quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Convite I a ler o livro de Robert Hughes: Barcelona.

Talvez hoje se fale excessivamente em qualidade de vida.
O debate sobre esse lugar-comum é uma prova de que a qualidade de vida se está trivializando. Sempre que martelamos o tema saúde, é porque, ao pé de nós, ou à nossa volta, alguém caiu fulminado por uma doença grave.
Uma questão, porém, não deixa de se impor: o que se deve entender por qualidade de vida?
Existem padrões da Unesco para medi-la.
Um dia desses, li o seguinte trecho, escrito por um competente engenheiro a respeito do metro :
-Pode-se dizer que Laplace e Condorcet quiseram abraçar o mundo com as pernas. E o resultado final das medidas foi um padrão metálico, guardado em Paris, e que nas verificações subseqüentes ficou provado não ter, dentro de cinco casas decimais, a perfeita definição dos geodesistas. Ficou sendo um mero bastão de origem duvidosa. (Gustavo Corção. Três Alqueires e Uma Vaca. 6 ed. Rio de Janeiro, Agir Editora, 1961. p.49).
Cito esse texto porque nenhum de nós deseja ser enganado.
Et pourtant... todos somos enganados, praticamente todos os dias.
Pelos jornais, pela televisão, pela Internet.
É preciso abrir os olhos, meditar - quase glacialmente - sobre as palavras de Jesus:
- Sede simples como as pombas, e astutos como as serpentes.(Mateus 10, 16).
Quando li essa advertência de Jesus, pela primeira vez, fiquei aturdido.
Hoje, fico impressionado com o conhecimento que Jesus tinha sobre a natureza humana.
Digo mais: para provar a um herege como o foi Nestório no século V, que Jesus foi realmente homem, bastaria tal advertência. Só um Homem, totalmente identificado com a natureza humana, poderia proferir tais palavras. Jesus conhecia as pombas, as serpentes, e os homens (os quais, afinal de contas, oscilam entre os dois bichos).
Não escreveríamos tais palavras se não nos tivesse caído nas mãos um impressionante livro de Robert Hughes.
Antes de mais nada, uma observação: a melhor literatura que se está fazendo no Brasil, e no mundo, parece ser, não a de ficção, mas a literatura de autores que, cansados de ser embaídos, sacaneados, e aviltados, resolveram abrir o jogo, e contar-nos algumas coisas e experiências que eles sabem que não são divulgada pelos meios de comunicação.
O livro Barcelona  (São Paulo, Companhia das Letras, 1995, tradução de Denise Bottman), desse ponto-de-vista, é uma divertida caixa-de-surprêsas.
O autor, nascido em 1938, é um australiano que se transferiu para a Europa em 1964, e acabou sendo contratado como crítico de arte da Revista Time, de New York.
Na sociedade em que vivemos, uma vez que tudo nela se paga, paga-se também o “direito” de sermos enganados!
Poucos, dentre os que poderiam dizer-nos a verdade, dispõem-se a remar contra a corrente. O elogio, a troca de favores, a propina, não permitem que ao cidadão seja revelado o que realmente ocorre.
Antigamente, a ficção era o reduto da verdade. Ler um romance era saber algo do que acontecia. Os ficcionistas desejavam saber! Por isso, metiam-se pelas costuras dos trajes masculinos e dos vestidos da Alta Costura, como a agulha de Machado de Assis.
Dizia a Agulha à Linha:
-(...) Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...
Com o passar do tempo, o miserê obrigou os ficcionistas a remar a favor da corrente. As grandes tiragens proporcionam mais dinheiro que as grandes verdades.
São os que escrevem biografias (em especial, as investigativas, e politicamente incorretas), tanto de indivíduos como de cidades (é o caso de Barcelona), que nos revelam a “essência” dos fatos.
Tais biógrafos desmascaram as pessoas, despojam os acontecimentos de suas longas caudas-de-cometas, e não detraem nem difamar os poderosos deste mundo, mas, justamente, dedicam-se a denunciar os mecanismos ideológicos, pseudo-religiosos, sócio-econômicos, e até estéticos, de que eles se servem para a enganação geral da sociedade.
O livro Barcelona, que inicialmente julguei ser um guia turístico, está me parecendo algo assombrosamente verdadeiro – se não pelas informações que o autor fornece sobre a cidade e as regiões circunvizinhas, ao menos pela sinceridade e documentação do autor.
O australiano é um ótimo escritor. A descrição, que parcialmente reproduzimos, que ele faz no seu livro sobre os travestis de Barcelona, é digna de um romancista:
- Os carros passam devagar, aos solavancos nos buracos, fazem a volta e passam de novo. Variam de pequenos Renault amassados a grandes Mercedes. As rodas levantam uma nuvem amarela de poeira, que fica pairando no ar. Os faróis atravessam o pó projetando longas sombras negras de estátuas humanas. É muito raro que um carro pare, e aí uma das aparições, depois de um minuto de negociações, entra. Mas a maioria dos automóveis continua circulando. Os motoristas estão aí para olhar, não para comprar. É um teatro de rua curiosamente puro, um tableau vivant em que o público se move, e os atores ficam parados. Mas o teatro parece retroceder a um ritual: em sua fantástica incongruência, os travestia, recriados por pílulas e bisturis, raspados, emperucados, depilados, com cremes, ruges e apetrechos dignos de uma Marlene Dietrich,e se expondo às luzes dessa ribalta de concreto encardido e deteriorado, os travestis da Via Litúrgica, parecem fantasias saídas de um passado pagão, como imaginaria Beardsley ao ilustrar o Satiricon de Petrônio, soberbas Messalinas pré-cristãs e pós-modernas”. (p. 58).
Detenhamo-nos, em especial, sobre uma observação do autor:
- São também uma metáfora extrema da atual obsessão da cidade. Estão no limite, por assim dizer, do design catalão. Na devoção sacrificial com que se entregam a ele, são o que há de real, representando o ser autenti c da luta de Barcelona para se reinventar. Se um dos símbolos do turismo de massa em Londres é a troca da guarda, o de Barcelona é a troca do corpo.”(p.58).

Nesse fragmento, parece-nos entremostrar-se o lado humano do autor.
Mas o que mais nos impressiona é o desmascaramento que Hughes realiza de ícones midiáticos, um dos quais ele denunciar: o arquiteto Ricardo Bofill.
Nenhum jornalista seria capaz de fazê-lo!
 Só um homem da cultura, e com vivência nos círculos da society, poderia empreender tal crítica.
Previno os leitores de que não aprecio defenestrações, invejosas, nem lapidações gratuitas.
Por outra parte, os meios de comunicação, devido a interesses comerciais e publicitários, estão inclinados a supor que todos ignoremos as estratégias tortuosas da Arte Contemporânea.
Sempre me senti mal na presença desses superstars. Por uma razão: canonizações apressadas não produzem santidade, apenas erguem biombos decorativos à hipocrisia.
A avaliação, que Robert Hughes, faz da trajetória de Bofill, aponta um exemplo disso.
Mesmo que Hughes estivesse errado na sua avaliação, continuaria a admirá-lo. Ele faz tudo, não só para não se deixar enganar, mas também para que o público não seja enganado.
Vejam:

- Ricardo Boffil apareceu no final dos anos 60 com grandes teorias sociais. Era o homem certo para a esquerda divina, com idéias coletivistas envoltas pela pose autoritária do Demiurgo que conhece as necessidades do Povo. Sua primeira grande obra, uma série de apartamentos modulares em azul-cobalto, numa elevação acima de Sitges, parecendo um daqueles jazigos de gaveta num cemitério, foi erguida em 1966, e em 1969 foi oficialmente reconhecida como uma ruína, condenada por ser estruturalmente perigosa para morar.

Fixemo-nos num outro projeto residencial de Boffil, o destinado aos operários do subúrbio industrial de Sant Just Desvern:

- Ele o batizou de Walden Seven, seguindo o exemplo da Utopia de condicionamento social proposta pelo psicólogo conportamentista B. F. Skinner.(...) O prédio foi amplamente saudado como emblema da renovação de Barcelona depois de Franco e Porcioles – vejam o que a esquerda pode fazer para o povo oprimido pela monotonia dos blocos industriais! (...) Naturalmente, nem seus defeitos nem a insatisfação dos moradores apareciam nas inúmeras fotos de Walden Seven publicadas nas revistas de arquitetura. Nem perturbavam a serenidade autocrática de Bofill, que em 1978 declarou num texto de sua própria autoria, Arquitetura e Homem (publicado, talvez, por prudência, em francês e em Paris), que as pessoas que tinham a sorte de morar em Walden Seven se sentiam:
emocionadas de participar de uma experiência original, porque se sentem diferentes dos outros, porque vivem num lugar extraordinário que podem se orgulhar dele (...) A discussão sobre Walden Seven é séria, porque só agora os seus moradores tomaram consciência de que são, em certo sentido, os pioneiros de uma experiência (sabem que podem protestar, objetar, gritar, mas não podem mudar nada. Têm apenas uma escolha: ficar ou sair.
 Eles quiseram modificar o edifício para torná-lo convencional. Mas não o conseguiram: a presença do lugar, a organização espacial são fortes demais.” (p. 62).

Hughes acrescenta às palavras de Bofill a seguinte patética exclamação:

- Engulam essa, donas de casa!
(Ib. p. 62).
O autor termina sua análise, apresentando novas objeções ao Novo Terminal Central para o Aeroporto da cidade, em El Prat de Llobregat.
Encerrando sua análise, Hughes diz:
- Tais são os perigos do herói cultural. (Ib. p. 64).
Admito que é preciso ler o livro de Robert Hughes com perspicácia.
Nem tudo o que ele escreve pode ser admitido sem restrições.
Sal – dizia Jesus – é o que deveis ter! (Evangelho de Marcos, 9, 49).
Uma lição, porém, Hughes nos dá: mão nos deixemos fascinar pelas megalouvações!
Bach (1685-1750) precisou de séculos de para ser descoberto. O mesmo aconteceu com o pintor Vermeer (1632-1675).
Tenhamos o bom senso de reservar décadas de silêncio aos nossos ícones.
Ou então: aceitemos os elogios delirantes de hoje com o sal que Jesus nos aconselhava.

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