sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A Feira do Livro de Porto Alegre (II).

        No dia 4 de setembro de 2011, o repórter Eduardo Lago, do diário El País, entrevistou a Harold Bloom, tido pelo mais perspicaz e mais sensível dos críticos literários dos Estados Unidos. Há escritores que o consideram, até, “o crítico literário mais importante de nosso tempo”, por ter sabido encontrar o caminho para chegar ao grande público, sem abrir mão de sua portentosa sabedoria, e sem renunciar um ápice às suas exigências de qualidade.
Bloom acaba de completar 80 anos.
A entrevista de Bloom vale a pena ser divulgada, principalmente quando nos preparamos para uma nova Feira do Livro.
O ensaísta começa afirmando:
- Para mim, ler é a única maneira de dar sentido à vida. Mediante os livros, estendo uma ponte a milhões de leitores autênticos de todo o mundo, leitores que, contra ventos e marés,embora os tempos sejam terríveis para a verdadeira literatura, se negam a renunciar a ela.

Penso que se pode ver exagero na declaração sobre o hábito da leitura: seria ela a única maneira de dar sentido à vida? Existem, creio eu, outras maneiras: dedicar-se à família, auxiliar o próximo, praticar o voluntariado, trabalhar, não só para sustentar-se, mas também para aumentar a riqueza que deve ser distribuída...
Admito, porém, que Bloom tem o direito de confessar que, para ele, é essa a única maneira de dar sentido à vida.
Bloom prossegue, dizendo que lhe agrada dialogar com leitores dissidentes, isto é, com leitores que não se deixam fascinar pelos autores de best-sellers como J. K Rowling ou Stephen King, os quais conduzem seus seus leitores ao oceano gris da Internet:
- Atualmente, deixou-se de lado toda exigência estética e cognitiva, características da grande literatura. A literatura imaginativa, tal como foi cultivada por Shakespeare, Cervantes, Dante e Montaigne capitulou perante a baixeza da lista dos mais-vendidos.(...) São anos que luto contra essa decadência. Sei que se trata de uma batalha perdida.
O professor, todavia, não desanima. Aos oitenta anos, segue dando cursos na Universidade de Yale:
- Escrevo agora uma peça de teatro sobre Walt Whitman. O que sei é que continuarei lecionando e escrevendo até minha morte. Também elaboro um livro sobre Herman Melville, e sobre quatro poetas norte-americanos: Emily Dickinson, Wallace Stevens, Wal Whitman e Hart Crane. Tenciono escrever minhas memórias literárias, que espero concluir antes de morrer
A uma pergunta do jornalista sobre suas preferências, em relação aos romancistas americanos da atualidade, respondeu:
      
- Aprecio,de modo especial, Philip Roth, Don DeLillo, Cormac McCarthy e Thomas Pynchon, talvez o melhor de todos eles.

Depois de confessar que sabe de cor inúmeros poemas, Bloom conclui:

- Tenho intenção de seguir lendo vida afora, enquanto houver em mim um sopro de vida!
O crítico e ensaísta confirmou ao repórter ter lido 120 vezes o Conto da Barrica, de Jonathan Swift, e de não saber quantas vezes releu A História do Declínio e Queda do Império Romano de Edward Gibbon, que segundo ele, poderia intitular-se: Declínio e Queda do Império Americano - tais as semelhanças que existem entre a obra-prima de Gibbon e a atual situação da América do Norte.
Segundo o ensaísta americano, o livro de Gibbon deveria ser obrigatório para qualquer estudante de seu país.
Julgo que se deve reconsiderar certas observações de Bloom, especialmente as que dizem respeito ao excesso de best-sellers no mercado. Participo do seu pessimismo a respeito disso. O público, não. O público reluta em em autocriticar-se. É como falar mal de cachorros-quentes a uma sociedade que está, cada vez mais, escorregando para uma opulenta obesidade!
Agora, uma pergunta; terão os leitores ouvido falar de Miguel de Unamuno (1864-1936)?
Don Miguel foi um excepcional filósofo, romancista, dramaturgo e poeta espanhol.Tornou-se conhecido por seus estudos sobre o Dom Quixote, Cervantes.
Seu livro: Del Sentimiento Trágico de la Vida(1913) é considerado um dos livros precursores da Filosofia Existencialista.
Os críticos, porém, quase que com unanimidade, preferem destaca-lo como um dos maiores poetas da literatura castelhana.
Graças às minhas buquinações em sebos, veio a cair-me às mãos uma coletânea de textos jornalísticos de Unamuno, com o título: De Esto y de Aquello.(Tomo II. Buenos Aires, Editorial Sudamericana, 1951).
Num dos textos, incluídos nessa coletânea, El Modernismo, que foi publicado pela primeira vez em Paris em maio de 1907, deparei com reflexões estimulantes sobre a leitura.
Unamuno principia por denunciar certa hipocrisia, camuflada nas declarações dos auto-intitulados intelectuais:

- Que é que nossos literatos lêem? Só literatura, nada mais! Por isso, também, fazem teatro de teatro, romance de romances, e lirismo de lirismo.(Ob. Cit. p. 145).
O mordaz vasco censura-lhes não se interessarem por ciências, história da religião, filosofia, grandes poetas:

- Estão a par do último autor que apareceu, porém ignoram Homero, Dante, Shakespeare, Virgílio, Goethe, Wordsworth, Corneille, Lamartine.(Ib. p. 145).

Critica-os por não se interessarem por leituras “que exigem esforço”:

- Quem lê Platão. Sêneca, os Padres da Igreja, Bacon, Spinoza, Descartes, Locke, Hume, Kant, Stuart Mill, e tantos outros, cujas obras constituem o legado perpétuo da linhagem humana?

Lembra que a leitura predileta de Beethoven era Platão!A alguém, que perguntava ao autor das Nove Sinfonias por que tanto interesse pelo filósofo, ele respondia:

- Porque música se faz com o espírito, e Platão contribui para alargá-lo! (Ob. Cit. p. 146).
Unamuno diz que se deve distinguir cultura livresca de horror a livros substanciosos. Insiste em que não se trata de apaixonar-se pela bibliofilia, mas de amar a leitura de livros como veículos de cultura. Os livros ensinam, inclusive, a ver a Natureza!
Outro ponto que Unamuno satiriza é a paixão por resenhas literárias. Já não se lêem livros, mas notícias de jornais sobre livros.
Penso que, sem trair Unamuno, pode-se dizer: hoje se lêem orelhas-de-livros. (Ob. Cit. p. 146-147).
Por fim, o autor de A Tia Tula insurge-se contra os próprios aficionados à leitura, visto que grande parte deles lêem mal.
O escritor verbera a mania de se ler apenas sucessos literários, ou livros que estão na moda.
Num determinado trecho de sua diatribe, recorda que até Nietzsche, grande poeta, não é lido por suas qualidades de genial escritor, mas porque se extravia em afirmações problemáticas, que são aceitas acriticamente por seus leitores:

- Alguns, diz Unamuno, apreciam Nietzsche somente por seus ataques ao Cristianismo.(Ob. cit. p. 149).

Abstraiamos da acidez dessas críticas.
Um homem emocionado sempre peca por exageração. Unamuno, às vezes,incide nessas demasias.
Evitemos, todavia, embaciar a lucidez de sua sátira.
O que está em jogo, na questão da leitura, é a inapetência do público pela literatura exigente, pelos clássicos que não pactuam com gostos fáceis.Um clássico, para dizer, a verdade, tem a vantagem de já ter morrido. O que ele disse, ele o disse para si, ou eventualmente para os outros, porém já blindado contra a gritaria e os insultos idiotas.
Um livro pode ser deixado de lado, até pode ser contestado, mas não se pode privar homem nenhumde dizer o que lhe vai na alma, o que sente no mais íntimo de si.  Mesmo que se equivoque.
O mal da literatura da atualidade é o marketing, a impostura, o jogo mercadológico, o compadrismo de sala-de-redação, as antipatias ideológicas.
       Amigos, aproveitemos a Feira do Livro de Porto Alegre de 2011, para descobrir os grandes clássicos.
       Quanto a mim, vou ver se me atualizo em relação à ficção americana, lendo, por exemplo, o autor que Harold Bloom  mais valorizou na sua entrevista: Thomas Pynchon.

A Feira do Livro de Porto Alegre (I).

I.

Há uma estação do ano em Porto Alegre, que sempre me deu a impressão de ser uma estação mentirosa. Apresenta-se, porém, com os requisitos de uma estação verdadeira.
         Quase que de súbito, a primavera agride-nos com céus lavados, a esbanjar esplendores, e até, de quando em quando, a espalhar pelos ares borrifos de água, como se o jardineiro celestial estivesse regando as nuvens e, na ausência destas, decidisse acionar lanças-perfumes sobre eventuais distraídos nas ruas da metrópole.
O início, sempre, é promissor: temperaturas  com uma viração a arejar-nos os rostos, à moda de um leque de odalisca.
         Mas esperem!
        Num abrir e fechar de olhos, as brisas são substituídas por rajadas, como se uma quadrilha de ventiladores grevistas-resolvesse dar os ares de suas graças, ou de suas des...graças. As nuvens, que exibiam caras de ovelhas, transformam-se em assustadoras manchas, que rosnam como lobos famintos.
Em que se transforma a estação das flores?
Numa estação de vassouras a varrer calçadas. pátios e praças.
Nao me venham com parolagens macias, a defender tais perfídias!
         O Érico Veríssimo, que tinha o olhar sereno dos índios, dizia a quem quisesse ouvi-lo:
         - A verdadeira primavera no Rio Grande do Sul acontece no outono! O outono é a nossa primavera.
         Sempre concordei com o Mestre, e continuo dando-lhe razão.
          A favor da mentirosa estação das flores, sou obrigado a creditar-lher méritos. É a temporada dos precoces limoeiros, que se adoçam com flores brancas. Quase imediatamente, eles fazem acompanhar por ipês roxos e amarelos.Aos quais, depois de algum tempo, sucedem os cinamomos, sem dúvida descendentes dos aromáticos espécimes que a Bíblia celebrou em páginas de uma elegância quase erótica.
        Meus caros, ocorre nesta cidade um verdadeiro prodígio: a aparição dos jacarandás na Praça da Alfândega! Não só lá, mas em toda a parte, com outros duzentos, quinhentos, e até mil colegas vegetais.
Nada que se possa comparar a eles!
A não ser, é claro, em determinados anos, a explosão das paineiras, entre março e abril, quando os dias são doces como um favo, e um friozinho travesso se infiltra nas suas costuras, com um ar de que nasceu antes do tempo!
         Outro evento, também, redime a primavera gaúcha de suas rabugices, de seu mau humor, e até de sua sua volatilidade de moça bonita, e narcisista.
         Já sabeis de que se trata: da FEIRA DO LIVRO!
         É hora, pois, de manifestarmos um comovido agradecimento aos que tiveram a idéia de criar essa criatura, que acabou por se tornar a beldade mais deslumbrante da Capital.
Já se escreveram livros sobre ela, mas com,o a verdade é que brasileiro tem breve memória, se é que a tem, quanto mais se escreve sobre seus iniciadores, mais são esquecidos!
A Feira do Livro foi uma invenção, que se concretizou no ano de 1955, resultante do esforço de cinco apaixonados.A alguns chamaria de “gênios da leitura”:  o jornalista, vereador Say Marques, na época Diretor-Secretário do Diário de Notícias;o intelectual da velha cepa, escritor sem livros, Maurício Rosenblatt; o livreiro, e nas horas livres, político,   Mario de Almeida Lima, pai de um dos fundadores da LPM Editores.
Seja-me, enfim, permitido completar o terceto com duas personalidades da indústria livreira no Rio Grande: o primeiro, o fundador da Sulina, indivíduo alto, esguio, sempre prestes a ajudar alguém a recolher no chão os cacos um copo que se espatifou, num coquetel, a socorrer um pobre ou rico-diabo que decidiu desmaiar numa reunião, a anular-se, atrás de qualquer celebridade aceita, ou fictícia, contanto que a festa vá até à champanhe: o Sr. Leopoldo Bernardo Boeck, que não era (ao que me consta, fanático pela leitura, mas homem culto à sua maneira; e – mais que tudo - ser humano notável, que timbrava em revelar-singular honestidade. Recordo-me dele com  uma espécie de fraterna ternura! O segundo chamava-se Henrique D’Ávila Bertaso, e era “o Capitão do Barco” da Editora Globo, de acordo com a perfeita expressão de Mario Quintana, o homem de quem, ocasionalmente, se registrou com sentido de humor, que avançava recuando.
Havia outros, igualmente dedicados, que integravam o grupo dos carregadores de piano, como o Sétimo Luizelli, o Abrão Orgler, o Raul Caminha, o Ernani da Costa Nerva, o Egon Poëter, o Vitor Piazza, o Hélio de Castro, o Augusto Carneiro, o Nelson Boeck (irmão de Leopoldo), e o Edgardo Xavier.
Desaire real seria omitir o nome do jornalista do Correio do Povo, destacado para fazer a cobertura da primeira Feira do Livro: Carlos Reverbel, intelectual gaúcho que fingia não o ser, sobre o qual Cláudia Laitano publicou um interessante livro.
Merece ser comemorado à parte um português, do qual atualmente nunca se fala, que teve papel decisivo na primeira Feira: Ruy Diniz Netto.
Aos que tiverem interesse em conhecer a história da Feira , recomenda-se a leitura da publicação de Paulo Bentancur e Joaquim da Fonseca: A Feira do Livro de Porto Alegre. Quarenta Anos de História, patrocinadas pela Câmara Rio-Grandense do Livro, em 1994.
A Feira do Livro criou, de lambujem, alguns personagens,entre os quais o imorredouro  xerife,Júlio La Porta, sobre cujo jazigo (oh, que ele esteja o mais longe possível do Júlio, e de todos nós!) deverá jazer também, um dia, a estridente sineta do dono.
Por falar em voz, quem não sabe que a Voz das Feiras, até pouco anos atrás, era a Nóia Kern, locutora oficial do evento?
Nóia, deixaste saudades!
Poderíamos falar de muitas coisas, de incidentes, de fenômenos metereológicos, os tais mini-tufões, que enxotamavam os livreiros para as tocas da praça, deixando barracas e estantes entregues à violência taurina dos elementos...
Quanto a mim, prefiro fixar-me numa cena que sempre me deliciou: encontrar Mario Quintana atrás de uma barraca, sentado, a ler, aceitando que lhe chovessem sobre a cabeça minúsculos cachos de flores-de-jacarandá...
Gosto, ainda, de lembrar o Bar, ou antes, a Praça de Alimentação das antigas - e das recentes Feiras – onde sempre é possível reencontrar velhos amigos, e estabelecer novas amizades. Foi ali que, um dia, bati um buliçoso papo com um indivíduo exótico, mas de cultura e talento excepcionais, o Décio Pignatari.
Foi ali, também, onde certa vez, na companhia de José Clemente Pozenato, conversei sobre aspectos poéticos de sua tradução dos sonetos de Petrarca, tradução que ficou a meio caminho – como ficou a meio caminho a candidatura do autor do Quatrilho ao Patronato da Feira! Se há alguém, no Rio Grande do Sul, que merece ser investido dessa função é o Pozenato! Ele - e se ainda der tempo - o Sérgio da Costa Franco, o Tabajara Ruas, a Maria Carpi...
É meu dever recordar a figura de um livreiro, que sempre se destacou – como o André da Nova Roma - como um dos mais discretos, senão o mais discreto, –de quantos livreiros, e  incentivadores da Feira me foi dado conhecer: José Pereira Rodrigues, pai de uma turbinada funcionária da organização da Feira, a Jussara.
Por falar nisso, aproveito para falar de outras competentíssimas companheiras de de equipe, todas elas gentis e de uma cortesia digna da Corte de Alienor de Aquitânia,  a Sandra La Porta, a Sônia Zanchetto, a Gisele Longhi, e as ex-assessoras de imprensa, cujos sonoros nomes de outrora esqueci.
Não me arriscarei a citar todos os ex-Presidentes da Câmara Rio-Grandense do Livro, refiro-me aos que sobressairam na organização, ampliação e aprimoramento de seus objetivos (e instalações): ao acaso, alguns nomes: Paulo Flávio Ledur, Roque Jacoby, Eduardo Luizelli, Júlio Zanotta, Valdir da Silveira, João Carneiro... Que os não-citados, e seus imediatos assessores, me perdoem, mas incluir a lista toda seria competir com a nominata dos campeões do futebol brasileiro.

Concluo este texto, dirigindo-me a ti, ó Feira do Livro:

- Que ninguém, nem o Governo do Estado, nem a Prefeitura de Porto Alegre, se atrevam a deixar-te morrer...Mais do que isso: que nem sequer te permitam ficar algum tempo, recuperando-te de um AVC ou enfarte,  numa UTI de um dos grandes hospitais de Porto Alegre. Se alguém conspirar contra ti, seja anátema! E se alguém, também, levantar um dedo contra os jacarandás e guapuruvus da Praça da Alfândega, seja remetido, sem menção de remetente, à  Ilha de Fernando Noronha, não como trêfego turista, mas como réu de um crime infame; Que aí definhe, sem a sombra de uma árvore! E até... sem a sombra de seu próprio corpo!
 Querida Feira, quando eu estiver morto que, lá da Terras do Bom Deus, possa te olhar, e dizer: “Estás cada vez mais, bonita! E teus frequentadores – seja dito a bem da verdade -estão cada vez mais inteligentes!”

domingo, 25 de setembro de 2011

Os Católicos e Bento XVI

I.
        Não sabemos exatamente quando virou moda entre os católicos - apelidados pela mídia de progressistas -  o hábito de criticar o Papa.  
Constatamos, apenas, que, da conclusão do Concílio Vaticano II aos nossos dias, tornou-se comum fazer criticas à Santa Sé e, em medida menor, à pessoa do Papa.
        Tentemos compreender esse fenômeno.
        Durante o Papado imperial de Pio XII (1939-1958), a figura do Sumo Pontífice, com sua tiara, ou coroa de três círculos (abolida por Paulo VI em 1964), foi por vezes mitificada.
Como conseqüência disso, após a morte de Pio XII, principalmente após a estréia da peça teatral de Rolf Hochhut , O Vigário (1965), que  questionou a atitude em relação à Questão Judaica e à Campanha Nazista e Fascista Antisemita, a personalidade do Papa Pacelli, que sempre  aparecia em público  na “Sédia Gestatória”, isto é, sobre uma cadeira sustentada aos ombros por funcionários  (como se o Papa ocupasse um andor de Santo em procissões) ,não só foi desvalorizada, como aviltada.
Confesso que li algumas biografias de Pio XII. Poucas mereceriam comentários. Numa delas, descrevem-se detalhes sobre o seu sepultamento, que me chocaram por sua vulgaridade, ou melhor, por sua obscenidade.
É evidente que a desvalorização de Pio XII pode ser explicada, em parte, pela nova mentalidade que dominou os católicos após o Concílio Vaticano II.
Principiou-se por impugnar sua piedade pessoal, que, na minha opinião, não pode ser contestada. A seguir,  implicou-se com o lado humano, demasiadamente humano, tanto de Pio XII, como também de seus sucessores.
A Pio XII sucederam alguns Papas simpáticos, de aura popular, como João XXIII – talvez o Papa moderno mais evangélico – em todo o caso, menos formal e mais contemporâneo. Foi seu sucessor outro Papa cognominado Papa-Sorriso, o Papa Luciani, que faleceu misteriosamente após um mês de Pontificado. Teve como sucessor um Papa-Tsunami, o Papa Woytila. Esteapelou para todos os meios de comunicação possíveis. Com ele as vozes hostis baixaram o tom, porém sem nunca deixar de destilarem veneno nas veias abertas do Catolicismo. n
Não há dúvida que também João Paulo II foi mitificado.
Queremos dizer com essa expressão, um tanto dúbia, afirmar que se criou um imaginário dele, que nem sempre corresponde às imagens discretas, e mais densas de interesse, que as suas biografias nos oferecem.
João Paulo, pelo que pude depreender de vários relatos biográficos, foi um homem de profunda vida interior, um intelectual de altíssimo gabarito, um sólido teólogo,por vezes original, e por vezes de um tradicionalismo inexplicável. Mas também, - sejamos honestos – deixou-se, não raro, impulsionar pelos ventos midiáticos, e não raro por seu temperamento dinâmico,  impulsivo, e até explosivo.
Nunca pude entender sua atitude em relação a um sacerdote de tão elevado espírito evangélico como Ernesto Cardenal, da Nicarágua. Compreendi, menos ainda, sua aversão quase rancorosa à Teologia da Libertação.
É verdade que, também nunca entendi como um discípulo de Francisco de Assis do Brasil podia chegar aos excessos acintosos de um livro como Carisma e Poder, publicado pela Editora Vozes. O livro, em si, tem páginas substanciosas, e criticamente aceitáveis. Mas, umas 10 ou 15 páginas de seu texto não honram seu autor.
O representante mais categorizado da Teologia, que não está morta (talvez esteja anestesiada, restabelecendo-se numa UTI Teológica...) é o grande, o luminoso, e sóbrio fundador dela, Padre Gustavo Gutiérrez, um peruano cujas obras merecem ser melhor apreciadas. Há outros vultos dessa mesma corrente, que precisam ser redescobertos.
Que diremos, en plus, sobre João Paulo II ?
Teria sido um “Santo”?
 Na minha opinião, ele o foi.
Mas um Santo que cometeu erros pastorais, que prolongou um modelo de pontificado, cujas origens remontam ao famoso Dictatus Papae, de Gregório VII (1073-1085), para quem – diz o respeitável historiador da Igreja, P. Joseph Lortz – o mundo inteiro, incluindo as potências políticas e seus representantes, constituía patrimônio de Cristo e de São Pedro. (Histoire de l’Église.Trad. français. Paris, Payot, 1962. p.131).Notemos que Lortz reconhece-lhe outros méritos, e que o apresenta como o inspirador longínquo das Cruzadas, que ele parece considerar positivas, e nós, não.
João Paulo II sempre nos deu a impressão de um Pontífice ansioso - e até nervoso – perante os possíveis danos na imagem da Igreja de Cristo. Por essa razão, procurou diligentemente ocultar os escândalos do clero, e de outras organizações católicas.
Por isso, se existiu uma dimensão de João Paulo II, que nunca admiramos, foi sua pressa em encobrir toda forma de escândalo na Igreja. Para obter esse objetivo, que ele considerava uma de suas obrigações principais, como Pastor Supremo, o Papa João Paulo II não receou recorrer ao freio-de-mão de seu voluntarismo pessoal, não propriamente pontifical, e de sua experiência traumática da repressão de detrás da Cortina de Ferro. Até certo ponto, podemos dar-lhe razão. Mas o que nos parece ter-lhe faltado foi mais atenção aos conselhos que lhe eram dados no sentido de desconfiar de determinadas personalidades da época, como o mexicano, Fundador da Legião de Maria.
Às vezes - desculpem-nos os leitores nossa aparente insolência - tínhamos a impressão de que João Paulo II estava fascinado com a repercussão de suas megavisitas , e de sua participação em megashows religiosos,  os quais, ao menos parcialmente, parecem contradizer duas passagens dos Evangelhos: a primeira referente às palavras “O Reino de Deus acontece sem aparato...”; e a segunda, ligada à parábola do grão, que é posto debaixo da terra, e que ninguém vê chegar à superfície, a não ser após longo tempo.
Admitimos, até, estar equivocados nessa avaliação do eros publicitário de João Paulo II. Mas é bom não levar muito ao pé da letra a metáfora do anúncio da Boa Nova sobre os telhados das casas! A mídia é boa, mas como tudo, neste planeta, não nasceu necessariamente cristã.  
Acontece que Papa algum pode ser clonado!
Daí a diversidade de temperamentos, de opções teológicas, pastorais, e até de atitudes intelectualis, de cada Papa em particular.

II.
Supomos ter chegado a hora de  se criticar menos o Papa e a Hierarquia Eclesiástica, e de se compreender mais, e dialogar mais com ela.
 O Catolicismo, como todo crente sabe, não é “propriedade privada” do Sumo Pontífice, nem do Vaticano. Muito menos do Vaticano.
O Estado do Vaticano, começou como uma vantagem para o Catolicismo, e acabou tornando-se um problema logístico. Afinal, ele é um Estado, não um estado religioso, mas um Estado Civil. Possui estruturas executivas e empresariais. Por isso, o Vaticano dá margem a certos riscos. Os riscos que toda sociedade política, por menor e mais católica que seja, comporta.
Se é verdade que o Dogma da Infalibilidade Papal contribuiu para assegurar a unidade da Igreja, por outro lado enfraqueceu a Colegialidade Episcopal, tendendo a dificultar aos Papas a compreensão do que, efetivamente, pensam as ovelhas do Rebanho de Cristo, e principalmente, a não permitir-lhes tatear a sensibilidade humana e religiosa de suas ovelhas.
Dom Fulton Sheen, quando foi eleito Bispo auxiliar de New York, contou que alguém lhe disse, precisamente no dia de sua sagração:
- Excelência, daqui por diante, o Sr. nunca saberá a verdade... 
Nós admiramos, sem dúvida, os gestos simbólicos de João Paulo II , e também os do Papa Ratzinger, por exemplo, o de ambos entrarem dentro de um confessionário, e ouvirem “confisões” de penitentes anônimos.
Admiraríamos, muito mais, tais gestos se se tornassem cotidianos, e fora de qualquer publicidade. habituais.
Ficaríamos comovidos, se víssemos um Papa ajoelhar-se num confessionário, do lado de fora, para confessar seus pecados (caso os tiver), como qualquer fiel, a um sacerdote anônimo...
Numa biografia de João Paulo II li o seguinte episódio: quando ele era Arcebispo de Cracóvia, teve de repreender a conduta de um sacerdote de sua diocese. O sacerdote faltoso, após a repreensão do Arcebispo, pediu-lhe  que o ouvisse em confissão. Qual não foi a surpresa do faltoso quando, ao fim de sua confissão, o Arcebispo, por sua vez, pediu-lhe, humildemente, que o confessasse.
Voltamos ao tema básico deste texto: é preciso que os católicos se persuadam de que Um só é Nosso Mestre, e um só é Nosso Salvador, e que por isso o Papa necessita contar com nosso apoio - não servil - mas caloroso e fraterno.
É claro que o Papa, que sechama por vezes, “o servo dos servos do Senhor”, necessita renunciar a tanta pompa exterior, a tanto ritualismo, a tanta fausto oficial.
Ao menos exteriormente, Bento XVI dá demonstrações de discrição e humildade. A sua “corte” é que se mantém ainda obsequiosa e curial.
Unamo-nos a Bento XVI.
Demos-lhe nosso apoio – mais do que nosso aplauso. Falemos -lhe em voz baixa, oremos por ele, não em público, não em  aglomerações ruidosas e exibicionistas,  mas no silêncio de nossos oratórios domésticos, de preferência nas horas caladas da noite, quando as cidades, como as aves, enfiam o bico debaixo de suas asas, isto é, de seus arranhacéus e nuvens de poluição e decibéis enlouquecidos.
Sejamos solidários com Bento XVI.
Sejamos afetuosos com ele.
Não nos rebaixemos diante dele. Sejamos-lhe respeitosos e afetuosos! Beijar suas mãos pode ser uma lembrança feudal. Existem ritos sociais modernos mais consentâneos com nossa mentalidade.
Deixemos, sobretudo, de medi-lo com nossas fitas métricas. Sempre que discordarmos dele, tenhamos a coragem de o dizer, com educação, e sempre com a máxima polidez, como quando falamos com nossos pais.
Será possível tal coisa dentro da práxis vaticanista?
Acho que não!
Mas insistimos: Bento XVI, talvez ainda mais do que João Paulo II, é um homem lúcido, culto, de hábitos simples e marcados pela piedade e pela adesão sincera à Pessoa de Cristo. Se é verdade que João Paulo II acabou sofrendo o martírio de um atentado contra a sua vida, é verdade também que a Bento XVI está sendo impostou outro martírio: o de carregar a cruz pesadíssima dos escândalos de pedofilia do clero, de desvios globalizados, de transações milionárias incompatíveis com o Evangelho, e de “mil e uma anomalias” anti-cristãs, que, a rigor, não atingem o Cristianismo, mas que atingem nós, os católicos.
Ofereçamos-lhe apoio, solidariedade, carinho.
Ajudemos Bento XVI a frear os capitais voláteis, a tornar a economia de mercado uma economia solid´[ária, e principalmente, a influir mais na eliminação dos conflitos armados, que são uma vergonha para todos nós.
Por fim, aumentemos com ele nossa fé, e também nossa esperança. Nietzsche tinha razão: se os cristãos não puderem mostrar um rosto mais alegre, ninguém crerá na Ressurreição de Jesus.
O que o mundo Nietzsche não sabia, nem o mundo de hoje sabe, é que nenhum túmulo pode reter o corpo de Cristo, mesmo o de Corpo Místico de Cristo, por mais de três dias.
 Não há modo de neutralizar uma Ressurreição, nem técnologia capaz de deasativá-la nos corações dos seguidores do Evangelho, dos que aderem intimamente, e comunitariamente, à Pessoa de Cristo.
Talvez me seja permitido concluir este texto com as palavras de Blaise Pascal (1623-1662), o intelectual cristão de quem mais me sinto próximo, além , evidentemente, dos autores apostólicos, e dos grandes Doutores da Igreja como Agostinho e Tomás de Aquino:
- Não sou digno de defender a religião, mas vós não mereceis defender o erro e a injustiça. Que Deus, em sua misericórdia, não atentando para o mal que está em vós, e sim para o bem, nos conceda a todos a graça de a verdade não sucumbir em minhas mãos, e a mentira...   
(Pensamentos. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo, Difusão Européia do livro, 1957. p.292).  
        

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Ninguém ouve ninguém: nem o Papa salvou Troy Davis!
       
É de se perguntar: valerá a pena comentar a notícia da execução do negro americano? 
        O Papa Bento XVI fez um apelo em favor do condenado. Outras personalidades, de todo o mundo, também dos Estados Unidos, intervieram a favor do condenado.
Nada disso serviu.
O condenado foi executado, e o Presidente Obama – imensa e dolorosa surpresa para nós! – autorizou a execução.
Verificamos que nosso mundo contemporâneo continua a oscilar entre dois pólos repulsivos: o Legalismo extremo, e o Laxismo, ou Permissivismo, descarado e vergonhoso.
O Legalismo pretende ser o defensor da Lei, ou melhor  da legalidade, Pouco importa-se se a lei foi elaborada com critérios de justiça e humanismo. É lei? Deve ser cumprida.
O Permissivismo defende todo tipo de concessões, no fundo, está a favor da impunidade, alegando razões que, bem filtradas, se reduzem a absurdos maquiados.
O que está em jogo, na sociedade atual, são duas atitudes: a da racionalidade e do reto juízo da ética, entendida como uma norma de conduta baseada em valores seguros, que os códigos de comportamento da Humanidade consagraram, desde o Código de Hamurabi e o Decálogo do Sinai, até à Declaração dos Direitos do Homem; e a atitude anárquica a-ética ou anti-ética, de que todas as ações humanas são livres, e portanto se equivalem, mesmo que, agindo assim, se destrua a própria liberdade, e a liberdade dos outros.
Não falamos, aqui, da mensagem de Cristo que, para os cristãos, deveria ser o único critério das decisões pessoais, e coletivas, enquanto compatíveis com a tolerância de religiões nao-cristãs, ou de concepções ateístas e agnósticas.
A intervenção do Papa Bento XVI ajuda-nos a respirar, principalmente a nós católicos! O mix Catolicismo-Vaticano nunca foi bom para nenhuma das partes. É preciso distinguir – e até separar – o vinho e a água - o Catolicismo e o Vaticano.
Que é o Vaticano?
Um Estado que nasceu errado.
Um fruto espúrio dos chamados Estados Pontifícios que, por sua vez, nasceram de uma “Doação de Constantino”, que nunca existiu, obra de falsários que se perpetuou com Pepino, o Breve, e depois, com seu filho, Carlos Magno.
Foi a partir do século VIII que se deu a assimilação do Papa a um soberano temporal.
 Não há historiador sério que ignore que a Doação de Constantino (que constitui o segundo capítulo doConstitutum Constantini”), hipoteticamente concedida ao Papa Silvestre I (314-335), foi forjada.
Sem dúvida, Constantino, o enigmático imperador batizado in extremis, existiu. Mas não fez nenhuma Doação ao Papa, a não ser a de templos e tesouros pagãos, cuja transferência aos cristãos autorizou, como se tais bens lhes pertencessem, de direito.
Recentemente, um conhecido historiador alemão, Horst Fuhrmann, condensou, para o grande público, a verdadeira história desse “falso”, na sua Guida al Medioevo  (Não existe, por enquanto, tradução  pórtuguesa do original alemão: Einladung ins Nittelalter.Valemo-nos da Terza edizione Italiana. Roma-Bari, Editori Laterza, 2009. p. 111-124).
O que resultou do documento eclesiástico falsificado, a que nos referimos, nem vale a pena comentar. Foi um equívoco monstruoso, uma contaminação chamada Cesaropapismo, que nunca mais deixou de afligir o Catolicismo.
O Vaticano, propriamente dito, resultou de um acordo entre o Ditador Benito Mussolini e a Santa Sé.
A rigor, a idéia de existir um território na Itália, exclusivo, reservado ao Papado, não era má, uma vez que constituía uma forma de não-interferência da Itália no Papado, e do Papado na Itália.
O que ocorreu, historicamente, foi outra coisa: o nascimento, não só de um Estado, ou de Estados Pontifícios, mas também o nascimento de um estado-de-espírito, que poderíamos chamar de “vaticanista”, e que desfavoreceu a Itália e o Papado.
Temos, pois, o Papa, Pastor do Rebanho, herdado de Pedro, a quem foi inicialmente confiado por Jesus. Ao lado ao Papa, trabalham Cardeais, Bispos, Presbíteros, e numerosos funcionários civis.
Mas o Vaticano não é só isso. É uma política, uma pressão de cima, um jogo de interesses, uma complicadíssima teia de poder, de prestígios e ilusões.
Esqueçamos tão desoladora realidade.
O Papa Ratzinger agiu, de certo modo, à revelia do Vaticano. Foi corajoso. Foi Pedro, e ousou condenar a pena de morte, que a legislação americana do Sul persiste em manter.
Que o Papa tenha perdido esse lance, que o legalismo americano não o tenha atendido, é para nós, católicos, uma lição. Ao menos desta vez, o Vaticano esteve do lado do uomo qualunque, isto é, do pobre-diabo, que no caso se chamava Troy Davis, e dos pobres-diabos que somos todos nós diante de Deus, inclusive o Papa Ratzinger.
Que é o homem diante da realidade de Cristo?
Um pecador.
Como é possível que um pecador ouse condenar outro pecador?
        Como pode alguém tirar a vida a uma pessoa humana,
Se não lhe deu a vida?
 A vida só pertence a Deus, e este é o único a poder tirá-la. O próprio suicídio está vedado à criatura humana, e ao cristão em particular.
A vida é o dom máximo. Só pode pertencer a Deus. Por isso, a Bíblia diz que o Demônio foi homicida desde o princípio.
Matar um homem, ou matar-se um homem, é o pecado maior, depois da tentativa, imaginária, que alguns homens persistem em levar a termo - de matar o próprio Deus, gesto impossível, porém imaginariamente possível.
Nem falemos na realidade da Guerra, visto que esta é o Anti-Cristianismo. É a mais drástica negação do Evangelho.
Só existe uma Guerra permitida, do ponto de vista cristão: a da auto-defesa. Qualquer guerra que ultrapasse a regra do menor dano possível infligido aos outros homens, é má.
Unamo-nos a Bento XVI na sua reprovação do legalismo americano. Quem pretende defender a qualquer preço a Lei, incide numa abominável aberração.
É hora de nos unirmos em defesa dos Direitos do Homem. Só depois de defendermos essa primeira Cesta Básica de Justiça, poderemos pensar em defender a segunda Cesta Básica de Justiça, a Cristã.
A Segunda Cesta Básica já está a caminho do verdadeiro objetivo cristão, que é o amor:
- Queridos amigos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus. Todo aquele que ama é filho de Deus e conhece-o. Aquele que não ama, não conhece a Deus, uma vez que Deus é amor.
(Primeira Carta de São João, capítulo 4, 7-8. Tradução Interconfessional do Texto Grego para o Português Moderno. Primeira edição, recomendada aos católicos de língua portuguesa, pelo Bispo do Porto. Lisboa, Sociedade Bíblica-Difusora (Católica) Bíblica, 1978. p. 489).
  
   

O Mexicano e o Sexo.


(Reflexões Sobre a Permissividade Sexual na Sociedade Contemporânea).

Às vezes, um acaso arremessa-nos às profundidades do  real. Essa frase, caros leitores, poderá estar borrifada de uma retórica desprezível. Não seria, com efeito, mais sensato dizer, como todo o mundo diz:

- Devido a um acaso, ou a um incidente sem maior importância, podemos chegar a descobrir aspectos da realidade que nos conduzem a reflexões inesperadas, ainda quando tal revelação ocorra dentro de um contexto de vulgaridade?
       
Foi o que aconteceu comigo, anos atrás, quando por razões profissionais tive de ir à Ciudad de México.
        Um mexicano, isto é, o editor de meu livro Reflexiones sobre la Poesia, descendente autêntico de índios zapotecas, quis ser gentil comigo, e ofereceu-se para me mostrar alguns aspectos da megalópole de seu país.
No passeio, disse-me algo - a propósito de uma manchete que ocupava generoso espaço nos jornais daquela manhã – que jamais esqueci.
Esclareço, primeiramente, a manchete dos jornais: os mexicanos estavam sobreexcitados com a exumação dos restos mortais de Maria Félix, estrela-mor da história do cinema latino-americano. Sua herança estava sendo disputada pelos irmãos da artista, visto que a diva, nos últimos anos de existência, resolvera tomar por companheiro seu motorista particular. A exumação destinava-se a esclarecer a acusação dos irmãos de Maria Félix, de que a irmã fora envenenada pelo seu companheiro, supostamente ávido da herança da artista. A exumação provou que o motorista, que acompanhara a artista (e que fora para com ela de uma solicitude ímpar, elogiada até por seus amigos) não cometera tal crime.
        Do clamoroso escândalo ficou-me o comentário do mexicano:
        - No que diz respeito ao sexo, as mulheres se equivalem! Todas - e cada uma por si,  são atraentes! Todas são irresistíveis! Não há mulheres feias ou bonitas, quando se trata de sexo!
        Na hora fiquei perplexo!
Aquela afirmação parecia-me irrealista, ou no mínimo contestável.
        O curioso é, com o transcurso dos anos, minha experiência de vida parece confirmar o mexicano.
        Fixemo-nos, por exemplo, no livro Confissões de Darcy Ribeiro (São Paulo, Companhia das Letras, 1997).
Esse livro não é só uma autobiografia fascinante de Darcy Ribeiro, mas também uma verdadeira epopéia sexual, cujo herói é, naturalmente, o antropólogo. É uma apologia do amor livre, não menos surpreendente que a de Vinícius de Moraes, e suas nove esposas de papel passado, tal qual a descreveu José Castelo, em sua obra sobre o Poeta: Vinícius de Morais, Poeta da Paixão.
        Darcy Ribeiro foi um homem notabilíssimo, uma sorte de  Mix: um mix de gênio, de antropólogo, de ficcionista, de promotor do indigenismo, de fundador da Universidade de Brasília, de político, de pensador. Além disso, foi também um dos mais bem sucedidos sedutores de mulheres do Brasil. Ao menos, se nos dispomos a dar crédito às suas auto-revelações sobre sua “Arte Amatória”.
Creio que podemos admitir tal epopéia, visto que ainda existem amantes de Darcy, em todas as nações da América Latina, e do mundo, do Uruguai ao Chile, do Peru à Venezuela, do México à França. Como os leitores vêem, a epopéia do grande antropólogo foi uma epopéia planetária.
Sim...
Mas que têm a ver as palavras do mexicano com as do autor de O Povo Brasileiro?
 Quero dizer o seguinte: na autobiografia de Darcy não se cita nenhuma opinião das mulheres com as quais ele teve aquilo que os jornalistas da moda adjetivam como tórridas aventuras, ou seus badaladíssimos idílios.
Prossigamos: também tenho, hoje, a persuasão, como meu editor mexicano, de que o sexo, salvo raríssimas exceções, não é uma conquista – como direi? – consciente e pessoal.
O sexo é um instinto da natureza, dirigido, em primeiro lugar, a um objetivo super-individual: à multiplicação do gênero humano, como se lê num dos capítulos iniciais da Bíblia.
O sexo existe no homem como uma força que obriga as pessoas, a não deixarem este mundo, antes de nele semearem, ao menos uma, semente-de-corporeidade.
Por isso, antes de se tachar a Igreja Católica de obscurantismo, por causa de sua insistência sobre a finalidade primária do sexo, seria de bom alvitre consultar os biologistas, os entendidos em sexualidade biológica. Eles nos garantem que a Natureza quer, em primeiro lugar, sua sobrevivência.
Como o ser humano, todavia, é também uma auto-consciência, e por isso, também uma alma (isto é, um espírito, criado por Deus, sem interferência dos pais: esta é a doutrina cristã), o sexo foi assumido por Cristo e, de certo modo, energizado, ou sobrenaturalizado através de um Sacramento, o Matrimônio.
 Mediante tal “graça”, o sexo, naturalmente egoísta e unidimensional, voraz em seus objetivos, é constrangido a tornar-se altruísta, ou – como dizem os sexólogos, entre os quais o grande psiquiatra francês, A. Hesnard – é obrigado a tornar-se oblativo.
À luz do Evangelho de Cristo, o narcisismo sexual é condenado. As palavras de Jesus sobre a fornicação e sobre o adultério não podem ser contestadas. É abrir os Evangelhos e ler.
Sem dúvida, a afirmação unilateral do sexo constitui um problema angustiante, e permanente, para qualquer discípulo de Cristo. Constitui o espinho na carne - a que se refere o Apóstolo Paulo.
O fato incontornável é que o sexo é um rebelde nato. Ele quer sempre, e só, o que é seu.
Daí a afirmação do mexicano: todas as mulheres do mundo são igualmente atraentes! Dito de outro modo: todas são tentadoras, e eventualmente um risco ético para um indivíduo cristão, não diria dotado de especial sex-appeal, mas simplesmente dotado de sex-appeal.
Por que?
Porque – como diziam os anacoretas do Deserto da Tebaida , no Egito, o sexo é como a água: quando se tem sede, bebe-se de qualquer água, mesmo a de um pântano.
É claro que mulher alguma é pantanosa, como nenhum homem o é!
O problema é outro: o instinto – desde que existe o Pecado Original – é indócil à razão. O instinto sexual é um impulso de direção única. Daí a afirmação do mexicano ( que se declarava, aliás, não-cristão).
As manchetes da mídia não deveriam causar-nos admiração. Deveriam produzir em nós reflexões e atitudes. Reflexões sobre a energia “atômica” indisciplinada, que é a do sexo. Atitudes? As mesmas que adotamos em relação ao arsenal atômico.
A energia atômica é maravilhosa, como o é o sexo. Mas precisa ser controlada. Precisa ser submetida às leis da razão e do bem coletivo. O descontrole em ambas provoca catástrofes irreparáveis.
Como cristão, dou razão ao mexicano.
Ninguém está imune de se deixar descontrolar pela energia sexual. O sexo, na atual condição humana, não pode ser controlado sem uma ajuda especial, isto é, sem um mínimo de humildade por parte da criatura, que, sozinha, não consegue refrear todos os impulsos egoístas, e sem um subsídio sobrenatural, que deriva da Encarnação, Paixão e Ressurreição de Jesus.  
Por isso, devemos admitir que é um risco para a consciência cristã condenar orgulhosamente os desmandos sexuais. Tal atitude pode levar os cristãos ao moralismo, e à hipocrisia.
 É preciso, se desejamos ser cristãos, mostrar um mínimo de compreensão – compreensão, não justificação em relação aos escândalos que nos são oferecidos com uma verbosidade e uma visualidade dignas de melhor assunto.
A inclusão do sexo na esfera do amor, a sua efetiva amorização – como propunha Teilhard de Chardin – é complexa, desafiadora, e belicosa, para qualquer cristão. Ou antes: para qualquer ser humano.
Mesmo um pagão natural, que nem chegou a ter idéia da existência de Jesus, como o filósofo Epicuro (341- 271 a.C.), sustentava que o prazer humano, qualquer tipo de prazer sensorial, só era possível dentro de um contexto de auto-domínio. Epicuro ia ao ponto de sugerir uma sorte de sexualidade reprimida. Sob esse ponto de vista, precedeu de alguns séculos, Siegmund Freud, que sustentava não existir civilização, sem um mínimo de repressão. Dizia Epicuro não ser possível chegar ao prazer de máxima intensidade, tanto o genital como o erótico, sem auto-controle.
Meu amigo mexicano deu-me uma lição: não é possível neste mundo amar uma mulher apenas pelo seu sexo. O sexo, sejamos explícitos, tende a gozar solitariamente. Dom Juan foi o maior solitário do mundo. Ele, porém, dizia amar todas as mulheres...
Amar?
Pode haver amor exclusivamente sexual?
Reiteremos:o sexo funciona a serviço da Espécie. O sexo é uma invenção da natureza, antes que ela pudesse fugir ao cio, que é o sexo programado. Antes, noutras palavras, que o sexo pudesse, na espécie humana, independentizar-se.
Na hora em que o homem conseguiu usar seu instinto sexual fora da programação da espécie, fora da moldura instintual, nasceu nele aquilo que denominamos amor, a possibilidade de integrar o sexo numa dimensão não prevista por ele, numa dimensão supra-instintiva.
Surgiu - para o animal racional - a possibilidade, alucinante e gratificante, de submeter o sexo a uma lei não fatal, à lei da relação consentida, à lei da relação Eu-Tu, tão lúcida e ardorosamente defendida por Martin Buber (1878- ).
Noutras palavras, não existe amor que não seja semelhante a um piloto. O amor necessita de uma  consciência ética que lhe permita voar. Existe amor quando existe controle, da mesma forma que existe vôo quando existe controle. Querer voar instintivamente é acabar, como o Airbus da Air France, no fundo do mar, donde se retirou, com imensa dificuldades tecnológicas, a famosa caixa-preta, na qual estavam registrados todos os momentos que precederam o desastre.
Quem, porém, poderia restituir ao convívio da humanidade os homens e mulheres, e crianças, que pereceram devido a um erro de pilotagem, ou a uma imperfeição de engenharia aeronáutica?
Segundo a Revelação de Cristo, adultério não é só ir para a cama com a mulher cobiçada; já é adultério ir com ela para a cama imagináriamente. Desde que essa imaginação seja consentida, desde que ela seja um ato que não se realizou efetivamente, porque a ocasião não deu oportunidade ao indivíduo de realizá-lo. Quando uma mulher é vista à distância, caso ela for desejada de verdade, isto é, se o indivíduo quiser ter relações concretas com ela, nesse caso já ocorreu o adultério em quem a cobiçou.
O amor é algo mais difícil, comprometedor, e responsável do que uma aventura centrífuga, do que um prazer fruído a expensas de um parceiro, mesmo que este parceiro consinta no ato.
A ética cristã do Evangelho de Cristo, se não se quer trapacear, é uma ética de oblatividade, que exige monogamia.
E mais que monogamia: exige amor!
Um amor que necessita ser todos os dias, capaz de reabastecer-se na sua própria relação, como um rio que não flui duas vezes debaixo da mesma ponte.
A ponte seria o voto de indissolubilidade.
Tal atitude só é possível ao homem, na sua condição atual, na medida em que ousa ir além do plano natural.
O Cristianismo renega-se, tanto quando prega um moralismo estreito, uma ética sexual repressora, como quando se distrai de si mesmo, e aprova implicitamente as evasões do sexo, tão devastadoras como as de um leão, que obedece (como lhe compete) à sua natureza animal, aos seus impulsos carnívoros.
Não é de admirar que, neste momento, a ética sexual cristã seja a mais detestada, a mais ironizada, a mais caricaturizada de todas as éticas, na sociedade em que vivemos.
Também, se não o fosse, para que serviria o Evangelho? Se Cristo não tivesse oferecido à humanidade uma nova forma de ser feliz, sua vinda a este mundo teria sido desnecessária.
Não podemos desconsiderar o fato de que a Encarnação de Cristo significou uma Revolução para o homem, um retorno à sua condição misteriosa de existência anterior ao pecado.
Que ocorreu como? Quando? Em que situação da Pré-História? Ou da História?
Não nos foram revelados pormenores de tal situação. Foi-nos revelado apenas a existência dessa situação.
A ética cristã enquadra-se dentro de um novo tipo de Humanismo, o do homem que aceita ser suplementado na sua animalidade, e até na sua racionalidade, em direção a uma inteligência maior que a de sua Razão: a Inteligibilidade da Fé.
Ao aceitar a ética cristã, o discípulo de Cristo não recusa a realidade, por vezes maravilhosa do instinto. O cristão simplesmente dá um passo à frente da animalidade racional: aceita que o sexo possa ser redimido, que ele, também, seja sobreelevado pelo Mistério da Encarnação. Que o sexo, noutras palavras, seja digno de participar da Ressurreição Futura, não como instinto genésico, que isso deixará de ser, mas como uma realidade superior, maior que a que ele tinha neste mundo, a do Amor.
A famosa pergunta dos Saduceus (machistas) do tempo de Jesus:
- De quem será, na vida futura, a mulher que aqui na terra foi, consecutivamente, mulher de sete irmãos?

teve uma resposta –
não à alturas dos Saduceus, mas à altura de Jesus!

No fundo, os Saduceus queriam bloquear Jesus:
- A quem será adjudicada tal mulher?

Como se a mulher fosse um objeto de disputa entre competidores...
Se a ética cristã não for escarnecida neste mundo, é porque deixou de ser cristã.
Ela opõe-se ao egoísmo do sexo, e este egoísmo é hoje a regra de ouro das relações sexuais.
Por mais que os psiquiatras – e até os biólogos – chamem a atenção das pessoas para o carácter de sucção do sexo, as pessoas não acreditam neles. Para admitir tal risco, é preciso ou ter chegado, como Epicuro, a um grau de cinismo filosófico excepcional, a um Cinismo Laboratorial, ou ter chegado à Revelação de Cristo, curvando-se humildemente, às suas exigências, e admitindo, como Dante o fez no fim de sua vida, à realidade, que seus versos insuperáveis sintetizam:
- A sua vontade é a nossa paz.
 Isto é, em tradução que não viola o sentido de Dante:
A sua vontade é a nossa felicidade.
        Longe de nós subestimar o prazer sexual, ou afirmar que ele é a única finalidade da união que o próprio Cristo sacralizou: “Serão dois numa só carne”.
Sob esse ponto de vista, o cristão poderá ler com proveito uma obra documentada e responsável, como a de Desmond Morris: A Mulher Nua. Um Estudo do Corpo Feminino. (Trad.  de Eliana Rocha. São Paulo, Editora Globo, 2005). As observações de Desmond Morris podem ser úteis a um casal cristão.
Quando Morris, por exemplo, escreve:
- O fato de a fêmea humana (ao contrário da fêmea do macaco) não transmitir um sinal claro ao macho quando está ovulando, também significa que a maior parte dos atos sexuais não são de procriação, mas servem para estreitar ainda mais os laços emocionais entre os amantes. Os seres humanos literalmente (sublinhado pelo próprio autor) fazem amor.(Ibid. p. 193).
Ele propõe o que a Igreja de hoje, despojada de resíduos monásticos e eclesiásticos celibataristas, defende, depois de ter resistido séculos a algo, que já estava intrínseco dentro dela, desde as disputas do Século V entre Santo Agostinho e o Bispo Juliano de Eclano.
(Cf. Peter Brown: Santo Agostinho, uma Biografia. Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, Editora Record, 2005. p.481-495).
 Admitir, portanto, que há leis físicas, que não nos permitem jogar-nos do décimo quinto andar de um edifício, e admitir que há leis psicossomáticas, que não permitem que tratemos os corpos humanos como meros objetos de prazer, é uma atitude só possível quando o homem e a mulher decidem enfrentar uma coisa chamada: Destino - palavra que obriga o ser humano a decidir se quer, livremente, ser apenas um animal aperfeiçoado, ou se aceita , também, ser um “filho de Deus”, elevado por Cristo à sua condição filial mediante uma nova criação – a da Fé.