segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Sobre a Atualidade das Crônicas de Olavo Bilac.

Originalmente em jornais do Rio de Janeiro, entre 1890 e 1908.
Registremos uma data, em especial: em 1897 o poeta foi convidado a substituir Machado de Assis na sua coluna da Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro.
Olavo Bilac ensina-nos a escrever poesia com clareza, elegância e, nos seus momentos mais altos, com delicada emoção.
Durante a fase mais fanática do Modernismo, ele Acabo de ler uma coletânea de crônicas de Olavo Bilac, publicadas foi execrado. Aliás, foram execrados todos os poetas parnasianos, e com eles uma de suas formas de expressão, o soneto.
Mario Quintana teve o garbo de reabilitar o soneto com A Rua dos Cataventos, uma jóia não superada no Brasil, a que se seguiram os melodiosos e sugestivos sonetos de Jorge de Lima (1949) e Vinicius de Moraes (1957).
Quintana, que por tantas décadas, foi ignorado, quando não menosprezado, pelos barões da crítica do Brasil Central, demonstrou que uma forma poética não se confunde com suas fôrmas, do mesmo modo que a receita de um bolo não é o bolo como tal, mas o produto específico de quem o faz. Uma quituteira de favela faz, às vezes, um bolo digno de qualquer boca ilustre, ao passo que uma moça, incumbida de abastecer uma revista de grande tiragem com achados culinários, fornece receitas que nenhuma boca aprova.
O caso – ou Affaire Quintana – foi, em termos de poesia, uma das coisas mais horríveis que me foi dado presenciar neste país de deslumbrados, que se deixam levar pelo nariz por historiadores e críticos literários, ao invés de cada um, na sua condição de leitor responsável, saborear a fruta para saber-lhe o gosto.
Como é que eu posso levar a sério as Histórias da Literatura Nacionais se uma delas - das melhores que existem, de autoria de um amigo que muito prezo, o Prof. Alfredo Bosi - consagra a Mario Quintana unicamente as seguintes linhas, na sua História Concisa da Literatura Brasileira:
- (Mario Quintana) encontrou fórmulas felizes de humor sem sair do clima simbolista que condicionara a sua formação...
(São Paulo, Editora Cultrix, 1976. p.516).
Que é isso?
Então um escritor, do porte de Quintana, lega ao seu país 980 páginas (é o número de páginas de sua Poesia Completa (RJ. Editora Nova Aguilar, 2005) para, no fim de tanto trabalho e criação, ser contemplado com um feixezinho insosso de linhas?
Ninguém está interessado em escolas literárias, nem em plataformas literárias. Estamos interessados em poesia, em romance, em literatura.
Que tem a ver o Simbolismo com o que Quintana fez? Simbolistas houve, e os há por aí, às dezenas. Mostrem-nos um novo Alphonsus de Guimarães, ou um Cruz e Sousa! Procurem-nos por toda a parte!
Um soneto de Alphonsus de Guimarães do gênero: Hão de chorar por ela os cinamomos, vale uma Escola!
Vale, até, a plataforma do melhor dos ismos!
Teria sido, talvez, melhor não dizer nada sobre Mario Quintana do que reduzi-lo a tal “ingenuidade”. Que me perdoe o erudito e fino historiador, que é o Prof. Alfredo Bosi, e todos os seus colegas de ofício. História da Literatura ou é análise pessoal – do historiador – que engaja a sua cultura e sensibilidade, ou é conchavo de amigos, quando não catálogo de Shopping.
O Prof. Bosi poderia ter dito de Quintana:
- Existe um poeta gaúcho absolutamente excepcional, talvez genial, que deve ser lido por qualquer apreciador de poesia do Brasil.
Ponto final!
A Professora da Universidade de Roma, Luciana Stegagno-Picchio, na sua nunca excessivamente recomendada História da Literatura Brasileira (Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1997), teve maior lucidez e grandeza no tocante a Quintana. Sobre ele escreveu o seguinte, que ainda é pouco:
- Rio-grandense, fixado em Porto Alegre, foi Mario Quintana (1906-1994), poeta de exórdio tardio, com um livro de sonetos (A Rua dos Cataventos, 1940) que sabem ainda a simbolismo e a Antônio Nobre, assim como neo-simbolistas são as suas Canções (1946), e os poemas em prosa de Sapato Florido (1948). Sobre esta sólida base artesanal se instauram com dignidade os experimentos surrealistas (O Aprendiz de Feiticeiro, 1950): clima onírico, com notas de surrealismo, que reencontraremos até o último (Poesias, 1962; Antologia Poética, 1966; Apontamentos de História Sobrenatural, 1976), seja na vertente da trêmula melancolia, seja na do humour: com um extremo respeito e pudor pela poesia
(A seguir, a autora transcreve o poema: Como um gole d’água bebido no escuro).
(Ibid. p. 567).
Reconheçamos, agradecidos, que a grande Dama da História da Literatura Brasileira na Itália foi mais justa – e mais perspicaz – na sua apreciação de Quintana do que Alfredo Bosi, e outros de não menor estatura que ele, como José Guilherme Merquior. Não obstante, nem ela nem Alfredo Bosi se aperceberam de que o dedo que analisavam era o de um gigante!
Mario Quintana é um fenômeno brasileiro que deveria servir de advertência a quantos se dedicam ao estudo da Literatura Nacional. Não basta saber ler fluentemente, nem ser dotado de um radar razoavelmente atento, para avaliar um Poeta; tampouco servem ao estudioso toneladas de informação, em especial arrobas de erudição haurida em fontes francesas da mais espaventosa atualidade, que não raro não só primam pela rapidez das abordagens como, também, pela desenvoltura e aprumo de seus teóricos, que se apresentam como donos de teorias de vanguarda.
A poesia – a verdadeira – exige tempo e humildade para ser descoberta. E mais tempo ainda, para ser aferida. O ouro e a prata raramente deixam as profundezas de suas minas para se exibirem em mãos ociosas.
Não admira que o pobre – isto é, o genial Quintana – submeteu-se três vezes a uma das exigências humilhantes da Academia Brasileira de Letras, a de pedir votos, visitando um por um os Quarenta Acadêmicos, sem conseguir, em nenhuma das três vezes, ser eleito para o sodalício.
O mesmo aconteceu com Jorge de Lima.
Não se conclua daí que eu desconsidere a Academia Brasileira de Letras. Como desprezá-la se um de seus fundadores foi Machado de Assis? Como desprezá-la, se nela se assentaram homens como Augusto Meyer, Guimarães Rosa, e Cabral de Melo Neto? Se lá, ainda, foram recepcionados recentemente o saudoso Moacyr Scliar, e Carlos Nejar, o primeiro um ficcionista notável, o segundo, um poeta excepcional, cuja Árvore do Mundo particularmente aprecio?
Não me entendam mal!
Alguém já disse – porém não citarei seu nome: “Não se questiona um homem emocionado”!
Voltemos às crônicas de Bilac.
Não lhes exijamos grandes qualidades, que as crônicas não precisam ter
O próprio Bilac diz:
- Os cronistas são como os bufarinheiros (leia-se – em termos de gíria atual- mascates, camelôs!) que levam dentro das suas caixas rosários e alfinetes, fazendas e botões, sabonetes e sapatos, louças e agulhas, imagens de santos e baralhos de cartas, remédios para a alma e remédios para os calos, breves e pomadas, elixires e dedais.
(Vossa Insolência. Crônicas de Olavo Bilac. Organização de Antônio Dimas. São Paulo, Companhia das Letras, 1996. Coleção Retratos do Brasil. p. 19).
Bilac aborda variados temas.
Principia autocriticando-se:
- Qual de vós, irmãos, não escreve todos os dias quatro ou cinco tolices, que desejariam ver apagadas e extintas? Mas, ai de todos nós! Não há morte para as nossas tolices! Nas bibliotecas e nos escritórios dos jornais, elas ficam, as pérfidas, catalogadas; e lá vem um dia em que um perverso qualquer, abrindo um daqueles abomináveis cartapácios, exuma as malditas e arroja-as à face apalermada de quem as escreveu...
(p. 21-22).
O organizador, o professor de literatura na USP, Antonio Dimas, dividiu as crônicas de Bilac nas seguintes secções: Pessoal, Pessoas, Literatura, Jornalismo, Cinema, Cidades, Usos, Política, Exterior, Canudos.
Não direi que todas estejam à altura do grande poeta, que foi Bilac!
Mas valem uma leitura atenta.
São cromos, vislumbres, reflexões, críticas, sátiras.
Muitas delas fornecem exemplos de humor:
- Demais, sabem quem tem razão? É Balzac, que apesar de fazer parte de um clube de bebedores de haxixe, nunca bebeu a droga, porque (dizia ele) o homem que voluntariamente se despoja do mais belo atributo humano – a vontade – deve ser, na escala animal, colocado abaixo do caramujo e da lesma...E vamo-nos embora, que é meia-noite!(Ibid. p. 37).
Aprendi com Bilac até a sonhar, não com um leitão assado, mas em ser um leitão assado, como ele se auto-descreve, “com o ventre cheio de farofa e sarabulho, e com as costas cheias de rodelas de limão espetadas em palitos...
Há trechos como:
- (...) nós, cariocas, somos vaidosos, e fazemos bem, porque, enfim, não há quem não ame o seu chinelo velho e a sua poltrona...
De quando em quando, o poeta se arvora em filósofo de rua:
- A gente não sabe nunca quando é feliz , nem quando é infeliz. E a felicidade não é gênero de absoluta necessidade neste mundo. O essencial é viver e trabalhar, com ou sem brilho, mas sempre com boa vontade e bom humor, “em attendant bien doucement la mort”, como dizia o velho Montaigne.(Ibid. p. 59). 
O que me impressionou, também, nessas crônicas, foi a presença, no fim do século XIX e inícios do século XX, de todos os problemas que afligem a bicharada raciocinante, como Bilac qualifica os animais racionais de seu tempo e, obviamente, os de nosso tempo.
Bilac vergasta o bacharelismo brasileiro, o jornalismo predador que se compraz em  invadir a privacidade de todo o mundo, maldiz os “donos da nossa vida íntima”, ironiza a imprensa, “alavanca do progresso”,  baluarte das liberdades públicas”, etc., prediz o dia em que o lápis destronará a pena, ou seja, o advento da sociedade audiovisual (Ib. p. 165).
Constata um fato: “Já ninguém mais lê artigos” (Ib. p. 166).
Prevê a escandalosa irrupção da fotografia”, advertindo que “a pena sempre é ajudada pela inteligência, ao passo que a máquina fotográfica funciona sempre sob a égide da soberana Verdade, a coberto das inumeráveis ciladas da Mentira, do Equívoco, e da Miopia” (Ib. p. 167).
Registra a inflação das “maroteiras” dos curandeiros-feiticeiros, quiromantes, sonâmbulos, médiuns, videntes, hipnotizadores e profetas” (Ib. p. 173).
Satiriza os jornalistas: “Não há no mundo muitos jornalistas ingênuos”.
Remata: “Nesta profissão, os tolos nunca se demoram muito”. (Ib. p. 174).
Sem medo de ser considerado elitista, lastima em 1908 o analfabetismo da população adulta. Reconhece, no entanto, o que então se fazia para extirpá-la:
- Há um ano, a Prefeitura instalou, em algumas escolas, cursos noturnos de primeiras letras para adultos.(Ib. p. 177-178)
Conclui: “Não nos faltam jornalistas: faltam-nos leitores”.(Ib. p. 178)
É um velho estribilho nacional.
Bilac demonstra grande admiração pelo povo brasileiro:
- (o nosso povo) tem uma inteligência nativa, exuberante, pronta, que é feita de sobressaltos e relâmpagos, e que apanha e fixa na confusão as idéias, como a placa sensibilizada de uma máquina fotográfica apanha e fixa, ao clarão instantâneo de uma faísca de luz oxídrica, todos os objetos mergulhados na penumbra de uma sala...(Ib. p.265).
Denuncia a prostituição infantil, as condições do trabalho feminino, as mazelas da vida brasileira de uma realidade, que é a deles, e a nossa, piorada:
- Desde que há homens na face da Terra – as três grandes causas de todos os sofrimentos, de todos os conflitos, de todas as guerras, de todos os crimes, têm sido: a casa, a comida e o amor.(Ib. p. 289).
Chegam a ser pateticamente comoventes os parabéns que Bilac dá aos caramujos:
- Bem mais feliz que o homem é o caramujo, que já nasce com sua casa às costas, e que a leva consigo por onde quer que vá – sem pagar um vintém pelo aluguel por essa habitação confortável que a Natureza lhe deu!(Ib. p. 296).
Talvez Bilac extrapole um pouco as coisas!
Até ao presente, nenhum diário foi publicado pelos caramujos, para informar-nos sobre o que pensam de suas carapaças habitacionais!
O Poeta dirige, inclusive, críticas a si mesmo, e aos seus contemporâneos:
- Do colégio para a academia levamos um embezerramento que ainda hoje é o nosso distintivo. Aos dezesseis anos éramos sábios! Não brincávamos: pensávamos, tínhamos clubes literários, e declarávamos, com asco, que a Vida era uma podridão! Não namorávamos, amávamos, com esgares e desvairamentos, e excessos trágicos, amaldiçoando a Mulher e odiando o Amor.(Ibid.p.334).
Não se intimida perante as oligarquias:
- Uma quadrinha popular, citada em pleno Senado por um legislador, diz que em Pernambuco quem não é Cavalcanti, é cavalgado. A quadrinha é do tempo do Império; suponho que hoje a supremacia dos Cavalcanti (...) está muito abalada no Recife.(...) Quem é capaz de desenraizar do Ceará, do Amazonas e das Alagoas os Accioly, os Nery e os Malta? Nem um terremoto, nem um cataclismo, nem o Diabo. E mal que não tem remédio, remediado está!(Ibid. p. 345; p.350).
Creio que se pode discordar de Bilac algumas vezes. Por exemplo, quando ele transcreve o seguinte trecho de Camilo, aprovando-o:
- A seriedade é uma doença, e o mais triste dos animais é o burro: ninguém lhe tira nem com afagos nem com a chibata aquele semblante caído de mágoas recônditas, que o ralam no peito...(Ib. p. 395)
No caso, estou a favor dos burros! Deixem-nos com a sua seriedade, que pode ser um corretivo de nossa pouca seriedade.
Caros amigos, vale a pena ler autores do passado.
Falando sem rodeios, eles preservam o nosso presente!

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