segunda-feira, 11 de julho de 2011

Sobre uma Declaração de Hugo Chávez à TV Venezuelana.

Transcrevo um trecho da declaração do Comandante Hugo Chávez, tal qual a publicou o diário madrilenho, El País, na sua edição de 01 de julho de 2011:
- Desde que el mismo Fidel Castro em persona (...) vino a anunciarme la notícia del hallazgo cancerígeno, comenzé a pedir a mi Señor Jesús, al Dios de mis padres, diria Simon Bolívar, al manto de la Vírgen, diria mi madre Elena (...) para que me concedieran la posibilidad de hablarles, no desde el  otro sendero abismal.
Talvez a notícia dê ensejo a comentários irônicos, da inteligentzia festiva, ou a comentários triunfalistas de seus opositores. E, até, a comentários de fanáticos de todos os matizes, irritados com a carolice do líder.
Confessamos não estar interessados nem no líder esquerdista, nem no “carismático” iniciador da Revolução Bolivariana”. Não estamos interessados, tampouco, no insolente e auto-confiante militar que, por vezes, se exibe como uma espécie de David latino-americano, a desafiar o Golias que bebe uísque aos pés da Estátua da Liberdade.
Nada disso!
Estamos interessados num ser humano,num indivíduo a quem, de repente, as máscaras ideológicas, sociais, e outras fogem. A um indivíduo que descobriu, de súbito, como Nabucodonor na Babilônia, que possui pés de barro.
A realidade é a seguinte: todos nós, diante da morte, perdemos a pose. Quem não a perde, morre enregelado na pior pose possível.
A Filosofia Existencialista do Pós-Guerra, tanto a de inspiração atéia, como a de inspiração cristã, por exemplo, a de Gabriel Marcel, qualificava tais situações de situações—limite, querendo dizer com isso que o indivíduo, defrontado com sua incontornável contingência, ou seja, com sua finitude, se despede de todas as âncoras possíveis.
Diante de uma atitude paradoxalmente humilde como a de Hugo Chávez, a primeira coisa que se deve ter é respeito.
Depois (quem sabe?) perplexidade.
Depois, novamente, respeito.
E, se possível: importa reconhecer-lhe grandeza: a grandeza de fazer o que ele declarou ter feito: orar a Deus.
O resto...é literatura, política, politicagem, pretensão racionalista, soberba.
O salmo 138, 6, da Bíblia, adverte-nos, com rigor e implacável lucidez:
- Grande é a glória do Senhor! Ele vê o humilde. Ao  soberbo, ele o conhece de longe.
O enfrentamento consciente da morte, dizia Albert Camus, transforma a extinção do homem num destino, visto que esse ponto-final parece privar a vida de todo sentido.
É verdade que Camus, para se livrar da tentação do suicídio, apela para a solidariedade humana! Gesto instintivo, e além do mais nobre. Mas a verdade é que só há uma resposta a esse ponto final: a Ressurreição de Jesus, cujas conseqüências abrangem todos os homens.
A atitude do Comandante Chávez – voltamos a repetir -é digna de respeito.
Ele mesmo fez questão de dizer: ao chegar perto do abismo, preferiu voltar à fé dos seus pais, à devoção de sua mãe Elena à Virgem Maria.
Quem de nós teria imaginado tal ato de humildade no Comandante Chávez?
Embora, pessoalmente, me sinta -não tão longe de seus ideais sociais, do seu projeto de transformação radical das estruturas desumanas da economia global como de sua ideologia marxizante, a cuja sombra se ele se abriga, e dos meios discricionários e anti-democráticos que emprega para dobrar a cerviz das classes oligárquicas - admiro sua atitude existencial, despida das galas do ateísmo, e do ranço do agnosticismo pernóstico.
Chávez sabe que todos esses bastidores são de opereta.
Sabe que, diante da verdade nua e crua, só resta à criatura, mesmo a mais poderosa deste planeta, tatear-se, e descobrir que continua criatura,por isso mesmo que não possui em si a resposta ao seu próprio enigma,ao seu Mistério. Resta-lhe recorrer a Quem pode dar-lhe a única verdadeira resposta.
Essa resposta a tem, somente, Aquele que disse:
- Eu sou a Luz do Mundo! Eu sou a Ressurreição.
No meio de tanta pretensão, de tanto orgulho que se espatifa, a humilde confissão desse latino-americano confrontado com sua finitude, é uma lição de vida a todos nós.
Deixem em paz o Comandante!
Deixem-no com seu sofrimento, em luta com esse Anjo Terrível que é o câncer.
Deixem-no sair dessa luta, como Jacó, ferido na coxa!
Num momento em que a sua fraqueza é a de qualquer membro da raça humana, Hugo Chávez torna-se, à sua revelia,mensageiro da salvação da humanidade.
E até: da salvação de seu projeto socialista, que não tem chance de obter sucesso, se não se reportar às exigências do Evangelho.
Nesta altura estamos, todos, quer queiramos, quer não, próximos a Tolstoi, a Dostoievsky, e até a Victor Hugo, cujas últimas palavras foram:
- Creio em Deus.
Já que falei em Victor Hugo, acrescento que vale a pena ler, no seu romance Os Miseráveis, a cena em que o Bispo Benvindo Myriel vai visitar um antigo convencional da Revolução Francesa, na tentativa de ajudá-lo a morrer “cristãmente”.
O revolucionário recusa-se aos auxílios da Fé.
O Bispo, então, dispõe-se a ouvir suas críticas à sociedade pseudo-cristã da França, na época:
- As brutalidades do progresso chamam-se revoluções! Depois delas, reconhece-se uma coisa: que o gênero humano ficou maltratado, mas deu alguns passos para diante!
O Bispo não perde a paciência perante a truculência do ex-representante do povo. Não a perde, nem quando o ex-revoluciuonário, apontando com o dedo para o céu, exclama:

- Existe o infinito! Ei-lo ali. Se o infinito não tivesse um “eu”, o “eu” seria o seu limite, e portanto não seria infinito, ou por outras palavras, não existiria. Ora ele existe! Logo tem um eu. O eu do infinito é Deus!
O grande escritor francês: conclui:
- Estas palavras foram proferidas pelo moribundo em voz alta e com o estremecimento do êxtase, como se estivesse vendo alguém(...)
Pouco antes de expirar,o ex-revolucionário murmura:
- Agora,que conto oitenta e seis anos, vou morrer. Que pretende o Sr. De mim?
- A sua bênção – disse o Bispo.
E ajoelhou.
Quando o Bispo ergueu a cabeça, o rosto do convencional tinha-se tornado augusto. (Os Miseráveis. Vol. I. Porto,m Lello e Irmão Editores, sd. p.78-83).
Alguém pode achar excessivo o romantismo de Victor Hugo!
Eu não o considero excessivo.
A humanidade ainda não nos deu obra-prima superior ao romance Os Miseráveis de Victor Hugo.

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