadrismo de sala-de-redação, as antipatias ideológicas.
       Amigos, aproveitemos a Feira do Livro de Porto Alegre de 2011, para descobrir os grandes clássicos.
       Quanto a mim, vou ver se me atualizo em relação à ficção americana, lendo, por exemplo, o autor que Harold Bloom  mais valorizou na sua entrevista: Thomas Pynchon.

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