terça-feira, 2 de agosto de 2011

Sobre o Livro de Ricardo Silvestrin: “O Menos Vendido”(Poemas).

Um dos maiores prazeres literários consiste em descobrir um verdadeiro poeta e, de quebra, um poeta verdadeiro.
Verdadeiro poeta é quem escreve poemas que são poesia.
Tal descoberta, hoje em dia, é rara. Já era rara no tempo de Homero e Virgílio! Com o surgimento da mídia, tornou raríssima.
Compor poemas virou algo tão insólito como formular a Teoria da Relatividade na bagunça de um comício, ou apertar a mão de Fernando Pessoa no interior de uma discoteca praiana.
Pode-se, porém, indagar:
- Quem deve ser qualificado de Poeta verdadeiro?  
A resposta é uma só: quem escreve poemas, a partir de si mesmo, e da nação, ou povo, com o qual está identificado - poemas que possuam autêntico conteúdo existencial, e uma forma poética não só não decalcada em modelos ultrapassados, como também criativa.
Poeta verdadeiro é quem se esforça por chegar ao homem - o homem concreto que subjaz a qualquer animal racional.       
Que o homem seja um substantivo concreto, basta vê-lo comendo um cachorro-quente, na rua, a mostarda a cair-lhe pela boca. Que a natureza humana seja, em geral, substantivo abstrato, basta deter-se num dos tantos discursos demagógicos, ou numa efusão televisiva, na qual é exaltada como detentora de Direitos Humanos (“desde a Revolução Francesa.”, acrescentam os mais cultos).

Ricardo Silvestrin é, inegavelmente, um verdadeiro poeta.
Um verdadeiro poeta contemporâneo, com suas qualidades e, às vezes, suas idiossincrasias.
É natural, pois, que, na condição de poeta contemporâneo, principie seus versos, perguntando-se: O que é a Poesia?
No início de O Mais Vendido topamos com essa questão.
Para deleite do leitor, o poeta não tergiversa, nem se aproveita da situação para dizer que a poesia não é um sorvete, passando a descrever o último sorvete que comeu.
O poeta aborda a questão a peito descoberto:

Este poema
é uma boa chance
pra você ficar calado.
        Nada soa
além do silêncio
desta partitura.
Uma palavra como esta
dançando
na sua cabeça.
Nenhuma outra lei
além de leitura.(p. 12).

Convenhamos: é uma aproximação honesta, e competente, da Poesia.
Um pouco adiante, o poeta retoma o mesmo tema, como um grand seigneur:

Cansei de abrir
o murro a murros

estendo as mãos
     esfoladas
pra quem me leva
a um lugar mais seguro

cansei de ir sozinho
achando os interruptores
             no escuro

      aguardo, paciente
pra voar com um bando
             de gente.

Tudo isso, com rimas!
Sem aporrinhar o leitor com triviais aliterações.
O ponto mais alto, porém, Silvestrin o atinge no seguinte poema, que nos compensa de tantos pseudo-poemas a respeito da fatigada Poesia:


Não vá esquecer este poema
como se esquecem os nomes
um encontro
o número de telefone
não vá esquecer
e tudo é esquecimento
(exceto o que pulsa
o que impulsiona pra frente)
leve este poema consigo
guarde na carteira
cole no espelho
a gente nunca sabe
quando vai precisar de um poema.

Quase teria preferido que o poeta ficasse apenas com o contundente fecho desse poema, de uma veracidade memorável:

A gente nunca sabe
quando vai precisar de um poema.

Está tudo dito.
Um poeta, capaz de refletir com tal profundidade e agudeza, e que também sente o que refletiu, como um arranhão na pele, é verdadeiro poeta, na mais rigorosa acepção da palavra.

Mas onde fica o poeta verdadeiro?
O poeta verdadeiro não trapaceia sobre si mesmo, nem usa máscaras, nem mesmo contra os gases da publicidade. Tampouco se embriaga com os elogios falsos de amigos e, principalmente, de seus inimigos.
Um poeta verdadeiro é quem se olha no espelho, e faz a pergunta que Cecília Meireles, há muito tempo, e que deverá ser feita sempre:

Em que espelho ficou perdida
      a minha face?
      (Poema “Retrato”. In: Viagem. 1938).

Supõe-se que, após essa pergunta, o poeta saia ao encalço de sua face, ou, de suas faces, em todos os espelhos do mundo.
É aqui que o respeito e a admiração, que dedicamos ao poeta Silvestrin, impõem-nos a obrigação de chamar a atenção dos leitores para uma bipolaridade que existe em sua obra:
1. Na primeira parte do livro: Manchas, que vai até à página 156, onde se encontra o poema Teixeira, existe “um” poeta. Chamemos-lhe o poeta essencial.
Depois da página 157, onde o leitor encontra o seguinte poema:

- Muito bem, confessa!
      Quem é esse Manuel Bandeira?
      Faz avião no Morro da Cruz?
      Aos costumes, Teixeira!

encontramos  o outro poeta, o poeta que se dispõe a pagar pedágio a Osvald de Andrade, e aos que cultivaram, e cultivam ainda hoje, o poema-piada.
Explico-me:
A partir de Quieto no meu Canto, II Parte do Livro, Ricardo Silvestrin torna-se um poeta versátil.
Que me seja perdoada esta objeção.
Vou mais longe: até então, o poeta apresentava-se como uma espécie de discípulo de Sócrates. Alguém que não receava jogar água fria no próprio rosto, para poder despertar melhor, alguém que, para chegar à total lucidez, alijava de si todas as máscaras, que a sociedade e a própria linguagem atam ao rosto de cada um de nós. Um gaúcho urbano, enfim, sem poncho, mas de faca na bota diante da Morte que, como dizia Albert Camus, transforma a vida de um homem em destino.
A partir da segunda parte, porém, embora não se desfaça a identidade do poeta, ei-lo que surge com outro rosto (ou outra máscara?). É alguém que se despe para ser uma espécie de Diógenes contemporâneo, exposto à geada de uma metrópole estadual no inverno, ou ao esturricante sol de um verão em Capão da Canoa.
Silvestrin assume-se - e quer ser - um cínico, no melhor sentido da palavra.
Um cínico?
Sim, um filósofo transbordante de ironia e sátira.
O poeta se converte no que a maioria dos poetas contemporâneos aparentam ser, ou até desejam ser: porta-vozes das gerações mais novas, mais rebeldes, mais-pós-Maio-de 68.
Os poetas acabam tornando-se ironistas, denunciadores de todas as hipocrisias, mestres na arte do debocha elegante.
Será bom isso?
Será menos poético?
Não sei.
Silvestrin é um poeta das novas gerações, e estas têm os seus valores, suas referências, seus gurus.
São poetas que, até certo ponto, adotaram o “Plano-Piloto para Poesia Concreta”, do qual derivaram várias correntes, os promotores da Poesia-Práxis, ao qual se juntaram, com o tempo, membros de diferentes grupos, como Tendência, Ptyx , Vereda, entre os quais, Noigrandes, e a Geração da Poesia do Mimeógrafo.
Ninguém está proibido de gostar desses poetas. Pelo contrário. Não deixamos de apreciar determinados praticantes de todo tipo de haikais, e modalidades verbi-voco-visuais.
Para dizer a verdade, também respeitamos o Concretismo, e correntes assemelhadas, mais por aquilo que se propuseram a realizar, do que pelo que realizaram. Seus estímulos à construção do poema, sua maior atenção à elaboração do verso, ao aproveitamento do espaço gráfico do poema, merecem ser revistos, e retomados.
Mas não estamos aqui para discutir teorias, e sim para valorizar um poeta excepcionalmente talentoso.
Sigamos.

Se, na primeira parte de O Menos Vendido, o autor abordava questões relativas à sua condição intransferível de poeta, à sua metafísica ou existencialidade, no restante do livro, ele preferiu adotar variados pontos-de-vista, e até outro tom, o da flagelação dos lugares-comuns, dos mitos sociais, das niñerias e naderías do cotidiano, aos desmandos do universo do Consumo, enfim, uma destruição em regra das falsas coroas da Globalização.
O lirismo introspectivo, que predominava na primeira parte, passa a ser um divertissement à moda beatnik, um jogo, meio-sério, meio-jocoso, de esgrima com a própria Morte.
Antes, porém, de penetrarmos nesse território, fixemo-nos nalguns poemas notáveis da primeira parte:
Um poema sobre a contingência, ou sobre a efemeridade da existência:

A rocha é frágil diante do raio
A cidade, diante do terremoto
O corpo diante da bala
      A pessoa diante da fala
O amor diante da morte

A rocha é forte diante do corpo
A pessoa, diante da avenca,
      O amor diante de tudo
Menos da morte

A morte é forte diante da vida
A vida é frágil do elefante à formiga.
(Ibid. p.37).

O poema recém-citado pode ser associado a outro poema, que parece ser sua origem:

Um gato morto na rua de chão batido
           as moscas entram e saem
           pelos seus ouvidos
     estou ali olhando
     desde criança.
(Ibid. p. 44).

Vejamos outras composições sobre a mesma temática:

A morte sempre foi assim
só não tinham contado para mim.

também nem precisava:
era só olhar a folha suicida,
o assassinato das formigas,
              o sol todo dia
ensinando a despedida.

O médico balança a cabeça,
o armador faz o seu preço,
o coveiro espera por outro.

    A morte sempre foi o fim.
    Eu é que me fingia de morto.
(Ibid. p. 54).

Não raro, o poeta oculta as unhas, como um felino cansado. Mostra-se delicadíssimo:

Esta música
me leva a um bar
de dez anos atrás.
Lá vou eu girando,
       dançando
com as roupas da moda
de dez anos atrás.
Túnel do tempo,
vida no além,
o que foi continua pulsando
mesmo depois de morto.

Se a alma é música
quem precisa de corpo?
(Ib. p. 41).

Viremos a página.
É já hora de cumprimentarmos esse mini-Diógenes de nossa poesia.
Não há dúvida, de que o espírito de Leminski continua vivo, saçaricando por aí, em todos os bares onde se reúnem os poetas irritados com o bom-comportamento da literatura tradicional, ou simplesmente, da literatura oficial e oficiosa.
Demos um exemplo da veia desse poeta remanchador (Cf. p. 161), de sua lixa, de sua pedra-de-amolar (p. 163) do você disse uma coisa, você entendeu outra (p. 173):

Já está claro
a tecnologia
não cria um novo homem
nem a política
nem a utopia
é tudo quinquilharia
a preços promocionais
o novo homem
é um papo furado
de um século atrás,
(p. 178).

Se o Homem do Tonel passasse por Porto Alegre, iria, sem dúvida, convidar o Silvestrin para tomar um chope com ele!
O seguinte, que vamos reproduzir, seria aplaudido pelo corrosivo filósofo de Atenas, talvez num café da Rua Padre Chagas, ou num botequim da Vila Restinga:

Caiu o muro de Berlim
E o socialismo veio abaixo
Caíram as torres gêmeas
E o capitalismo foi pra cima
(p. 179).

Dando um passo à frente, o poeta cai no deboche. Vejam:

Em síntese
só a tese
e a antítese.
(Ibid. p. 180).

Prestem atenção:
o poema unilinear, que vocês vão ler agora, poderia servir de mote a algumas oficinas :

Escrevendo, escreouvindo, escrelendo
(Ib. p. 185)

Em passant, Silvestrin menciona alguns de seus inspiradores, como Paul McCartney, e outros. Tiremos-lhe o chapéu: merecem seus cumprimentos!
De repente, porém, ele resolve montar uma bomba-relógio (do mais elegante estilo), a ser explodida num happy-hour de executivos e publicitários porto-alegrenses, em legítima defesa de férias:

Macacos agradam
mas não venham bancar o ancestral

são bichos que pulam
      com cara risonha
mas devem conservar o ar de idiota

se alguém veio deles
foi o próprio Darwin
(Ib. p. 196).

A caçoada tem sua razão de ser, ainda mais numa época de best-sellers de cientistas e pseudo-cientistas. Quanto a nós, não endossamos totalmente essa convicção do divertido poeta. Um puxão de orelhas à sobranceria dos top-models da sobranceria científica bastaria para tornar recomendável o poema de Silvestrin!
Que dizer, porém, do poeta quando, não só dá um beliscão nos convencionalismos roçagantes de nossa Society-Fashion, mas os esfrega com um pouco de bombril?

Estamos rodeados de gente chata
para quem temos que dizer
sim ,claro, pois não
(p. 199);

Não pensem que o Ricardo Silvestrin põe banca, tem pose, ou parece olha as pessoas por cima do ombro!
Nada disso!
Ele anda de havaianas, como todo o mundo, e é capaz de auto-poetizar-se com o rigor de um faquir:

Auto-biografia precoce

Minha vida
é uma obra
de ficção
qualquer semelhança
comigo mesmo
terá sido mera coincidência.
(Ib. p. 202).

Agora, porém, rogo-lhes a máxima atenção.
Em dois momentos, em que a mordacidade de Silvestrin cede lugar à ternura, o poeta atinge as culminâncias do lirismo, um lirismo primoroso, excepcional, ainda que exija dos leitores quase um paroxismo de finesse:

A)
Essa mulher tem tudo
tem forma e conteúdo
       não é flor
     a flor é frágil
falta à flor a fala
não é princesa
          nem rainha
essa mulher é minha.

B)

Xangri-lá é o paraíso.
Um hotel, uma cama de casal,
eu e minha esposa.
Chegamos de improviso,
Sem malas.
O porteiro não disse,
mas pensou que éramos amantes.
Acertou.

Concluamos esse breve ensaio, transcrevendo um poema (que, de resto, assinalei com três asteriscos já na minha primeira leitura):

Ninguém está a salvo da tristeza
no horizonte nuvens negras
ventos anunciam confusão
mesmo na alma mais ensolarada
nem o rei do que quer que seja
do alto do seu trono de alegria
           servos devotados
em fazê-lo sorrir cinco vezes por dia
   nem o mestre mais desapegado
            quando vê está triste
como um corvo num galho seco
           contra o céu cinza
(p. 217).

Caros amigos:
enquanto - no Rio Grande do Sul e no Brasil - surgirem poetas que escrevam assim, a poesia continuará a rir-se nos páramos celestes, e também cá embaixo, em nossos pampas batidos pelo minuano, ou em nossas cidades atravancadas de carros, na companhia da Beatriz de Dante, da Laura de Petrarca, e até da Mãe-Menininha do Gantois.