segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Menos Atenção aos Escritores. Mais Atenção ao que Escrevem!

Somos uma sociedade que tem obsessão por personalidades!
Queremos nomes, e, além de nomes, queremos marcas.
Não nos contentamos com o que tocamos e vemos. Queremos que o tocado e o visto tenham carisma, isto é, que sejam personalizados.
Parece-nos que, não só os homens e as mulheres devam ter nomes, mas que um sabonete, um carro, uma pedra, devam tê-lo.
A propósito: quando surgiram as primeiras marcas comerciais?
Foram elas que nos acostumaram a esse excesso de nomes. Já não falamos de coisas, falamos de marcas de coisas.
Com tal mania, acabamos por atribuir uma importância absurda às máscaras das pessoas, não ao que elas são – às suas pessoas – e ao que fazem.
Lemos um autor não porque estamos interessados na obra dele, no seu universo ficcional, mas porque é um ícone.  Lemos um autor por uma questão de prestígio. Até mesmo, para estar à la page.
Lemos os autores que são louvados em prosa e verso, e agora em internês.
Lemos autores que figuram entre os mais vendidos. A inclusão de um autor entre os best-sellers é garantia de qualidade.
Ler um autor que não está nas manchetes dos jornais, que não aparece na televisão, é exilar-se.
O gosto individual – correspondente literário da consciência moral do indivíduo (a qual, mesmo sendo errônea, deve ser seguida, segundo ensina o grande São Tomás de Aquino) – quase desapareceu. Até professores e críticos literários têm medo de contrariar o público, dizendo o que pensam – e sobretudo o que sentem.  
Pode-se falar em hipocrisia, ou, com maior precisão, em covardia literária.
Houve uma época em que o gosto literário do público era pilotado pela Corte. A idéia de “provincianismo” deve ter-se engendrado nessa época. Ficou a significar matutice.
La crème de la creme estava nesses círculos aristocráticos que, de resto, faziam jus ao privilégio, visto que o analfabetismo imperava fora da Corte.
Depois da Corte, apareceram os Salões (a moda ocorreu ´principalmente no século XVII) presididos por duquesas, condessas, viscondessas, baronesas. Algumas delas – admito-o galantemente - eram mais inteligentes e talentosas que os escritores que as freqüentavam, e naturalmente se deleitavam com seus jantares e licores.
Tenho particular admiração por duas dessas mulheres, Madame de La Fayette (1634-1693), autora de um grande romance, A Princesa de Clèves, e a Marquesa de Sévigné (1626-1696), cujas Cartas (uma seleção das quais, pois escreveu 1.500 missivas) li com encantamento.
Madame de La Fayette e Madame de Sévigné são duas clássicas.
Sobre A Princesa de Clèves, que adquiri num sebo de Porto Alegre, numa edição da “Coleção Tucano” da Globo, em  tradução de Mario Quintana (Porto Alegre, 1945), disse o historiador da Literatura Francesa, Philippe Van Tieghem:
- É uma das obras-primas imortais da nossa literatura romanesca: de século para século continua a encantar grande número de leitores, pela atmosfera em que se desenrola uma aventura de eterna verdade e se afirma o carácter de uma mulher que mantém secretas todas as suas profundas e humaníssimas fraquezas por um esforço de dignidade e de delicadeza inerentes às almas nobres. A paixão mostra-ser tanto mais fatal quanto mais longe está de lhe dirigir um apelo – mesmo inconsciente – à alma que ela vem surpreender e invadir.
(História Ilustrada das Grandes Literaturas. II. Literatura Francesa.Tradução, prefácio e notas do Prof.  Dr. Jacinto do Prado Coelho. Lisboa, Editorial Estúdios Cor, 1956. p.162.
Após os Salões, os pólos de influência diversificaram-se. Apareceu a crítica de jornais e de revistas, e também fizeram-se notar as pressões das editoras.
Os interesses artísticos acabaram sendo decididos por manipuladores de cifras.
E o público?
O público, como sempre, deixa-se submergir por uma publicidade torrencial, que o convence de que uma obra literária é boa porque foram vendidos cem mil exemplares, ou alguns milhões.
Sabemos que a venda, em si, não significa que o livro é bom, nem que é mau.
No tempo de Victor Hugo venderam-se 7 milhões de exemplares de Os Miseráveis. Esse romance de Victor Hugo, considerado uma das maiores criações ficcionais da Literatura Ocidental, é comparável às criações de Dostoievsky e Tolstoi.
Escrevo as presentes reflexões, em parte motivado por um episódio que li nas crônicas jornalísticas de Olavo Bilac, republicadas recentemente sob o título Vossa Insolência (SP, Companhia das Letras, 1996).
Bilac conta que, em 1890 - quando foi prestada a primeira homenagem oficial da cidade de Rouen ao seu ilustre filho Gustave Flaubert - ele, Eduardo Prado, Paulo Prado e Domício da Gama resolveram participar do evento. Embarcaram, em Paris, numa manhã de inverno, no trem expresso que os conduziria a Rouen, alojando-se num vagão de primeira classe.
O trem ia já partir quando entraram, no mesmo vagão, vindo a ocupar os quatro lugares do lado esquerdo, quatro sujeitos “encapotados e encharcados”, nos quais os brasileiros reconheceram quatro figuras do movimento naturalista da França: Émile Zola, Edmond de Goncourt, Guy de Maupassant e o editor Charpentier.

Demos a palavra ao Poeta:
- Nós, os quatro brasileiros, entreolhávamo-nos, e aguçávamos os ouvidos, ansiosos por ouvir a conversa interessantíssima que certamente se ia travar entre aqueles homens ilustres. Viajar duas horas, ao lado de Goncourt, de Maupassant e de Zola, que inesperada chance, que milagrosa aubaine (que milagrosa sorte).
Prossegue Bilac:
- Foi uma decepção tremenda! Maupassant, Zola e Goncourt estavam endefluxadíssimos: tossiam e espirravam de três em três minutos – enquanto o editor Charpentier, encolhido a um canto do vagão, dormia e roncava. De quando em quando, um dos três grandes romancistas olhava através da vidraça a paisagem, alva de neve e vergastada de chuva, e dizia melancolicamente, entre os dentes cerrados: “Sale temps” (Que tempo feio!)... Os outros sacudiam a cabeça com desconsolo, e repetiam: “Sale temps!” E assim foi até Rouen.”.Sale temps!...Sale temps!..”.- foram as únicas frases notáveis que saíram da boca daqueles homens notáveis.(Ibid. p. 143-144).
Bilac refere que, em Rouen, Goncourt pronunciou “um curto e lindo discurso”, e que depois ele e seus companheiros foram visitar, com religioso respeito, a coleção de manuscritos de Flaubert na Biblioteca. Apenas um épicier (quitandeiro), já velho, que cochilava à porta de sua loja defronte da Catedral, mostrou conhecer o nome e a glória do festejado escritor: Disse-nos que Flaubert “era um escritor muito conhecido!. Mas acrescentou logo que “o grande Flaubert não era aquele: era o outro, o pai do escritor, um médico “très savant” que várias vezes fora maire (Prefeito) da cidade e deixara uma boa e sólida reputação de clínico sisudo e de cidadão prestimoso”. (Ibid. p. 145-146).
Conclui o Poeta:
- Grande Gustave Flaubert! A sua glória e o seu valor nunca estiveram, nem estão, nem nunca estarão ao alcance da inteligência de toda a gente.(Ib. p. 146).
Podemos constatar que a época dos escritores-stars, que no século XX, foram equiparados aos astros de cinema e do esporte, parece estar passando.
Lembro-me de Mario Quintana: abordado por uma fã, que lhe perguntou:
- O Sr. é o grande poeta Mario Quintana?
O Poeta retrucou:
- Sim... às vezes!
Grande sabedoria!
Não há escritor, extraordinário ou genial, que o seja sempre. Todos o são às vezes! É por isso que a tradição cunhou aquela expressão que merecia ser gravada em bronze:
- Aliquando dormitat Homerus...
Isto é:
- De vez em quanto, até Homero cochila..
Por isso, não é conveniente que os escritores sejam mitificados pela publicidade.
Os escritores são escritores por serem dotados de um carisma pessoal para a linguagem. E, sobretudo, porque transpiraram  para  desenvolver e aprimorar seu carisma.
À medida que os leitores se distanciam das biografias, e sobretudo, de reportagens e entrevistas mitificadas e mistificadoras,  poderão concentrar-se na sua produção.
Essa é que deve interessar o leitor.
O escritor merece ter sua vida pessoal preservada.
O marketing tem impulsionado o renome de muito escritor de segunda, terceira, ou de nenhuma  categoria.
A verdadeira literatura é a que resiste ao tempo, à ferrugem das opiniões, ao atropelo das paixões, ideologias, e fanatismos.,
E sobretudo ao atropelo da mídia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário