segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Querida Itália: para onde vai tua Cultura Musical?

(Homenagem ao Maestro Riccardo Muti).

Foi para mim uma tristeza ler, nos jornais italianos, as entrevistas que se publicaram do regente de orquestra Riccardo Muti, o qual, neste momento, está celebrando setenta anos.
Recordei (re-cordar significa trazer ao coração) aqueles versos de Dante Alighieri, os mais citados de toda a Divina Comédia:

- E quella a me: “Nessun maggior dolore
Che ricordarsi del tempo felice
 ne la miséria; e ciò sa il tuo dottore”.
( Inferno. Canto V, 121-123)

Cristiano Martins traduziu assim tais versos:

-“Não existe”, falou-me, “maior dor
que recordar, no mal, a hora feliz;
e bem o sabe, creio, o teu mentor”.

Fiquei impressionado por Muti aludir a uma velha rixa, que existia entre ele e Claudio Abbado,  e entre as claques de ambos.
Muti dizia sentir saudades daquelas picuinhas...
Ou seja, aquelas picuinhas eram preferíveis à era berlusconiana, que constitui o triunfo da cafonice política e da cafonice cultural italiana.
Pensando bem, não sabemos – os que trazemos sangue peninsular nas veias e, ao menos, vestígios da cultura italiana na memória - a quem, ou a quê, atribuir tão pasmosa decadência.
As declarações de Riccardo Muti, cujas atuações temos apreciado ao longo dos anos, através de vídeos de Óperas, que ele dirigiu no Scala e em outros teatros, deixaram-nos mais do que aturdidos: deixaram-nos desanimados!
O que diria (perguntamo-nos) um Stendhal, se as lesse? Ele, o autor de O Vermelho e o Negro, fã encantado de Rossini, e de outros grandes compositores do belcanto do século XIX? Os leitores podem ler um livro de Stendhal, interessantíssimo, traduzido para o português por Ana Lúcia Machado: Vida de Rossini, seguido de Notas de um Diletante. (São Paulo, Companhia das Letras, 1995).
Sobre esse livro pronunciou-se o apresentador brasileiro, Lorenzo Mammi:
- Stendhal escreveu um dos livros sobre música menos técnicos e mais profundos do século XIX. Falando aparentemente de tudo, e muito pouco de música.
(Ibid. p. 17).
Riccardo Muti lastima o estado em que se encontram as entidades culturais da Itália, a deterioração de seus espaços públicos, o desestímulo às orquestras, o cortejo de desavenças e confrontos entre autoridades e artistas.
Não é só na Itália onde tais desditas se sucedem. A Europa inteira parece não saber mais como preservar seus tesouros.
 Um de meus ex-alunos da Faculdade de Arquitetura da UFRGS, apaixonado por artes plásticas, enviou-me várias fotos de museus, por ele visitados ultimamente, que estão abandonados às traças, com poucos funcionários, infiltrações de água por toda a parte. Um verdadeiro atentado ao pudor artístico...
A quem atribuir a responsabilidade de tudo isso?
Ninguém, obviamente, a assume.
Culpa-se não alguém, mas algo.
Fala-se em crise econômica, em mudança de paradigma, em hiperglobalização, em desinteresse das novas gerações por música clássica, em substituição de espetáculos tradicionais por megashows, em exacerbação da sensibilidade das massas que, atualmente, não está para sentimentos e emoções normais, mas para explosões de histerismo, “alavancadas” por drogas e superdrogas...
Tudo é citado, tudo é posto na berlinda, tudo é trazido à baila!
 Nos turbilhões da mídia, que perdeu o próprio souvenir do pudor, homens públicos se comportam como mulheres públicas, e é possível contemplar, no monitor de um computador, Vittorio Sgarbi, historiador da arte italiano, sendo atingido no rosto por um copo de líquido, amarelado, sabe-se de que procedência...
Não falemos em vergonha, que essa palavra está exilada do vocabulário político e midiático, desde o assassinato de John Kennedy!
O choro é livre – proclama maliciosamente um ditado brasileiro.
Mas que dirão os italianos?
Para consola-los, e consolar-nos, a nós também, recorramos a um texto settecentesco, da Arcádia, ao célebre Lamento de Arianna (1608):

- Lasciatemi morire,
lasciatemi morire;
e che volete voi che mi conforte
in così dura sorte,
in così gran martire?
Lasciatemi morire...

Não, seria demais...
Afastemos essa idéia tétrica!
Fiquemos com Monteverdi, um gênio, que com apenas 7.000 palavras das 44.000 que possui a língua italiana, foi capaz de criar  “nei bei giorni d’Arcadia”, “dolcezze sentimentali”.
Dediquemos às atuais autoridades da Itália os versos de Tommaso Crudeli:

- Due colombelle intatte,
candide più del latte,
bella donna mi diede
in premio di mia fede.

Servo crudel me le ammazzò ad um tratto.
Or voi indovinate
che cosa m’abbi fatto?
Io me le son mangiate.

O descaramento oficial não merece humor mais alto.
Riccardo Muti, por ocasião de seu aniversário, é digno de nossa admiração e apreço.
Apelemos a Pietro Metastasio, a quem, segundo Antônio Cândido na sua obra Formação da Literatura Brasileira (1959), os poetas românticos do Brasil tanto devem, principalmente sua atração pelo verso setissílabo:

- Sogni e favole io fingo; e pure in carte
mentre favole e sogni orno e disegno,
in lor, folle ch’io son, prendo tal parte,
che del mal che inventai piango e mi sdegno.

(...)
Sogno della mia vita è il corso intero.
Deh, tu, Signor, quando a destarmi arrivo
fa’ ch’io trovi riposo in sen del Vero.
(Soneto,1733).     

Desejamos-lhe, caro e talentosíssimo Maestro Muti, muitos anos de vida, e que V. S. saia, da enfermidade que o atingiu,  mais jovem e lépido, mais vigoroso e otimista, para alegria dos milhões de seus fãs, que amam as Grandes Óperas, as obras-primas – entre outras – de Paisiello, Cimarosa, Donizetti, Rossini, Bellini, e Verdi!

Nenhum comentário:

Postar um comentário