quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Existirá uma Arrogância Católica?

         A palavra arrogância deriva do verbo arrogar, o qual,
segundo as definições usuais nos dicionários, inclusive no  Grande Dicionário de Aurélio Buarque de Holanda, significa: tomar como próprio, apropriar-se de.
Arrogante é quem arroga como seu o que é alheio, o que pertence a todos, e não pode ser privatizado.
Em linguagem moderna, a arrogância é uma espécie de privatização do saber, do amor, ou de qualquer coisa que possua valor especial para os homens.
No fundo, a arrogância é uma usurpação, isto é, a tomada de um bem por meios injustos. Em geral, porém, não passa de um roubo, visto que, em geral, não provoca reação por parte do espoliado.
O arrogante, embora não assalte com um revólver ou uma metralhadora, exibe nos olhos o que é pior do que isso: a fulminação do indivíduo, sobre o qual exerce seu desportismo.
É arrogante quem pensa que sabe tudo, quem crê estar na posse do arsenal completo das verdades religiosas, científicas, econômicas, e estéticas.
É arrogante o homem a quem não ocorre jamais desconfiar de si.
É arrogante o sujeito que pensa e fala como se fosse co-autor do Universo.
A partir de tais aproximações, podemos formular-nos duas interpelações:
         1. Nosso mundo atual será arrogante?
         2. Terá o Catolicismo, também, uma face arrogante?
O observador imparcial, se for honesto, deverá responder afirmativamente às duas interrogações.
O mundo contemporâneo não só é arrogante, mas parece que assumiu a tarefa de criar arrogantes em série. Parece ter instalado na sociedade uma linha de montagem de arrogantes.
Outro fenômeno inegável: quanto mais o mundo tende à concentração de renda, mais arrogantes se tornam as pessoas.
Podemos dizer que o primeiro aferidor da arrogância é o silêncio.
O arrogante é o indivíduo que nunca pergunta. Ela já sabe. Ou se quiserem: ele já sabia.
É o indivíduo que, perante qualquer mistério, enigma ou problema, não se interessa em saber o que outros pensam sobre esse problema,  ou pensaram sobre ele. O arrogante escolheu antecipadamente seu método de análise, à maneira de Descartes, e o aplica a todas as conjunturas.
Diante de qualquer coisa que desconheça,  o arrogante não tem o mínimo interesse em informar-se. Ele parte do princípio de que toda informação é humilhação. O arrogante produz sua própria informação.
Ou antes, ele imagina  aquilo que não consegue entender.
Nosso mundo, encarado na sua política, na sua economia, na sua ciência, e principalmente nas suas filosofias e ideologias, transborda de arrogância. Talvez se possa dizer que nosso mundo chegou ao paroxismo da arrogância.
As piores arrogâncias são as que procedem da filossofia, das ideologias, das assim ditas “ciências” teológicas. Elas, no seu conjunto, detêm a maioria das privatizações.
Quem viveu boa parte do Século XX, não tem como fugir à semelhante constatação.
O Século XX foi um século de privatizações. Tudo o que preexistia a ele de inteligente, de religioso, de estético, de político - na história, na tradição, nas bibliotecas, nos museus – foi, de certa maneira, privatizado.
O universal, o que pertencia à coletividade, portanto o que já fora pensado, meditado, ruminado, passou a ser propriedade de um grupo, ou de uma facção. Velhíssimas filosofias, como as do tempo de Epicuro e Platão, de Zenon de Eléia e de Diógenes o Cínico, foram privatizadas.
Naturalmente, tais privatizações foram realizadas a expensas do erário psíquico da humanidade.
Os novos proprietários desse portentoso capital de memórias da humanidade, pagaram preços ridículos para explorarem tais tesouros. Compraram estatais e universais a preços de banana. Uma vez donos dos bens da humanidade, começaram a vender a varejo o que fora adquirido por atacado.

Teria ocorrido algo similar com o Catolicismo?

O Catolicismo originou-se de um movimento radicalmente contrário à privatização.
O Catolicismo, a forma talvez mais expressiva do Cristianismo, em todo o caso, a mais ubíqua, universalizou o que havia de particular no Judaísmo.
 Tornou o Judaísmo, que era até então uma sociedade fechada, uma sociedade anônima. Deu possibilidade a milhares, ou melhor, a milhões de pessoas, de possuírem, em comum, o que durante séculos tinha sido capital mental e religioso reservado aos judeus.
Digamos, sem medo de errar: o Cristianismo foio maior movimento de abertura de capital religioso que já houve na Humanidad e.
Catolicizou tudo.
A palavra católico quer dizer precisamente: “universal”.
Segue-se que a arrogância católica, quando existe, é a pior inversão de seus princípios de base, de sua carta fundadora.
Prevendo-a, e até prevenindo-a, Jesus advertiu, certa vez, seus Apóstolos, que tinham encontrado uns indivíduos petulantes, os quais haviam tido a insolência de imitá-los na sua ação evangelizadora, tentando expulsar demônios:
-Não lho proibais! Quem não é contra nós, é por nós. (Mc 9, 38-40).   
OCristianismo afirma, explicitamente, por meio do Apóstolo Paulo, na sua Primeira Carta a Timóteo, capítulo 2,4:
- Deus quer que todos os homens se salvem.
Para neutralizar toda forma de arrogância nos discípulos, o próprio Jesus proibiu-lhes severamente julgar o próximo.
É coisa espantosa constatar, por vezes, que a arrogância se tenha infiltrado na seara de Cristo.
O trigo e o joio precisam conviver, no mesmo campo, até ao fim dos tempos.
 Por que, então, tanta pressa em julgar os ateus, os agnósticos, os muçulmanos, os budistas?
O católico deve professar sua fé, sem tergiversar no que acredita e ama. Não pode, contudo, constranger os outros homens a adotarem sua Fé, forçando-os a seguir seus códigos de conduta.
Demos um exemplo: por que deverão os católicos obrigar outras pessoas, por meio de leis civis, a praticar o que o fiel deve praticar sem se apoiar em nenhuma lei estabelecida pelo Estado?
É vexame para um católico impor ao seu vizinho o que ele considera obrigatório à sua conduta. Pode anunciar aos outros sua Fé, pode, também, tentar persuadi-los (como fazemos quando desejamos que alguém adira ao nosso ponto de vista). Mas impor o que nós praticamos através de leis civis, só porque somos maioria?
E quando nós próprios, os católicos, éramos minoria?
Acaso não lutamos contra os pagãos para que nos dessem liberdade de culto?
Então...por que, na atualidade, negamos ao próximo nossa liberdade?
Um católico, mesmo que no Brasil fossem derrogadas todas as leis relativas ao comportamento social, deveria ser capaz de permanecer fiel ao Evangelho, aos preceitos de Jesus.
Poderia, por razões práticas, defender civilmente seus direitos, como qualquer ateu, desde que se trate de litígios matrimoniais, patrimoniais, e outros do mesmo gênero.
Pretender retornar a uma espécie de Cristandade, como existiu noutras épocas, o que propiciou o surgimento de meios de coerção intoleráveis, como a Inquisição, condenáveis, é renegar o Evangelho.
Já é para nós motivo de tristeza que cristãos tenham errado no passado. Permanecer no erro deles, é abandonar os princípios cristãos.
Acompanhamos, por isso, com apreensão, as tentativas de mesclar o Reino de Deus ao Reino de César.
Os católicos têm direito, como os ateus e agnósticos, a fazerem concentrações públicas, como a das Jornadas Mundiais da Juventude– embora se possa discutir a oportunidade de tais concentrações na atualidade. Digo: discutir, pois o financiamento de tais concentrações, e outros pormenores, devem ser analisados à luz das relações Igreja-Estado.
O fato é que os Césares do mundo atual não favorecem o Cristianismo.
Jesus foi claro: O meu Reino não é deste mundo.
Ele poderia ter dito, sem contradizer-se: O meu Reino não é deste mundo, mas realiza-se neste mundo.
 Isto é: o Catolicismo possui, necessariamente, uma dimensão material, concreta, sociológica.
Neste mundo às vezes enlouquecido, onde o fermento funciona no interior da massa, e onde a Graça de Deus, sem destruir os valores humanos, é soberana, o Catolicismo tem sua dinâmica,específica.
A Graça de  Deus  age mesmo quando o homem dorme, acorda, e torna a adormecer.
O problema maior é quando o homem acorda, e principalmente sofre de insônias, e então pretende tomar o volante das mãos de Deus.

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