quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Convite II a ler o livro de Robert Hughes: Barcelona.

Inicio este texto, reiterando o que escrevi no primeiro da série: algumas biografias, aparecidas nas últimas décadas, tanto no exterior como no Brasil, podem ser comparadas aos melhores romances da atualidade.
Em tempo: os biógrafos aperceberam-se de que não bastava ao historiador dispor de copiosa documentação, para elaborar um relato capaz de interessar os leitores contemporâneos.
Eles compreenderam que, ao historiador, é-lhe necessário imaginação, e eros cultural, para que possa conferir aos dados históricos palpitação, de modo a que o biografado seja situado na sua época - não como personagem de um Museu de Cera de Madame Trussaud - mas com um corpo real, em cujas veias circule o sangue físico, que lhe afogueava o rosto de criatura viva, e o sangue psíquico, da mente e do coração, que lhe inflamava os pensamentos e a afetividade.
Robert Hughes consegue tudo isso na sua biografia da cidade de Barcelona.
O livro proporciona uma sorte de experiência quase anatômica das realidades de espaço e tempo, relativas à cidade, e oferece outra experiência, mais paradoxal ainda: a de realidades liminais e subliminais, de significado histórico, mítico, religioso, intelectual, e estético, existentes nessa terra de prodígios.
O livro divide-se em duas partes: a Cidade Velha e a Cidade Nova.
Na primeira parte, da página 67 à página 271, o autor descreve o nascimento de Barcelona, suas origens greco-fenícias, o período romano, que rememora as lutas de Roma contra Cartago, a quem ela tomou as possessões na Espanha para impedir o abastecimento ao exército de Aníbal, a fundação de Tarragona (a cidade da península ibérica mais rica em ruínas de construções), e traz dados sobre surgimento do Cristianismo espanhol, por volta do ano 300 d.C., quando foi martirizada a jovem Eulália, que se tornaria a padroeira da cidade.
 Com certo vagar, Hughes trata a invasão árabe que se estendeu a quase toda a Espanha, mas que foi detida pelas tropas de Carlos Martel em Poitiers, no ano de 732 d.C. Reporta-se ao conhecido desastre da retaguarda de Carlos Magno, em Roncesvalles, em 778 d.C, que deu origem à Canção de Rolando.
Em continuação, o autor expõe a saga do Marquês Guifré, o Peludo, iniciador da dinastia dos Condes-Reis de Barcelona, cujo poder iria findar com a anexação da Catalunha à monarquia de Fernando II, o Católico(1452-1516), casado com Isabel de Castela. A partir dessa data, a Catalunha integra a realidade geográfica e histórica da Espanha.
Nessa primeira parte, é oportuno ressaltar as páginas que o autor dedica à pintura mural da Catalunha, cujos afrescos dos séculos XI e XII constituem a glória do Museu da Catalunha. (Ib.p. 101 ss).
A análise de Hughes merece cuidadosa atenção da parte dos interessados em Arte. Suas observações sobre “la mirada fuerte” das imagens do Pantocrator, como o de São Clemente de Tahull, pintado em 1123, e dos  Serafins, que os acompanham, são as de um observador de altíssimo nível.
Hughes anota que um dos Serafins da Arte Românica da Catalunha mostra “mais de 30 olhos, trinta nas asas, dois no rosto e mais dois para as palmas das mãos” (p. 105). Chama a atenção para a famosa “Mão sem Corpo”, que simboliza a transcendência de Deus Pai.
A perspicácia do autor não o deixa esquecer que, sem a influência dessa pintura mural, Joan Miró e outros artistas não seriam compreendidos.(p. 107).
Impossível resumir a riqueza das suas descrições sobre o feudalismo nessa região, e a importância do culto que na Catalunha sempre se dedicou à Casa Pairal.
Descreve a expansão do domínio de Barcelona sobre as Ilhas Baleares e a Sardenha. Tal domínio iria consolidar o poder marítimo da cidade durante séculos, viabilizando um comércio com o Oriente apenas comparável ao de Gênova e Veneza. Revela até que ponto Barcelona negociou com as especiarias, importadas das cidades levantinas (Constantinopla, Beirute, Alexandria), e comenta a amplitude desse comércio com o Norte da África.
A secção conclui-se com um texto curiosíssimo, o  Elogi dels Diners (“ O Elogio ao Dinheiro) de Anselm Turmeda (1352-1425), magnífica defesa da plutocracia, que poderia ser aplicada, quase sem retoques, aos agiotas dos nossos tempos:

Dinheiro, do erro faz verdade,
e do juiz faz advogado,
faz sábio o amalucado,
desde que o tenha.

Dinheiro faz bem, dinheiro faz mal,
dinheiro faz o homem infernal,
e o faz santo celestial,
segundo o uso.

Dinheiro alegra as crianças,
e faz cantar os capelães
e os frades carmelitas
nas festanças.

Dinheiro, então, deves conseguir.
Se o podes ter, não o deixes ir:
Se muito tiveres, poderás ser
Papa em Roma.
(Ib. p. 130).

O autor revela que a Bolsa de Valores, em operação mais antiga da Europa, é a Sala de Contratos da Llotja de Barcelona” (p. 130 ss).
Traz interessantes esclarecimentos sobre o desenvolvimento das transações comerciais na época, e deixa claro que os anais da cidade transbordam de delitos, que em nossa sociedade são cotidianos. (p. 139).
Bom espaço do livro é consagrado a um personagem excepcional, Ramon Llull (1235-1316), nascido em Palma de Maiorca: “libertino, poeta amoroso, estudioso, místico, filósofo, homem de ação e missionário”, um dos homens mais cultos doos séculos XIII-XIV, que falava seis línguas, inclusive o árabe.
Llull foi o primeiro europeu cristão a dialogar com o Islamismo, que ele sonhava converter ao Cristianismo. Para isso elaborou a Ars Magna  ou Ars Compendiosa Inveniendi Veritatem (A Grande Arte ou A Arte Completa de Descobrir a Verdade).
Impossível dar uma idéia da massa de informações que o autor fornece aos leitores sobre a tradição cultural catalã, na qual destaca um poeta excepcional, Ausias March (1397-1459), predecessor de San Juan de la Cruz , de John Donne, e de Gerard Manley Hopkins. (p.152-156).
Excepcionais, igualmente, suas observações sobre a Catedral de Barcelona, e sobre outros monumentos góticos da cidade.
Essa primeira parte conclui com a chegada das tropas de Napoleão a Barcelona, e as devastações arquitetônicas que se seguiram durante os seis anos de ocupação francesa, quando conventos e mosteiros foram usados como alojamentos, depósitos, e estábulos.(p. 227ss).
A segunda parte do livro, A Cidade Nova, propõe-se a descrever o que aconteceu na Catalunha após 1848, o “Ano das Revoluções”. quando a Europa, consoante a expressão do autor, “parecia arder em transformações radicais”.(p. 275).
Foi a época do boom da indústria têxtil: “Na metade do século, a Catalunha era o quarto maior produtor mundial de artigos de algodão, depois da Inglaterra, França e Estados Unidos”. (p. 278). Era a época, também, das primeiras experiências de Socialismo, como o do francês Étienne Cabet (1785-1856), que recebeu influencias de Charles Fourier (1772-1837).
 Cabet, o visionário, publicou um livro bizarro, inspirado no Sermão da Montanha de Cristo: Uma Viagem a Icária (1839). Esse livro inspirou a fundação, perto de Nova Orleans, nos Estados Unidos, de uma cidade utópica, que terminou num fiasco, como também terminou em fiasco a Icária II, refundada em Nauvoo, Illinois, por volta de 1853.
O autor encontra tempo de narrar a aventura de Narcis Monturiol, inventor do submarino catalão.
 Se o leitor quiser divertir-se, tanto quanto pode fazê-lo lendo as aventuras do Capitão Nemo em Vinte Mil Léguas Submarinas, de Julio Verne, leia as páginas que o autor dedica a Monturiol. ( p. 286-294).
A presente exposição dessa segunda parte do livro destina-se a suscitar - nalgum apaixonado turista - a idéia de mergulhar a fundo no universo de cidade tão atraente e rica em episódios culturais.
Deixo, para o próximo texto, meus comentários- sobre Antoni Gaudi, o genial arquiteto do “Modernismo Catalão”, com cuja trajetória o autor encerra a esplêndida biografia de Barcelona.

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