segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Que É Ser Poeta Hoje?

        I. Começo por dizer que não entendo essa ânsia, que parece estar obcecando os poetas: a de salvar a Poesia!
Salvar do quê?
Como se a Poesia tivesse nascido debaixo de um balão de oxigênio... e não conservasse nas narinas alguma coisa do sopro de Deus, no Sexto Dia da Criação!
No sétimo dia, sabemos que Ele descansou.
Chega de lamúrias e de prantos por uma recém-nascida, que está vivíssima no século XXI, como esteve nos séculos em que David tocava seu saltério em Israel, e em que Píndaro dedilhava sua lira na Grécia.
Existe um malentendido nisso tudo.
A poesia não só é a linguagem de uma tribo, de um povo, sua expressão subliminal, mas – dito de outra maneira - é a própria linguagem.
Partamos de uma realidade: a natureza do homem!
O homem sempre necessitou de dois tipos de linguagem: a linguagem de expressão, e a linguagem de comunicação.
Por ser um animal, principalmente por ser, às vezes, racional, um animal que tem consciência de si, ou , com maior riqueza de detalhes, que pensa, sente, ama, e tem medo, possui o que se convencionou em chamar, mundo interior.
A rigor, esse mundo, no que tem de mais intrínseco, só é acessível a quem o possui, pois cada um de nós possui um mundo interior. Só a pessoa que tem esse mundo sabe, realmente, o que pensa, sente, ama , e teme.
Como fará, então, tal animal para expressar-se e comunicar-se?
A comunicação é pouco mais do que expressão corporal.
Os experts em comunicação – e hoje são tantos – observam que, em geral, é melhor indicar silenciosamente com o dedo (indicar é um verbo que pressupõe a presença do dedo indicador!) do que falar, quando o vendedor, à nossa frente, está com o rabo preso na Folha ou na ZH,  ou o funcionário público deseja – vá lá! – caçoar do colega de trabalho pelo resultado de um  Grenal!
Portanto, comunicar é, simplesmente, ressaltar o óbvio: uma dúzia de bananas que pretendemos comprar, ou um terno cujo preço está à vista.
A maioria das comunicações são informações, que interessam, ou desinteressam, mas que exigem de nós pouco mais do que orelhas de aluguel. 
O difícil é tirar a água do poço, – isto é – revelar o próprio mundo interior.
Quando isso se impõe ao indivíduo – isto é, à pessoa – ela tem de recorrer a um balde.
Um balde não é só um balde: é uma corda, uma roldana, e a viabilidade de acionar a roldana.
É, sobretudo, o esforço para puxar a água até à borda.
Isso significa que a expressão não é atividade que se efetua sem planejamento. É uma decisão. A decisão de lançar o balde ao poço, fazer o balde chegar até ao fundo, onde está a água, trazer de volta o balde cheio - o que supõe que a corda tenha resistência para agüentar o balde repleto.
A imagem é trivial: alude ao fato de que o homem tem, dentro de si, uma jazida de sensações, de percepções, de memórias, de sentimentos, e de emoções. Além, evidentemente, das coisas que subjazem a tudo isso, e a que hoje se chama Subconsciente e Inconsciente.
Essas jazidas são profundas, e não ao alcance de todos; São jazidas que exigem esforço mais trabalhoso para revelarem os tesouros de suas entranhas.
Para efeitos de comparação, a linguagem é, ao mesmo tempo, o balde, a corda, e a roldana. Pois é o conjunto que permite ao Eu extrair a água do poço.
Talvez seja útil inquirir: e a água?
A resposta é elementar: são as vivências do indivíduo, sua digitalidade psíquica, sentimental e emotiva, acrescida das auréolas de significação e sentimento, que a linguagem, que o indivíduo recebeu de sua mãe (daí lingua materna) que, de resto, não é da mãe, porque esta também a recebeu. É do povo e da cultura, a quem a mãe e o filho pertencem, em cujo “entorno” geográfico, sócio-econômico, e político estão inseridos.
Por tanto, a poesia consiste em desenvolver, com certa criatividade pessoal, as possibilidades visuais e sonoras, da linguagem, primeiramente das próprias experiências, depois dessas experiências unidas às experiências de outros pessoas com as quais, necessariamente, se tem de conviver.

        II. Não é preciso sublinhar o fato de que a poesia se reveste, em qualquer hipótese, de uma dimensão sensorial, a do autor dos poemas, já que não se pode conhecer os sentidos alheios.
Eles são a fonte.  Se os sentidos do poeta forem atentos, delicados, sutis, as sensações visuais, auditivas, olfativas, táteis, etc., também o serão.
A poesia, por outro lado, não pode existir sem uma dimensão sentimental ou afetiva, conforme a inclinação do poeta, e das pessoas onde ele se forma.
Em terceiro lugar, a poesia terá uma dimensão emotiva, maior ou menor, dependendo da excitabilidade dos estados psicológicos do poeta.
Isso é a base.
Mas a casa não é apenas o terreno onde se apoiam os alicerces.
É também a paisagem, dentro da qual a casa está.
A paisagem é constituída pelo conjunto de realidades no qual a infância do poeta se desenvolve, com todos os pormenores que a acompanham: o pátio da casa, o jardim (caso exista), as goiabeiras, as laranjeiras, as casa dos vizinhos, as ruas nas imediações, a torre da igreja, o botequim da esquina, etc.
Dizer que a biografia de um poeta consiste nos seus poemas é dizer meia-verdade. É preciso acrescentar que a biografia de um poeta é constituída literalmente por sua biografia, vivida aqui e agora.
Mas será isso suficiente?
De forma alguma.
O poeta é o que outros pensaram por ele, e lho instilaram na cabeça e nos nervos; os lugares-comuns que lhe impingiram, dos quais terá de depenar-se; os costumes e ritos sociais da etnia da qual procede.
Para usar uma expressão de Ortega y Gasset, o poeta é ele mesmo, e suas circunstâncias.
É ainda algo mais.
O poeta é a tradição literária de sua terra, mais precisamente de seu idioma, o qual, no dizer de Fernando Pessoa, é sua pátria. Ou melhor: sua mátria (como alguém já sugeriu).
Se uma criança ou um jovem nunca escutar uma cantiga de roda, uma ciranda, outra cançãozinha qualquer, não será poeta.
Um notável historiador da arte, E. H. Gombrich lembrou que um pintor deve mais a outros pintores, aos olhos de outros pintores, do que aos próprios.
Li, num Dossier sobre Cézanne, que este artista observou, nos seus contatos, que os camponeses eram insensíveis às paisagens, por mais que estas estivessem entremeadas à vida deles.
Em outros termos, a arte não é uma descoberta solitária: é a descoberta de toda uma sociedade, uma descoberta devida a um convívio.
Mais tarde, pode ocorrer um fenômeno curioso: a visão pessoal de um artista pode tornar-se a visão de toda uma sociedade, e até de todo um continente. Exemplo magnífico disso é a pintura de Van Gogh.
Existiam girassóis antes de Van Gogh. Informei-me, em historiadores da arte, que era, até, moda no tempo de Van Gogh pintar girasssóis. Por que, então, só ficaram os girassóis de Van Gogh, seus amarelos?
 Por uma razão: Van Gogh corrigiu os excessos e banalidades visuais dos girassóis da época, concentrando-se no que tinham de mais original, no que eles tinham de sol: no dourado de suas corolas.
Toda essa conversa-fiada sobre poesia popular, como se a poesia popular nascesse do ar, por geração espontânea, é desprezível. Um xamã, um feiticeiro, um sacerdote (védico, hebraico, zoorastriano, ou zen-budista) esteve no início de qualquer jorro poético da humanidade.
 Até mesmo, de qualquer Epopéia.
Homero é Homero, mesmo quando somos informados de que seus poemas são resíduos aproveitados de outros poemas. Homero foi um poeta individual. Ou porque ele realmente existiu, ou porque o povo achou que ele devia existir, e lhe atribuiu o que procedia de vários Homeros, que não tinham tido o talento de unificar as expressões de outros colegas.
Shakespeare, idem. Pode ser que Shakespeare tenha sido inicialmente, vários autores. O seu gênio, porém, consistiu em sugar o pólen de muitas flores e unificá-los no mel de suas tragédias e comédias.
Eis onde se situa o problema do estilo.
O estilo é o homem: quanta gente já disse isso depois de Buffon (1707-1788).
Nada mais exato. A poesia exige um estilo.
Como se forma esse estilo?
No início o poeta deve imitar alguém. Até um gênio, como Victor Hugo (1802-1885), imitou seus antecessores. Por exemplo, Victor Hugo imitou “o mais reputado poeta moderno de seu tempo”, diz o conhecido historiador da literatura francesa, Philippe Van Tieghem. Voltaire era modelo de poesia para o gênio da Legenda dos Séculos, enquanto Walter Scott era o modelo para seus grandes romances, como O Corcunda de Notre-Dame e Os Miseráveis.
Noutras palavras, se um candidato a poeta se recusa a imitar um grande poeta, não será jamais grande poeta.
A poesia, no fundo, é um contágio.
Imaginar que um poeta seja pai de si mesmo é ridículo. É imaginar que as girafas nasçam das hortaliças, e os tucanos das orquídeas.
Repitamos: a poesia exige um estilo.
Por isso, só milagrosamente encontra-se um poeta com estilo nas suas primeiras obras.
Não existirá estilo nelas?
Claro que existe, mas esse estilo inicial é um estilo que se procura, um estilo que se coça e se irrita consigo mesmo, um estilo que, de repente voa até ao céu, e de repente, precipita-se no banal.
 O verdadeiro estilo do poeta nasce no momento em que ele é capaz de unificar as suas províncias estilísticas, como a Itália unificou seus ducados e repúblicas.  
O estilo do poeta é sua glória.
É um estilo que progride, que se projeta na direção de si mesmo. É uma estranha e fértil combinação de centripetismo e centrifuguismo emocional e estético.
Chegamos, nesta altura, a uma encruzilhada: não existe poeta sem pensamento.
Ou antes: sem uma cosmovisão, ou - ao menos - sem uma cosmovisão in nuce.
Ninguém pode passar nesse mundo em brancas nuvens. Todo ser humano é pensador, quer se assuma, quer se renegue. O pensamento é para o poeta como as estrias na pele do tigre: dizia Chesterton que nenhum tigre se livra delas.
Rematemos: poeta é, também, um fingidor, segundo a concepção de Fernando Pessoa.
Ou seja: o poeta é alguém que tem obrigação de fingir.  É alguém que deve fingir alegria quando pode estar escrevendo um poema jubiloso – e tristeza, no caso oposto.  
O fingimento é a transfiguração da emoção subjetiva, sua passagem de coisinha ou de grande coisa (na sua vivência íntima) à grande coisa da expressão.
Porque em poesia não existem bagatelas, embora a grande poesia seja feita de bagatelas, de brigas com namoradas e amantes, ou com meretrizes, de traições a esposas amadas, de devoções comoventes a elas, de patifarias, delitos, sordidezes, atos heróicos, noitadas de álcool e drogas, êxtases magníficos de altíssimo misticismo, como os poemas de Santa Teresa de Ávila e San Juan de la Cruz.
Todo o lixo do mundo pode ser reciclado pela Poesia.
Pode, inclusive, ser convertido em pedrarias, em energia atômica, em usina hidroelétrica.
A grande questão, resume-se num golpe de sorte: tropeçar num grão de genialidade.
Na falta deste, tropeçar noutros favorecimentos, que podem ser os do talento, do encontro de companheiros estimulantes e - numa hipótese fantástica – até cair de um cavalo na estrada de Damasco, escutando uma voz do Outro Mundo.
Se o poeta conseguir colher tais feixes de espigas, debulhá-las, e jogá-las entre os dentes de uma mó implacável, encontrará a farinha com que fará seu pão, do qual nem só vive o homem, mas sem o qual não existe Poesia.   

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