quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Convite III a Ler o Livro de Robert Hughes: Barcelona.

É interessante – para não dizer estratégica - a forma como Robert Hughes introduz os leitores de Barcelona na leitura do capítulo final de sua obra: “O Eremita na Caverna da Criação”.
Sabedor de que, na cabeça de um leitor nascido na “Era da Informática”, existe um bourdonnement (isto é, um zunzunar) de informações, semi-informações, para-informações, contra-informações
- sobre os mais variados assuntos e as mais diversificadas celebridades - Hughes principia o capítulo, dando uma espécie de pancada na cabeça do leitore.
Sem preâmbulos, narra – não como nasceu Antoni Gaudímas como ele morreu!
O exórdio não podia ser mais malicioso.
De resto, tudo em Gaudí, do início ao fim, foi imprevisto, aureolado por um toque de excepcionalidade.
Digamos, então, como morreu:
- Atropelado!
Para um homem, que se antecipou ao Século XX com suas inovações (não sem antes ter tirado, do baú de arcaísmos do Século XIX, um verdadeiro estoque de “Revivals”), não deixa de ser significativo que Dama Morte tenha usado, como instrumento de execução do arquiteto, um bonde elétrico.
Foi no dia 7 de junho de 1926, no final de uma manhã de verão.
Gaudí foi socorrido por desconhecidos, que tentaram inutilmente convencer quatro taxistas a levá-lo ao hospital. Nenhum deles se dispôs a prestar-lhe tal serviço. O drama terminou quando uma ambulância  transportou o acidentado até ao hospital.
Gaudí chegou in extremis à sala dos primeiros socorros.  
Como não cheirasse a álcool, e estivesse vestido com roupas “que sugeriam pobreza, mas não desleixo”, foi considerado “um daqueles milhares de maltrapilhos que moravam sozinhos nas pensões da cidade”.
Hughes explica:
- Assim, ele foi levado ao Hospital Santa Creu, e deitado num catre de ferro na ala pública. Foi apenas no dia seguinte, quando apareceu gente à sua procura, que descobriram que aquele pobre velhote era o arquiteto mais conhecido da Espanha, Antoni Gaudi i Cornet. (p. 498).
O autor lembra aos leitores que “aquele catalão maluco”, após seu desaparecimento, obteria um renome gigantesco, especialmente de 1960 em diante, quando começou a ser objeto deuma espécie de “culto” pela Contracultura:
- Uma boa manhã em Barcelona em 1966 era puxar fumo no sinuoso banco incrustado do Parque Güell, e depois descer até à cidade para ficar viajando com a fachada da Sagrada Família, sem excluir a longa escalada atordoante dos degraus por dentro de um dos pináculos (na época não havia elevador para os visitantes): alpinismo urbano para o turista chapado.    (p. 500_.
Notemos que Hughes não tem nada de um erudito chato: ele escreve quase tão bem quanto Truman Capote nos seus Ensaios!
Vejam como ele contrapõe, ao ídolo dos hippies, o retrato de um indivíduo que poderíamos qualificar de retrógrado e...até, se preferimos ser descorteses, um carola:
- Antoni Gaudí i Cornet era exatamente o contrário de um subversivo cultural, e todo esse lado do Surrealismo francês – as fantasias revolucionárias, o ódio à Igreja, o amor a Stalin – lhe teria repugnado. E não achava que sua obra tivesse a menor ligação com o plano onírico. Ela se baseava em leis estruturais, tradições artesanais e uma profunda experiência da natureza, da religiosidade e do sacrifício. (Ib. p. 501).
Mais adiante:      
- Gaudí era um católico que acreditava na infalibilidade papal, na autoridade episcopal e na filosofia perene da Igreja. Longe de ter um espírito modernista, a Sagrada Família foi encomendada e projetada como um edifício de repressão mística que expiaria os pecados do Modernismo e os excessos da democracia. Gaudí acreditava convictamente na realidade da Graça e do castigo divino. (Ib. p. 501)
Poderia alguém imaginar que essa personalidade “tradicional” revolucionaria a Arquitetura do Século XX, e continuaria influindo, não só na arquitetura do século XX, como ainda na arquitetura do século XXI?
Gaudí era tão modesto que pedia esmolas nas ruas de sua cidade para poder terminar a construção da Igreja da Sagrada Família. Aceitava, diz Hughes, até uma peseta dos passantes.
Quem teria previsto a paixão futura dos arquitetos japoneses, e da inteligentzia em geral nipônica, por esse artista extraordinário
Sabemos que o famoso templo de Barcelona, que Gaudí deixou inacabado, somente chegou à sua realização final (baseada em desenhos remanescentes, que apenas dão uma difusa idéia das intenções do seu criador) pelo apoio decidido que poderosas corporações do Japão deram a esse projeto.
- (elas) investiram milhões de dólares em dinheiro e base tecnológica no edifício (pois quem domina melhor que os japoneses a simulação do design e o pastiche arquitetônico, a não ser Mike Eisner na Disneylândia (num gesto de relações públicas para promover a imagem de patronos do le beau et le bien)? Os japoneses são doidos por Gaudí-san. Consideram-no o Van Gogh da Arquitetura. (Ib. p. 563).
O autor acrescenta, com uma ponta de bom humour
-Uma coisa é certa: (o templo da) Sagrada Fam[ília é a primeira igreja católica salva pelo turismo xintoísta. Nem Gaudí, que acreditava em milagres, adivinharia isso. (p. 564).
Hughes complementa sua história (e, também, as estórias) sobre Gaudí com outras informações.
Caros amigos aceitem uma sugestão: leiam esse livro atentamente, e procurem penetrar no seu conteúdo, documentado e instigante.
Vale, sem dúvida, mais do que dezenas de best-sellers, e tem a vantagem de preparar, para quem gosta de viajar, um inesquecível tour através de uma Barcelona, que não só cativa os visitantes deslumbrados, mas é capaz de fascinar também visitantes possuidores de razoável bagagem intelectual e artística.
 Qualquer turista distraído, após a leitura do livro de Hughes, passará a ser um turista instruído, condição para se tornar, mercê de um empurrãozinho da Natureza, e outro da Universidade de Salamanca, credenciado turista gozador, turista capaz de embriagar-se, não só com o melhor conhaque da região (seus conhaques são mundialmente apreciados!), mas com o melhor conhaque estético do mundo.
Gostaria de pilhar mais o livro de Robert Hughes, e expor ao leitor, com maiores minúcias, suas descrições e reflexões críticas.
Limito-me a roubar-lhe algumas migalhas a mais, e a sugerir, principalmente aos meus ex-alunos da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, e do seu Instituto de Artes - dos tempos em que me atrevia a iniciá-los nos assombros e prodígios de Mestre Gaudí - que mergulhem nesse livro.
Advirto, porém, que nem sempre coincido com o grande crítico. Mas quem sou eu para divergir de Hughes?
Felizmente para nós, divergir continua sendo um dos inalienáveis Direitos do Homem...
Em vista disso, tentemos fornecer maiores informações sobre Gaudí, pensando principalmente no grande público.
 No livro (p. 502-504), Hughes revela o gosto do arquiteto pelas “formas naturais”, mencionando “trinta espécies de plantas transpostas para a pedra na Igreja da Sagrada Família, todas nativas da Terra Santa e da Catalunha”.
Quanto aos bichos, que inspiraram ao genial arquiteto e decorador Gaudí soluções diversas para a arquitetura e a escultura, Hughes não deixa de prestar-lhes homenagem: são estrelas-do-mar, polvos (Casa Batló e Casa Milá), tartarugas (bases das colunas na Fachada da Natividade da Igreja da Sagrada Família), caracóis de pedra.
O autor destaca, de maneira particular, uma forma estrutural, que teve ampla aceitação nas realizações contemporâneas, tornando-se, para muitos arquitetos, uma “griffe”: as formas hiperbólicas, helicoidais, parabólicas-hiperbólicas e conoidais, que Gaudí aprendeu a amar,e a metamorfosear em instrumento de trabalho:
 - olhando o pai enquanto trabalhava o metal, batendo o ferro e lâminas de cobre, curvando, dobrando e distendendo os materiais, produzindo o milagre do volume e do fechamento a partir da banalidade plana, criando formas à medida que prosseguia, sem as ter desenhado de antemão. (Ib. p. 504).
Hughes retorna à análise de tais formas, ao abordar a Igreja da Colônia de Santa Coloma de Cervelló, às margens do Rio Llobregat, um sonho do industrial Eusebi Güell (1918), que nunca foi completada, pois, com o falecimento dele, os filhos não se mostraram dispostos a  enterrar mais dinheiro no projeto. Na ocasião, a construção não havia ultrapassado a cripta.
O seguinte trecho evidencia a genialidade de Gaudí, e a sua contemporaneidade:
- Não obstante, mesmo fragmentária, a cripta da Colônia Güell é uma das obras-primas de Gaudí, construção que, à primeira vista, parece selvagem e expressiva até o momento em que percebemos a lógica sublimemente empírica da construção que a retira do mundo da mera fantasia e cria em escala minúscula um dos mais grandiosos espaços arquitetônicos da Europa. (Ib. p. 537).
Prossegue Hughes:
- Ninguém na história da arquitetura havia projetado um edifício dessa maneira. As fotos dos modelos de barbantes, que vemos na pequena galeria da Cripta Güell, podem parecer esquisitas e antiquadas, como o candelabro de sonhos de uma velha  tia meio amalucada, mas antecipam em 75 anos uma concepção de projeto que se tornaria possível apenas com a modelagem computorizada (infelizmente, porém, quando o computador iria fazer parte da prática arquitetônica, não havia nenhum novo Gaudí).(Ib. p. 538-539).
Eis Gaudí elevado à Glória de Bernini da Arquitetura, ao lado dos mais talentosos construtores de Catedrais Medievais, de arquitetos como Brunelleschi, Bramante, Palladio, e outras sumidades, até aos pioneiros da Arquitetura Contemporânea, Sullivan, Le Corbusier, Frank Lloyd Wrigth, Mies Van der Rohe, ou Alvar Aalto.
Hughes menciona numerosas inovações de Gaudí:
1) o resgate dos telhados (p.517), hoje universalmente generalizado (Palau Güell e Casa Milá);
2) o emprego das Chaminés ( do qual são exemplos as chaminés e respiradouros” do Palau Güell, onde “não há duas chaminés ou tubos de ventilação idênticos”; e o telhado da Casa Milá, cuja torre é  “uma série de tótens”). (Ibid. p. 524-525).
 3) Para terminar, lembremos uma perfomance histórica do mestre catalão, a que se pode ver no Parque Güell:
- Até onde é possível assinalar o “primeiro” exemplar de qualquer coisa em História da Arte, esta é a primeira colagem, a tentativa inicial de fazer uma obra de arte transpondo objetos independentes para uma nova matriz, mantendo sua identidade original, mas mudando de sentido graças à proximidade com outros objetos. Antecede em muito o Cubismo. É excêntrica e original. Não admira que a caligrafia errante e as palavras soltas nos bancos do Parque Güell tanto inspirassem Miró. (Ibid. p. 548-549).
De quando em quado, Robert Hughes faz referências ao catolicismo sombrio de Gaudí.
Pode-se concordar com Hughes?
O catolicismo – e, naturalmente, a santidade de Gaudi (afirma-se, que ele será beatificado pela Igreja Católica) não é muito atrativo para a mentalidade de hoje. O grande gênio viveru um catolicismo apegado a formas tradicionais, a modelos de piedade que hoje causam certa estranheza.
Mas Hughes não tem razão em caçoar de Gaudí, como o faz quando escreve:
- (...) Gaudí foi menos religioso na juventude do que na velhice – mesmo que isso não queira dizer muita coisa, visto que o próprio Papa dificilmente conseguiria ser mais piedoso do que o velho Gaudí. (p. 511).
Apesar dos pesares, não creio que se possa tachar Hughes de irreverente. Ele parece rir-se, embora com amabilidade, do grande arquiteto, como às vezes sorrimos de velhas tias, quando queimam ramos de palmeira, guardados da Procissão do Domingo de Ramos, sobretudo em ocasiões em que as tempestades rugem com violência, e os raios parecem divertir-se na escuridão das nuvens com seus arabescos mortíferos...
Baseado num depoimento de Domènech i Montaner, o autor diz que Gaudí chegou a pertencer, quando jovem, a uma tertúlia anticlerical, embora muitos catalães não admitam tal depoimento, considerando-o difamação, ou “fofoca de arquiteto concorrente”.
É possível, também, que muitos católicos se recusem a admitir os arroubos socialistas do velho Mestre. (p. 511).
Tive um mestre na Universidade de Fribourg,na Suíça, na década de 60, o Professor Don Ramón Sugranyes de Franch que me ministrou cursos sobre literatura espanhola. Don Ramón era filho do arquiteto assistente de Gaudí, Domènech Sugranyes i Gras, o qual colaborou com o Mestre, não só no projeto da Igreja da Sagrada Família, mas também na Casa Milá.
 Nas conversas que tive com Don Ramón, perguntei-lhe sobre Gaudí. Don Ramón contou-me algumas coisa a respeito das relações entre seu pai e o arquiteto. Don Ramón referia-se a Gaudí com veneração.
Dedico, pessoalmente, igual veneração a Gaudí. Considero-o um dos grandes católicos do século XX, e não ficarei surpreendido se ele for proposto, pelo magistério da Igreja, como modelo de seguidor do Evangelho de Cristo.
Aceito, porém, com algumas restrições as críticas de Hughes às esculturas da Fachada da Paixão (da Igreja da Sagrada Família), que não são da autoria de Gaudì, mas de Josep Subirachs. Foram feitas nas décadas de 1970 e 1980.
Não tenho condições para opinar sobre o acabamento póstumo da Igreja da Sagrada Família. Muitos arquitetos pensam que não se devia completá-la. O autor de Barcelona pronuncia-se contra isso:
-(...) a nova obra – diz ele - está se tornando como que um imenso simulacro, uma cópia inerte de um “original” inexistente.” (p. 577).
Na época em que Hughes  escrevia seu livro,o templo não havia sido concluído.
Acho, contudo, excessivas as críticas de Hughes a Subirachs. No fundo, esse escultor continuou a produzir imagens “à moda de Gaudí”, já que as esculturas originais do Mestre, e as esculturas posteriores de Subirachs, não são tão diferentes como se poderia pensar:
-Todas são clichês piedosos, tão ruins quanto os Cristos e as Nossas Senhoras da bondieuserie que a vila manufatureira de Olot exporta aos milhares para a América Latina.(p. 578).
Com um pico de rabugem, ao estilo de Machado de Assis, o crítico completa:
- Mas ficam bem nas fotos, pelo menos quando são fotografadas sem atenção, e conferem à Fachada da Natividade sua textura ondulante sob os raios oblíquos da luz.“
Na minha opinião, nós, os católicos, deveríamos levar a sério a seguinte observação de Hughes:
- Futuros historiadores da arte certamente a apontarão (a Fachada da Sagrada Família) como o exato momento que a arte sacra pública da Europa católica morreu por falta de coisa melhor para fazer, quase duzentos anos depois de ter começado. (Ib. p. 579).
É um réquiem um tanto radical, é verdade, desde que nos decidimos a analisar algumas obras de arte pública, de inspiração católica, que se fizeram no século XX, como  - por exemplo – a Capela de Matisse, em Vence.
Em termos gerais, podemos concordar com Hughes:
- Na Catalunha como no resto do mundo, não é muito prudente superestimar o gosto do público que freqüenta igrejas. (Ib. p. 579).
O fato básico é que necessitamos de novos Giotto, de novos Fra Angélico, e também de poetas e ficcionistas, crentes de verdade, que, sem inflar o peito, possam expressar o que experimentam no segredo de seus corações, não só os católicos contemporâneos, mas todos os cristãos que se dispõem, a despeito de sua precariedade, a completar a Paixão de Cristo e, de modo especial, a completar sua Ressurreição.  

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