segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Para Onde Vão os Valores da Sociedade Ocidental?

        Assistimos a uma espécie de derrocada dos valores, que se implantaram na sociedade ocidental durante alguns séculos, oferecendo-se durante séculos, com inconcebível despudor, como substitutos dos verdadeiros valores cristãos.
G. K. Chesterton tem razão, quando considera tais valores-substitutos como “virtudes enlouquecidas do Cristianismo”.
Escreveu o grande poeta, ficcionista, e ensaísta católico:
- Quando um sistema religioso é estilhaçado (como foi estilhaçado o Cristianismo na Reforma), não são apenas os vícios que são liberados. Os vícios são, de fato, liberados, e eles circulam e causam dano. Mas as virtudes também são liberadas; e as virtudes circulam muito mais loucamente, e elas causam um dano mais terrível. O mundo moderno está cheio de velhas virtudes cristãs enlouquecidas. (Ortodoxia. Edição centenária: 1908-2008. Trad. de Almiro Pisetta. São Paulo, Editora Mundo Cristão, 2008. p.52).
O declínio da influência cristã no Ocidente teve um de seus momentos culminantes no século XIV – quando a corrupção interna da Igreja, que sempre existiu com maior ou menor intensidade, alcançou dimensões assustadoras, especialmente nas cortes dos Papas-Príncipes do Renascimento.
Hans Küng falou, inclusive, numa Era da Hipocrisia Institucionalizada. (Igreja Católica. Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2002. p.156).
Dessa fase ficaram, como exemplos significativos, os seguintes períodos:
I.                Sisto IV (Francisco della Rovere: 1414-1484): elevou seis parentes ao cardinalato, incluindo seu primo Pietro Riario, “um dos vagabundos mais escandalosos da cúria romana, que morreu em conseqüência de seus vícios com apenas 28 anos”; Sisto IV distinguiu-se por uma vida faustosa, e é considerado um típico Papa Renascentista;
II.              Inocêncio VIII (1432-1492): promoveu a caça às bruxas, e celebrou, com especial pompa no Vaticano, os casamentos de seus filhos;
III.            Alexandre VI (1431-1503): do qual o mais inculto dos inimigos do Catolicismo ouviu falar , graças às aventuras belicosas e voluptuosas de seus filhos, César Bórgia e Lucrecia Bórgia - esta, para todos os efeitos do marketing anti-papal que a caluniou, uma astutíssima envenenadora; graças, também, ao fato de Alexandre VI ter consentido na condenação do monge Savonarola (queimado em Florença, em 1498);
IV.             Júlio II (1443-1513): segundo o historiador Guicciardini, foi uma das personalidades mais profanas que ocupou o pontificado, singularizando-se por suas atitudes de verdadeiro Papa-Soldado; amigo de Miguel Ângelo, Bramante e Rafael; foi quem lançou a “Campanha das Indulgências”, que provocou a rebelião de Lutero;
V.               Leão X (Giovanni de Médici, 1475-1521): foi feito cardeal aos 13 anos por seu tio, o mencionado, Inocêncio VIII, que levava uma vida licenciosa que contribuiu para a reação explosiva de Lutero, visto que este pôde ver com os próprios olhos a devassidão da corte papal, quando visitou Roma aos 28 anos de idade; Leão X foi o grande mecenas dos famosos artistas de sua época, entre os quais Rafael; foi cognominado pelo teólogo Hans Küng de “playboy superficial”. (A Igreja Católica. p.163).
Não trazemos tais episódios ao conhecimento dos leitores com o objetivo de diverti-los, menos ainda de censurar, uma milésima vez, determinados escândalos pontifícios.
Tais fatos devem servir-nos de balizas.
Foi a partir deles que se desencadeou a renovação da Igreja Católica, a qual empreendeu a restauração dos costume mediante o Movimento da Contra-Reforma, cujo ápice foi o Concílio de Trento,. O subseqüente surgimento de uma série de Congregações Religiosas, entre as quais a Companhia de Jesus de Santo Inácio, resultou numa retomada do esforço evangelizador dos primeiros tempos do Cristianismo, com novas formas de influência na sociedade.
A progressiva laicização, ou secularização, dos valores, que cada vez mais se afastaram das fontes primitivas do Evangelho, derivando para interpretações moralistas, teve seu ponto de partida nesses fatos que mencionamos.
Sob muitos aspectos, o Protestantismo constituiu uma autêntica refontalização evangélica, induzindo os fiéis, não só a uma experiência dogmática, mas também a uma experiência existencial da mensagem de Jesus, da qual o Pietismo seria uma de suas manifestações mais notáveis. O recurso à Bíblia e o estímulo a uma assimilação pessoal do conteúdo evangélico, tiveram, como principal conseqüência, uma leitura menos alegórica da Palavra de Deus, e uma leitura, mais literal, e intensiva de suas exigências.
Como corolários indiretos de tudo isso, instaurou-se, na sociedade, um individualismo exacerbado, uma perigosa desconfiança em relação à legitimidade da Hierarquia Eclesiástica. Esta, reagindo às pressões dos fiéis, se engessou numa espécie de aristocracia religiosa, distanciada dos fiéis, embora tenha sido abalada pelo surgimento espontâneo de profetas e fundadores de movimentos religiosos, capazes não só de suscitarem nela perplexidade, mas também de constrangê-la a mudanças de pele periódicas.
A pior conseqüência de tudo isso, talvez, tenha sido a famosa “revolução científica e filosófica”, que se encarnou no Racionalismo, a que se seguiu uma pueril confiança nas conquistas do Progresso, visto como o universo da técnica e da tecnologia.
A partir de então a ética passou a ser uma sorte de prêt-à-porter subjetivo, baseado em interpretações elásticas da Lei de Deus, como se o homem pudesse , desajudado pelos auxílios sobrenaturais de Cristo, chegar à compreensão das Utopias, ou que outro nome tenham tido elas, ou seja, as projeções imaginárias de, por vezes, generosas soluções sócio-econômicas, de justiça social, como as da Revolução Francesa, ou de valorização do trabalho e distribuição de renda, como propunham Marx e seus seguidores.
O mundo, que desmorona aos nossos olhos, não é só o mundo do Capitalismo e de todos os Socialismos utópicos, ou ensaiados na práxis, nas suas pretensões mais caleidoscópicas, mas o mundo, também, interior dos conflitos das personalidades, que Pascal principiou a revelar, e que Freud sonhou ter resolvido com fórmulas psicanalíticas, que evocam as da antiga alquimia em relação à realidade, nua e crua, da Química.
Portanto, o mundo do Século XXI, com sua ganância pantagruélica, seu erotismo animalesco, não é senão a conseqüência de nossa pretensão de resolver todos os problemas deste mundo, não só à parte, mas ultimamente também, contra a Revelação de Cristo.
Nesse fracasso evidencia-se, não apenas, o orgulho e a insensatez da humanidade que perdeu sua bússola, mas também a macaqueação que os grandes deste mundo tentam fazer da onisciência e da onipotência de Deus, que substituem por um aparato de estratégias de violação da privacidade, de crença no poder do dinheiro, e de busca da felicidade através de todas as transgressões possíveis e imagináveis, ou seja, através daquilo que Arthur Rimbaud propunha: o desregramento dos sentidos.
Assistimos, pois – está e a realidade – ao desmoronamento de um baralho cuidadosamente montado, no qual as imagens heráldicas cederam lugar a pobres caricaturas de ídolos midiáticos, como o são os jogadores de futebol, os atores e atrizes de televisão, os cantores de rock, e outros miseráveis ídolos, nos quais a gestualidade sufoca o que havia de prazer musical nas melodias do passado.
Derrocada de valores?
Sim, pois o terremoto é acompanhado da necessidade de reconstruir o que tombou apodrecido, ou da violência da Natureza, que revient au galop.
Nisso tudo, onde situar o papel do Cristianismo?
O único papel verdadeiro do Cristianismo, na hora atual, consistirá no retorno às suas fontes, que não são outras senão as do Evangelho.
Ao invés de se deixarem intimidar e aterrorizar por tão devastadores cataclismos, os cristãos devem compreender, mais uma vez, que a melhor maneira de ter as mãos livres, é jogar no lixo o que até agora constituía a obsessão do mundo, o poder, que é dado ao homem, não pela razão, mas pela irracionalidade de suas descobertas e invenções, o dinheiro (que finge dar um poder que não tem) e a felicidade, que neste momento se reduz à absorção de cocaína e do que promete paraísos artificiais, reduzida a um epicurismo da pior qualidade, indigno dos fundadores dessa seita filosófica, que propunham o auto-domínio, e a proscrição das falsas necessidades.
O problema é descobrir quem pendurará as campainhas no pescoço dos gatos.
Ratos existem aos milhões.
Dizem os céticos, inclusive cristãos, que o problema é a inexistência de campainhas.
Pode-se perguntar ao australiano Murdoch, e a seus colegas de soberania mundial midiática, como Silvio Berlusconi, o que fizeram delas.

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