sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A Feira do Livro de Porto Alegre (I).

I.

Há uma estação do ano em Porto Alegre, que sempre me deu a impressão de ser uma estação mentirosa. Apresenta-se, porém, com os requisitos de uma estação verdadeira.
         Quase que de súbito, a primavera agride-nos com céus lavados, a esbanjar esplendores, e até, de quando em quando, a espalhar pelos ares borrifos de água, como se o jardineiro celestial estivesse regando as nuvens e, na ausência destas, decidisse acionar lanças-perfumes sobre eventuais distraídos nas ruas da metrópole.
O início, sempre, é promissor: temperaturas  com uma viração a arejar-nos os rostos, à moda de um leque de odalisca.
         Mas esperem!
        Num abrir e fechar de olhos, as brisas são substituídas por rajadas, como se uma quadrilha de ventiladores grevistas-resolvesse dar os ares de suas graças, ou de suas des...graças. As nuvens, que exibiam caras de ovelhas, transformam-se em assustadoras manchas, que rosnam como lobos famintos.
Em que se transforma a estação das flores?
Numa estação de vassouras a varrer calçadas. pátios e praças.
Nao me venham com parolagens macias, a defender tais perfídias!
         O Érico Veríssimo, que tinha o olhar sereno dos índios, dizia a quem quisesse ouvi-lo:
         - A verdadeira primavera no Rio Grande do Sul acontece no outono! O outono é a nossa primavera.
         Sempre concordei com o Mestre, e continuo dando-lhe razão.
          A favor da mentirosa estação das flores, sou obrigado a creditar-lher méritos. É a temporada dos precoces limoeiros, que se adoçam com flores brancas. Quase imediatamente, eles fazem acompanhar por ipês roxos e amarelos.Aos quais, depois de algum tempo, sucedem os cinamomos, sem dúvida descendentes dos aromáticos espécimes que a Bíblia celebrou em páginas de uma elegância quase erótica.
        Meus caros, ocorre nesta cidade um verdadeiro prodígio: a aparição dos jacarandás na Praça da Alfândega! Não só lá, mas em toda a parte, com outros duzentos, quinhentos, e até mil colegas vegetais.
Nada que se possa comparar a eles!
A não ser, é claro, em determinados anos, a explosão das paineiras, entre março e abril, quando os dias são doces como um favo, e um friozinho travesso se infiltra nas suas costuras, com um ar de que nasceu antes do tempo!
         Outro evento, também, redime a primavera gaúcha de suas rabugices, de seu mau humor, e até de sua sua volatilidade de moça bonita, e narcisista.
         Já sabeis de que se trata: da FEIRA DO LIVRO!
         É hora, pois, de manifestarmos um comovido agradecimento aos que tiveram a idéia de criar essa criatura, que acabou por se tornar a beldade mais deslumbrante da Capital.
Já se escreveram livros sobre ela, mas com,o a verdade é que brasileiro tem breve memória, se é que a tem, quanto mais se escreve sobre seus iniciadores, mais são esquecidos!
A Feira do Livro foi uma invenção, que se concretizou no ano de 1955, resultante do esforço de cinco apaixonados.A alguns chamaria de “gênios da leitura”:  o jornalista, vereador Say Marques, na época Diretor-Secretário do Diário de Notícias;o intelectual da velha cepa, escritor sem livros, Maurício Rosenblatt; o livreiro, e nas horas livres, político,   Mario de Almeida Lima, pai de um dos fundadores da LPM Editores.
Seja-me, enfim, permitido completar o terceto com duas personalidades da indústria livreira no Rio Grande: o primeiro, o fundador da Sulina, indivíduo alto, esguio, sempre prestes a ajudar alguém a recolher no chão os cacos um copo que se espatifou, num coquetel, a socorrer um pobre ou rico-diabo que decidiu desmaiar numa reunião, a anular-se, atrás de qualquer celebridade aceita, ou fictícia, contanto que a festa vá até à champanhe: o Sr. Leopoldo Bernardo Boeck, que não era (ao que me consta, fanático pela leitura, mas homem culto à sua maneira; e – mais que tudo - ser humano notável, que timbrava em revelar-singular honestidade. Recordo-me dele com  uma espécie de fraterna ternura! O segundo chamava-se Henrique D’Ávila Bertaso, e era “o Capitão do Barco” da Editora Globo, de acordo com a perfeita expressão de Mario Quintana, o homem de quem, ocasionalmente, se registrou com sentido de humor, que avançava recuando.
Havia outros, igualmente dedicados, que integravam o grupo dos carregadores de piano, como o Sétimo Luizelli, o Abrão Orgler, o Raul Caminha, o Ernani da Costa Nerva, o Egon Poëter, o Vitor Piazza, o Hélio de Castro, o Augusto Carneiro, o Nelson Boeck (irmão de Leopoldo), e o Edgardo Xavier.
Desaire real seria omitir o nome do jornalista do Correio do Povo, destacado para fazer a cobertura da primeira Feira do Livro: Carlos Reverbel, intelectual gaúcho que fingia não o ser, sobre o qual Cláudia Laitano publicou um interessante livro.
Merece ser comemorado à parte um português, do qual atualmente nunca se fala, que teve papel decisivo na primeira Feira: Ruy Diniz Netto.
Aos que tiverem interesse em conhecer a história da Feira , recomenda-se a leitura da publicação de Paulo Bentancur e Joaquim da Fonseca: A Feira do Livro de Porto Alegre. Quarenta Anos de História, patrocinadas pela Câmara Rio-Grandense do Livro, em 1994.
A Feira do Livro criou, de lambujem, alguns personagens,entre os quais o imorredouro  xerife,Júlio La Porta, sobre cujo jazigo (oh, que ele esteja o mais longe possível do Júlio, e de todos nós!) deverá jazer também, um dia, a estridente sineta do dono.
Por falar em voz, quem não sabe que a Voz das Feiras, até pouco anos atrás, era a Nóia Kern, locutora oficial do evento?
Nóia, deixaste saudades!
Poderíamos falar de muitas coisas, de incidentes, de fenômenos metereológicos, os tais mini-tufões, que enxotamavam os livreiros para as tocas da praça, deixando barracas e estantes entregues à violência taurina dos elementos...
Quanto a mim, prefiro fixar-me numa cena que sempre me deliciou: encontrar Mario Quintana atrás de uma barraca, sentado, a ler, aceitando que lhe chovessem sobre a cabeça minúsculos cachos de flores-de-jacarandá...
Gosto, ainda, de lembrar o Bar, ou antes, a Praça de Alimentação das antigas - e das recentes Feiras – onde sempre é possível reencontrar velhos amigos, e estabelecer novas amizades. Foi ali que, um dia, bati um buliçoso papo com um indivíduo exótico, mas de cultura e talento excepcionais, o Décio Pignatari.
Foi ali, também, onde certa vez, na companhia de José Clemente Pozenato, conversei sobre aspectos poéticos de sua tradução dos sonetos de Petrarca, tradução que ficou a meio caminho – como ficou a meio caminho a candidatura do autor do Quatrilho ao Patronato da Feira! Se há alguém, no Rio Grande do Sul, que merece ser investido dessa função é o Pozenato! Ele - e se ainda der tempo - o Sérgio da Costa Franco, o Tabajara Ruas, a Maria Carpi...
É meu dever recordar a figura de um livreiro, que sempre se destacou – como o André da Nova Roma - como um dos mais discretos, senão o mais discreto, –de quantos livreiros, e  incentivadores da Feira me foi dado conhecer: José Pereira Rodrigues, pai de uma turbinada funcionária da organização da Feira, a Jussara.
Por falar nisso, aproveito para falar de outras competentíssimas companheiras de de equipe, todas elas gentis e de uma cortesia digna da Corte de Alienor de Aquitânia,  a Sandra La Porta, a Sônia Zanchetto, a Gisele Longhi, e as ex-assessoras de imprensa, cujos sonoros nomes de outrora esqueci.
Não me arriscarei a citar todos os ex-Presidentes da Câmara Rio-Grandense do Livro, refiro-me aos que sobressairam na organização, ampliação e aprimoramento de seus objetivos (e instalações): ao acaso, alguns nomes: Paulo Flávio Ledur, Roque Jacoby, Eduardo Luizelli, Júlio Zanotta, Valdir da Silveira, João Carneiro... Que os não-citados, e seus imediatos assessores, me perdoem, mas incluir a lista toda seria competir com a nominata dos campeões do futebol brasileiro.

Concluo este texto, dirigindo-me a ti, ó Feira do Livro:

- Que ninguém, nem o Governo do Estado, nem a Prefeitura de Porto Alegre, se atrevam a deixar-te morrer...Mais do que isso: que nem sequer te permitam ficar algum tempo, recuperando-te de um AVC ou enfarte,  numa UTI de um dos grandes hospitais de Porto Alegre. Se alguém conspirar contra ti, seja anátema! E se alguém, também, levantar um dedo contra os jacarandás e guapuruvus da Praça da Alfândega, seja remetido, sem menção de remetente, à  Ilha de Fernando Noronha, não como trêfego turista, mas como réu de um crime infame; Que aí definhe, sem a sombra de uma árvore! E até... sem a sombra de seu próprio corpo!
 Querida Feira, quando eu estiver morto que, lá da Terras do Bom Deus, possa te olhar, e dizer: “Estás cada vez mais, bonita! E teus frequentadores – seja dito a bem da verdade -estão cada vez mais inteligentes!”

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